Petróleo & Energia (gás, refino e gasolina)

Biocombustíveis – Etanol celulósico enfrenta crise setorial e petróleo mais barato

Domingos Zaparolli
13 de abril de 2015
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    O vice-presidente da Novozymes ameniza o impacto da redução do preço do petróleo sobre os investimentos na nova tecnologia. “Apesar da volatilidade do preço do petróleo, acreditamos que a indústria do etanol celulósico está sendo construída sob uma visão de longo prazo embasada numa economia estável, interesse nacional e benefícios ambientais que são de absoluta importância. A redução na dependência de combustíveis fósseis e de emissão de CO2, o desenvolvimento agrário e a criação de empregos ainda falam a favor dos biocombustíveis”, defende. Soderberg também aposta na competitividade do etanol 2G em relação ao etanol de primeira geração. “O capital investido em uma usina 2G é geralmente mais alto do que o necessário no caso de uma usina 1G, mas o custo da biomassa é significativamente mais baixo, por exemplo, do que o milho ou a cana, fazendo com que a economia total no processo seja atraente”, afirma.

    Soderberg avalia ainda que o avanço da tecnologia de produção contribuirá para tornar o etanol celulósico mais competitivo. “A indústria está em um estágio inicial de desenvolvimento e ainda há muito espaço para melhorias a fim de reduzir as despesas operacionais e custos de capital”, diz. A Novozymes aposta na tecnologia de hidrólise enzimática para a produção do etanol 2G. É a solução adotada tanto pela GranBio quanto pela Raízen. Nesse processo, a produção ocorre em quatro etapas. Primeiro, há um pré-tratamento da biomassa. Na sequência, são adicionadas as enzimas que disponibilizam os açúcares residuais, principalmente a celulose e a hemiceulose, para a fermentação. A massa líquida resultante é fermentada com leveduras, gerando o etanol e, por fim, é feita a destilação, mediante a qual se obtém o álcool anidro ou hidratado. Nesse processo, as enzimas respondem por volta de um terço do custo de produção.

    A Novozymes já está em sua terceira geração de enzimas para a produção de etanol 2G, a chamada Cellic Ctec3. “Essa geração de enzimas é mais eficiente em comparação com as anteriores, e permite a liberação da mesma quantidade de açúcar da biomassa pré-tratada, porém utilizando menos enzimas. Olhando à frente, para as futuras gerações da tecnologia Cellic, é certo que as enzimas vão contribuir para a redução do custo de produção total de etanol celulósico mediante a combinação e do desenvolvimento de coquetéis enzimáticos ainda mais eficientes, e do desenvolvimento de soluções enzimáticas personalizadas, desenhadas para atender as necessidades dos clientes com base na matéria-prima utilizada e no método de pré-tratamento adotado”, explica o executivo. Sebastian Soderberg confirma que a Novozymes analisa a possibilidade de instalar uma fábrica de enzimas para biocombustíveis no Brasil, mas informa que nenhuma decisão foi tomada ainda.

    Cenário nebuloso – Alfred Szwarc, consultor de tecnologias da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), também avalia que o etanol 2G enfrenta sua hora da verdade. “Todo o setor está atento aos resultados, há um grande interesse no desenvolvimento do etanol celulósico, mas ainda se sabe muito pouco sobre as tecnologias empregadas por cada produtor e os custos envolvidos”, comenta. “Isso é natural, pois é uma indústria nascente que ainda está em sua curva de aprendizado e ajustes ainda precisarão ser feitos antes de essas empresas tornarem público os detalhes de seus processos.” O interesse do setor na tecnologia não surpreende. Segundo alguns analistas, o etanol celulósico tem potencial em aumentar em 50% a produção brasileira de biocombustível, apenas com o aproveitamento da palha e do bagaço da cana, resíduos do processo agroindustrial.

    Química e Derivados, Vista geral da unidade de etanol 2G em Crescentino

    Vista geral da unidade de etanol 2G em Crescentino

    Szwarc pondera que o cenário ainda é muito nebuloso e não possibilita uma projeção da evolução dos investimentos em etanol celulósico para os próximos anos. A expectativa dele é que, no médio e longo prazo, a indústria canavieira retome seu caminho de expansão, abrindo espaço para investimentos na nova tecnologia. Ele também avalia que os custos do 2G serão competitivos. Num primeiro momento, porém, Szwarc acredita que o novo biocombustível assuma um posicionamento voltado principalmente ao segmento premium do mercado, aquele disposto a pagar um pouco mais em troca do apelo de sustentabilidade ecológica da novidade. “Existem mercados bastante receptivos a produtos com esse perfil, como o da Califórnia”, aponta.

    No Brasil, a evolução dos investimentos em etanol celulósico enfrenta uma barreira extra, avalia Szwarc: a disputa pelos materiais celulósicos. Muitas das usinas mais produtivas do país, aquelas em melhores condições para investir no negócio, já consomem grande parte de seus resíduos em processos de co-geração de energia elétrica. Com o preço em alta da eletricidade no país, seria mais atraente para essas usinas, no momento, expandir suas atividades em geração elétrica. “Há biomassa suficiente nas usinas, somando a palha, que é pouco aproveitada, e o bagaço, para atender a demanda de projetos de etanol 2G e de co-geração de energia. Não são processos excludentes. Mas diante da conjuntura atual, é de se supor que a primeira opção de investimento recaia sobre projetos de geração elétrica”, diz.



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