Biocombustíveis – Demanda internacional fica aquém do previsto e preços despencam

Só a queda de consumo de combustíveis pode afetar as exportações de álcool. “No exterior, o etanol é vendido em misturas com gasolina, em busca de um ganho ambiental”, explicou Pádua. Mesmo com os preços baixos da gasolina, as misturas continuarão a ser vendidas, até por força de regulamentação nos países de destino.

O mercado interno, por sua vez, apresenta 34% de crescimento no consumo de etanol hidratado entre 2007 e 2008, chegando a 11,67 bilhões de litros. As vendas de álcool total para uso nacional cresceram menos, 25,2%, somando 16,4 bilhões de litros. A explicação pode ser encontrada no aumento da frota de automóveis com motores do tipo flex, hoje dominantes em mais de 80% dos carros licenciados. “O mercado interno depende diretamente do preço da gasolina, se este cair pode dar prejuízo ao setor”, afirmou.

Nesse caso, segundo explicou, a situação está longe de ser tranquila. Atualmente, os produtores de álcool recebem R$ 0,70 por litro, valor muito próximo ao do custo de produção e incapaz de justificar investimentos. “O setor busca um novo patamar de preços para manter sua expansão”, afirmou. Isso se reflete no adiamento de quase uma centena de projetos anunciados no Brasil.

Novas usinas são projetadas para moer de 2,5 milhões a 3 milhões de toneladas de cana por safra, considerada a escala ótima de produção nos moldes atuais. “O problema acaba sendo a falta de uma estrutura de comercialização adequada para o álcool, uma vez que os compradores são as distribuidoras de combustíveis que têm grande porte e capacidade financeira”, comparou. Uma forma de lidar com o problema é verticalizar a atividade, como foi feito pelo maior grupo do setor, a Cosan, que comprou a distribuição de combustíveis da Esso no Brasil. A Petrobras anunciou que entrará na produção de álcool, tanto para a exportação quanto para o mercado interno, onde possui a maior distribuidora nacional, a rede BR.

Na situação atual, os produtores de álcool são obrigados a carregar o custo de estocagem do produto durante a entressafra. Ou devem vendê-lo durante a safra, com preços mais baixos. Historicamente, os preços na entressafra da região Centro-Sul apresentam elevação significativa, permitindo uma remuneração mais favorável aos usineiros. “Nos últimos dois anos não se verificou variação de preço na entressafra e faltou crédito, forçando a venda de álcool com preço deprimido”, disse Pádua.

No dia 5 de março, o governo federal aprovou a concessão de R$ 2,5 bilhões para financiar a estocagem de cinco bilhões de litros de álcool da safra 2009/10, por meio do BNDES. As liberações devem começar a partir de maio. Isso atende a um pleito da cadeia alcooleira que foi denominado de “warrantagem”. O neologismo deriva de warrant, um título de crédito que tem por lastro um lote de mercadoria fungível. Pádua lamenta a falta de uma política permanente de warrantagem, que daria estabilidade de preços aos produtores. “O mercado mundial resiste a entender o etanol como uma commodity, nem a nossa BM&F [Bolsa Mercantil e Futuros] sabe como precificar o produto e o setor fica nas negociações spot”, criticou.

Enquanto isso, a despeito da crise econômica global, permanecem ativas as operações de consolidação no setor sucroalcooleiro. Grandes grupos nacionais estão em plena fase de negociação. É o caso da anunciada fusão entre os grupos Nova América e Cosan e da definição de um novo parceiro para a Santelisa Vale. “Há mais tratativas acontecendo, porém os possíveis compradores estão inseguros e os vendedores esperam propostas mais generosas”, comentou.

As operações alcoolquímicas são vistas com apreço pela cadeia produtiva do etanol pela possibilidade de ampliar o leque de consumidores. Porém, o volume é muito pequeno quando comparado ao uso como combustível. Também em relação à produção de biodiesel, um éster de ácidos graxos, Pádua confirma que há pouco consumo de etanol nas reações de transesterificação. “A cadeia do etanol ainda não está integrada com a do biodiesel, que usa mais o metanol”, comentou, sem descartar a possibilidade de uma futura aproximação.

Petroleira avança – A Petrobras divulgou em fevereiro a revisão do Plano Estratégico de Negócios para 2009-2013 que estava sendo aguardada desde setembro. A estatal pretende figurar entre as cinco maiores produtoras mundiais de biocombustíveis até 2020, atuando de forma rentável e tecnologicamente avançada, com alta integração na cadeia de produção e consumo, respeitando o desenvolvimento sustentável e a proteção ao meio ambiente. Os projetos que envolvem a produção estão submetidos à subsidiária Petrobras Biocombustíveis (PBio), enquanto as operações de logística, distribuição e venda dos produtos permanecerão sob os cuidados da estatal-mãe, a Petrobras.

No caso do etanol, a PBio partiu do zero, em 2008, na sua fundação, com planos para dominar a capacidade produtiva de 3,7 milhões de metros cúbicos (ou bilhões de litros) em 2013, apenas no Brasil. Além disso, pretende contar com 198 mil m³ na Colômbia.

Química e Derivados, Alan Kardec Pinto, Presidente da PBio, Biocombustíveis
Alan Kardec Pinto: entrada no álcool resgata o modelo tripartite

A estatal pretende iniciar a execução de quatro projetos produtivos, com fábricas inteiramente novas, ainda neste ano. Em 2010, serão mais cinco projetos, com mais oito, em 2011. “Essas unidades serão erguidas com um modelo empresarial tripartite, no qual a PBio deverá ter 20% de participação”, explicou Alan Kardec Pinto, o presidente da empresa. O modelo, adotado no berço da petroquímica brasileira, prevê agregar à PBio um sócio nacional com experiência na produção alcooleira e um parceiro internacional com forte atuação nas vendas internacionais. Esses projetos terão por alvo a exportação de etanol, representando uma oferta de 1,9 bilhão de litros em 2013.

Kardec considerou que a fase atual de preços deprimidos do petróleo não impede a evolução do consumo do álcool no exterior, justificado por razões ambientais. O parceiro internacional ajudará a abrir mercados, embora seja a Petrobras a responsável pela venda e pelo transporte até o destino. “Até o final deste semestre, deveremos anunciar quatro parcerias”, informou.

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