Biocidas: Insumos garantem eficácia

Insumos conservam produtos de limpeza e garantem sua eficácia

Eliminar de ambientes, objetos, alimentos e do corpo os micro-organismos potencialmente causadores de moléstias constitui prática habitual do ser humano para preservar a própria saúde e também a de quem lhe é próximo.

Diversos produtos têm sido utilizados com essa finalidade, entre eles, o álcool, a água sanitária (nome popular da solução de hipoclorito de sódio) e os atuais desinfetantes.

Nestes, os ingredientes ativos biocidas se combinam com os demais componentes da formulação, como surfactantes, água, corantes e fragrâncias, entre outros.

Desinfetantes, define a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), “são formulações que têm na sua composição substâncias microbicidas e apresentam efeito letal para micro-organismos não esporulados”.

A agência federal os agrupa em seis categorias: uso geral; para indústrias alimentícias; para piscinas; para lactários; hospitalares para superfícies fixas e hospitalares para artigos semicríticos.

Nos desinfetantes de uso geral – utilizados em domicílios e em outros espaços de uso comum –, os biocidas atualmente mais utilizados fazem parte do conjunto dos quaternários de amônio, havendo também aplicações, entre outros ativos, das biguanidas, como a molécula PHMB (polihexametileno biguanida), e a clorexedina.

Embora predominantes nesse mercado, os quaternários de amônio seguem em evolução, estando já subdivididos em pelo menos cinco distintas gerações, sendo a mais recente desenvolvida para ser mais eficaz que a anterior. A primeira delas é composta pelos cloretos de benzalcônio, e a segunda por substituição de radicais que se ligam à amina central; as demais gerações foram obtidas por misturas de produtos das gerações anteriores, aproveitando o efeito sinergístico entre eles.

Agora, a multinacional de origem suíça Lonza está colocando no mercado um novo quaternário, comercialmente denominado Lonzagard Carbosan, que, como explicou Vinícius Bim, gerente regional de marketing da área de consumer care da empresa, caso fosse inserido nessa segmentação geracional, estaria adiante da quinta geração, até porque, diferentemente das demais, não contém cloro e, por isso, apresenta características anticorrosivas.

Em vez de integrar esse ativo à sequência usual de diferenciação dos quaternários – que ele considera sem sentido e mesmo pouco correta, pois uma nova geração deveria se referir a uma nova molécula –, Bim a aponta apenas como um quaternário de última geração.

Química e Derivados, Bim: mercado quer ingredientes para produtos multifuncionais
Bim: mercado quer ingredientes para produtos multifuncionais

“Esse produto já está sendo utilizado em produtos para desinfecção hospitalar”, afirmou.

Porém, essa aplicação em hospitais conta com outras opções de biocidas, além das versões mais modernas de quaternários de amônio: entre eles, o glutaraldeído, integrante do portfolio da Dow (que o comercializa com a marca Ucarcide 50).

“É um ativo totalmente biodegradável e, por sua alta efetividade, é mais usado em desinfecção hospitalar”, ressalta Débora Takahashi, especialista técnica em biocidas da Dow .

Segundo ela, análises realizadas por sua empresa detectaram, porém, que grande parte do glutaraldeído utilizado no mercado latino-americano – especialmente de origem chinesa –, continha também, de forma não declarada, formaldeído, adicionado para baratear seu custo. E, como os testes empregados pelas empresas para o controle de qualidade não detectam esse formaldeído misturado ao glutaraldeído, muitas delas acabam por utilizá-lo sem ter ciência disso.

A Dow desenvolveu testes capazes dessa detecção e atualmente mantém uma campanha destinada a ampliar a conscientização sobre a necessidade de usar o que chama de “glutaraldeído verdadeiro”.

Química e Derivados, Debora: bioluminescência indica contaminação microbiológica
Debora: bioluminescência indica contaminação microbiológica

“Já analisamos produtos utilizados, por exemplo, na limpeza de granjas, que deveriam ter cerca de 40% a 50% de glutaraldeído, mas apresentavam conteúdo de formaldeído de 6% a 18%”, afirma Débora.

“Isso diminui bastante a eficácia do produto, sem contar que os formaldeídos, em virtude de preocupações ambientais e por serem considerados cancerígenos, vêm sendo cada vez menos utilizados e, em alguns casos, até proibidos”, acrescenta.

Portfólio amplo – Na brasileira Ipel, o portfólio de ativos para desinfetantes inclui quaternários de amônio até a chamada segunda geração – ainda predominantes nos artigos de limpeza de consumo mais massivo –, e também uma molécula incluída pela empresa na lista de produtos autorizados pela Anvisa para essa aplicação: a PHMG (polihexametileno guanidina).

Essa molécula, destaca Luiz Wilson Pereira Leite, diretor de marketing da Ipel, é menos espumante do que os quaternários de amônio e, por não ser oxidante, não é consumida rapidamente, mantendo sua ação por mais tempo. Além disso, em termos de eficiência equivale à PHMB (polihexametileno biguanida) e, por ser menos agressiva que os quaternários, é utilizada em aplicações como desinfecção de piscinas.

Química e Derivados,Pereira Leite: PHMG desinfeta por mais tempo e forma pouca espuma
Pereira Leite: PHMG desinfeta por mais tempo e forma pouca espuma

“Temos uma autorização da Anvisa para o uso da PHMG em domissanitários e ela deve ser incluída na próxima revisão de ativos desinfetantes mantidos pela agência”, afirma Leite.

Por sua vez, a Poliyorganics começou a trazer recentemente para o Brasil a segunda geração dos quaternários de amônio da TH Water, empresa chinesa por ela representada no Brasil há quase seis anos. “Essa nova geração é composta por blends nos quais predominam carbonos da cadeia 10, e não de cadeia 12 ou 14, como é mais comum nesse gênero de produtos; a cadeia 10 é muito eficaz e, por isso, os produtos da linha podem ser utilizados em concentrações menores”, observa Mauro Majerowicz, CEO da Polyorganics. A TH Water, segundo informou, é a maior provedora de produtos para tratamento de águas da China, e os componentes utilizados nesse gênero de tratamento são muito utilizados também no mercado dos domissanitários.

No segmento dos preservantes, a Polyorganics oferece para o mercado do household as benzoisotiazolinonas e compostos CIT/MIT com bronopol.

Química e Derivados, Majerowicz: novos quaternários são eficazes em baixa dosagem
Majerowicz: novos quaternários são eficazes em baixa dosagem

“Estamos agora negociando com uma grande empresa norte-americana para trazer para cá alguns novos ativos, entre eles, blends nos quais há presença de hidantoína, ativo já muito utilizado em cosméticos, mas que está sendo trabalhado para chegar ao household”, complementa Majerowicz.

Como desinfetantes, a Anvisa permite a utilização das substâncias antimicrobianas aprovadas pelas agências norte-americanas FDA (Food and Drug Administration) e EPA (Environmental Protection Agency), e pela Comunidade Europeia (no Quadro 1, links para acesso aos ativos antimicrobianos aprovados por elas). Caso deseje utilizar uma substância não constante dessas listas, a empresa interessada deverá apresentar as informações solicitadas pela norma dessa agência, designada por RDC 14/2007.

Alguns ativos com história bastante tradicional na indústria brasileira de desinfetantes já não estão sendo aceitos pela Anvisa para essa aplicação: caso dos cresóis, recusados até pela possibilidade de virem contaminados com fenóis.

Ativos para conservação – Os desinfetantes, especificamente, exigem ingredientes destinados a eliminar os micro-organismos dos ambientes ou objetos sobre os quais são aplicados, mas a grande maioria dos produtos de higiene e limpeza doméstica e institucional – os chamados domissanitários – utiliza os biocidas também para impedir que alguns micróbios proliferem em seu meio e os degradem.

Química e Derivados, Relações de ativos permitidos pela ANVISA em desinfetantes
Relações de ativos permitidos pela ANVISA em desinfetantes

Essa segunda categoria de biocidas – cuja ação deve ser mais duradoura, para manter intacto o produto durante toda a sua vida útil –, integra as fórmulas de uma vasta gama de produtos de limpeza; em maior escala, daqueles mais diluídos em água, como detergentes, amaciantes e os próprios desinfetantes, entre outros.

Os conservantes atualmente permitidos pela Anvisa em domissanitários estão listados na RDC Nº 30, de 2011 (ver Quadro 2). Essa lista é relativamente extensa, mas desde a proibição, há cerca de cinco anos, do uso de formaldeído em produtos de limpeza, prevalece o uso da composição CIT/MIT (cloro-metil com metil isotiazolinona), como ativo principal preservante desses produtos.

Uma das fornecedoras dessa composição é a Thor, que a comercializa com ou sem um derivado de bromo denominado bronopol (bromo-nitro propanodiol) que, de acordo com Paulo Almeida Lima, gerente de contas do segmento household dessa empresa, comparativamente às isotizaolinonas, é um ativo biocida de resposta forte e mais rápida. “Essa característica é bastante desejada no enfrentamento de fontes de contaminações reincidentes ou de difícil erradicação”, ressalta Lima.

Química e Derivados, Relação de conservantes permitidos pela ANVISA em saneantes
Relação de conservantes permitidos pela ANVISA em saneantes

Mesmo agregadas ao bronopol, ele prossegue, isotiazolinonas desempenham papel fundamental na manutenção do produto durante seu prazo de validade e, por isso, a combinação entre CIT/MIT e bronopol vem ganhando espaço crescente.

A Anvisa, detalha Lima, permite nos produtos de limpeza uma concentração máxima de CIT/MIT até 22 ppm. Mas na União Europeia, a partir do próximo ano, o índice máximo dessa concentração será bastante reduzido. “Não sabemos quando, nem se, alguma regulamentação similar chegará ao Brasil, mas a Thor já disponibiliza uma completa linha de produtos que atendem às normas europeias, como os ativos isolados MIT ou BIT (benzo isotiazolinona) e sua mistura, combinados ou não com o bronopol e outros ativos”, relata Lima.

A Ipel também produz a combinação CIT/MIT e, no Brasil, afirma Leite, foi a empresa pioneira em sua associação a compostos derivados de bromo. Há cerca de 1,5 ano, a Ipel lançou uma linha de biocidas denominada Olus, totalmente proveniente de fontes naturais renováveis (óleos e extratos vegetais). Segundo Leite, esses produtos proporcionam a mesma resposta antimicrobiológica dos ativos CIT/MIT e já está sendo comercializada para clientes do Brasil e de países como Argentina e Colômbia, que a utilizam na fabricação de detergentes e produtos para limpeza de pisos, entre outros.

Por enquanto, reconhece o diretor da Ipel, a linha Olus se destina a nichos de mercado, até porque tem custo ainda mais elevado do que os biocidas convencionais. “Mas ela deve crescer bastante, creio que no médio e longo prazos as fontes renováveis constituirão o caminho mais viável para o desenvolvimento de biocidas sustentáveis”, projeta.

Multifuncionais e diferenciados – Ativos de combate a micro-organismos provenientes de vegetais e de outras fontes renováveis é tendência percebida também por Maria Eugênia Proença Saldanha, presidente-executiva da Abipla (Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Limpeza e Afins).

Química e Derivados, Maria Eugênia: cresce a procura pelos biocidas de origem natural
Maria Eugênia: cresce a procura pelos biocidas de origem natural

“Embora os biocidas estejam presentes em concentrações muito pequenas nas formulações dos produtos finais, a sustentabilidade é hoje o principal drive dessa indústria”, justifica.

“Mas não dá para dissociar essa preocupação do custo, afinal, além dos grandes players mundiais atuam no mercado nacional de domissanitários, apenas em sua vertente formal, quase 3,3 mil empresas de porte menor.”

Bim, da Lonza, engrossa o coro daqueles que projetam maior recorrência às matérias-primas renováveis no processo de desenvolvimento de biocidas para domissanitários. E cita o segmento dos produtos destinados à limpeza de tecidos, como lava-roupas e amaciantes, como aquele no qual é mais intenso o processo de evolução desses ativos (nesse segmento, aliás, vem se consolidando uma tendência com uso mais intensivo de biocidas: os lava-roupas líquidos, nos quais tais ingredientes aparecem em concentrações maiores, quando confrontadas com as das versões em pó).

Atualmente, prossegue Bim, o mercado amplia a demanda por ingredientes com os quais seja possível desenvolver produtos com apelos mercadológicos distintos e multifuncionais: por exemplo, um amaciante antibacteriano ou um lustra-móveis antimofo. “Novas formulações pedem novos ativos biocidas, pois sua interação com essas moléculas pode alterar a performance do sistema conservante”, realça Bim. A Lonza está investindo mais de US$ 1 milhão em sua estrutura brasileira de pesquisa, desenvolvimento e suporte técnico, localizada em Salto-SP.

Já a Dow, conta Debora, passou a utilizar este ano, em seu serviço de auditoria de plantas, um equipamento que mediante a reação de bioluminescência realiza um diagnóstico rápido do nível de contaminação microbiológica de matérias-primas, produtos acabados, tanques e equipamentos, e assim permite, além de sugestões de limpeza e desinfecção, até mesmo indicar ajustes capazes de ajudar a reduzir as quantidades de biocidas adicionadas nos produtos. “Serviços constituem um componente muito importante no mercado de preservantes e a Dow vem investindo bastante nessa área”, destaca.

Debora também constata um mercado hoje mais interessado em especialidades com as quais possa conferir aos produtos apelos de marketing diferenciados. “Estamos lançando um bactericida de longa duração, cujo efeito dura até 24 horas depois de aplicado; ele pode, por exemplo, ser utilizado para conferir efeito antimicrobiano a limpadores”, realça.

A Ipel está lançando o conceito de “casa repelente a insetos”. Tal característica estará presente não apenas nas tintas e vernizes que recobrem móveis e paredes, mas também nos artigos utilizados na limpeza. “Sempre com origem vegetal, estamos desenvolvendo itens de limpeza, ceras, por exemplo, também repelentes a insetos”, realça Leite. Ele relata que inicialmente previa para este ano, nos negócios de sua empresa no segmento dos domissanitários, um incremento superior a 10% em comparação a 2013. “Mas agora esperamos crescer algo entre 5% e 6%”, projeta o diretor da Ipel.

Água Sanitária – Tradicional na indústria de produtos para limpeza doméstica e de espaços institucionais, a categoria composta por águas sanitárias e alvejantes ainda cresce em ritmo intenso e, pelas estimativas da Abipla, no ano passado registrou um faturamento de aproximadamente R$ 1,36 bilhão (crescimento de 8,8% sobre 2012). Nos últimos cinco anos, enquanto o faturamento dessa categoria se expandiu em 49,6%, o segmento dos desinfetantes – com faturamento de R$ 643 milhões no ano passado – obteve no mesmo período aumento de 24,9%.

Deve-se, porém, considerar que a expansão dessa categoria, até hoje muito calcada nos compostos com base no hipoclorito de sódio, nos últimos anos vem recebendo impulso também dos “alvejantes sem cloro”, produtos de maior valor, formulados com ingredientes como peróxido de hidrogênio, hidróxido de sódio ou percabonato de sódio, entre outros.

E, se atualmente são regidas pela mesma norma, águas sanitárias e alvejantes brevemente devem ser objetos de regulamentações específicas da Anvisa, revelou Francisco de Mancilha, gerente-geral substituto da Gerência Geral de Saneantes dessa agência em palestra na última edição do Household/Autocare, evento dedicado aos fornecedores da indústria de domissanitários realizado no início de agosto, em São Paulo.

Química e Derivados,Mancilha: água sanitária terá norma específica
Mancilha: água sanitária terá norma específica

“Também estamos discutindo com os demais países do Mercosul novas normas para o registro de produtos à base de hipoclorito de sódio, geralmente muito instáveis”, acrescentou Mancilha.

Segundo ele, no ano passado a GGSAN da Anvisa realizou cerca 7,3 mil auditorias, ou seja, auditou cerca de 66%  das notificações e alterações de notificações que recebeu. “A ideia é aumentar esse percentual no decorrer deste ano”, afirmou. Aproximadamente 2 mil notificações e alterações de notificações foram canceladas em decorrência dessas auditorias, que constataram, entre outros problemas, uso de componentes não permitidos, ou indicações que não batem (referentes, por exemplo, a uma indicação que requer um registro para um produto que foi apenas notificado).

Ainda em 2013, a GGSAN deferiu 1.030 novos registros e 1.442 alterações; a pedidos, houve 553 cancelamentos de registro, e foram indeferidos 156 – 6% do total – dos pedidos de registros, principalmente por problemas na rotulagem (registros são necessários para produtos cuja eficácia não pode ser diretamente determinada pelo usuário e impliquem maior risco – caso dos bactericidas –, enquanto a notificação, hoje totalmente online, recai sobre produtos como detergentes e amaciantes, entre outros).

Mancilha também afirmou que, assim como já acontece com as notificações, até o final de 2015 também os registros de saneantes poderão ser realizados na Anvisa pelos canais on line, e não mais mediante os atuais documentos em papel; com isso, o tempo necessário a esse processo, que hoje pode superar sessenta dias, deve ser reduzido a menos da metade.

Ele lembrou ainda que a análise dos ativos de produtos desinfestantes – como inseticidas e raticidas –, antes a cargo da Gerência Geral de Toxicologia da Anvisa, há cerca de seis meses passou a ser de responsabilidade da GGSAN, e com isso deverá ser agilizada. “Mas provavelmente será incluída a avaliação ambiental nessa análise”, complementou Mancilha.

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