Avanço da indústria nacional – Abifina

Para falar da indústria nacional, sobretudo da química fina, especificamente, é preciso lembrar de que são anos e anos de luta, num caminho pavimentado por muitos colegas que me antecederam.

O tom parece nostálgico, mas, ao ter a honra e o privilégio de assumir a presidência do Conselho Administrativo da Abifina, não posso deixar de lembrá-los, em especial o nosso saudoso Nelson Brasil de Oliveira, que tanto nos ensinou, e o Marcus Soalheiro, colega que sucedo com muito orgulho e ciente de tamanha responsabilidade.

A boa notícia é que, em pleno 2024, após 37 anos de atuação de nossa entidade, temos, sim, motivos para acreditar em avanços efetivos para a indústria nacional, para o Complexo Econômico-Industrial da Saúde e Complexo Industrial da Química Fina (CIQF). E é nessa direção que continuaremos trabalhando.

Uma das principais agendas que manteremos em foco diz respeito aos Insumos Farmacêuticos Ativos, os IFAs. Não existe medicamento sem IFA. Tudo começa com a matéria-prima, com o desenvolvimento tecnológico, farmoquímico. Essa premissa precisa de maior conscientização para que efetivamente possamos ditar um novo ritmo para a internalização dessa produção que, já se sabe, gira em torno de 10%, sendo 90% importada, uma dependência que pode ser, significativamente, reduzida com maior incentivo à indústria da química fina no Brasil.

Essa é uma bandeira da Abifina, pois sabemos que a internalização da produção de IFAs trará autonomia para o Brasil na produção de medicamentos e vacinas, fortalecendo os produtores locais, girando a economia, gerando empregos, fortalecendo a tão necessária reindustrialização do país e, especialmente, promovendo mais acesso da população aos medicamentos.

Neste quesito, costumo ser repetitivo em minhas análises, mas considero que nunca é demais lembrar que está na Constituição Federal, em seus artigos 218 e 219, que o mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e socioeconômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do País, nos termos de lei federal.

O discurso e atuação de todas as empresas que compõem o CIQF está totalmente alinhado ao que diz a Carta Magna, pois buscam desenvolver a produção industrial doméstica pelo bem coletivo, ou seja, para que todos os cidadãos brasileiros possam usufruir dos frutos que se pode colher com uma indústria ativa e produtiva. E quando se fala em acesso, considera-se atender toda a população, contribuintes, porém, sobretudo, os que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) que, diga-se de passagem, é um modelo digno de orgulho dos brasileiros. Quase único no mundo, o SUS se baseia no modelo da Inglaterra, mas tem sua peculiaridade, pois não existe país no mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um modelo como o nosso, tão eficaz, mesmo com suas limitações.

O cenário atual é muito claro. Existe a saúde pública e a privada. Mas a realidade ainda nos faz amargar histórias de pessoas que não têm acesso à saúde digna, a medicamentos e tratamentos. Ter uma indústria farmacêutica forte e toda uma cadeia produtiva da química fina rodando a todo vapor e consolidada internamente significará trazer benefícios para a sociedade brasileira de um modo geral e em várias frentes. Não podemos esquecer disso em nenhum momento.

Como já disse em outras oportunidades, o momento é propício. As medidas do atual governo nos levam a crer em dias melhores e em avivar a produção nacional. Para isso, não é de agora que apontamos o poder de compra do estado como o principal caminho. Essa demanda pode e deve impulsionar todo o setor que, ao ser incentivado, carrega consigo o estímulo à inovação, novas tecnologias etc.

Também nunca será pouco bater na tecla de que o poder de compra do estado é o mecanismo de fomento de maior valor para as empresas nacionais. E como se trata de uma matéria alinhada à constituição, contar com os governos e autoridades legislativas é essencial.

A Abifina vem sinalizando há anos que existe um caminho para pôr fim à inconstância do setor, ou seja, a falta de uma política contínua de fomento, explicada pela alternância de governos. A solução é vincular o incentivo à indústria nacional, principalmente com o poder de compra do estado ativo, a uma política de estado e não de governo. Assim, evitaremos mudanças drásticas, interrupções e medidas partidárias que possam ser prejudiciais para o crescimento contínuo da indústria brasileira.

Atualmente, estamos dentro de um programa de governo, o Nova Indústria, que, entre outras coisas, visa desenvolver o Complexo Econômico-Industrial da Saúde, alinhada à política industrial em construção no CNDI. Trata-se de uma vontade política que há tempos não tínhamos, envolvendo técnicos, especialistas e entidades de classe na busca de medidas e soluções que possam nos colocar na rota correta do desenvolvimento.

Hoje, particularmente, vivo um momento especial. Estando à frente dessa entidade tão respeitada, inicio uma gestão com bastante otimismo, apostando, sim, nos próximos anos, mas, concomitantemente, atento junto com os meus pares, sobre a necessidade que ainda há de regulamentações para que ao longo de cada processo nunca se perca a segurança jurídica das empresas que investem nesse complexo.

Lutaremos, sim, para que todas as medidas necessárias sejam sempre ampliadas e que caminhem para se tornar políticas de estado que possam sempre ser revistas a qualquer momento no intuito de aperfeiçoá-las, mas nunca de serem descontinuadas.

Com o avanço da indústria nacional todos ganham e o Brasil agradece.

Texto: Odilon José da Costa Filho

Odilon José da Costa Filho é presidente do Conselho Administrativo da Abifina (Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e Suas Especialidades)

Papel das entidades setoriais na democracia - Abifina ©QD Foto: iStockPhoto

ABIFINA

A Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (ABIFINA) trabalha há 36 anos pelo desenvolvimento do parque industrial do setor no Brasil comprometida com a transparência, a ética e o avanço econômico nacional.

Leia Mais:

Quimioinformática: Um Olhar Sobre a Pesquisa de Fármacos
FCE: Indústrias farmacêuticas e de cosméticos registram visitação recorde
Feira mostra crescente sinergia entre cosméticos e fármacos
Reindustrialização à vista – Química Fina
Incentivo à indústria da química fina: saindo da saga do dito e feito

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.