Automação – Comunicação sem cabos avança na indústria e chega à instrumentação dos processos

Química e Derivados, Automação

 

A automação de processos na indústria consiste da utilização de instrumentos de medição (comumente, de pressão, temperatura e vazão), válvulas de controle e sistemas de controle, em substituição a trabalhadores humanos. Ela é baseada, atualmente, em cabos de fi bra óptica e de cobre, mas começam a ser utilizados, no mercado mundial, e também no Brasil, sistemas de automação em que a transmissão de dados é realizada sem a utilização de cabos.

A comunicação sem fio, ou wireless, não é exatamente uma novidade. Ela existe há algumas décadas, mas sua aplicação em instrumentos de processo é bem mais recente. Nessa tecnologia, basicamente, a transmissão de dados é feita por ondas de rádio, emitidas por transmissores acoplados ou integrados a um instrumento de medição, e captadas por estações-base, que realizam a varredura dos sinais emitidos pelos transmissores de cada instrumento e retransmitem o sinal para os sistemas de controle ou monitoramento. A vantagem óbvia do sistema é a eliminação da fi ação, que pode ser um fator complicador quando existe pouco espaço físico para a disposição de eletrodutos, ou que ainda pode gerar um alto custo, quando as distâncias envolvidas são muito grandes. Em outros casos, é necessário instrumentar equipamentos móveis e a utilização de cabos pode até mesmo ser inviável.

Química e Derivados, Augusto Pereira, gerente de marketing da Pepperl+Fuchs Ltda., Automação
Augusto Pereira: Pepperl+Fuchs aposta no WirelessHART (Abaixo)

Os cabos, no entanto, ainda não estão fadados à aposentadoria, quando se fala em automação industrial. “A nova tecnologia não substitui completamente os sistemas cabeados tradicionais, pois se destina a um tipo de aplicação muito específico, principalmente em locais da planta onde é difícil passar a fi ação”, explicou Augusto Pereira, gerente de marketing da Pepperl+Fuchs Ltda., por ocasião da 13ª edição da exposição Brazil Automation, organizada pela Sociedade Internacional de Automação (ISA, na sigla em inglês).

A automação wireless nas indústrias química e petroquímica envolve muitos riscos, pois a perda de sinal e a interrupção da comunicação entre os dispositivos de medição, atuação e controle poderia causar problemas graves em equipamentos críticos, como reatores sujeitos a altas pressões e temperaturas. “A comunicação sem fio, em seu estágio atual de desenvolvimento, ainda requer uma série de cuidados na fase de projeto da rede, mas é o futuro”, disse Pereira.

Ainda mais nova que a utilização da tecnologia em processos é a questão da padronização dos protocolos de comunicação. Embora os equipamentos de diferentes fornecedores utilizem o mesmo tipo de onda de rádio, os programas – protocolos – que codificam esses sinais são diferentes. Por isso, atualmente, nem todos os equipamentos de fornecedores distintos conseguem “falar entre si”. Essa padronização é um processo semelhante ao que já ocorreu com os celulares: todos eles se intercomunicam, independentemente de quais sejam as operadoras. Analogamente, a padronização da comunicação sem fi o permitiria que instrumentos de campo dos variados fabricantes se comunicassem com sistemas de controle também de qualquer um dos fornecedores. Uma das vertentes dessa padronização, que ainda não é universal, é o protocolo WirelessHART, adotado nos produtos da Pepperl+Fuchs, e preconizado pela Fundação HART, uma organização sem fins lucrativos formada por membros da indústria. Durante a Brazil Automation, a Pepperl+Fuchs divulgou o lançamento de uma estação-base, um transmissor de temperatura e um adaptador para instrumentos de fabricantes quaisquer. Para Pereira, o diferencial da empresa reside no fato de ela fornecer, além de instrumentos, a estação-base e o adaptador, permitindo a interoperabilidade, sem que o cliente fi que amarrado a um único fornecedor. A transmissão é feita por ondas de rádio com frequência de 2,4 GHz, muito próxima à das ondas de telefonia celular.

Química e Derivados, WirelessHART, Automação
WirelessHART

Para as indústrias que já se encontram automatizadas usando cabos, o gerente avalia que não há difi culdade maior para a migração para os sistemas sem fi o, pois muitos fornecedores, inclusive a Pepperl+Fuchs, têm desenvolvido adaptadores para os dispositivos existentes. Esses adaptadores, responsáveis pela transmissão dos dados, podem ser montados em instrumentos que não tenham sido desenvolvidos para aplicações sem fi o. É mais desejável, no entanto, que a opção pela tecnologia wireless aconteça na etapa de projeto da planta, uma vez que, nessa hipótese, a redução de custos proporcionada é maior.

 

 

Não apenas menos cabos – O gerente chama a atenção para outro fato. Quando se fala na vantagem de economia com a fiação, ela não decorre apenas da eliminação do custo com a aquisição de cabos, mas também pela ausência dos custos com bandejas, eletrodutos, mão-de-obra para a instalação dos cabos e desenho da rede. Um dos exemplos apontados por Pereira como típico para o emprego da tecnologia consiste do equipamento de incineração, em que um dos componentes é um tambor giratório. Caso seja necessário medir a temperatura no interior do tambor, é impossível acoplar um instrumento com fio ao equipamento, pois o cabo acabaria torcido. Na tecnologia wireless, o instrumento de medição, dotado de um transmissor e bateria, fica acoplado ao tambor e gira junto com ele.

Outro caso de aplicação são as situações em que existe a necessidade apenas de uma medição provisória, com o objetivo de realizar testes ou monitoramento. Nesse caso, o medidor sem fio pode ser instalado e depois removido, sem a preocupação com os cabos. “É muito complicado passar novos cabos em instalações industriais. Exige-se um novo projeto e uma série de medidas que precisam ser levadas em consideração”, afi rmou o gerente de marketing. No Brasil, segundo ele, começam a surgir as primeiras aplicações de tecnologia sem fi o em ambiente industrial, como exemplo, em instalações em plantas da Petrobras e em fábricas do setor siderúrgico. A indústria química e petroquímica é um filão interessante para esse tipo de tecnologia, principalmente no quesito de monitoramento. Essa indústria e também as de petróleo e gás têm muitos pontos de monitoramento em suas plantas industriais, onde tem penetrado, não por acaso, a automação wireless. O monitoramento, é importante destacar, não se confunde com o controle, pois o primeiro se refere exclusivamente à medição de grandezas e à comunicação dessa informação, ao passo que o controle engloba também a manutenção da grandeza em um determinado valor predeterminado. A tecnologia sem fio, até o momento, ainda não é apontada de maneira unânime como adequada ao controle. Como toda tecnologia, ela possui desvantagens. Uma das mais claras está na impossibilidade de garantia total da comunicação em 100% do tempo, motivo pelo qual Pereira não recomenda as redes sem fio para controle de processos cujo requisito de segurança é alto, embora a chance de falha possa ser diminuída com medidas como a adoção de distâncias máximas entre transmissores e receptores, a manutenção da comunicação visual entre os dispositivos, o monitoramento de suas baterias e outros detalhes que requerem a atenção dos fabricantes na fase de projeto da rede. Os próprios dispositivos de transmissão possuem recursos no sentido de tentar prevenir falhas, como no caso de interferência com outros comprimentos de onda. Se isso acontece, os transmissores e as estações-base podem, automaticamente, alterar a frequência de transmissão, habilidade conhecida como chaveamento de frequência.

Por outro lado, a comunicação por ondas depor ondas de rádio, para não consumir muito rapidamente as baterias, não é contínua, como ocorre quando se usa cabos. Ela é feita em intervalos, um motivo adicional para a aplicação em monitoramento, e não em controle, que requereria comunicação mais rápida, próxima da contínua. Os intervalos de atualização até poderiam ser reduzidos, mas isso implica consumo mais rápido das baterias. Com a tecnologia atual, as baterias duram cinco anos, com leituras, em média, uma vez a cada minuto.

Um ponto apontado como dificuldade para a implementação de sistemas de automação, e não apenas no mercado interno local, é a escassez de mão-deobra especializada. “No Brasil, nós já estamos sentindo uma grande dificuldade nas empresas de engenharia e de consultoria para a contratação de mão-de-obra especializada. Hoje eu não gasto a maior parte do meu tempo tentando vender, mas tentando ensinar e treinando as pessoas para que elas possam utilizar a tecnologia, e aí sim eu possa vender”, constata Pereira. São poucas as faculdades que ensinam além do campo dos conhecimentos teóricos em automação e controle e avançam até a realidade do mercado. Grandes empresas como Vale, Braskem e Petrobras acabam sendo as responsáveis pelo treinamento da mão-de-obra, pois um aluno que acabou de sair da faculdade, mesmo o estudioso, leva entre um ano e um ano e meio até compreender a automação com a profundidade demandada pelo mercado. E isso não ocorre por falha da universidade, responsável por dar conhecimentos básicos aos alunos, mas pela rápida evolução da tecnologia.

Química e Derivados, André Petroff, gerente de produto da Siemens, Automação
André Petroff: Profinet oferece vantagens de desempenho

LAN – A Siemens, também presente à Brazil Automation, oferece, entre outros sistemas, um baseado em redes locais, conhecidas como LANs. A empresa alemã, explicou o gerente de produto André Petroff, é muito forte nessa área, pois a tecnologia sem fi o constitui uma tendência na automação industrial, principalmente pela disseminação da Ethernet industrial (uma tecnologia de conexão de LANs) no chão de fábrica, para fazer a comunicação em automação. Além da linha de controladores e SDCDs (Sistema Digital de Controle Distribuído), a Siemens oferece instrumentos sem fi o, switches industriais e a linha de access points (transmissores), formada por dispositivos para acesso a redes sem fi o, com construção mais robusta para adequá-los ao ambiente industrial. O access point opera com uma faixa de frequência mais ampla, permitindo instalações redundantes, inclusive no caso de comunicação em sistemas de segurança, em que é necessária maior precaução.

O protocolo de Ethernet industrial adotado pela Siemens é o Profinet, que não nasceu com a tecnologia wireless, mas do uso da Ethernet industrial com cabos. Com o advento da comunicação sem fio, a empresa incorporou o mesmo protocolo também às novas redes. O Profi net, explica Petroff, oferece a vantagem da possibilidade de utilização tanto para a comunicação de automação quanto para a comunicação de TI, em geral, no mesmo cabo, ou no mesmo meio físico, no caso das ondas de rádio. O argumento mais fácil para a venda da tecnologia sem fi o é a eliminação dos custos com cabos, mas, além dele, e no caso da utilização do padrão Ethernet, abre-se a possibilidade do emprego do mesmo ponto de acesso, instalado na planta, não apenas para o tráfego dos dados de automação, mas para outros tipos de informação, como as imagens geradas por câmeras de segurança, reduzindo custos. “No caso do Profi net, há a vantagem de não haver perda no desempenho quando outros tipos de dados são transmitidos, pois o protocolo é inteligente e prioriza o controle da produção”, afirmou Petroff.

A desvantagem está na necessidade de maior investimento na fase de projeto da rede wireless, pois erros nesta etapa podem provocar desempenho abaixo do esperado. Vale ressaltar que as pessoas podem ser levadas a tomar o mesmo tipo de decisão que seria adequada para cabos, durante a instalação de uma rede sem fio, mas isso, obviamente, pode não funcionar.

O protocolo Profinet também possibilita, nas aplicações wireless, a utilização em controle, não necessariamente na forma de sistemas redundantes. O engenheiro de produto da Siemens acredita que o mercado ainda confunda os conceitos de redundância e segurança. A última está relacionada com a probabilidade estatística de o equipamento falhar. O exemplo óbvio é o do celular: qual a probabilidade de, solicitado a efetuar uma ligação, o aparelho não conseguir realizá-la? Essa questão é respondida por uma probabilidade estatística. A redundância, por outro lado, aumenta a disponibilidade do sistema. Seguindo o exemplo do celular, a redundância equivale à situação em que o usuário dispõe de dois celulares e, se um deles não funciona, pode apelar para o outro. Desse modo, a redundância pode levar a um patamar de segurança maior, em alguns casos, mas isso não é sempre verdade, pois a possibilidade de falha combinada de dois sistemas redundantes pode ser maior que a possibilidade de falha de um terceiro sistema único.

A Siemens oferece produtos para aplicações sem fio há cerca de quatro anos e já vende alguns deles por aqui. Um exemplo de aplicação é na manufatura de produtos eletrônicos, especifi camente nos mecanismos transportadores, pois há problemas de conexão elétrica por trilhos ou cabos do tipo festoon. “É muito comum esse tipo de aplicação adotar o wireless mais rapidamente”, diz Petroff, por causa da característica de movimentação mecânica que acarreta problemas aos contatos elétricos ou aos cabos. Para quem precisa, o investimento inicial nos produtos sem fi o e a própria novidade da tecnologia não têm sido empecilhos para as vendas. Dado o emprego, pela Siemens, de um protocolo de Ethernet aberto, já conhecido pelas equipes de TI do mercado, há uma certa facilidade para apropriar o conhecimento de aplicação sem fi o que o cliente tem (eventualmente até em sua casa, por exemplo) para as aplicações industriais. “Os conhecimentos de TI estão chegando ao ambiente industrial”, testemunhou o gerente de produto.

Química e Derivados, Augusto Baptista, Gerente de produto da SoftBrasil, Automação
Augusto Baptista vê o preço menor por conta da tecnologia GPRS

GPRS – A denominação wireless, bastante genérica, ainda engloba outras tecnologias, como o GPRS (Serviço de Rádio de Pacote Geral), que utiliza redes de telefonia celular para a transmissão dos dados. Sua efetividade, desse modo, está diretamente conectada à efi ciência do serviço da operadora de celular. Esse, todos sabemos, não está disponível na totalidade do tempo e, por isso, o GPRS é, normalmente, utilizado em aplicações cujo requisito de segurança é baixo, caso de sistemas apenas de coleta de dados, como os auxiliares e os de telemetria.

A SoftBrasil, uma especialista em gestão da informação industrial, otimização de processos, telemonitoramento e automação industrial, é uma das fornecedoras locais de serviços de GPRS. Durante a exposição promovida pela ISA, a empresa divulgou o serviço, prestado por meio de um conjunto de hardware e software que recebe dados de medidores ou outros equipamentos e os envia usando redes de telefonia celular para o centro de controle da SoftBrasil, hospedado no provedor de internet UOL. Este também abriga um programa de gerenciamento de informações e um aplicativo Web, que permite ao usuário fi nal consultar as medições realizadas. Segundo Augusto Baptista, gerente de produto da SoftBrasil, nesse mesmo modelo de transmissão de dados, poderiam ser utilizadas as redes 3G, que possuem uma banda um pouco mais rápida e, em locais onde o celular não recebe sinal, a internet por satélite. Porém os dados enviados costumam rondar o tamanho de 1 quilobyte e não demandam uma banda como a 3G, que, ademais, possui custo mais elevado.

 

Os maiores filões para esse tipo de tecnologia, no país, estão na indústria química, na indústria de gás e óleo e, de modo geral, onde houver equipamentos que forneçam informações por saída serial, utilizando protocolo ou sensor, como equipamentos de ar-condicionado e no-breaks. O campo de aplicação, porém, se restringe a aplicações que não sejam críticas, pois o sistema não oferece a confi abilidade necessária para tal. A SoftBrasil já fornece seu serviço há mais de uma década, e iniciou a oferta com produtos para a Petrobras, mas utilizando a internet por satélite. Porém, Baptista ressalta que a disponibilização do serviço com os preços que são praticados hoje, graças ao GPRS, é recente.

Outra empresa nacional presente à exposição Brazil Automation foi a Medikron, que apresentou o medidor de nível, compatível com protocolo WirelessHART, capaz de realizar a tarefa de transmissão do sinal para receptores posicionados a até um quilômetro de distância, dependendo da visada. O sinal, após conversão realizada pelo receptor, é transmitido para um sistema do cliente, que pode ser um PLC (Programador Lógico Programável), um indicador ou uma IHM (Interface Homem- Máquina).

de Química e Derivados, Vilson Alves dos Santos, Engenheiro de aplicação/vendas da Medikron, Automação
Vilson Alves dos Santos: clientes optam por controle redundante

Na visão de Vilson Alves dos Santos, da área de engenharia de aplicação/vendas da Medikron, esse tipo de produto sem fi o, se usado em controle, requer redundância. Nesse caso, o que 90% dos clientes desse tipo de aplicação faz é utilizar um instrumento com transmissor contínuo de sinal para a medição do nível e, adicionalmente, um instrumento pontual (uma chave de nível) para fazer o controle de segurança.

A Medikron é representante exclusiva no Brasil da alemã Vega, e o medidor apresentado na exposição é o primeiro produto wireless da representada no país, uma especialista em medição de nível (e introdutora da tecnologia de medição de nível por radar). Santos afi rmou que há grande interesse da clientela pela tecnologia sem fi o em petroquímica e mineração, indústrias habituadas à difi culdade para a passagem de cabeamento ou a distâncias de cabeamento muito grandes, com custo elevado. “O cliente muitas vezes opta pelo sistema sem fio porque ele é pago com o custo que o cabeamento teria, se fosse implantado”, explicou. Ainda há a vantagem de evitar a manutenção dos cabos, operação que pode acarretar a parada de produção, gerando alto custo. A indústria de mineração opta pela tecnologia wireless porque muitas vezes não é possível a parada para manutenção dos cabos, por causa dos problemas que seriam criados nos altos-fornos.

WirelessHART e ISA100 – Toda tecnologia de comunicação de dados passa por uma fase na qual são definidos sua abrangência e o tipo de dado comunicado naquele padrão, além de outros parâmetros. A transmissão sem fio por rádio se encontra justamente nessa fase. Uma boa parte dos equipamentos disponíveis no mercado hoje utiliza o protocolo de comunicação WirelessHART, que não é universal. Entretanto, no último mês de abril, a ISA, que possui atribuições de normatização, publicou a norma ISA100, aprovada pela ANSI (o Instituto de Padrões Nacionais Americano) com o objetivo de estabelecer um padrão global, padrão esse que, até o momento, não engloba o protocolo WirelessHART. A Yokogawa, fornecedora tradicional do segmento de automação, embora já tenha desenvolvido sua própria série de transmissores de temperatura e de pressão (diferencial e estática) equipados com tecnologia sem fio, adotou uma postura conservadora, e optou por esperar a publicação da norma ISA100, adotando esse protocolo para a sua linha de produtos, de olho na chance da norma ISA vir a englobar o padrão WirelessHART.

Segundo Cassius Magdo de Barros, da área de engenharia de aplicação da Yokogawa, o WirelessHART foi originalmente destinado apenas a monitoramento, enquanto o padrão criado pela ISA se destina também a controle, que requer transmissões mais rápidas.

Química e Derivados, Cassius Magdo de Barros, Engenheiro de aplicação da Yokogawa, Automação
Cassius Magdo de Barros: Yokogawa desenvolve produtos, mas espera definição de WirelessHART e ISA (abaixo)

A banda de frequência concedida para o WirelessHART é pequena, e também utilizada por outros aparelhos, como notebooks e radioamadores. Para contornar esse fato, a Yokogawa, em sintonia com o padrão ISA, desenvolveu sinais com modulação em frequência e no tempo, que agem como se eles se repetissem no espaço em pontos diferentes, garantindo a transmissão da informação. É um sinal mais confi ável, que permite a integridade da informação mesmo sendo a banda um tanto “apertada”. Para Barros, quem prega a filosofi a de não usar a tecnologia sem fio em controle o faz por ser usuário do protocolo WirelessHART, e a limitação não se aplica ao protocolo preconizado pela ISA100. Até para evitar esse tipo de indefi nição, a Yokogawa espera uma nova decisão da ISA, para saber se ela englobará o WirelessHART. “Mesmo sem a defi nição, a Yokogawa já pensa nesse tema e já dispõe de produtos, mas aguarda a decisão para começar a vendêlos”, disse o engenheiro de aplicação. Por hora, a empresa japonesa está em uma fase de troca de experiência com os clientes, e possui equipamentos em teste na Petrobras. A estatal brasileira do petróleo representa um importante cliente, por ser alinhada com tecnologias recentes e oferecer menos resistência à entrada das novas. O tamanho das operações da empresa também ajuda: há pátios de tanques com quase cem deles, a uma distância considerável, e o uso de instrumentação convencional com cabos, seria cara demais, a ponto de a empresa optar pela medição manual. Um dado interessante: nas embarcações que transportam o petróleo, o peso dos cabos pode chegar a 12% do peso total do navio, e essa massa considerável pode ser diminuída pela troca por tecnologia sem fio. Trata-se de outra aplicação potencial importante.

Química e Derivados, WirelessHART e ISA, Automação
WirelessHART e ISA

Barros vê o mercado brasileiro aberto ao wireless, pois a demanda pelos produtos tem partido dos próprios clientes. Em alguns casos, eles já utilizam instrumentação comum, mas necessitam obter mais informações da aparelhagem existente. Hoje é possível saber, por exemplo, se uma determinada válvula “enrosca”, se há agarramento de gaxeta ou bloqueio. No entanto, a instrumentação tradicional por cabo não suporta essas informações. Inicialmente, os cabos possuíam protocolo analógico e propósito único: eles só enviam sinais de abertura e fechamento, entre 4 e 20 mA, e não possibilitavam o tráfego de informação. Com o surgimento de protocolos digitais para cabos, como o Fieldbus e o Profi bus, até foi possível o envio de informação, mas com a limitação do comprimento do cabo, em grandes distâncias. A tecnologia sem fio contorna ambos os problemas. Como desvantagem, Barros aponta a necessidade de um estudo aprofundado do espaço onde será instalado o sistema, e a determinação cuidadosa das rotas que os sinais seguirão, para evitar, entre outras coisas, que instrumentos com atualização mais lenta utilizem as mesmas rotas que os mais rápidos. Uma bateria de instrumento que opera com atualização a cada 30 s dura entre cinco e dez anos; seu custo não é baixo, e ainda existe a questão relacionada à geração de resíduos sólidos.

Guerra comercial – A definição sobre a inclusão ou não do WirelessHART no padrão da norma ISA100 é aguardada com uma certa ansiedade pelo mercado, pois, caso a inclusão ocorra, instrumentos de empresas diferentes que atendam à norma conseguirão comunicar-se entre si. “O objetivo da ISA é dar ao usuário fi nal a chance de escolher, entre diversos fornecedores, o que ele preferir”, explica Jorge Ramos, diretor de treinamento e publicações, além de presidente eleito da ISA Distrito 4, seção que engloba os países da América Latina. Segundo ele, estão em curso discussões sobre a incorporação do WirelessHART ao padrão ISA, mas ainda não é certo que isso ocorrerá, e Ramos não arrisca previsão.

O fato é que, no mercado, comentase que uma grande disputa comercial é o real pano de fundo da incorporação de um padrão ao outro, semelhante à que ocorrera com a comunicação por cabo. As redes de campo HART foram popularizadas pela empresa norte-americana Emerson. Foi o primeiro padrão de comunicação para transmissores de campo aberto com fio, e esse protocolo é basicamente semelhante ao usado na comunicação sem fio. O grande impulsionador desse protocolo é, de fato, a Emerson, mas, oficialmente, é a Fundação HART, uma associação de fabricantes. Em paralelo a esse desenvolvimento, a ISA, que não é uma associação de fabricantes, mas uma entidade de normatização, também começou a trabalhar em uma norma para a instrumentação de campo sem fio. Da mesma maneira que a Emerson foi a força impulsionadora do Wireless HART, a Honeywell, outra empresa norte-americana, foi a força motriz por trás da norma ISA100, embora, oficialmente, a norma seja da ISA, e não da Honeywell. Desse modo, as duas empresas competem pelo domínio da rede de transmissores, que usam o mesmo padrão de rádio, mas usam protocolos de comunicação diferentes. Para o gerente de engenharia da Coester Automação Ltda., Carlos Henrique Hennig, ambos os protocolos são muito parecidos, e há poucas diferenças técnicas, de modo que a incorporação de um padrão pelo outro está mais ligada à questão comercial latente. Por outro lado, nas palavras do diretor-comercial da Honeywell no Brasil, na área de óleo e gás, Jim Aliperti, o padrão ISA100 foi criado com uma visão mais abrangente que o WirelessHART. A norma da ISA contempla a rede sem fi o de transmissores de campo e também a rede de rádios-base (o WirelessHART contempla apenas a primeira rede), tendo em vista que a aplicação da tecnologia sem fio na área de automação vai muito além dos transmissores e da instrumentação de campo. Ela pode ser utilizada por um operador empregando um aparelho manual, que transmita dados de campo para a sala de controle, ou em uma câmera sem fi o instalada em campo, além de outras diversas aplicações que poderiam surgir, como crachás de identifi cação do pessoal de campo. “Essa é justamente a grande diferença entre os dois protocolos, um é mais abrangente que o outro”, diz Aliperti. A Honeywell oferece instrumentos sem fi o para a medição de pressão, pressão diferencial, temperatura, corrosão e vibração, além de medição de nível por radar. O mercado cresce, por aqui, a taxas de dois dígitos por ano e, “tranquilamente, vai explodir, crescendo muito, e rapidamente, nos próximos anos”, segundo a expectativa de seu diretor-comercial.

Ele é outro a acreditar que, no atual estágio da tecnologia sem fio, ela não vai provocar a obsolescência da instrumentação tradicional com cabos. A razão para o mercado estar absorvendo essa tecnologia atualmente, apesar da vantagem apontada pela economia com fios, está mais ligada ao fato de que a instrumentação wireless resolve problemas que a tradicional não consegue, como no caso de fornos rotativos. Parque de tanques é outro exemplo, pois é complicado transpor o dique de proteção em volta do tanque, e fi ca difícil e caro instalar a instrumentação em um tanque se ela não foi prevista anteriormente, caso de muitos dos tanques no Brasil. Aliperti também corrobora a ideia de que, por enquanto, não seria seguro utilizar a tecnologia para aplicações críticas, embora ambos os padrões, ISA e WirelessHART, tenham sido estruturados para permitir o controle. “Nenhum dos fabricantes com atuação no mercado sugere o uso em controle em malha fechada, mas sim em aplicações em que o tempo de controle é mais extenso, ou em aplicações que substituam o controle manual feito por operador. Ainda não há confi ança, embora os protocolos estejam preparados” afi rma.

Segundo as informações de Hennig, da Coester, a segurança da transmissão wireless, por estar ligada à velocidade de transmissão de dados, também está ligada à capacidade das baterias utilizadas para alimentar os equipamentos de transmissão. Intervalos menores de atualização consumiriam as baterias muito rapidamente, e os fabricantes acabam restringindo esse tempo porque não há no mercado baterias que suportem a velocidade demandada para aplicações de controle – é preciso lembrar que, sendo equipamentos portáteis, os transmissores são equipados com baterias pequenas.

 

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Petrobras inova adotando MAC

A Petrobras começa a empregar uma nova forma de contratação de automação em suas plantas. O chamado MAC (do inglês Main Automation Contract, algo como Contrato de Automação Principal) representa uma importante mudança no cenário do mercado local, e deveria estar sendo avaliado de forma mais ampla por outras empresas da área petroquímica, segundo o diretor-comercial da Honeywell no Brasil, na área de óleo e gás, Jim Aliperti. No modelo atual de contratação em uma planta industrial, ele explica, a regra é deixar a automação a cargo do epecista construtor da planta, que pode optar por comprar os equipamentos de automação de um ou mais fornecedores. Aliperti afirma, no entanto, que hoje existe a tendência do sistema de automação ser o centro de informação da planta, utilizado não apenas para o controle da operação industrial, mas para todas as tomadas de decisão envolvendo a fábrica, com base em dados nascidos no sistema de controle. Em sintonia com essa tendência, no MAC, o cliente entrega a tarefa de automação inteiramente para um único fornecedor, responsável por providenciar toda a instrumentação de campo, sistemas de controle, e a integração com os diversos subsistemas existentes na fábrica. Diferentemente, no modelo de contratação convencional, essa integração é responsabilidade do epecista ou do próprio cliente, e não necessariamente será feita por pessoal treinado e especializado no métier.

Essa forma de contratação surgiu no exterior há alguns anos, e começa a se difundir no Brasil. Ela tem a vantagem de baixar os custos de aquisição da fábrica e de sua manutenção, pois o sistema de automação passa a ser projetado tendo em vista não apenas a automação da fábrica, mas o gerenciamento de todo o sistema de informação da planta. A Petrobras vai inaugurar a utilização do modelo em suas refinarias do Nordeste, e o Comperj, no Rio de Janeiro, também adotará o modelo. Aliperti vê, na possibilidade direta de negociação com a estatal brasileira, uma mudança significativa no panorama da automação do mercado brasileiro. “Não há cliente com a carteira de oportunidades que a Petrobras oferece atualmente, e a quantidade de negócios possíveis tem atraído companhias de automação do mundo inteiro”, diz.

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