Tensoativos: Estudos comprovam segurança no uso do LAS

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O alquilbenzeno linear sulfonato de sódio, mais conhecido pela sigla LAS, é o segundo mais importante tensoativo mundial, perdendo apenas em volume de consumo para o velho sabão.

E deve permanecer nesta posição por muitos anos, apoiado por estudos internacionais que comprovam sua segurança aos seres humanos e ao meio ambiente, além de apresentar uma imbatível relação de custo/benefício na lavagem de roupas e louças.

O nome já informa se tratar de um anel benzênico bissubstituído por uma cadeia carbônica linear de origem parafínica, contendo de 10 a 13 átomos de carbono (11,6, em média), e com um sulfonato de sódio na posição “para”, que lhe atribui o caráter aniônico.

Foi lançado mundialmente há mais de quarenta anos para substituir os tensoativos aniônicos ramificados que dominavam o mercado, porém eram pouco susceptíveis à degradação biológica, constituindo um problema ambiental.

“A indústria química criou o LAS como solução para esse aspecto, que só mais tarde veio a ser alvo de legislação restritiva aos ramificados”, comentou Ignácio López Serrano, gerente de pesquisas da espanhola Cepsa Química, dona da Deten (Camaçari-BA), maior produtora global do LAS, durante palestra proferida durante a Household Autocare 2010, realizada de 16 a 18 de junho, em São Paulo.

Trata-se de uma molécula simples e engenhosa. Sua base reside no alquilbenzeno linear, o LAB, que é insolúvel em água.

A sulfonação lhe confere propriedades tensoativas, porém gera um produto altamente corrosivo. Isso exige a neutralização com soda cáustica, potassa ou monoetanolamina, geralmente a primeira, originando o sal sódico seguro e eficiente chamado LAS.

Segundo López, nesses quarenta anos, a produção industrial do tensoativo evoluiu muito, sobretudo nos catalisadores usados na alquilação do benzeno.

O cloreto de alumínio usado nos primórdios da tecnologia deu lugar ao ácido fluorídrico.

Recentemente, a tecnologia Detal de catálise heterogênea em leito fixo assumiu o estado da arte na alquilação, fruto do desenvolvimento conjunto entre UOP e Cepsa.

A etapa de sulfonação também passou por aprimoramentos, deixando de usar o ácido sulfúrico concentrado (oleum) para ser realizada em reatores de filme descendente (FFR), com injeção de SO3.

Esses aprimoramentos melhoraram a pureza do LAS e, com ela, foi alcançado um alto grau de transparência no tensoativo.

Do ponto de vista industrial, o LAS oferece vantagens para os formuladores de produtos de limpeza.

Química e Derivados, Ignácio López Serrano, Gerente de pesquisas da Cepsa Química, Atualidades - Tensoativos: Estudos comprovam segurança no uso do LAS
López: tensoativo pode compor várias formulações de produtos de limpeza

“Ele permite compor formulações de produtos com grande facilidade, admitindo vários cotensoativos e aditivos, sem problemas, além de resistir às temperaturas típicas dos spray dryers aplicados na produção de produtos em pó”, explicou López.

Essas características mostram que o LAS acompanha as mais modernas tendências do mercado de tensoativos.

“Nos líquidos, mais fáceis de dosar e manipular, a tendência mundial é usar produtos cada vez mais concentrados”, comentou Francisco Díaz, vice-presidente de desenvolvimento de negócios e inovação da Cepsa.

Química e Derivados, Francisco Díaz, Vice-presidente de desenvolvimento de negócios e inovação da Cepsa, Atualidades - Tensoativos: Estudos comprovam segurança no uso do LAS
Díaz: LAS resiste a altas temperaturas na lavagem

“Nos pós também se busca aumentar a concentração dos ingredientes ativos, para reduzir o tamanho das embalagens”, explicou.

Outra tendência é aplicar tensoativos que funcionem bem mesmo em baixas temperaturas, típicas de países do Hemisfério Norte, pois 80% da energia gasta nestes países para lavar roupas está relacionada com o aquecimento da água.

Segundo Díaz, a temperatura média europeia para lavagem fica entre 40ºC e 50ºC, porém na Alemanha ela passa dos 80ºC.

“Essas exigências são atendidas com um coquetel de tensoativos, incluindo o LAS, e enzimas”, explicou.

No Brasil, o consumo anual de LAS se situa na faixa de 140 mil toneladas, atendido pela produção da Deten Química, capaz de gerar 220 mil t/ano do tensoativo, em cadeia integrada.

Química e Derivados, José Luis de Almeida, Diretor-geral da Deten, Atualidades - Tensoativos: Estudos comprovam segurança no uso do LAS
Almeida: parte da produção da Deten é exportada

“Tivemos um ampliação e atualização recentes, e parte da produção é exportada para vários países”, afirmou o diretor-geral da Deten, José Luis de Almeida.

Mesmo no Brasil, o uso de cosurfactantes está se tornando trivial, o que pode reduzir um pouco o consumo do LAS, mas melhora o desempenho geral dos produtos finais.

O Brasil é um mercado importante para o LAS, pois enquanto domina uma fatia expressiva na lavagem de roupas, também participa da limpeza de louças, talheres e utensílios de cozinha, que por aqui ainda é feita manualmente.

“As máquinas de lavar louça não usam tensoativos, mas um pó abrasivo que remove a sujeira, porém tira o brilho das peças lavadas”, explicou.

De vilão a mocinho – Criado para reduzir o impacto ambiental dos produtos de limpeza, o LAS passou a ser associado à formação de espuma em rios e lagos, exatamente o problema que pretendia combater.

“É uma fama injusta, que não se sustenta cientificamente”, contestou López.

Apoiado por extensivos estudos produzidos pela Human And Environmental Risk Assessment On Ingredients Of European Household Cleaning Products (Hera), ele explicou que metade do LAS descartado na rede de coleta de esgoto sofre degradação imediata, ou seja, nem chega às estações de tratamento ou, eventualmente, aos corpos de água, no caso dos lançamentos diretos.

A sequência de biodegradação começa pela transformação do LAS em sulfofenilcarboxilatos, compostos que não são tensoativos, ou seja, não formam espuma, além de não prejudicarem a fauna e a flora ambiental.

Em seguida, o anel benzênico e as cadeias lineares são “cortados” pelos micro-organismos que, em etapa posterior, absorvem os elementos necessários à sua vida.

“A degradação das cadeias carbônicas passa de 98%, em condições ambientais”, afirmou López.

Mesmo assim, toda a toxicologia humana e ambiental do LAS e seus metabólitos foi estudada, atestando seu baixíssimo impacto. López citou que a toxicidade do LAS para as algas e micro-organismos presentes nos lodos ativados (usados nos sistemas de tratamento de efluentes) é de 550 mg/l, concentração capaz de matar 50% da população desses organismos em três horas.

“É quase impossível alcançar essa concentração”, informou.

A meia-vida do LAS em sistemas de tratamento biológico não chega a duas horas, e menos de 2% da quantidade do tensoativo que ingressa nas estações de tratamento permanece no efluente final.

Em geral, na entrada das estações, o LAS representa 4% da matéria orgânica, porcentagem que cai para 1% na água tratada.

“Ou seja, o LAS é mais degradado que outras formas orgânicas presentes no esgoto”, disse.

Os riscos do LAS e seus metabólitos para a saúde humana são igualmente ínfimos.

“Eles não se acumulam na cadeia alimentar, não atuam como disrruptor endócrino e não são cancerígenos”, comentou o pesquisador.

O LAS não foi incluído na lista de substâncias perigosas da Europa. O tensoativo só não é usado nas fórmulas de cosméticos por apresentar uma taxa de remoção da gordura superficial da pele muito elevada, uma característica indesejada para esses artigos.

Estimulados pelas críticas ao LAS que exploram a presença visível de grossas camadas de espuma no Rio Tietê, na altura de Santana do Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus, ambas no entorno da capital paulistana, os pesquisadores analisaram os dados obtidos pelo monitoramento promovido pela Cetesb.

“Estudamos os dados registrados em 2005 e eles mostram, sem dúvida, que o problema do Tietê é a falta de oxigênio dissolvido, fato que inviabiliza a existência de micro-organismos decompositores de moléculas orgânicas”, afirmou López.

A relação entre DBO (demanda biológica de oxigênio) e a DQO (demanda química de oxigênio) foi determinada entre 0,2 e 0,4, indicando alta carga poluente nas águas do rio. O nível de compostos nitrogenados na forma amoniacal também se revelou muito elevado, mais uma indicação da falta de oxigênio dissolvido.

Segundo López, outros fatores além do LAS explicam a formação de espuma no rio: tensoativos industriais, efluentes de processos de papel e de couro, presença de material proteico e ácido húmico, originados da decomposição de materiais orgânicos, e a presença de tensoativos naturais derivados de processos biológicos.

“No lago Ontário, a presença de células de algas provocava a formação de espuma, enquanto no caso do Rio Reno a causa era a biodegradação de plantas”, elencou.

Outro alvo constante das críticas ambientais é o tripolifosfato de sódio (STPP), um coadjuvante dos tensoativos na lavagem de roupas, usado para facilitar o contato dos detergentes com a sujeira acumulada nas fibras, especialmente na presença de sais de cálcio e magnésio.

Acusado de fertilizar as águas, com efeito na proliferação de algas em corpos de água (eutrofização), o STPP é usado sob controle estrito dos órgãos ambientais.

“A contaminação com fezes humanas, muito mais ricas em fósforo que o STPP, é a maior contribuição para a eutrofização”, afirmou Maria Eugênia Saldanha, diretora-executiva da Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Limpeza e Afins (Abipla).

Desde 2008, uma resolução do Conama estipula quantidades máximas de STPP em detergentes vendidos no Brasil, além de impor um teto para aplicação do insumo por fabricante de produto de limpeza.

“É um controle desnecessário, porque ninguém usa mais STPP do que realmente precisa, por se tratar de um ingrediente caro”, disse.

A Abipla aproveitou o encontro setorial para apresentar a quinta edição do seu anuário, que contém dados de produção e consumo de produtos de limpeza e afins, incluindo análises de importação e exportação de insumos e artigos acabados.

A parte final da publicação traz um diretório de produtos e serviços do setor, com os respectivos fornecedores.

Os especialistas da Cepsa ressaltaram a necessidade de avaliar os ingredientes de forma mais abrangente, avaliando toda a sua pegada ambiental, desde o berço até a sepultura (from the cradle to the grave).

“Quando considerados os dispêndios de energia e de água durante todo o ciclo de vida do produto, vários ingredientes naturais se mostram menos vantajosos ao meio ambiente que alguns produtos totalmente sintéticos”, ponderou López.

No caso paulistano, especificamente, a solução apontada para a espuma visível é investir em mais estações de tratamento de esgotos e na sua sofisticação.

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2 Comentários

  1. Então a produção de sabão líquido para lavar roupa, seguindo as fórmulas milagrosas do YouTube, não passa de uma grande trapaça?

  2. Gostei do artigo.Não li referencia à absorção do produto e ação sistêmica. Qual o perigo para o organismo, pela absorção desse produto em nível de pele? Com ou sem lesões de pele. Obrigado.

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