Petróleo: Indústria gaúcha quer vender para a Petrobras

Atualidades

A projeção de investimentos da Petrobras para o período entre 2009 e 2013 chega a US$ 174,4 bilhões, perfazendo a média anual de quase US$ 34 bilhões.

Os números foram avaliados em um fórum realizado no final de dezembro em Porto Alegre-RS, com o objetivo de debater as oportunidades para a indústria gaúcha dominar uma fatia desse bolo.

Longe das jazidas de petróleo e dos centros de decisão sobre o pré-sal, a participação do estado mais meridional do Brasil na venda de bens e serviços para o sistema petrolífero é pífia.

Não chega a 1%, na média entre bens e serviços.

O objetivo traçado pelas lideranças da indústria gaúcha é atingir 6% nos próximos cinco anos.

O empresário Marcus Coester conhece bem as exigências de qualidade e segurança impostas a uma empresa para ser guindada ao cobiçado posto de fornecedora da bilionária indústria petroleira.

Sua empresa, a Coester, é uma das raras exceções entre as gaúchas, operando no ramo de atuadores elétricos, redutores e conectores para válvulas de precisão, empregados nas mais diversas aplicações, desde as plataformas até as refinarias.

Química e Derivados, Marcus Coester, empresário, Atualidades: Petróleo - Indústria gaúcha quer vender para a Petrobras
Coester: empresa é uma das únicas habilitadas a vender para a estatal

Coordenador do Comitê de Competitividade de Petróleo e Gás da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), e vice-presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Coester lembra que a geopolítica do Atlântico Sul, em termos de exploração de petróleo, é um tema desafiador.

Quando fala sobre o assunto, ele se entusiasma com os números. Explicou que as jazidas mais próximas encontram-se a 300 quilômetros da costa e que o helicóptero capaz de percorrer essa distância sem abastecimento sequer foi desenvolvido.

Isso demandará inovação, desenvolvimento humano e criatividade.

É possível prever a construção de navios e plataformas logísticas de abastecimento das aeronaves, desenvolvimento de plataformas de exploração e extração com enormes volumes de eletrônica embarcada, algumas inabitadas, outras com operação humana quase inexistente.

Outro aspecto levantado por Coester diz respeito à estratégia do modelo de negócio. No seu entendimento, a exploração da camada do pré-sal deve seguir o modelo adotado na Inglaterra, Canadá e Dinamarca, onde a indústria petrolífera foi concebida de tal forma que criasse efeitos positivos em toda a economia, de forma bem distribuída.

Por outro lado, devem ser evitados modelos de negócio associados à chamada maldição do petróleo, encontrados em regiões como Oriente Médio, México e Venezuela.

Trata-se da indústria petrolífera baseada exclusivamente na exploração, extração e venda de óleo cru, embarcado em navios para a industrialização em outras partes do mundo.

Nesse sistema, cresce a concentração de renda e se bloqueia o desenvolvimento sustentado da economia.

Para Coester, a economia gaúcha e seus protagonistas devem enxergar na nova configuração da indústria do petróleo uma grande oportunidade e se agarrar aos seus pontos fortes, buscando a superação dos pontos fracos.

Por exemplo: o Rio Grande do Sul produz aço, componentes eletrônicos, borracha, peças usinadas de precisão em aço e novos materiais.

Pode construir tubulações, válvulas, bombas, compressores, microchips. Terá provavelmente a primeira fábrica de semicondutores do país e poderá participar de projetos de abrangência tecnológica por conta de suas universidades e centros de inovação.

O empresário projeta uma expansão possível por parte das empresas de prestação de serviços. O Rio Grande do Sul possui uma forte indústria de transportes e logística.

Dessa maneira, cabe ao setor procurar entender como participar do sistema de transporte de pessoal, equipamentos, insumos e víveres.

Tal perspectiva requer diálogo conjunto entre o grupo de fornecedores, a indústria de construção de equipamentos e as petroleiras.

Química e Derivados, Adelar Fochezatto, presidente da Fundação de Economia e Estatística, Atualidades: Petróleo - Indústria gaúcha quer vender para a Petrobras
Fochezatto: pré-sal tem potencial para desenvolver indústria local

Por ocasião do fórum sobre o pré-sal, o vice-presidente da Fiergs, Humberto Busnello, destacou a “forte cultura empreendedora” como o maior potencial dos gaúchos.

“A indústria gaúcha precisa aproveitar o orçamento da Petrobras”, frisou, lembrando que para isso será necessário “eliminar alguns gargalos”.

Busnello recomenda desonerar os investimentos para garantir a competitividade.

“Precisamos de condições para que as empresas tenham desenvolvimento tecnológico”, pontuou.

“Taxar investimentos é desfavorável para a competitividade”, avalia o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Álvaro Alves Teixeira.

Para ele, a camada de pré-sal entre Santa Catarina e Espírito Santo se estende até a costa da África.

Os países desse continente puxarão petróleo também, com a participação até mesmo de empresas brasileiras do ramo. “São os caprichos da geologia”, pondera Teixeira.

Classificado como “bênção para o Brasil”, o pré-sal, segundo o presidente da Fundação de Economia e Estatística, Adelar Fochezatto, pode impactar o desenvolvimento da indústria.

“Os principais efeitos recairiam sobre os setores diretamente ligados à cadeia produtiva do petróleo, de máquinas e equipamentos, produtos químicos, transporte, serviços industriais de utilidade pública, como energia e saneamento”, analisou.

O desenvolvimento de novas tecnologias também foi um dos aspectos destacados no debate.

Pequenos desconfiam – Apesar dos esforços para aproximar a mina de ouro do pré-sal à realidade do empreendedor gaúcho, essas oportunidades ainda geram descrença.

A hipótese de desenvolvê-las passa por fora do horizonte das micro, pequenas e médias organizações. Guilherme Menezes, responsável do Sebrae pela área de aperfeiçoamento com vistas ao fornecimento para a cadeia de petróleo, gás e energia, afirma que a negociação direta com a Petrobras e com as futuras vencedoras dos leilões são temas para as grandes corporações.

No máximo, complementa Menezes, surgirão espaços para subcontratação e fornecimento de peças, partes de equipamentos eletromecânicos, alguns modelos de tubulações ou válvulas, que o Rio Grande do Sul já vem fornecendo.

Além desses itens, uma empresa gaúcha desenvolve e vende uma nova geração dos chamados cavalos-de-pau, as sondas de extração de petróleo em terra, mais utilizadas no Rio Grande do Norte.

Química e Derivados, Álvaro Alves Teixeira, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Atualidades: Petróleo - Indústria gaúcha quer vender para a Petrobras
Teixeira é contra os impostos sobre os investimentos

Apesar das dificuldades, a reunião dos empresários em torno do aperfeiçoamento de gestão de negócios, para atender as indústrias de energia e petróleo, já conta com alguma organização.

O vice-presidente da RS – Óleo e Gás, entidade aglutinadora dos micro, pequenos e médios empreendedores, Átila Mentz, informou a existência de quinze dessas empresas gaúchas no cadastro da Petrobras, que realizaram enorme esforço nos últimos anos para entender e participar do ambicionado mercado.

Surgiram iniciativas como o desenho de um mapa estratégico produzido em conjunto com a Refinaria Alberto Pasqualini.

Para Mentz, existe um grupo de empresas que evoluiu para o conceito de gestão avançada – de 45, 15 receberam essa avaliação. Até 2010 todas devem estar cadastradas.

Mentz afirma que acompanha o pré-sal e que num primeiro momento a nova fronteira do petróleo do país de fato não interessa às associadas da RS – Óleo e Gás, confirmando a avaliação de Guilherme Menezes.

Como a Fiergs, por meio do grupo liderado por Coester monitora as operações, ele admite, num segundo momento, entrar neste debate, mas reafirma não ser a prioridade.

Para Mentz, a urgência das micro, pequenas e médias empresas gaúchas compreende a atuação nas ampliações de refinarias, participação na construção de novos pontos de transporte de gás e de unidades de biocombustíveis.

Ele exemplifica que, depois de passar por uma duplicação completa, a Refap, próxima a Porto Alegre, entrará em obras para modernizar a parte antiga das instalações, com investimentos de US$ 100 milhões em operações de desgargalamento e reforma de equipamentos.

“Nós acompanhamos de perto o Plano Nacional de Óleo e Gás e estamos habilitados a participar das contratações também para a refinaria de Pernambuco”, complementa Mentz.

A preocupação em aumentar a participação gaúcha na indústria do petróleo, gás e energia é antiga, remonta há pelo menos dez anos.

Culminou com a criação do chamado Programa de Adensamento da Cadeia Produtiva do Petróleo e Gás e Energia.

Este operativo é comandado pela Redepetro, uma entidade capitaneada pelo governo estadual, à qual se soma o Sebrae, a própria Fiergs, o grupo de empresas interessadas, universidades e centros tecnológicos.

A coordenadora da Redepetro, Suzana Sperry, explica que de fato é um enorme desafio abrir a cabeça dos pequenos empreendedores para as oportunidades de negócios.

“Estamos criando horizontes para que os empresários possam se enxergar como fornecedores”, pontifica Suzana. De acordo com ela, a Redepetro trabalha em conjunto com a Petrobras, que cede executivos e consultorias técnicas para romper a cultura da resistência ao novo.

“O nosso microempresário tem problema para entender a dimensão estratégica, a demanda, a escala e os altos volumes de negócio que envolvem a próxima geração da cadeia de petróleo e energia do país”, reconhece a executiva.

Suzana lembra que a Redepetro do Rio Grande do Sul foi a pioneira no Brasil. Atualmente, existem redes estaduais em onze unidades da federação, mas sem a mesma finalidade.

A do Rio de Janeiro, por exemplo, aceita empresas multinacionais, independentemente do porte.

Portanto, não está empenhada necessariamente em focar sua atuação na preparação de quem precisa de fato ser preparado.

“A nossa só aceita até a média gaúcha, porque são essas que nós queremos colocar na cadeia produtiva do petróleo e gás”, reforça Suzana.

Mas a situação prática da participação gaúcha na nova corrida do petróleo registrou momentos de caos recente.

Química e Derivados, Ana Carolina Borges, gestora do Sebrae, Atualidades: Petróleo - Indústria gaúcha quer vender para a Petrobras
Carolina: falta mão-de-obra específica no Rio Grande

A gestora do Sebrae, Ana Carolina Borges, revela que para terminar a plataforma P-53, cujo casco e torres chegaram prontos à cidade portuária de Rio Grande-RS, a empreiteira contratada, a Queiroz Galvão, foi obrigada a recrutar equipes de corte e solda para as chapas, pintura e montagem de partes de equipamentos navais do Rio de Janeiro, pois descobriu que a mão-de-obra específica praticamente inexistia na região gaúcha.

Entretanto, o estado não está parado para enfrentar os desafios da nova corrida do petróleo. Rio Grande vem passando por grandes modificações em seu espaço urbano para construir duas novas plataformas inteiras e navios-petroleiros já encomendados.

Um estaleiro novo será entregue em 2010. A ampliação do calado do porto, o segundo maior do país, prossegue acelerada. Uma série de investimentos em infraestrutura está em andamento.

A cidade deverá receber obras de serviço de apoio, tais como: nova rede hoteleira, restaurantes, melhoria das instalações de logística e pavimentação.

Além disso, por conta das escolas do Senai, existem quatro mil trabalhadores em treinamento específico para atender às novas demandas da indústria naval e de construção pesada.

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