Negócios: Wacker planeja recuperar lucros em 2010

Atualidades

Após comemorar recordes de vendas e lucro líquido em 2008, a Wacker, especialista alemã em química do silício, não conseguiu se defender da crise financeira mundial nem da retração na demanda de seus clientes, e registrou queda nos principais indicativos financeiros do ano fiscal de 2009.

As vendas, que atingiram € 4,3 bilhões no frutífero ano de 2008, caíram para € 3,7 bilhões no ano passado, uma baixa de aproximadamente 14%.

O resultado foi ainda mais duramente prejudicado: o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (LAJIDA, ou EBITDA, na sigla em inglês), de € 1,06 bilhão em 2008, despencou pouco mais de 40%, para € 607 milhões em 2009, e o resultado líquido apurado no período mostrou um prejuízo de € 75 milhões, em decorrência principalmente do fraco desempenho do segmento de semicondutores.

A crise mundial foi especialmente danosa para a divisão de negócios Siltronic, uma das principais produtoras mundiais de sanduíches de silício hiperpuro, insumo vital para a indústria de semicondutores e os fabricantes de microchips.

Refletindo uma situação no mercado de semicondutores descrita pelo CEO e presidente da Wacker, Rudolf Staudigl, como “extremamente difícil”, a divisão Siltronic perdeu metade de suas vendas em 2009.

Com pressões de preços afetando os negócios em sanduíches de todos os diâmetros, o resultado da divisão, expresso na forma do LAJIDA, foi um prejuízo de € 162 milhões.

As divisões químicas da empresa (Silicones, Polímeros e Biotecnologia) se saíram bem melhor em 2009.

As vendas da Wacker Biosolutions, inclusive, apresentaram crescimento, passando de € 98 milhões, em 2008, para € 105 milhões, no ano passado.

Combinadas, entretanto, as vendas das três divisões apresentaram uma queda de 12%, de € 2,375 bilhões para € 2,088 bilhões, mas o lucro medido pelo LAJIDA, de € 286 milhões, manteve-se no mesmo nível de 2009.

Segundo Staudigl, o resultado mais favorável das divisões químicas se beneficiou “de uma substancial recuperação da demanda dos clientes durante o ano”, além dos impactos positivos de medidas para a redução de custos, e de preços mais baixos de matérias-primas e de energia que em 2008.

Química e Derivados, Silicone, Atualidades - Negócios: Wacker planeja recuperar lucros em 2010
Silicone permite lente diretamente produzida no LED

A grande vitoriosa no turbulento ano de 2009, no entanto, foi a divisão Polysilicon, responsável pela produção de silício policristalino, sílica pirogênica e clorosilanos para aplicações em semicondutores e energia fotovoltaica.

Além de ver suas vendas passarem de € 828 milhões, em 2008, para € 1,121 bilhão, em 2009, a Wacker Polysilicon comemorou a quebra da barreira do € 1 bilhão em vendas pela primeira vez.

O resultado expressivo se amparou especialmente em volumes adicionais de produção, que elevaram em 50% as quantidades fabricadas, em relação a 2008, totalizando 18,1 mil toneladas.

O LAJIDA, mesmo sem apresentar expansão tão pronunciada, cresceu 23%, de € 422 milhões para € 521 milhões, apesar de dificuldades como menores preços para as vendas de silício policristalino no curto prazo, e da saída da Wacker da joint venture Wacker Schott Solar, dedicada à produção de sanduíches de silício policristalino para aplicação em energia solar.

Química e Derivados, Rudolf Staudigl, presidente da Wacker, Atualidades - Negócios: Wacker planeja recuperar lucros em 2010
Staudigl espera retomada do crescimento em 2010

“Quando consideramos quão difícil o ambiente econômico era, especialmente no começo de 2009, o desempenho da Wacker no campo operacional foi respeitável, certamente, à exceção do negócio de semicondutores”, crê o CEO e presidente da empresa.

Ele também se mantém convicto de que as vendas e o LAJIDA da Wacker crescerão em 2010, se nada de muito grave acontecer na segunda metade do ano, uma vez que o primeiro trimestre teve resultados muito bons.

A expectativa é de que as vendas ultrapassem, novamente, a casa dos € 4 bilhões, e o lucro líquido alcance a faixa das centenas de milhões de euros.

“As macrotendências das quais nos beneficiamos continuam valendo: eficiência energética, redução de emissões de CO2, maior prosperidade em economias emergentes e o avanço da digitalização. Todas essas tendências dão combustível para os produtos da Wacker e, consequentemente, para o nosso crescimento”, disse Staudigl, que vê a economia mundial em lenta recuperação desde o segundo trimestre de 2009, com menor intensidade nos EUA e na Europa, mas com força redobrada na Ásia, especialmente na China.

A Ásia, aliás, é o maior mercado da empresa, respondendo por 34% das vendas consolidadas, ou € 1,25 bilhão. O Brasil, por sua vez, ainda não figura entre os principais consumidores de produtos da empresa, embora Staudigl veja “forte desenvolvimento” no país.

Ele atribui a posição mais modesta da empresa por aqui ao fato de os produtos da Wacker serem utilizados em tecnologias avançadas pouco disseminadas no mercado ou na indústria locais. As vendas da companhia alemã no Brasil giram em torno de € 50 milhões por ano.

Química e Derivados, Concreto hidrofóbico, Atualidades - Negócios: Wacker planeja recuperar lucros em 2010
Concreto hidrofóbico amplia isolamento térmico

Sustentabilidade – Integrando o programa global de Atuação Responsável da indústria química desde sua adoção na Alemanha, em 1991, a Wacker se apresenta como uma empresa alinhada com o desenvolvimento sustentável.

O compromisso se expressa em medidas como a redução dos resíduos gerados em suas fábricas pelo reaproveitamento de energia térmica e de subprodutos nas próprias fábricas, o desenvolvimento de processos biotecnológicos para a obtenção de produtos químicos “verdes”, ou a comercialização de produtos que contribuem para a mitigação do efeito estufa, caso do silício policristalino empregado na produção de energia solar, e do silicone utilizado na fabricação de lentes de diodos emissores de luz (LEDs, na sigla em inglês).

“Acreditamos que a maior parte do crescimento da Wacker nos próximos anos virá de produtos sustentáveis”, prevê Jörg Krey, vice-presidente sênior de desenvolvimento corporativo da empresa.

Números apresentados por Krey mostram que o potencial de crescimento do mercado de produtos químicos nas próximas três décadas é considerável.

Puxado principalmente pela elevação do nível de vida nos países chamados BRICs (Brasil, Rússia, China e Índia), o mercado químico mundial deverá dobrar nos próximos 25 anos, crescendo a uma taxa anual composta de 3,7%.

Uma das apostas da Wacker para participar desse crescimento vendendo produtos sustentáveis é a ampliação do emprego da energia fotovoltaica, que utiliza, entre outros insumos, o silício hiperpuro e os silicones produzidos pela empresa.

Para Wolfgang Storm, gerente sênior de marketing da empresa alemã, a energia solar encerra o maior potencial teórico de utilização no futuro, muito à frente da segunda colocada, a energia eólica.

A tecnologia dominante para a produção de células solares, baseada no silício policristalino, evoluiu nos últimos quinze anos, tanto em termos de eficiência energética quanto de redução da espessura dos sanduíches e do período necessário para o retorno do investimento.

E, apenas nos últimos três anos, o custo dos sistemas fotovoltaicos, na Alemanha, caiu à metade.

“A energia solar terá uma participação crescente nas fontes de energia do mundo, e o silício hiperpuro da Wacker desempenha um papel-chave para torna-lá uma das tecnologias predominantes e uma fonte de energia sustentável”, afirma Storm.

Química e Derivados, Burghausen, Atualidades - Negócios: Wacker planeja recuperar lucros em 2010
Em Burghausen, insumos “verdes” podem substituir metanol e eteno

A Wacker também vê ganhos ambientais no emprego de alguns de seus produtos em soluções de alta eficiência energética.

Um exemplo são os silicones elastoméricos, que representam cerca de um quinto do mercado mundial de silicones, avaliado em € 8 bilhões, em 2009.

Os silicones elastoméricos, segundo o Dr. Bernd Pachaly, líder da unidade de negócios Silicones de Engenharia da Wacker Silicones, têm aumentado sua participação na produção de LEDs, graças a propriedades como a resistência à radiação ultravioleta e ao calor, e por permitirem soldagens, acima dos 260ºC, livres de chumbo, bem como a fabricação e a montagem de lentes diretamente sobre chips, em uma única etapa de produção.

As aplicações são o encapsulamento de chips e a produção de lentes com alta transparência. Os LEDs, por sua vez, representam uma alternativa ambientalmente interessante para a iluminação, pois sua eficiência, entre 30% e 80%, é superior à das lâmpadas fluorescentes, próxima a 25%, e muito maior que a eficiência das lâmpadas de filamento, de apenas 5%.

Dados apresentados pelo dr. Pachaly mostram que LEDs têm grande potencial para reduzir emissões de CO2: só na Alemanha, o uso desses dispositivos poderia evitar o lançamento de 1,6 milhão de toneladas/ano de CO2, gerando uma economia de € 400 milhões anuais.

Aparelhos televisivos equipados com LEDs economizam até 50% da energia necessária para o seu funcionamento e, globalmente, 30% do consumo de eletricidade para iluminação poderia ser eliminado se os diodos fossem utilizados.

O segmento de construção civil é outra área em que há amplo potencial para a redução de emissões, particularmente nas construções residenciais, que correspondem à maior parte dos gastos do setor.

Segundo pesquisa do Deutsche Bank, datada de 2009, 40% de todas as emissões de CO2 vêm de edificações, seja pelo consumo de eletricidade ou pelo condicionamento de ar.

Uma das principais vertentes para a redução dessas emissões consiste do isolamento térmico das construções, cuja eficácia foi comprovada pela Wacker em testes em construções edificadas para esse fim em Beijing, Shanghai e Guangzhou, na China.

O experimento revelou que a economia de energia proporcionada pelo emprego de isolamento térmico chegou a 16% em Beijing, 50% em Shanghai e 45% em Guangzhou, durante o verão, e, no inverno, nas mesmas cidades, o consumo foi 40%, 35% e 37% menor, respectivamente.

A Wacker participa de aplicações de isolamento térmico com dispersões poliméricas em pó, baseadas em copolímero de acetato de vinila e etileno, utilizadas como ligante em produtos químicos com aplicação na indústria de construção.

O polímero em pó aumenta a adesão a diversos tipos de substratos, melhorando a resistência dos sistemas de isolamento térmico a intempéries e elevando sua vida útil.

Os silicones também possuem papel importante na redução do impacto ambiental de construções. Revestimentos com base em resinas de silicone possuem um caráter hidrofóbico que protegem fachadas contra a água e reduzem as transferências de calor, por permitirem que as paredes se mantenham “secas” – a condutividade térmica de um material isolante úmido pode ser até 50% maior que a condutividade do mesmo material quando seco.

Essas tintas, por outro lado, possuem uma certa permeabilidade que favorece a evaporação da umidade, ampliando o efeito de isolamento térmico.

Dados da Wacker mostram que a proteção de paredes com revestimentos com base em silicone pode reduzir o consumo total de aquecimento de uma casa em 4,6%.

Além disso, os custos de manutenção das fachadas podem ser reduzidos quase à metade, no longo prazo, se a pintura tradicional é substituída pelo revestimento hidrofóbico.

Fontes renováveis – O esforço da Wacker para tornar suas atividades mais sustentáveis poderá levá-la a substituir parte de seus principais insumos industriais por sucedâneos derivados de biomassa na sua principal instalação industrial, localizada em Burghausen, na Alemanha, próximo à fronteira com a Áustria.

Esse parque industrial é alimentado por quatro matérias-primas principais: etileno, metanol, sal-gema e silício metalúrgico.

Graças ao avanço da biotecnologia, e dados os preços crescentes das matérias-primas petroquímicas no mercado mundial, a empresa estuda alternativas para a substituição do etileno e do metanol, obtidos do petróleo, por insumos renováveis, nesse caso, o ácido acético biotecnológico e o etileno derivado de bioetanol.

Segundo informações de Fridolin Stary, vice-presidente sênior de Pesquisa e Desenvolvimento Corporativos, a Wacker iniciou, em 2009, a produção de ácido acético obtido de etanol em uma planta piloto com capacidade para 500 t/ano.

O ácido é obtido da oxidação em fase gasosa de etanol, produzido, por sua vez, da fermentação de biomassa, realizada por leveduras.

Conforme afirmou Stary, o processo leva a excelentes rendimentos, superiores a 90%, e boa seletividade, que poderia ser melhorada com o desenvolvimento de um catalisador otimizado.

Outra vantagem está no fato de que essa rota de produção evita a formação de ácido fórmico, um produto químico muito corrosivo e que destrói o aço comum.

O sucesso na produção do ácido acético usando biotecnologia tornaria a Wacker livre do metanol, que é utilizado exatamente na obtenção do ácido. Para Stary, entretanto, a rota preferida no futuro para a obtenção do ácido acético deverá ser a fermentação “homoacética”.

Nesse processo, o ácido acético é obtido pela fermentação de açúcares por bactérias estritamente anaeróbicas.

Até o momento, porém, a cinética dessas reações não é rápida o suficiente para as necessidades industriais.

Para conquistar a independência total das matérias-primas petroquímicas, a Wacker também está apostando na obtenção de etileno pela desidratação do bioetanol, a princípio derivado da cana-de-açúcar.

Após o sucesso com a planta piloto de ácido acético, uma nova deverá ser construída para a produção do etileno “verde”.

Stary, que viveu muitos anos no Brasil, se mostrou atento às polêmicas envolvendo as condições de trabalho na indústria canavieira local – afinal, o pilar social da sustentabilidade não pode se compatibilizar com trabalho escravo ou infantil, se ele existir – e, caso a Wacker venha se abastecer de bioetanol brasileiro, será cuidadosa na seleção de seus parceiros.

No futuro, no entanto, Stary acredita no sucesso das biorrefinarias de 2ª geração, que utilizam como matérias-primas as plantas inteiras ou o seu bagaço, o que livraria a Wacker também da dependência da indústria de cana.

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