Empresas: Basf planeja crescer 8% na América do Sul

Atualidades

Processos fermentativos sobre matérias-primas naturais e renováveis serão os alicerces do futuro da indústria química.

Essa é a avaliação de Alfred Hackenberger, presidente da Basf para a América do Sul desde 1º de maio, substituindo Rolf-Dieter Acker, que se aposentou.

Ele assume o cargo após a região (incluindo os negócios no Oriente Médio e África) ter registrado em 2009 uma redução de 2% em relação aos três bilhões de euros em vendas do ano anterior.

Hackenberger, químico e doutor em Química Orgânica pela Universidade de Saarland, na Alemanha, presidia o centro global de competência para pesquisa de especialidades químicas da companhia.

Antes disso, foi vice-presidente do grupo para os negócios de química fina na região Ásia-Pacífico, cargo que o manteve por quatro anos em Hong Kong.

Em 29 anos de trabalho na Basf, ele desempenhou atividades nas áreas de pesquisa, marketing e comercial, incluindo uma temporada de oito anos no Brasil, entre 1987 e 1995, durante a qual chegou a dirigir a divisão de químicos.

Essa alternância entre posições de­ pes­quisa e em áreas operacionais ou comerciais é uma característica de uma carreira profissional na Basf, como explicou:

Química e Derivados, Alfred Hackenberger, Presidente da Basf, Atualidades - Empresas - Basf planeja crescer 8% na América do Sul
Hackenberger: futuro da indústria química está nas fermentações

“Químicos, físicos e biólogos só são contratados para atuar em pesquisas, atividades que exercem por alguns anos até serem convidados para ingressar em outras áreas”.

Aproximadamente a metade desses cien­tistas aceita a oportunidade.

“Isso é muito saudável para a companhia porque as análises de novos investimentos exigem dos executivos o conhecimento não só do negócio, mas também dos processos produtivos e da sua tecnologia”, disse. Aliás, a Basf é ciosa da sua estratégia de verticalização produtiva (verbund, em alemão).

Aos 59 anos, Hackenberger assume o comando regional com a meta de alcançar crescimento anual de 8%.

Como explicou, essas metas já estavam traçadas na estratégia de longo prazo da companhia, denominada Estratégia 2020.

O plano para a região prevê ampliar a base de crescimento nos negócios de produtos agroquímicos e de tintas, além de identificar novas oportunidades nas áreas químicas.

Espera-se que a companhia invista aproximadamente 250 milhões de euros entre 2010 e 2014 na região, que possui uma base industrial sólida, especialmente em Guaratinguetá-SP, onde são produzidas 288 mil t/ano de quase 1,5 mil produtos diferentes, entre monômeros, polímeros, pigmentos e agroquímicos.

Conta também com a produção de tintas em São Bernardo do Campo-SP; de produtos inorgânicos, intermediários e petroquímicos em Camaçari-BA; catalisadores automotivos em Indaiatuba-SP; sistemas poliuretânicos em Mauá-SP; aditivos de concreto e produtos para construção civil no bairro paulistano da Vila Prudente.

Na Argentina e no Chile há fábricas de tintas, dispersões e preparações variadas.

Opera essa base industrial um contingente de mais de 4,5 mil colaboradores, muitos deles com alta qualificação.

“Ter uma indústria química bem estruturada é condição fundamental para o desenvolvimento de um país, é uma base para outras indústrias”, comentou Hackenberger.

O Brasil, por exemplo, apresenta um elevado potencial produtivo nas áreas de mineração e agropecuária, mas precisa desenvolver atividades industriais mais sofisticadas para elevar o valor do produto nacional como um todo.

Na estratégia de negócios, as commodities químicas precisam ser produzidas próximas aos pontos de consumo, impedindo que os custos de transporte superem o valor da produção. Aliás, o transporte químico costuma ser caro, dados os requisitos de segurança a ele aplicados.

Os produtos de química fina não seguem essa lógica, pois são movimentadas pequenas quantidades de alto valor. Porém, o desenvolvimento desse tipo de produto exige alto investimento em pesquisas.

A Basf aplica 1,4 bilhão de euros a cada ano em atividades de pesquisa e desenvolvimento, valor que não foi abatido nem mesmo durante a recente crise econômica global.

Em geral, cada pesquisa é bancada pelo departamento operacional da companhia que a solicita, compreendendo projetos de maturação entre três e cinco anos.

Os trabalhos na linha agroquímica demandam mais tempo, chegando a dez anos. Nesses casos, o objetivo é melhorar os produtos existentes ou criar variações deles.

Quando as pesquisas não têm um objetivo comercial imediato, implicando um risco elevado de não gerar rendimentos, ou seja, atividades mais ligadas à ciência básica, elas são realizadas no âmbito corporativo, que consome aproximadamente 23% do orçamento anual de pesquisas da Basf. Um exemplo citado por Hackenberger é a criação dos painéis fotovoltaicos biológicos.

“Os painéis convencionais usados atualmente para transformar radiação solar em eletricidade aproveitam uma faixa muito estreita do espectro de luz incidente”, salientou.

“Usando moléculas orgânicas diferentes empilhadas é possível aproveitar uma faixa maior desse espectro, com mais eficiência e menor custo.”

Essas moléculas contêm anéis aromáticos, cujas ressonâncias podem ser estimuladas pela luz para provocar saltos de elétrons que são capturados nas camadas intermediárias do painel.

A Basf desenvolve pesquisas com esse tipo de painel há seis anos e espera ter as primeiras células prontas para comercialização em um ou dois anos. “É uma pesquisa de alto risco que foi aceita pela corporação”, disse.

O futuro da química, porém, está nos processos fermentativos.

“Serão produzidos vários building blocks [tijolinhos] de base natural para compor os produtos químicos necessários”, comentou. Já existe tecnologia para produzir esses tijolinhos de açúcares, de celulose ou de resíduos. O problema, segundo Hackenberger, está na fase de purificação.

“São fermentações realizadas em meio aquoso e esse tijolinhos contêm ligações com oxigênio que lhes confere caráter hidrofílico, isso quer dizer: fica difícil e caro fazer a separação da água”, explicou.

As pesquisas da companhia indicam que o ácido succínico será a molécula chave desses bioprodutos. “Temos uma planta piloto na Alemanha que usa glicerina de biodiesel em um processo de fermentação anaeróbia, que tem a vantagem de aproveitar o gás carbônico existente e liberar ar puro”, afirmou.

O ácido succínico pode reagir com álcoois naturais (como o etanol brasileiro) ou de origem petroquímica (butanol, por exemplo) dando origem a poliésteres. Ele também pode ser usado para a produção de butenodiol, um importante building block para sínteses posteriores.

A vasta experiência em pesquisas permite a Hackenberger analisar com propriedade a evolução das técnicas empregadas. Ele admite que a taxa de sucesso no desenvolvimento de novas moléculas sofisticadas, como fármacos e agroquímicos, é menor do que foi no passado.

“Mas hoje temos mais ferramentas disponíveis, incluindo softwares para design de moléculas, que aceleram muito os trabalhos e evitam desperdícios”, disse.

Ele mesmo atuou no desenvolvimento de testes in vitro para substituição de ensaios in vivo, por meio de sistemas biotecnológicos capazes de simular os efeitos com alta precisão. “Apenas os testes de longa duração ainda são feitos com animais”, explicou.

Uma área que poderá ter importância crescente nos negócios da Basf no Brasil está nos produtos para aumentar a recuperação de petróleo nos poços.

“O desafio consiste em encontrar dispersantes, surfactantes e espessantes que suportem as altas temperaturas e a salinidade dos poços profundos e, além disso, serem biodegradáveis”, comentou. Os poços do pré-sal, por exemplo, atingem temperaturas acima de 100ºC.

A Basf já vende algumas formulações desses produtos para reservatórios com temperaturas menos altas, especialmente na Argentina, onde a subsidiária petroleira Wintershall opera com a tecnologia de recuperação avançada (enhanced oil recovery). No Brasil, a companhia vende anti-incrustantes para a produção de petróleo.

Além dessa oportunidade, a Basf já identificou outra, dessa vez no campo dos biocombustíveis: está construindo em Guaratinguetá-SP uma fábrica para 60 mil t/ano de metilato de sódio, um catalisador para a produção de biodiesel, que entrará em operação em 2011.

Nos agroquímicos, a companhia conseguiu a aprovação oficial para comercializar a soja geneticamente modificada Cultivance, desenvolvida em parceria com a Embrapa. Essa variedade é tolerante a herbicidas e tem comercialização prevista para a safra 2011/2012.

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