Biotecnologia : Software espanhol calcula riscos ambientais químicos

Atualidades

Um gigantesco passo na direção da biorremediação, um dos campos mais promissores da biotecnologia, foi realizado por uma equipe de pesquisadores espanhóis.

Elaborado pelo Centro Nacional de Biotecnologia, em Madrid, um software prevê a biodegradabilidade de compostos químicos e já analisou mais de 9 mil produtos.

Apesar de seus custos ainda proibitivos, há apenas alguns anos, uma das novidades assimiladas com simpatia por inúmeros agricultores e ambientalistas do mundo todo era a possibilidade de utilizar microrganismos na recuperação de ambientes comprometidos por resíduos tóxicos.

Paradoxalmente, o descaso institucional – somado à irresponsabilidade de muitos complexos industriais aliada à carência de alternativas para o tratamento dos poluentes – transformou-se no grande parceiro do desenvolvimento da biorremediação.

A técnica, até hoje, era considerada uma verdadeira revolução e uma solução definitiva e pouco invasiva para o equilíbrio dos ecossistemas.

Diferentes microrganismos degradam as mais variadas substâncias e alguns sobrevivem em condições extremamente adversas.

Mas, e se fosse possível prever o impacto causado por novos produtos químicos antes mesmo que estes chegassem ao mercado?

A idéia futurista acabou se transformando em realidade por pesquisadores do Centro Nacional de Biotecnologia da cidade de Madrid e promete assumir o status de braço direito dos processos de biodegradação in situ.

Evitando riscos– Victor de Lorenzo, membro do European Environmental Research Organization e coordenador do departamento de biotecnologia microbiana do centro espanhol, desenvolveu um software capaz de calcular os riscos ambientais inerentes à produção, transporte e eliminação de substâncias químicas.

Química e Derivados, Victor de Lorenzo, Membro do European Environmental Research Organization e coordenador do departamento de biotecnologia microbiana do centro espanhol, Atualidades - Biotecnologia - Software espanhol calcula riscos ambientais químicos
Lorenzo identifica compostos degradáveis

“A quantidade de novos produtos químicos está superando a nossa habilidade em prever quais deles serão assimilados por microrganismos”, afirma o pesquisador.

“Nos últimos cinqüenta anos conseguimos obter informações sobre a decomposição de apenas 900 compostos, mas sobre milhares deles ainda não há dados disponíveis”, lembra.

Hoje, os estudiosos avaliam que o número de compostos orgânicos e artificiais presentes na biosfera oscila entre 8 e 16 milhões de espécies moleculares e que mais de 40 mil delas estão presentes em nosso cotidiano.

Conhecido internacionalmente por seus avançados estudos nas áreas de biologia molecular e engenharia genética de microrganismos para biorremediação ambiental, Lorenzo conseguiu desenvolver um algoritmo capaz de distinguir as moléculas biodegradáveis daquelas que resistem ao processo de decomposição.

Com base em detalhadas informações contidas em um banco de dados sobre reações de biodegradação e focalizando a análise em grupos de tríades atômicas, o software antecipa o destino biológico dos compostos químicos.

De um modo geral, as substâncias orgânicas são decompostas graças à ação microbiana que, por meio de uma cisão, consegue transformá-las em moléculas com uma cadeia, via de regra, composta por três átomos.

Até agora, o software produzido pela equipe de pesquisadores espanhóis catalogou, exatamente, 149 tríades; com isso é capaz de prever a capacidade de biodegradação de quase 80% dos compostos químicos existentes, de acordo com as condições ambientais a que são submetidos.

Herbicidas e danos ambientais – O banco de dados contém informações sobre compostos como aminobenzoato, acrilonitrilo, antraceno, cianamida, organomercúrio, tetraclorobenzeno e m-xileno.

Das análises realizadas em mais de 9 mil produtos químicos industriais, o software revelou que 112 compostos não são biodegradáveis e que os herbicidas são um dos compostos mais resistentes ao metabolismo microbiano.

Na Europa, a atenção dispensada pelas autoridades comunitárias ao tema dos herbicidas é cada vez maior. No último mês de julho, em uma decisão histórica, o tribunal de primeiro grau da União Européia proibiu o uso do Paraquat, um dos componentes principais do Gramoxono, herbicida largamente empregado no mundo todo.

O produto, fabricado pela Syngenta, multinacional de origem suíça, é acusado de provocar danos no sistema nervoso humano e animal e, em sua sentença judicial, a corte européia criticou severamente a comissão responsável, porque seus membros não examinaram atentamente a toxicidade do produto antes de autorizar a sua comercialização, em 2003.

Agora, com o software desenvolvido pelos pesquisadores espanhóis, a possibilidade de evitar danos similares está à disposição de todos os profissionais da área.

No site www.pdg.cnb.uam.es/BDPSERVER/ qualquer usuário poderá acessar o banco de dados, denominado BDP (Biodegradation Prediction Server). Basta digitar a descrição do composto para obter as informações sobre a sua degradabilidade.

Atualmente, o sistema utiliza os dados que foram atualizados, em 2003, pela Universidade de Minnesota e cada composto é classificado em um dos seguintes grupos: NB, não-biodegradável (353 compostos); CM ou compostos de metabolismo central (533); e CD ou compostos de dióxido de carbono (329).

Um quarto grupo, denominado CMCD, reúne os compostos relacionados ao metabolismo central ou dióxido de carbono.

É interessante notar que, segundo os testes realizados pelos pesquisadores espanhóis, inicialmente mais de dois terços dos compostos analisados poderiam ser classificados como material biodegradável.

No entanto, reiterando os testes, 47% dos compostos se revelaram, surpreendentemente, não-biodegradáveis.

Além dos testes apontados anteriormente, cada composto também é descrito em termos de seu peso molecular, classe de solubilidade e valor de solubilidade, indicada em g/100 ml.

Outro aspecto interessante do banco de dados coordenado pela universidade americana é o seu caráter open-source.

Seguindo uma tendência mundial, a instituição acadêmica permite que profissionais do setor possam colaborar espontaneamente com o projeto.

Cada interessado remete à universidade seus estudos sobre qualquer composto, que antes de ser publicado é rigorosamente avaliado por um Scientifi c Advisory Board.

A confiança na exatidão dos resultados do software é tanta que os pesquisadores espanhóis também esperam que seus estudos possam fornecer informações fundamentais para o European Chemical Bureau.

Tal organismo é responsável pela regulamentação de 3.365 substâncias perigosas que devem seguir rígidas normas de embalagem e identificação, conforme prevê a diretiva 67/548 da Comissão Européia.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios