Ambiente : Sistema de gestão apóia cultura da ecoeficiência

Atualidades

O interesse na proteção ambiental e no desenvolvimento sustentável cresce cada vez mais e de forma irreversível.

Da mesma forma que as megacorporações, as pequenas também são pressionadas a apresentar resultados em favor do meio ambiente.

A implementação de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) pode auxiliar de diversas maneiras a adotar a cultura da ecoeficiência.

A avaliação é do consultor internacional em implantação de programas de produção mais limpa, elaboração de projetos para aquisição de ISO 14000/14001 e especialista em controle ambiental, o engenheiro químico gaúcho Paulo Jost.

Com base em uma série de informações vinculadas ao tema da produção ambientalmente correta, Jost ministrou o curso Gestão Ambiental: ISO 14001 na Teoria e na Prática, promovido pela Associação Brasileira de Química,em Porto Alegre, iniciado em maio e concluído em agosto último.

Paulo Jost lembrou que até a primeira metade do século XX predominou a mais completa ignorância sobre os reflexos do impacto ambiental industrial.

Na década de 60, surgiu a percepção sobre o custo gerado pelo progresso e isso fez nascer a conscientização sobre seus limites, mas permanecia o dilema da dispersão e diluição dos agentes poluentes.

Na década seguinte, ocorreu uma mudança importante de mentalidade baseada na preocupação em legislar.

Com a quantificação do rastro de poluição provocado pelas descargas das empresas, começam a aparecer os primeiros parâmetros legais sobre impacto ambiental, ainda em um nível permissivo, do tipo pode-se desperdiçar alguns miligramas por litro.

Portanto, o tratamento passa a ser exigido dentro do que se denomina atualmente tecnologia fim de tubo.

Geravam-se efluentes e seus prejuízos eram remediados pós-processo.

Nos anos 80 surge ainda na Europa a idéia da reciclagem e recuperação de materiais.

Jost trouxe ao Brasil o primeiro programa de produção mais limpa chancelado pelas Nações Unidas, em 1994, por meio de um intercâmbio com o Ministério do Meio Ambiente da província de Ontário, no Canadá, onde realizou diversos cursos.

Com base no conceito identificado na sigla P4 (Programa de Prevenção da Poluição), implantadoem Santa Catarinae denominado Programa da Qualidade Ambiental na Indústria Catarinense.

No Vale Químico do Canadá, Jost conheceu o sistema de segurança da região, onde predominam as instalações petroquímicas daquele país, com 40% do processamento de derivados de nafta, à beira do rio Santa Clara.

O curso de água é monitorado em tempo integral por sensores de presença para substâncias químicas. Há uma preocupação especial com o escape de tolueno e xileno, por isso o monitoramento biológico do ecossistema original com fauna e flora preservadas também serve de indicador das condições do rio.

Na Europa, complementa Paulo Jost, esse tipo de programa é denominado Cleaner Production, Produção Mais Limpa,em português.

O começo efetivo no Brasil ocorreu a partir de 1995, por meio de um projeto da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) que resultou na criação do Centro Nacional de Tecnologias Limpas, vinculado ao Serviço Nacional da Indústria (Senai) e diretamente subordinado ao Unido, o organismo das Nações Unidas responsável pela organização do desenvolvimento industrial.

Em comparação com o mundo desenvolvido, Jost aponta um atraso de dez anos no Brasil em relação aos conceitos de produção mais limpa.

“O primeiro trabalho ocorreu no Centro Tecnológico do Couro do Senai de São Leopoldo, porque o curtume é potencialmente muito poluente”, recorda Jost.

“O País não foi proativo e só começou a se mexer em 1996, adotando práticas corretas em 2004, quando da primeira edição da ISO 14000.

“A China, que nem tem legislação ambiental, já é o segundo país em certificação 14000, porque as empresas sabem que sem isso não exportam.”

Todo o ciclo de produção está baseado na eficiência e nas tecnologias disponíveis para melhorar a qualidade dos processos, diminuindo custos com matéria-prima e consumo de energia, promovendo o melhor desempenho ambiental por meio da redução na fonte de resíduos e emissões, e reduzindo o impacto ambiental dos produtos em todo o seu ciclo de vida, modificando até mesmo o design, a fim de criar manufaturados ambientalmente amigáveis a custos competitivos.

Jost cita o caso de uma indústria de celulose onde uma flange a 302ºCdesperdiça mil reais por ano em perda térmica. Como essa indústria possui quase cem dessas flanges, isso significa um prejuízo anual de R$ 100 mil.

Como estão anos-luz na dianteira, os países do primeiro mundo começam a mudar o conceito do que pretendem produzir.

Química e Derivados, Paulo Jost, Engenheiro químico, Atualidades - Ambiente - Sistema de gestão apóia cultura da ecoeficiência
Jost: Brasil está atrasado em produção mais limpa

“Eles querem desmaterializar, produzir software, nanotecnologia, novos materiais com a menor quantidade de matéria possível. Querem deixar para o mundo em desenvolvimento o hardware, que é a indústria difícil, que necessita de neutralização do impacto ambiental. Querem fazer pen drive, iPhone. Reação química fica para nós, mas podemos fazer com responsabilidade.”

Jost enfatizou esse aspecto durante o curso da Associação Brasileira de Química. Para ele, tudo passa pela gestão do sistema ambiental. Isso se traduz em criar estrutura organizacional adequada, atividades de planejamento, responsabilidades, práticas, procedimentos, processos e recursos para desenvolver, implementar, atingir, analisar criticamente e manter a política ambiental, com uma abordagem estruturada e sistemática, controle dos aspectos ambientais, conformidade com as normas, melhoria do desempenho ambiental, experiência favorável com a gestão da qualidade total (GQT).

Dessa maneira, no conceito de Jost, gestão ambiental é responsabilidade corporativa integrada com processos de melhoria: diagnóstico preliminar, produtos e serviços, instalações e operações, esforço comum, educação dos empregados, serviços e assessoria ao cliente, estratégia de prevenção, fornecedores e empreiteiros, preparação para emergências, transferência de tecnologia, pesquisa, desenvolvimento, abertura a preocupações, conformidade e relatórios.

Outro quesito: considerar as opiniões das partes interessadas, antecipar e cumprir com os requisitos legais, melhorar continuamente para minimizar os impactos adversos de suas operações. Mais uma dica.

O projeto de um SGA é contínuo e interativo, pois consiste na definição, documentação e melhoria contínua das capacidades requeridas em termos de treinamento.

Para tanto, devem existir sistemas de informação, recursos, documentação de processos e procedimentos operacionais, critérios de medição e monitoramento.

Os benefícios de um SGA eficaz se relacionam com o controle de custos (rendimento de matérias-primas, energia, entre outros), menos incidentes (não-conformidade legal).

Demonstra que foi feito o melhor e sempre resulta em melhoria das relações públicas e com os investidores, bancos, seguradoras, órgãos ambientais e outras partes interessadas.

É recomendado que uma organização analise criticamente e aperfeiçoe continuamente o sistema de gestão ambiental, com o objetivo de aprimorar seu desempenho ambiental global.

Se a empresa tiver como comprovar na prática, mesmo sem a certificação ISO, ela não deixa de exportar.

A certificação é cara e no Brasil somente as grandes empresas conseguem fazer a atualização. Produção mais limpa é fazer mais com menos.

“Compre um manual e siga suas planificações e você não deixará de exportar”, aconselha Jost.

Química tem ótimos exemplos – Para Jost, a indústria química é uma liderança em gestão ambiental e produção mais limpa.

“Por sinal, foi uma empresa do ramo, a 3M, que em 1977, quando ninguém pensava em realizar programas de produção mais limpa, criou o 3P, com base na concepção de que prevenção da poluição se paga com diminuição de emissões, redução de consumo de matérias-primas e menor consumo de energia.

Com isso, a 3M reduziu o gasto em energia em 20%, de2000 a2005, em suas 52 plantas industriais espalhadas pela economia global. Quando o tema é produção mais limpa, o consultor ressalta algumas convicções baseadas em dados técnicos. “Quem tem liderança em produção mais limpa normalmente lidera o mercado mundial, como é o caso da DuPont, a maior empresa química do mundo.”

Conforme o especialista, o grupo norte-americano estabeleceu metas para uso de energia até 2010, tais como: estabilizar o uso energético nos volumes de 1990, mesmo com as altas taxas de crescimento da empresa.

A DuPont tem mais de 70 plantas, em 70 países, e 75 projetos de eficiência energética. Em média, cada projeto retorna 250 mil dólares por ano em economia.

Quem confirma as apreciações de Jost é o próprio presidente e Chief Executive Offi cer (CEO) da DuPont, Charles Holliday Jr.

Ele anunciou, em janeiro, que a companhia está ampliando seus compromissos de sustentabilidade e expandirá suas ofertas de negócios direcionadas à segurança, meio ambiente, energia e clima no mercado global e prolongou suas metas até2015.

Acompanhia espera que o conjunto desses esforços se traduza em receitas adicionais de US$ 6 bilhões ou mais até aquele ano.

Holliday anunciou o programa de sustentabilidade 2015 da DuPont em uma videoconferência global assistida por acionistas, representantes do governo e funcionários, além de comunidades de negócios, finanças, científicas, acadêmicas e ambientais e do públicoem geral.

O CEOdisse que a DuPont – uma das primeiras companhias a estabelecer publicamente suas metas ambientais há quase vinte anos – está ampliando seus compromissos com a sustentabilidade para além de uma redução no impacto ambiental nos mercados em que a empresa atua, para incluir objetivos voltados ao mercado, gerar receita e investir em pesquisa e desenvolvimento.

O executivo acrescentou que a DuPont também redefiniu suas metas ambientais – pois a maioria será alcançada em 2010.

“Nossa prioridade máxima é criar valor para nossos acionistas. Faremos isso oferecendo soluções sustentáveis por meio de nossa ciência e da inovação”, disse Holliday.

Para ele, o crescimento sustentável não é uma meta distante para 2015. Está relacionado aos produtos e serviços já existentes no mercado e com aqueles que estão sendo desenvolvidos em laboratórios de pesquisa e desenvolvimento.

O programa de sustentabilidade da DuPont abrange todas as operações da companhia – desde a pesquisa e o desenvolvimento até a manufatura e o marketing das soluções.

Os objetivos estão diretamente ligados ao crescimento dos negócios, especificamente ao desenvolvimento de novos produtos mais seguros, ambientalmente melhores e orientados a todos os mercados globais, incluindo transporte, construção, agricultura, alimentação e comunicação.

Holliday revelou que atualmente as receitas da companhia originárias das ofertas de produtos de segurança e meio ambiente têm um ritmo de crescimento anual duas vezes superior ao restante dos ingressos.

Com isso, o grupo dobrará seu investimento em programas de Projeto e Desenvolvimento em benefício do meio ambiente. Por sua vez, terão um impacto positivo para clientes e consumidores ao longo de toda a cadeia de valor.

Até 2015, a DuPont aumentará em outros US$ 2 bilhões sua receita com produtos que criem eficiência energética e permitam aos clientes uma redução significativa das emissões de gases do efeito estufa.

A corporação norte-americana estima que esses produtos representem 40 milhões de toneladas de CO2 que deixarão de ser lançadas no meio ambiente.

Para tanto, o propósito é dobrar a receita anual para US$ 8 bilhões utilizando recursos renováveis.

Se compromete a reduzir o consumo de água em pelo menos 30% durante os próximos dez anos, nas instalações localizadas onde o suprimento de água potável renovável é escasso ou se esgotou, de acordo com a análise das bacias fluviais do planeta realizada pelas Nações Unidas.

Em todos os outros locais, a DuPont manterá os atuais níveis de consumo reduzido até 2015, compensando qualquer aumento por meio de práticas de conservação, reutilização e reciclagem.

Ainda assim, o grupo irá reduzir o consumo de combustível de suas frotas com adoção de tecnologia de ponta em consumo eficiente de combustíveis e de novas fontes de energia.

Com relação às emissões de alto risco, desde1990, aDuPont tem reduzido em 92% as emissões que podem afetar a saúde humana – índice muito superior ao das exigências legais.

As metas terão fiscalização externa. A empresa irá contratar uma auditoria para checar itens como eficácia de seus sistemas e objetivos de gestão ambiental.

Essas informações serão levadas ao público e às comunidades locais. A normativa vale para todas as unidades operacionais da empresa espalhadas pelo mundo.

Outra empresa que vem propagando a cultura dos valores ambientalmente corretos é a Basf. Em recente relatório chancelado por sua diretoria no Brasil, a corporação produziu um histórico de sua jornada em busca de uma indústria química ambientalmente adequada.

“Mais do que reduzir a geração de efluentes, emissões e resíduos, a Basf atua na prevenção e minimização dos impactos ambientais das atividades produtivas e se coloca como signatária de todos os protocolos ambientais traçados a partir de 1992 e pela chamada agenda 21 produzidos na ECO 92, no Rio de Janeiro”, afirma o documento. E continua:

“Esse foi um reconhecimento dos muitos e sérios problemas essenciais a serem enfrentados globalmente, há necessidade de ampliar não só a colaboração entre governos, mas também com inúmeros outros atores não-governamentais tais como indústrias, sindicatos, consumidores, organizações não governamentais (ONG), grupos de cidadãos, corporações profissionais e instituições científicas, transformando- se em um problema não só de governabilidade, mais restrita ao papel dos Estados e governos, mas de governança, nos níveis internacional e nacional.”

Antes mesmo do final da década de 80 do século passado, a Basf já se preocupava sobre o tema, adotando, globalmente em 1990, o Responsible Care, que no Brasil recebe o nome Programa Atuação Responsável.

Aqui, ele é coordenado pela Associação Brasileira da Indústria Química e foi implementado a partir de 1992, sendo a filial brasileira da Basf uma das primeiras signatárias.

“Mais do que reduzir a geração de efluentes, emissões e resíduos, a intenção é atuar preventivamente para minimizar o impacto das atividades, garantindo a sustentabilidade da empresa e da sociedade”, explica Odilon Ern, diretor regional de meio ambiente.

A iniciativa prevê a gestão responsável pelas indústrias químicas de todo o ciclo de vida do produto, desde a concepção até o descarte final.

Esse sistema, adotado pela Basf como base para a gestão ambiental, também atende aos requisitos das normas, como a ISO 14001.

“A Atuação Responsável da Basf é um diferencial competitivo para os seus produtos e clientes”, salienta Ern.

Ern confirma que, em2006, aempresa investiu 3,6 milhões de euros na gestão de saúde, segurança e meio ambiente de suas unidades na América do Sul.

Uma parte desses recursos foi destinada à modernização e automatização da Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) e do incinerador de resíduos, no Complexo Químico de Guaratinguetá.

Isso permitiu maior eficiência do sistema e a redução no consumo de matérias-primas em aproximadamente 2,5 mil toneladas por ano e 25% de diminuição na geração de lodo.

O projeto incluiu a adoção do modal ferroviário para o transporte de matéria-prima e produtos do Complexo Químico da Basf em Guaratinguetá até o Porto de Santos. Com isso, 6 mil caminhões deixaram de circular por ano nas rodovias do Estado de São Paulo.

Outra iniciativa foi a implementação do ECO-T (Environmental Cost Optimization Tool), voltado à redução de resíduos e de custos de produção, incluindo a diminuição das perdas de matérias-primas e produtos acabados, com a prevenção de poluição.

Há ainda um programa de desenvolvimento de uma política de diálogo permanente com as comunidades vizinhas às suas unidades produtivas, por exemplo, por meio de conselhos consultivos comunitários, compostos por lideranças da empresa e da comunidade, e serviço de atendimento telefônico 24 horas por dia, o Disque Ecologia. Nos últimos dez anos, os indicadores ambientais da Basf no Brasil têm melhorado ano após ano.

Entre dados, a empresa destaca a redução de 78% de consumo de água por tonelada produzida, 55% de economia do total de água captada do Rio Paraíba do Sul, e 62% de geração de efluentes a menos. Na rasteira do  reaproveitamento de PET, a empresa retira 50 milhões de garrafas do meio ambiente. O projeto, desenvolvido pela Suvinil, utiliza a resina para compor a formulação das tintas e vernizes.

Na visão de Ern, as vantagens da utilização de garrafas PET, previamente processadas pela recicladora, são inúmeras: melhoria na performance do produto, redução de custo e consumo de matérias-primas não renováveis, diminuição em 40% da quantidade de água de reação gerada na produção de resinas, além da geração de empregos. Cada lata de esmalte produzida retira seis garrafas do ambiente.

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