Ambiente: Feira Ecotech estréia com apelo institucional

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A estréia da versão nacional da Ecotech foi modesta, mas teve como ponto alto a presença de entidades nacionais e internacionais, a exemplo da Organização das Nações Unidas, por meio de representantes do Programa para o Meio Ambiente (Pnuma).

Com presença de público estimada em 2 mil visitantes para aproximadamente 30 expositores e um seminário ligado a temas ambientais, a promoção ocupou parcialmente o pavilhão amarelo do Center Norte Expo, em São Paulo, de 7 a 9 de junho, e deve ganhar densidade no futuro.

Essa é a expectativa de Cláudio Stefanini Filho, diretor da Gessulli Eventos, de Porto Feliz-SP, ligada ao grupo Gessulli Agribusiness, organizador também da Flaias, Feira Latino-Americana da Indústria Avícola e Suinícola.

O sucesso desta atraiu o interesse da holandesa Royal Dutch Jaarbeurs, um dos gigantes mundiais de feiras e exposições atuante em 15 países, promotor da VIV Europe, congênere da Flaias, tendo sido promovida a VIV América Latina, voltada à produção de proteína animal, em cooperação entre os grupos, já em 1996.

A Jaarbeurs realiza 150 feiras por ano, entre as quais a Ecotech, com promoções na Europa (na Holanda, iniciada em 1982, contando com 347 expositores) e na Turquia (34 expositores no ano passado).

Ainda neste ano, a Índia sediará promoção similar. Ante o grande potencial brasileiro na área ambiental, as empresas se uniram em joint venture para formar a Ecotech América Latina 2000.

Química e Derivados, Stefani: reservado espaço para 2001
Stefanini: reservado espaço para 2001

“Trata-se de feira de caráter internacional, com perfil amplo de temas, embora voltados para a área industrial”, comentou. “O nosso diferencial é a alta qualificação dos visitantes, que foi verificada pelo expositores.”

Stefanini já confirmou para junho de 2001 a próxima Ecotech, porém tomando o cuidado de não marcá-la na semana mundial de meio-ambiente, como na inaugural.

“Os expositores pediram datas fora da semana mundial porque há muitas promoções nesse período”, explicou.

O seminário realizado entre empresários e técnicos especializados destacou práticas de gestão ambiental, inclusive com a apresentação de casos reais.

Prêmio ambiental – A feira começou com a apresentação do Prêmio Ambiental von Martius, instituído pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, com patrocínio da Henkel e apoio do Ministério da Cultura.

“O prêmio será concedido anualmente para iniciativas de empresas, poder público e indivíduos que promovam o desenvolvimento econômico com respeito ao ambiente”, explicou Ricardo Rose, diretor de meio-ambiente da câmara.

Podem concorrer ao prêmio projetos concluídos ou em fase de implantação, sempre no Brasil, nas categorias de humanidade (educação e divulgação ambiental), tecnologia (desenvolvimento tecnológico com resultados ambientais positivos) e natureza (preservação e conservação do meio natural).

O período de inscrições vai de 20 de junho a 30 de agosto deste ano, para avaliação por comissão julgadora formada por especialistas, com divulgação dos vencedores prevista para a primeira semana de outubro na Expo 2000, em Hannover (Alemanha), e entrega de troféus no final do mês, em São Paulo. O regulamento e a ficha de inscrição podem ser obtidos no site        www.ahkbrasil.com, ou solicitadas pelo tel. (0xx11) 5092-6473.

A câmara alemã inicia em julho um programa denominado Pólo Ambiental.

Pela iniciativa serão reunidas empresas alemãs interessadas em ingressar no mercado brasileiro diretamente ou por meio de parcerias com firmas já estabelecidas, sempre com produtos e/ou serviços na área ambiental.

“Começaremos com mais ou menos 5 empresas, devendo chegar a 15, no máximo”, disse Rose. A iniciativa deve durar dois anos, tempo suficiente para garantir o estabelecimento de relações comerciais duradouras. Depois disso, será iniciado um novo grupo de empresas.

Produtos e serviços – Embora sobressaísse o caráter institucional dos estandes, os interessados em novas tecnologias e em serviços ambientais tinham o que ver. Única empresa de gases industriais presente, a Aga (incorporada pela Linde em âmbito mundial) montou um conjunto de pequenos tanques que simulavam o tratamento de efluentes industriais, nos quais podiam ser avaliadas as diferentes tecnologias oferecidas pela empresa.

A começar pela neutralização de fluxos com gás carbônico (CO2), usados em efluentes alcalinos (pH de 10-13), permitindo abater até 5 pontos de pH com a vantagem de permitir melhor controle da curva de neutralização.

Química e Derivados, Galdeano: gases tratam fluentes
Galdeano: gases tratam fluentes

“Normalmente, usa-se ácido sulfúrico para isso, mas a viragem de pH é muito abrupta, dificultando a operação”, explicou Marcos Galdeano, engenheiro especialista em meio ambiente.

Além disso, o CO2 é mais seguro para os trabalhadores, evitando o risco de queimaduras e de corrosão das instalações. Para aplicações nas quais se queira quebrar emulsões, o ácido leva vantagem. Segundo Galdeano, é mais indicado aplicar o CO2 antes dos tanques nos quais se insufle oxigênio ou ar comprimido, para impedir que as bolhas desses gases arrastem o CO2, provocando perdas.

Um dos clientes mais conhecidos desse gás são as instalações de mercerização e tinturaria nas indústrias têxteis, que apresentam efluentes muito alcalinos.

Aplicação já conhecida, o uso de oxigênio no tratamento aeróbico para abate de carga orgânica foi demonstrado nos micro-tanques da Aga, monitorizados com sensores fornecidos pela Mettler, parceira no fornecimento de equipamentos.

“O uso de oxigênio é indicado para se aumentar com facilidade a capacidade das estações de tratamento”, comentou Galdeano. Aliás, a Aga atua com a intenção de oferecer alternativas tecnológicas para seus clientes, nas quais o fornecimento de gás nem sempre é o objetivo final.

Menos divulgado, mas com excelente potencial de crescimento, o uso de ozônio (O3) nos tratamentos de efluentes foi bem explicado durante a feira. O gás pode ser usado tanto para a desinfecção de água limpa, quando é aplicado a 4 a 5 ppm, quanto nas águas obtidas após tratamento com lodos ativados, quando se adota a concentração de 8 a 10 ppm.

Já para remoção de cor de fluxos, as concentrações ficam por volta de 50 ppm. Segundo Galdeano, a novidade na linha de O3 é a produção do gás on site por células de baixo consumo de energia, operando com 220 volts de tensão de alimentação e freqüência de 1.200 Hz.

“Com isso, um gerador de 7 gramas de O3 consome menos energia que uma lâmpada incandescente comum”, disse. Dessa forma, fica afastado o grande empecilho para a adoção do gás em processos industriais, sempre representado pelo alto consumo de energia.

Galdeano entende que o ozônio apresenta vantagens em relação aos produtos concorrentes em desinfecção, como a radiação ultravioleta e o cloro. “Nas linhas de UV há o problema de disposição final das lâmpadas geradoras da radiação, ainda à espera de solução, enquanto com a aplicação de cloro pode haver a formação de organoclorados ou cloramidas, especialmente quando se trata a água obtida após tratamento biológico, com residual de matéria orgânica”, informou. Para ele, os clientes já estão conscientes desses problemas, incentivando o uso do O3.

Vitrine de serviços – A Ecotech funcionou como vitrine para empresas prestadoras de serviços ligados à disposição final de rejeitos industriais. A começar pela Cetrel S.A. Empresa de Proteção Ambiental, antiga subsidiária da Copene, a central de matérias-primas do pólo petroquímico de Camaçari-BA, agora com autonomia para expandir seu raio de ação, prestando serviços fora dos limites do pólo.

Química e Derivados, Ponte: Cetrel oferece serviços ambientais
Ponte: Cetrel oferece serviços ambientais

“Hoje a Cetrel já atende a clientes em todo o Brasil, incluindo companhias do porte da Vale do Rio Doce e Petrobrás”, afirmou Paulo de Tarso C. Branco Ponte, engenheiro e representante comercial, destacando a qualificação técnica da empresa e sua experiência de 22 anos.

A composição do capital da Cetrel revela o predomínio das empresas petroquímicas de Camaçari (70%), associadas ao Estado da Bahia (30%), o que lhe confere algum caráter social, com ênfase na preservação da flora e fauna estadual. “Por conta disso, estão sendo feitos estudos para avaliar a possibilidade de tratar os efluentes municipais de Dias D’Ávila e de Camaçari nas nossas instalações”, comentou Ponte.

Há dois anos oferecendo serviços em todo o País, a Cetrel já obtém quase 15% de seu faturamento com essa atividade, desenvolvida em várias formas. A primeira consiste em avaliar a situação existente e apresentar projeto de tratamento e/ou disposição de resíduos sólidos e efluentes líquidos e gasosos, podendo incluir o acompanhamento da execução das obras e até a operação das unidades.

Também é possível contratar a Cetrel para tratar efluentes líquidos nas suas linhas aeróbicas, ou ainda enviar para lá rejeitos sólidos e líquidos de classe I (perigosos) para incineração em equipamento de alta eficiência. “Temos incineradores para 10 mil t/ano de líquidos e 4,4 mil t/ano de sólidos e pastosos”, disse Ponte.

Um dos produtos enviados com mais freqüência para incineração é o cancerígeno ascarel (PCB, bifenil policlorado), antigo óleo de transformadores elétricos em fase de substituição e eliminação mundial. “Oferecemos serviço completo, da coleta do ascarel, acondicionamento, transporte até a incineração, além da obtenção de licenças e trâmites burocráticos”, disse.

Entre os serviços mais procurados, Ponte relaciona os projetos para construção de aterros classe II e de co-processamento em fornos de cimenteiras (clínquer). “Sempre partimos da análise dos resíduos para determinar qual a melhor forma de tratamento ou disposição”, confirmou.

Também teve destaque na Ecotech a participação da Bayer, que oferece serviços de incineração de resíduos e aterro industrial classe I, além de contar com eficiente estação de tratamento de efluentes, todos instalados em Belford Roxo-RJ. Mais de 160 empresas já recorreram aos serviços da Bayer desde que passaram a ser oferecidos a terceiros, em 1992.

Também está à disposição dos interessados o laboratório para análises ambientais da empresa, que usa metodologias acreditadas internacionalmente. O incinerador rotativo tem capacidade para 3.200 t/ano para sólidos, líquidos e pastosos.

Além de serviços ambientais, a Bayer oferece áreas para a instalação de indústrias químicas no site de Belford Roxo, todas dotadas de completa infra-estrutura de utilidades e gerenciamento de resíduos.

Ambiente global – Raras vezes se apresentou em feiras nacionais o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), órgão da ONU sediado em Nairóbi, no Quênia (África).

Química e Derivados, Anne-Marie: Pnuma divulga avanços
Anne-Marie: Pnuma divulga avanços

“Nossas principais linhas de atuação estão ligadas à conservação do meio ambiente, manutenção da biodiversidade, acompanhamento de espécies vegetais e animais em extinção, e controle de produtos químicos”, comentou Anne-Marie Fenner, executiva do Pnuma, lotada em Genebra (Suíça).

Ela divulgou os avanços da Convenção de Basiléia sobre transporte internacional de resíduos perigosos e outros resíduos, além de apresentar o Tratado de Roterdã, de 1998, sobre o comércio internacional de produtos perigosos.

“A convenção instituiu a necessidade de comunicação prévia do transporte internacional de produtos perigosos, que teve o efeito colateral de reduzir essas movimentações, além de abrir caminho para o passo seguinte: a melhor disposição final e a minimização da geração de resíduos”, comentou. Caso a notificação prévia não tenha sido feita corretamente, esse tipo de transporte é considerado como tráfico.

O papel do Pnuma, porém, é limitado. Dado o caráter de órgão multilateral, não se admite a interferência direta nos assuntos internos dos países, mesmo os signatários da convenção. “Nós só oferecemos assistência técnica, legislativa e operacional para os novos membros”, afirmou. Atualmente, 136 países assinaram e ratificaram a Convenção de Basiléia, desde a sua criação, há dez anos.

O grande ausente da lista são os Estados Unidos. Só após a ratificação os tratados ganham exigibilidade de lei interna dos países membros. Como os EUA não o ratificaram, de lá não são enviadas para o Pnuma as notificações de chegada de materiais perigosos, e há um grande número de empresas daquele país que se especializaram em reprocessar ou eliminar resíduos industriais.

O resultado disso é a grande dificuldade de o órgão da ONU conseguir elaborar estatísticas, exigindo esforços redobrados para identificar o volume enviado aos EUA.

Outra grande preocupação do Pnuma diz respeito aos 20 países africanos que ainda não aderiram à convenção. Esses locais, em boa parte envolvidos com conflitos internos, estão sob suspeita de servir como depósito irregular de produtos banidos em países desenvolvidos, como pesticidas obsoletos, representando grave risco ambiental.

Só para dar uma idéia da importância do controle do transporte de produtos perigosos, a ONU estima em 400 milhões de t/ano a sua geração mundial, dos quais 10% cruza fronteiras entre Estados. No início da década de 80, verificou-se grande movimentação desses materiais enviada, por razões econômicas, para disposição na Europa Oriental e nos países em desenvolvimento, locais nos quais havia pouca ou nenhuma legislação ambiental. Com isso, foram agravados problemas como contaminação de solos e águas subterrâneas, exigindo medida multilateral para controle da situação, o que foi conseguido com a Convenção de Basiléia.

Mais recentemente, verificou-se que não só os resíduos, mas também produtos ainda usáveis mereciam atenção por parte da comunidade internacional. É o caso de materiais já banidos, ou ainda sob restrições severas por parte de países membros, que nos termos do Tratado de Roterdã ganharam o direito de impedir o seu ingresso nos respectivos territórios. Isso é facilitado pela imposição da comunicação prévia de envio que será obrigatória a partir de 2001 entre os 155 signatários.

O Pnuma gerencia 13 centros de treinamento internacionais, dos quais dois estão na América do Sul – na Argentina e no Uruguai, este último muito voltado para a qualificação dos oficiais de postos de fronteiras. No caso do Brasil, os trabalhos são desenvolvidos em estreita parceria com o Ibama.

Além disso, técnicos do Brasil, país que já ratificou a convenção, estão desenvolvendo um texto técnico sobre a disposição final de baterias de chumbo, que será distribuído para todos os membros para comentários. “No futuro, isso servirá para a elaboração de diretrizes técnicas comuns de alcance global”, afirmou. Diretrizes elaboradas dessa forma já existem, por exemplo, para PCB e óleo lubrificante usado.

Aos interessados, o Pnuma mantém uma base de dados com o texto da Convenção de Basiléia, o manual de instruções para aplicar a convenção, além de estatísticas referentes ao tema no site: www.basel.int.

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