Atuação responsável: Signatários têm dificuldades

Signatários têm dificuldades para implantar novo programa

Ferramenta indiscutível de modernização da gestão da indústria química, o programa Atuação Responsável passa por um momento delicado, que de certa forma reflete a situação do setor no Brasil e no mundo.

Como pano de fundo destacam-se a crise financeira e a onda de fusões e aquisições, que afetaram o nível de dedicação de muitos colaboradores das indústrias signatárias.

Com a atenção toda ela agora voltada para os efeitos do novo panorama econômico e para as várias reestruturações em curso provocadas pelas fusões, diminuíram-se as horas disponíveis dos técnicos e executivos empenhados em aplicar as diretrizes do programa.

Isso quando os cortes de pessoal não foram os responsáveis pelo descuido a esse sistema de gestão abrangente que ajuda em muito a indústria química mundial a lidar com seus problemas de saúde, segurança e meio ambiente.

Além da questão mais ampla, que prejudica o andamento do programa mundialmente, no Brasil há obstáculos particulares, próprios da versão brasileira do Responsible Care.

Recém-revisado, fruto de um longo trabalho que o tornou mais complexo do que seus similares estrangeiros – ao incorporar também os preceitos da qualidade e da responsabilidade no seu escopo e ao harmonizar suas práticas e mudar sua estrutura de aplicação –, o programa brasileiro se tornou tão avançado que muitas signatárias passaram a ter dificuldades na adequação.

Por conta disso, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) precisou estender os prazos para as empresas atingirem o chamado nível 2 de implantação, aquele em que o signatário passa a estar no patamar de atendimento das normas ISO, entrando no ciclo de melhoria contínua de redução de impactos.

Anteriormente acordado para 2010, tamanhas foram as dificuldades encontradas por boa parte das empresas que a Abiquim resolveu adiar a exigência para 2015.

Segundo informa o diretor de assuntos técnicos da Abiquim, Marcelo Kós, metade dos associados apresentou algum tipo de dificuldade. Isso porque, confessa Kós, a reformulação do programa muitas vezes tornou algumas de suas práticas mais exigentes e complexas do que as adotadas por matrizes de empresas signatárias de origem estrangeira.

Além de essa realidade ter feito o prazo de adequação se alongar, também tem provocado a convocação de reuniões e workshops entre os associados na tentativa de facilitar a evolução da empresa no Atuação Responsável.

A primeira dificuldade, na opinião de Kós, aparece quando a empresa começa a perceber que o novo programa, apesar de agora ser verificado por empresas certificadoras, não é mais apenas uma ferramenta de auditoria, como as normas ISO.

Química e Derivados, Marcelo Kós, Diretor de assuntos técnicos da Abiquim, Atuação Responsável
Marcelo Kós: autoavaliação é trabalhosa, vale muito a pena

“Ele é uma ferramenta de planejamento da empresa, com a capacidade de posicioná-la com uma nova estratégia baseada na sustentabilidade”, disse.

Seu conceito de implantação, que envolve criterioso processo de autoavaliação e a seguinte auditoria de verificação (VerificAR), obrigatoriamente leva o signatário a se posicionar para a melhoria contínua no nível 2 (que busca a redução de impactos além das exigências legais), em seguida para o nível 3 (de minimização máxima dos impactos) e, por fim, no nível 4, da sustentabilidade, no qual quase utopicamente a empresa conseguiria eliminar seus impactos.

O nível 1, é bom acrescentar, é a fase em que o signatário não faz nada mais do que as legislações exigem.

Mesmo simplificado depois de sua revisão, o que eliminou as duplicações de práticas dos antigos códigos estanques e reduziu sua estrutura para 62 diretrizes, outro ponto levantado para explicar sua aparente dificuldade de aplicação é a complexidade documental.

Numa análise do próprio Marcelo Kós, são cerca de 4 mil textos orientativos a serem lidos para completar sua preparação e principalmente sua autoavaliação, que deve ser feita de uma a duas vezes por ano (o VerificAR é apenas a cada três anos).

“A autoavaliação é realmente trabalhosa, mas reside nela um dos grandes méritos do novo programa: a condição de a empresa se planejar”, disse.

SimplificAR – Alguns técnicos envolvidos no Atuação Responsável, porém, acreditam que o programa precisa ser ainda simplificado.

É o caso do coordenador de HSEQ da Lanxess do Brasil, Paulo César Moro, cuja unidade de químicos em Porto Feliz-SP passou pelo VerificAR em outubro de 2008.

Para ele, mesmo que a revisão já tenha melhorado bastante o programa em comparação com o antigo disposto em códigos, a sua estrutura ainda confunde um pouco o entendimento do processo de autoavaliação.

E, mais importante, Moro acredita que falta um pouco mais de entrosamento entre os órgãos certificadores e a coordenação na Abiquim.

“No planejamento da auditoria, isso ficou claro. Os prazos pré-agendados para a verificação não foram suficientes para os trabalhos, o que demonstra que o conhecimento não foi bem disseminado”, afirmou.

Na opinião de Moro, a falta de sintonia entre os órgãos envolvidos também dificulta a ocorrência de uma das grandes vantagens do AR revisado: a possibilidade de unificação de auditorias com as demais normas: ISO 14000, 9000, OSHAS 18000 e as de responsabilidade social (SA 8000 e NBR 16001).

Química e Derivados, Paulo César Moro, Coordenador de HSEQ da Lanxess do Brasil, Atuação Responsável
Paulo César Moro sugere maior interação com órgãos certificadores

“As certificadoras ainda não conseguem fazer a integração e, de certa forma, também não se mostram interessadas em fazê-lo”, explicou.

Para a Lanxess, segundo Moro, seria muito importante a unificação, tendo em vista que apenas em 2008, além do VerificAR, a fábrica precisou passar por mais de dez auditorias.

“Seria uma redução de custo e tempo que viria em boa hora”, completou.

Nesse sentido, aliás, a Lanxess já faz globalmente a integração de auditorias por meio de certificações internacionais das normas ISO, que diminuem a quantidade delas por meio de um sistema de amostragem que tira a necessidade dos sites serem verificados todos os anos.

“Anualmente enviamos as evidências para a matriz para serem checadas pelo certificador e apenas a cada três anos precisamos ser auditados in loco”, disse.

E seria nesse sistema de certificação internacional que reside uma das dificuldades de integração com o VerificAR brasileiro, que Moro afirma se replicar em outras signatárias de origem estrangeira, também adeptas desses certificados internacionais.

“Como será feito para o Atuação Responsável ser considerado por uma auditoria em nível global?”, questiona.

Elogios – Apesar dos problemas iniciais, outros signatários têm sido “todo elogios” ao novo modelo do Atuação Responsável.

Um exemplo ocorre na Basf, que realizou o primeiro processo de autoavaliação e verificação em 2008 e, por sinal, com direito a auditoria integrada entre o VerificAR e as normas ISO, ao contrário do afirmado pelo colaborador da Lanxess.

Segundo a coordenadora para a América do Sul do Atuação Responsável na Basf, Alessandra Freitas, a auditoria na unidade multipropósito de Guaratinguetá-SP, em junho de 2008, foi em conjunto com a ISO 14001 e ISO 9001 e realizada pela certificadora DQS.

Além de integrar a auditoria com as normas, para Alessandra, a oportunidade foi única para alinhar as práticas do Atuação Responsável, sistema de gestão oficial da Basf, em todas as dimensões do novo programa (saúde, segurança, meio ambiente, proteção empresarial, qualidade e responsabilidade social).

Como a autoavaliação, preparatória para a verificação, é feita por meio de um comitê multifuncional da empresa, com pessoas responsáveis por cada dimensão, a troca de informações e a análise crítica entre os colaboradores possibilitaram várias melhorias e um profundo conhecimento sobre o estado do sistema de gestão.

A autoavaliação na transnacional de origem alemã, apesar de ter sido um pouco difícil no início, depois se mostrou uma ótima experiência, na opinião de Alessandra.

Química e Derivados, Alessandra Freitas, Coordenadora para a América do Sul do Atuação Responsável na Basf, Atuação Social
Alessandra Freitas: implantação do novo AR alinhou as práticas na Basf

“Se você segue as orientações do programa, consegue avaliar de maneira precisa o estágio da gestão em todos os aspectos contemplados”, afirmou.

“E assim estabelece ou não metas para melhorar o nível daquela prática”, completou.

Aliás, em todas as avaliações, confirmadas com o VerificAR, as práticas da Basf estiveram no mínimo no nível 2 e, na maioria delas, no nível 3.

Em 2010, estão previstas dessas auditorias integradas nas demais unidades da Basf no Brasil.

Estratégia – Outra empresa com impressão muito favorável ao novo Atuação Responsável é a petroquímica Quattor, resultado da recente fusão dos ativos da Suzano Petroquímica, a Unipar e a Petrobras.

Desde 2007, a empresa realiza o VerificAR em suas plantas e já se encontra, segundo seu gerente de QSSMA, Eduardo Sanches, com níveis entre 3 e 4 em todas as diretrizes do programa.

As verificações até o momento foram nas unidades de polipropileno (ex-Suzano Petroquímica) em São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro e na unidade de químicos básicos (ex-PqU) em Mauá-SP.

Em processo de reestruturação de seus ativos desde 2008, ano de formação do novo grupo, segundo Sanches, o momento é propício para alinhar as práticas do novo modelo em todas as várias fábricas oriundas da fusão.

Química e Derivados, Eduardo Sanches, Gerente de QSSMA da Quattor, Atuação Responsável
Eduardo Sanches: reestruturação ajuda a Quattor a avançar no programa

“O novo programa não é apenas de controle, como o antigo e as normas ISO são, mas sim uma ferramenta de gestão que visa à sustentabilidade, ou seja, o crescimento econômico e a equidade social”, explicou o gerente.

Na sua opinião, 2009 tem sido o ano de encontrar os benchmarkings internos do grupo para que sirvam de referência para os demais sites.

“A sinergia entre os grupos, mais o novo modelo do Atuação Responsável, vão formar no fim um sistema de gestão com certeza muito avançado”, disse.

De modo geral, Sanches acredita que tanto as plantas advindas da Unipar como as da Suzano eram muito envolvidas com o programa e com sistemas de gestão integrados.

A ex-PqU, por exemplo, é vencedora do Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ) e, portanto, serve como parâmetro para as demais, assim como as unidades de polipropileno e a Riopolímeros, que contam com bons indicadores de desempenho em segurança, e a Unipar em controle ambiental e saúde ocupacional.

“Mas há vários aspectos em que praticamente todas as fábricas estão adiantadas. Por exemplo, todas elas queimam hoje apenas gás natural”, destacou o gerente.

O caminho natural para as empresas que rodam os sistemas de gestão complexos, com visão de desenvolvimento sustentável, é tornar esse conceito como parte da estratégia de negócio.

E nesse sentido a Quattor conta com projetos como o do Propeno Verde, recentemente divulgado.

Em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trata-se de pesquisa que permite a fabricação da resina de polipropileno obtido da glicerina, subproduto da produção de biodiesel.

Com apoio financeiro da Finep e do Ministério da Ciência e Tecnologia, é uma tecnologia com potencial de aproveitar as aproximadamente 260 mil toneladas por ano de glicerina a ser geradas no Brasil, como subproduto da produção prevista anual de 2,5 bilhões de litros de biodiesel.

Esse patamar é esperado para quando, em 2010, for obrigatória a adição de 5% de biodiesel no diesel petroquímico. Atualmente, apenas 30 mil toneladas de glicerina são geradas no mercado, a maior parte delas aproveitada na produção de sabão.

Com a expectativa de o projeto entrar em operação em 2012, o polipropileno verde poderá ser produzido nas mesmas unidades que operam com o propeno de nafta, o que não demandará investimentos extras.

Para a Quattor, esse projeto se encaixa nas diretrizes de sustentabilidade da empresa, visto que a atividade cria uma alternativa comercial para um resíduo, proporciona a produção de uma matéria-prima de fonte renovável e ainda gera a possibilidade de reaproveitamento nas fábricas de uma grande quantidade de água empregada na transformação da glicerina em propeno.

Mais produção verde – Conseguir criar produtos verdes na indústria petroquímica, que tradicionalmente sempre precisou se envolver mais na gestão ambiental para controlar seus impactos, é sem dúvida um sinal de evolução com poder de convencer mesmo os mais críticos.

Não seria exagero afirmar ainda que, com isso, finalmente a indústria conseguiu materializar o até então abstrato conceito da sustentabilidade.

Ou seja, transformou em parte do seu negócio uma atividade industrial que ajuda a minimizar ou, em alguns aspectos, eliminar os impactos ambientais.

O Atuação Responsável, muito importante nas empresas que se enveredaram nesse caminho, tem com certeza sua parcela de contribuição.

Mais um caso clássico ocorre na Braskem, a outra grande petroquímica do Brasil, que já iniciou as obras de sua fábrica para produção em 2011 do polietileno da cana-de-açúcar em Triunfo, no Rio Grande do Sul, e que tem planos de também produzir polipropileno verde.

De acordo com o diretor de desenvolvimento sustentável da Braskem, Jorge Soto, o polietileno verde provou em estudo ser 57% melhor do que o petroquímico em termos de impactos ambientais.

Química e Derivados, Jorge Soto, Diretor de desenvolvimento sustentável da Braskem, Atuação Responsável
Jorge Soto: diretrizes estão em nível avançado na Braskem

“Ele é o resultado de que a sustentabilidade se tornou um valor para a Braskem”, disse.

Falando em valores, a Braskem investiu R$ 171 milhões em 2008 em projetos de segurança e meio ambiente e, em 2009, este valor deve no mínimo ser mantido ou até mesmo aumentado, em virtude das obras da nova fábrica em Triunfo.

São projetos que dão continuidade a um forte envolvimento com as diretrizes do Atuação Responsável e seu sistema de gestão integrada, o Sempre, que resultaram em vários indicadores bastante positivos para a companhia.

Entre 2002 e 2008, por exemplo, foram reduzidos em 48% a emissão de efluentes, em 66% a geração de resíduos e em 13% o consumo de água.

Provavelmente em 2009 as unidades da Braskem devem começar a passar pelo VerificAR. De acordo com Soto, as verificações prometem atestar que a empresa já se encontra na maior parte das diretrizes no elevado nível 3, em rota de melhoria contínua com minimização dos impactos.

Em alguns casos, segundo ele, há a firme possibilidade de se constatar o nível de benchmarking, como no caso da segurança de trabalho, visto que a Braskem ostenta 0,28 acidente com afastamento por milhão de horas de exposição, indicador considerado dos mais baixos do mundo.

Mas é possível também, segundo Soto, que a autoavaliação e o VerificAR percebam que algumas práticas ainda precisem ser aperfeiçoadas.

Seria o caso, por exemplo, do consumo de energia, item que a Braskem pretende atacar nos próximos anos com projetos de eficiência energética e com a substituição de equipamentos e insumos.

Com a Braskem, a Abiquim conta com a probabilidade de que em 2009 cerca de 30 empresas passem pelo VerificAR.

Isso se as contenções de gastos dos associados, em ano difícil por causa da crise econômica, não adiarem os planos, como, aliás, ocorreu com o congresso anual do Atuação Responsável, que em virtude da nova realidade passou de junho para outubro próximo e que por pouco não foi cancelado.

O quase cancelamento do congresso, na visão de Marcelo Kós, da Abiquim, é um sinal de cautela temporária, mas que felizmente não significa o abandono do rumo irreversível, e positivo, em que o programa colocou a indústria química brasileira.

Tanto é assim que o PreparAR, modelo simplificado do AR que a Abiquim pretende difundir entre as médias e pequenas indústrias não-associadas, continua em desenvolvimento pelo intermédio do Sindicato da Indústria de Produtos Químicos do Estado de São Paulo (Sinproquim) e já conta com mais de 70 empresas interessadas em participar desse movimento de modernização do setor químico.

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