Aterros especiais: Oferta responsável não impede descarte em lixões

Aumenta o número de aterros classe 1 no Brasil, mas a maioria dos resíduos perigosos ainda é descartada sem controle

Química e Derivados: Aterros: Célula para resíduo classe1 da Onyx em Tremembé - primeira fase quase completa. ©QD
Célula para resíduo classe1 da Onyx em Tremembé – primeira fase quase completa.

Cada vez fica mais difícil, no Brasil, encontrar desculpas para escândalos ambientais como o do Aterro Mantovani, em Santo Antônio de Posse-SP, onde no período de 1974 a 1987 cerca de 326 mil toneladas de resíduos industriais, de 75 indústrias, foram descartadas indiscriminadamente, gerando a considerada pior área de contaminação do País.

Se na época da ocorrência havia poucas alternativas corretas e impermeabilizadas para disposição, hoje o número de aterros especiais capazes de confinar o perigo contido em resíduos classe 1, embora não suficiente para toda a demanda local, é pelo menos bem maior do que a do passado.

É claro também que só a existência de mais aterros classe 1 não deve prevenir a sociedade de novos “Mantovanis”. Na verdade, a maior parte dos resíduos industriais gerados no Brasil ainda continua a ser destinada de forma incorreta, misturada em lixões domésticos, sejam eles municipais ou clandestinos. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos (Abetre), mais de 70% do lixo industrial acaba em lugares inapropriados. “E sem uma política nacional de resíduos sólidos, cujo projeto de lei federal (do ex-deputado Emerson Kapaz) foi arquivado pelo atual governo, há poucas chances do quadro deprimente se reverter em médio prazo”, completou o diretor-executivo da Abetre, Diógenes Del Bel.

Se não representa ainda o fim das contaminações, a maior oferta de aterros especiais revela ao menos um lado não tão atrasado do Brasil, mais viável para empresas e órgãos ambientais dispostos a cumprir a lei. Os principais centros industriais, nas regiões Sul, Sudeste e parte do Nordeste (Bahia), contam com aterros para atender a demanda legal de resíduos. Trata-se de um mercado de saída rápida, com muito resíduo no aguardo para ser destinado e com necessidades de ampliação de áreas para recebimento nas regiões mais industrializadas.

E é em virtude dessa demanda reprimida que entra em operação, em Franco da Rocha-SP, entre abril e maio de 2005, o novo aterro classe 1 da Essencis Soluções Ambientais, joint-venture da construtora Camargo Corrêa com a francesa Suez. Dentro da sua Central de Tratamento de Resíduos (CTR) Caieiras, uma imensa área verde de 3,5 milhões de metros quadrados, distante 15 quilômetros de São Paulo, a empresa reservou 70 mil m2 em um platô para construir o aterro. Projeto com vida útil aproximada de 30 anos, com capacidade total para confinar o volume de 600 mil m3 de resíduos perigosos, o aterro está com o primeiro dos 17 módulos pronto para receber lixo de clientes que até já deixaram alguns lotes de resíduos no armazém temporário da CTR Caieiras.

Química e Derivados: Aterros: aterro14. ©QDDe acordo com o diretor regional da Essencis, Luciano Amaral, ao receber a licença de operação para dar partida ao aterro, o que deve ocorrer em abril, a empresa soluciona dois gargalos. O primeiro deles é parar de mandar resíduos de clientes paulistas para a CTR Curitiba, no Paraná, onde o grupo já possui aterro classe 1 desde 2000, oriundo da Cavo (da controladora Camargo Corrêa). Só em 2004 foram para lá 5 mil toneladas. Logicamente eram cargas contratadas com desvantagem comercial em relação aos dois aterros classe 1 de São Paulo (Onyx Sasa, de Tremembé, e Ecosistema, de São José dos Campos), por precisar incluir o custo do frete referente aos 400 km até a capital paranaense.

Química e Derivados: Aterros: Del Bel - sem política nacional fica difícil resolver o passivo. ©QD Foto - Cuca Jorge
Del Bel – sem política nacional fica difícil resolver o passivo.

O outro gargalo operacional diz respeito ao mercado de gerenciamento ambiental como um todo. Isso porque o Estado paulista, maior gerador disparado de resíduos no país, não contava com aterros especiais suficientes e, pior ainda, na região mais importante, a Grande São Paulo, não havia até então nenhum para resíduos perigosos classe 1.

O mais importante em operação no Estado, o Onyx Sasa, do grupo francês Veolia, fica em Tremembé, pequena cidade próxima a Campos do Jordão, distante 200 quilômetros da capital paulista. O outro, o Ecosistema, apesar de um pouco mais próximo, a cerca de 120 km, só possui autorização para destinar resíduos do Vale do Paraíba e já está no fim de sua vida útil.

É no combate a esses gargalos que o novo aterro da Essencis encontra seu trunfo. Além de se tornar mais competitivo com relação a sua própria opção paranaense, os ganhos com relação aos dois aterros concorrentes são evidentes, sobretudo para atender a demanda de regiões altamente industrializadas, como o ABC paulista e o eixo de Campinas-São Paulo, com custos de frete bem menores.

Junte-se a isso o fato de naturalmente haver um gap considerável entre oferta e procura por aterros classe 1 em São Paulo, e as boas perspectivas do novo empreendimento ficam completas. De acordo com Luciano Amaral, a estimativa é vender a disposição de 30 mil toneladas de resíduos por ano.

Célula única – A concepção do aterro da Essencis segue a tendência mundial de células únicas para disposição, em detrimento às ultrapassadas tecnologias por valas (usadas pelo Ecosistema). No primeiro caso, há um aproveitamento melhor do terreno por se fazer uso de uma imensa escavação, em vez de se abrir várias valas menores, que deixam espaços inaproveitados entre si, formando uma espécie de “cemitério”.

Aliás, o aterro Onyx Sasa, em Tremembé, também relativamente novo (foi inaugurado em dezembro de 2000), possui a mesma linha tecnológica por células (ver QD-387, pág.10).

Química e Derivados: Aterros: Amaral - com novo aterro resíduo deixa de ir ao PR. ©QD Foto - Cuca Jorge
Amaral – com novo aterro resíduo deixa de ir ao PR.

Apesar da semelhança com o aterro do grupo francês, o da Essencis tem suas peculiaridades. Para começar, ele contará com cobertura móvel metálica na frente de descarga dos resíduos. “É para evitar, até o fechamento definitivo dos módulos da célula, a formação de percolados de metais com a chuva”, explica a gerente operacional, Luzia Galdeano. A medida, para ela, é por excesso de zelo, pois esse percolado não é muito perigoso.

Isso porque, com a manutenção de pH neutro no aterro classe 1, evita-se a solubilização dos metais precipitados dos resíduos (lodos, principalmente) e a sua conseqüente lixiviação.

A opção pela cobertura, porém, não significa que o aterro não tenha sistema de drenagem de chorume, obrigatório para a concessão do licenciamento pela Cetesb e para atender a norma ABNT BR 10157 de disposição de resíduos perigosos. Aliás, o conceito de impermeabilização do aterro, segundo Luzia Galdeano, ultrapassou as determinações da norma brasileira para seguir o padrão internacional dos aterros da sócia-controladora francesa, a Suez.

A impermeabilização no estilo Suez, que nessa primeira fase envolveu investimento de R$ 1,2 milhão, começa com uma camada de 1 metro de espessura de argila adensada, com grau de permeabilidade de K= 10-7 cm/s (velocidade que o contaminante líquido levaria para ultrapassar a proteção). Além da barreira física do solo, a argila, como retentora de íons, possibilita a degradação de carga orgânica. A segunda camada da impermeabilização é uma geomembrana de polietileno de alta densidade (PEAD) de 1,5 mm. Acima dela, cobre-se toda a área com uma geogrelha de plástico para drenagem testemunho que, por sua vez, recebe um novo revestimento com geomembrana de PEAD de 2 mm.

Como quinta camada do “sanduíche” da impermeabilização, entra outra geogrelha, dessa vez apenas no talude da célula, região mais vulnerável à lixiviação. Depois disso, o revestimento é um geotêxtil de nowwoven (não-tecido). Por fim, como última camada, em contato direto com os resíduos, haverá uma proteção mecânica com pneus preenchidos com material granulado (pedras). Na base da célula, há também 40 cm de brita perpassada abaixo com tubo de polietileno para coleta de percolado.

Química e Derivados: Aterros: O aterro da CTr Caierias vai rceber 600 mil metro ao cubo de resíduos classe 1. ©QD Foto - Cuca Jorge
O aterro da CTr Caierias vai rceber 600 mil metro ao cubo de resíduos classe 1.

O fechamento dos módulos completos da célula, quando se remove a cobertura metálica móvel, será também com argila compactada, em uma camada de 60 cm de espessura, mais uma geomembrana de PEAD, seguida de drenagem, camada de solo vegetal e, por fim, paisagismo com plantas nativas. O momento do fechamento é quando o módulo atinge três lances de seis metros, totalizando 18 m de altura, desde a base escavada, com resíduos enterrados.

Todo o cuidado com a impermeabilização garante boa segurança de operação, sobretudo ao saber que o lençol freático está a mais de 30 metros de profundidade. Mesmo assim, para haver melhor controle, foram instalados sete poços de monitoramento, que passam por checagem a cada três meses. Segundo a gerente operacional, esses detalhes elevam consideravelmente o custo do aterro. “Além do trabalho de engenharia para construção, a operação também é bastante cara”, diz Luzia.

Custo preocupa – A questão de custo em aterros, aliás, tem sido um problema a todos os concorrentes. Já na aquisição de insumos básicos, como as geomembranas de PEAD, há queixas. De origem petroquímica, essas mantas acompanharam a alta de todos os derivados do petróleo. Segundo o diretor regional da Essencis, Luciano Amaral, que precisou comprar bastante geomembrana nos últimos tempos (além do classe 1, a CTR Caieiras possui 1,5 milhão de m2 para aterro classe 2, doméstico e principalmente industrial), só no ano passado houve aumentos superiores a 30%, portanto acima da inflação.

Química e Derivados: Aterros: Luiza - célula terá cobertura móvel. ©QD Foto - Cuca Jorge
Luiza – célula terá cobertura móvel.

Mas o problema de custo transcende a alta nas mantas de PEAD, cujos preços sobem continuamente há alguns anos. Na verdade, a questão principal é que o preço final de disposição não tem acompanhado esses aumentos de custo, segundo informa o diretor geral da Onyx Sasa, Breno Palma. “O preço está congelado desde antes de 2000”, lamenta Palma. Isso significa que o valor da tonelada de resíduos classe 1 aterrada oscila ainda entre R$ 180 e R$ 200. “A despeito da alta nos custos e da inflação, não tivemos força de negociação para repasses”, completa.

Esse congelamento de preços forçado pode parecer estranho para um mercado com baixa oferta de aterros. Mas outras sutilezas explicam melhor a situação. A concorrência com uma tecnologia de destinação em voga, o co-processamento de resíduos em fornos de cimento (ver QD-415, págs. 22-24), cujo uso vem-se alastrando no País, é uma dessas sutilezas. “Se uma parte dos resíduos encaminhada para essa forma inteligente de destruição está indo devidamente, outra, cada vez mais preocupante, vai de forma equivocada, tomando mercado dos aterros”, diz Palma, com a autoridade de quem também trabalha com essa tecnologia. A Onyx Resicontrol, empresa do grupo, faz blendagem de resíduos para co-processamento.

Além da concorrência com o coprocessamento (cujo preço varia de R$ 150 a R$ 700/t, mas que conta com a vantagem de destruir definitivamente o passivo), há também uma pressão vinda dos clientes para evitar repasses cada vez mais necessários. São estratégias de barganha muito eficientes. Basta para o cliente manter estoques de resíduos em seus pátios próprios de armazenamento, esperando a melhor hora, em preço, para destiná-los. Isso só é possível em razão de uma brecha na legislação brasileira, que não estipula limites máximos de tempo de armazenagem de resíduos nas fábricas geradoras.

Além de dar poder de barganha para as indústrias, essa ausência de limite, na opinião de Breno Palma, também diretor técnico da Abetre, é uma bomba-relógio. Isso porque aumenta a possibilidade de se criar passivos ambientais de difícil solução. “Se uma empresa com muito resíduo estocado ‘quebra’, quem vai pagar a remediação?”, questiona Palma.

Química e Derivados: Aterros: grafico. ©QDNão por menos, segundo o diretor, impor limites de tempo de estocagem era uma das propostas da Política Nacional de Resíduos Sólidos, em cuja elaboração a Abetre colaborou e que foi engavetada pelo governo Lula. Esse tipo de medida é adotada por vários países desenvolvidos, para evitar a indesejada descoberta de “esqueletos ambientais” de empresas falidas. Normalmente a determinação é seguida nesses países (e também pela política nacional abandonada) pela criação de um “superfundo”, concebido para financiar as remediações em áreas contaminadas sem donos.

Esses contratempos do mercado fazem hoje os operadores de aterro, apesar do aumento de faturamento e de volume recebido, trabalhar com margens bastante reduzidas, na avaliação de Breno Palma. “Não foi só o preço das mantas que aumentou, e muito, nos últimos anos, a escalada do custo tributário [PIS e Cofins] e do frete também preocupam”, diz. No seu caso, por ficar longe de muitos clientes, ao contrário do novo concorrente, a Essencis, a preocupação com o custo de transporte é ainda maior.

Mesmo com a análise pessimista, Breno Palma acredita que os aumentos nos negócios previstos para este ano compensem as perdas nas margens. Com a recuperação da atividade econômica na indústria, conseqüentemente haverá maior geração de resíduos. Nos setores com práticas ambientais mais avançadas, como a indústria química e siderúrgica, isso pode significar vários novos contratos de destinação. O aterro Onyx Sasa, por exemplo, com capacidade total para 350 mil m3 de resíduos e vida útil de 25 anos, já possui uma boa quantidade de solos contaminados e lodos de indústrias químicas, mecânicas, montadoras de automóveis, autopeças e metalúrgicas. O projeto está já na segunda fase e conta ainda com mais duas outras, a ser construídas com a remoção de uma pequena colina no terreno da aprazível Tremembé.

Tribel abre mais – A se guiar também pela estratégia da Tribel, joint-venture entre a alemã Bayer e a francesa Tredi, em Belford Roxo-RJ, onde opera aterro e incinerador (ver QD-415, pág. 26), a demanda por disposição deve continuar a crescer. Em março de 2004, o grupo abriu mais uma célula de aterro classe 1, de 10 mil metros quadrados, com capacidade para 220 mil t de resíduos e 15 metros de altura. Como mostra do bom ritmo de negócios, nesse primeiro ano de operação a nova célula já tem 25% da área ocupada.

Química e Derivados: Aterros: Spohr - Tribel abriu mais uma célula em Belford Roxo. ©QD Foto - Marcelo Furtado
Spohr – Tribel abriu mais uma célula em Belford Roxo.

A expectativa com o aterro ampliado é dar motivos, junto com os serviços de incineração, para a projeção otimista de aumento de 25% no faturamento da Tribel em 2005, por conta de novos contratos assinados. Segundo revela o presidente da empresa, Miguel Spohr, esse aumento, superior aos 15% de 2004 sobre 2003, deve compensar as perdas na lucratividade registrada o ano passado. Isso porque o aumento superior ao dobro do Cofins, de 3% para 7,6%, criado em 2003, passou a valer apenas em 2004, não permitindo repasse para vários contratos em andamento. “Na área ambiental, um contrato demora cerca de seis a nove meses para ser concluído, em virtude das demoradas licenças e certificações”, explica Spohr.

Além da área de aterro e incineração, a Tribel continua a flexibilizar a sua operação, nos moldes de suas concorrentes, a Essencis e a Onyx. Prevê um investimento de US$ 1 milhão em 2005 na área de blendagem de resíduos para co-processamento e de tratamento de efluentes para terceiros. Mas não é por isso que o aterro classe 1 da Tribel não continuará a merecer destaque.

Maior área disponível no Brasil, com 220 mil metros quadrados licenciados, no site do complexo multipropósito da Bayer, restam ainda cerca de 190 mil m2, o que garante mais de 50 anos de operação. Nas três células já fechadas, há cerca de 1 milhão de toneladas de resíduos inorgânicos enterrados. Pelo andar da economia brasileira, que começa a demonstrar crescimento mais sólido, muito lixo industrial ainda deverá ter o mesmo destino?

Créditos de carbono geram renda extra com o lixo

Em tempo de margens de lucro reduzidas, o surgimento de uma nova fonte de renda para operadores de aterro é sempre bem-vindo. Pois foi o que ocorreu a partir de 16 de fevereiro de 2005, com a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, tratado internacional que estabelece metas para a redução de emissões de gases do efeito estufa. Com a validação do protocolo, passou a valer também o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), ferramenta que permite a países sem a obrigação de metas de redução de emissões poluentes, caso do Brasil e de outros subdesenvolvidos, vender os tão propalados “créditos de carbono” a 38 países desenvolvidos signatários do tratado.

Com a ferramenta, projetos ambientais voluntários que reduzem o lançamento ou captam (seqüestro) gases do efeito estufa podem gerar créditos, por meio de uma equação específica, traduzidos por uma quantia remetida pelo país para financiar parte do projeto. Como a maior parte dos aterros industriais também trabalham com células para resíduos domésticos, que produzem pela degradação orgânica o gás metano, há um campo que começa a ser explorado pelos grupos do ramo, notadamente pela Essencis e Onyx Sasa e também por outros aterros menos complexos, que recebem apenas resíduos classe 2 (não-perigosos).

Química e Derivados: Aterros: Evaporador no aterro Sasa emprega 450 metro ao cubo por hora de biogás. ©QD Foto - Cuca Jorge
Evaporador no aterro Sasa emprega 450 metro ao cubo por hora de biogás.

O projeto da Essencis na CTR Caieiras está para ser validado pela ONU e visa ou queimar em flare o metano gerado pelo aterro classe 2 ou então aproveitá-lo em co-geração de energia para reuso interno. Já o da Onyx Sasa foi um dos primeiros a ficar pronto no Brasil.

Desde dezembro de 2003, a empresa fechou contrato com o governo holandês para vender 700 mil t de CO2 equivalente durante 10 anos, volume de equivalência que foi calculado por meio da constatação de que o metano é 21 vezes mais prejudicial em comparação com o CO2. O feito da Onyx Sasa, para gerar os créditos, foi utilizar um equipamento evaporador de chorume que utiliza o biogás do aterro como fonte de energia. A sustentabilidade do projeto é evidente: além de seqüestrar o metano para uso energético, também soluciona o terrível problema do chorume gerado principalmente pelas 5 mil t/mês de lixo recebido dos aterros domésticos e industriais classe 2 (apenas cerca de 5% vêm do classe 1), que necessitam de tratamento.

Apesar de se tratar de contrato já firmado e certificado pela DNV, o projeto ainda aguarda breve aprovação local do Ministério da Ciência e Tecnologia para passar a valer.

“Ainda no 1o semestre, vai ser validado no Brasil”, afirmou o diretor geral, Breno Palma. Embora os créditos financiem menos da metade do projeto do evaporador, que já está em operação tratando 20 m3/dia de chorume com 450 m3/h de biogás, quando chegarem em Tremembé (a empresa não revela os valores do contrato) eles devem ajudar a empresa a completar o tratamento, já que parte do chorume ainda segue de caminhão para tratamento na Sabesp.

Brasil na frente – Mas os MDLs não se limitam a esses dois aterros. Na verdade, só a América Latina fechou o ano de 2004 com 46 projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) em andamento. Desde 2001 inúmeras iniciativas do gênero foram anunciadas como forma de captar recursos provenientes dos países desenvolvidos signatários do Protocolo de Kyoto. Calcula-se em US$ 210 milhões as negociações com créditos de carbono em toda a região, até o momento.

Apesar do bom ritmo, obter a certificação definitiva para um empreendimento MDL é um processo demorado e a primeira no mundo foi devidamente concretizada somente em novembro último, justamente para um projeto brasileiro. Trata-se do projeto Nova Gerar, localizado em um aterro sanitário de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde o gás metano (CH4) proveniente da decomposição orgânica passa a ser convertido em biogás para geração de energia termelétrica. Existem outros cinco MDLs na lista da certificação no Brasil (entre eles o da Onyx Sasa), embora alguns possam ter sido abortados.

Química e Derivados: Aterros: aterro2. ©QDA boa notícia sobre a certificação do Nova Gerar foi repassada por Nuno Cunha, diretor para o Brasil da Ecosecurities Standard Bank Carbon Facility, uma das corporações globais voltadas a projetos de tecnologia limpa e associada a alguns dos principais fundos da União Européia para programas de combate à emissão dos gases causadores do efeito estufa, entre os quais o do governo dinamarquês. O aterro de Nova Iguaçu recebe aproximadamente 1,5 mil tonelada de resíduos por dia e deverá chegar a 5 mil t/dia nos próximos anos. Em 2005, o metano produzido pelo Nova Gerar poderá gerar de 1 a 2 megawatts de eletricidade para iluminar o aterro e produzir a energia dos equipamentos empregados na queima do chorume. O excedente, algo em torno de 0,5 metro cúbico/hora, continuará sendo queimado em condições controladas por meio de um flare. A partir de 2006, a usina deverá ter acréscimo de 1 megawatt até atingir 10 megawatts.

Química e Derivados: Aterros: Palma - projeto será validade ainda no primeiro semestre. ©QD Foto - Cuca Jorge
Palma – projeto será validade ainda no primeiro semestre.

Quando o volume de gás gerado for capaz de produzir entre 4 e 5 megawatts, a concessionária do empreendimento definirá a venda do excedente à prefeitura local, dentro do conceito de geração distribuída (consumo de energia próximo a seu centro de carga) ou a consumidores privados, como as pequenas indústrias, por exemplo. Em 21 anos, tempo de duração do contrato, o Nova Gerar deverá queimar 562 mil toneladas de metano, o equivalente a 11,8 milhões de toneladas de CO2.

O diferencial do Nova Gerar em comparação aos demais projetos MDL ainda não certificados diz respeito ao cumprimento de um longo e complexo sistema de avaliações. A certificação definitiva MDL exige o cumprimento de seis complexas etapas. A primeira é o plano inicial (PIN), quando os responsáveis pelo empreendimento apresentam as informações básicas, como quem vai produzir, quem são as instituições interessadas e orçamento inicial.

Nas etapas seguintes é preciso demonstrar metodologias, cronogramas, a quantidade exata de reduções e comprovar se o empreendimento necessita realmente de financiamento proveniente dos fundos. A palavra final para certificar um MDL é do UNFCCC (Fundo das Nações Unidas para Mudanças Climáticas) ou por uma entidade credenciada por esse organismo, como o CDM Board, com sede em Bonn, na Alemanha.

Todos esses procedimentos são acompanhados por auditorias independentes, as quais funcionam como uma espécie de sistema judiciário do MDL. A ocorrência de qualquer dúvida implica na devolução do projeto. Provavelmente, os documentos do Nova Gerar tenham sido devolvidos aos responsáveis pelo projeto em diversos momentos, fato corriqueiro, pois as inspeções e análises são minuciosas e não abrem espaço a dúvidas. Já a certificação, na verdade, é a quinta etapa. A sexta é a contratação, isto é, o momento da compra dos créditos de carbono relacionados com o empreendimento.

Por sua vez, o contrato detalha todas questões pertinentes entre comprador e vendedor dos créditos de carbono. Diz quando sai o dinheiro e estipula as penalidades previstas no caso de metas descumpridas. Define os bônus para quem conseguiu superar os objetivos. “Excetuando o Nova Gerar, o que temos são projetos cujos créditos já foram comercializados no mercado futuro. Os compradores receberão os ativos assim que os certificados forem emitidos”, esclareceu Nuno Cunha.

Mesmo sem certificação definitiva, um MDL bem concebido pode conseguir vendas antecipadas de créditos de carbono como forma de obter receita. O Nova Gerar conseguiu vender 2,5 milhões de toneladas equivalentes de CO2 ao governo holandês por aproximadamente US$ 4 a tonelada, por intermédio do fundo (NCDMF), administrado no contexto do Banco Mundial.

Outros projetos – Outro programa beneficiado por dinheiro antecipado foi o Plantar de Minas Gerais, nas cidades de Sete Lagoas e Curvelo, contemplado com financiamento de um banco europeu interessado em ajudar na consolidação de programas MDL. O Plantar consiste na substituição do carvão mineral pelo vegetal para aquecer os fornos usados na obtenção do ferro gusa por meio de um amplo programa de reflorestamento em área de 23 mil de eucaliptos, de onde é retirada a madeira para produzir o combustível.

Como há um reflorestamento combinado com a queima, a idéia é que o CO2 produzido na siderurgia seja absorvido na área de reflorestamento, por meio da fotossíntese, criando uma espécie de ciclo fechado de emissão e absorção. Segundo o gerente do Plantar, Fábio Marques, a capacidade de absorção pelas plantas é três vezes maior do que a carga de CO2 emitida. Para completar o processo de redução, o projeto prevê a queima do metano por um sistema especial montado dentro da siderúrgica. O projeto foi concebido em 1998 e dentro do MDL terá duração de 28 anos, gerando 12,8 milhões de créditos de carbono. Dentro do Plantar há corredores ecológicos de interligação entre as áreas de reflorestamento com as matas nativas como forma de permitir a livre circulação das espécies da fauna.

Outro MDL localizado em Minas Gerais é a unidade de biodigestores com tecnologia para seqüestro de carbono, recentemente inaugurada na Granja Becker, em Pato de Minas. Resulta de uma parceria entre o Instituto Estadual Florestal (IEF) com as empresas Agcert, do Canadá, e com a Sansuy, do Japão. A unidade produz biogás, originário dos dejetos de suínos, atividade altamente poluente. A tecnologia dos biodigestores é obra do grupo nipônico em conjunto com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) – campus Jaboticabal.

A tecnologia dos biodigestores, além de melhorar as condições do meio ambiente, pode ser uma fonte de renda para o produtor pela geração de gás e, conseqüentemente, energia elétrica e calor. “Esta foi a solução encontrada para o tratamento e destinação correta, visando a entrada adequada de projetos em termos de preservação ambiental”, assinalou o diretor-geral do IEF, Humberto Candeias Cavalcanti.

Além de usar o gás para substituir outras fontes de energia e produção de fertilizantes, em substituição à adubação química, o IEF estuda a viabilidade de simplificar os processos de licenciamento para quem adotar o tratamento de dejetos por meio de biodigestores. Nesse programa, empresas canadenses e o Banco Mundial financiam a instalação do equipamento com linhas de crédito em troca de parte do gás produzido. Se não é suficiente para bancar integralmente os projetos, não deixa de ser uma oportunidade para o Brasil adotar boas tecnologias ambientais?

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