Ambiente – Serra gaúcha tem aterro ISO 14000

Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, é uma cidade identificada como principal polo nacional da produção de vinhos finos. Mas a preocupação com o meio ambiente é outra demanda muito bem administrada nessa comunidade de 120 mil habitantes, localizada a 80 km ao norte de Porto Alegre. Há dezoito anos, uma associação empresarial local avocou a responsabilidade pela destinação dos resíduos industriais e criou a Fundação Bentogonçalvense Pró-Ambiente, conhecida pela sigla Proamb.

A principal obra da entidade ainda é uma solução fim de tubo, entretanto construída dentro de padrões técnicos internacionais. Trata-se de um conjunto de Aterros de Resíduos Industriais para Produtos Perigosos (ARIP) Classes I e II, já certificados na ISO 14000, por conta da excelência do projeto, tanto na concepção como na execução. Com o investimento de US$ 1,2 milhão, o ARIP da Proamb obedece aos padrões estabelecidos por uma instituição científica da Alemanha.

Química e Derivados, Valas em fase de recebimento de resíduos, Ambiente
Valas em fase de recebimento de resíduos têm cobertura provisória

Os resíduos da Classe I, considerados perigosos, tais como restos de efluentes com metais pesados, areias fenólicas, borras de tinta e resíduos de curtumes, devem ser descartados em caixas de concreto com paredes de dez centímetros de espessura, medindo 80 x 20 metros, com 5 m de profundidade. As valas recebem uma cobertura de 30 cm de saibro compactado, mais uma geomembrana de polietileno de alta densidade de dois milímetros de espessura, outra geotêxtil de 4 mm de espessura, uma segunda membrana de PEAD de 2 mm e outra geotêxtil de 4 mm de espessura, denominada camada de proteção mecânica. O procedimento garante que os resíduos não contaminem o solo, o lençol freático ou águas subterrâneas.

Além disso, todas as células são totalmente cobertas, o que evita a formação de percolado. Por questões de segurança, todas as células possuem sistema de drenagem de gás e de percolado. Quando ocorre o fechamento de cada célula do aterro industrial, a impermeabilização superior é concluída de tal forma que a infiltração seja inexistente. Dessa forma, a impermeabilização da cobertura superior é tão eficaz quanto o sistema de impermeabilização inferior empregado.

Para lacrar a caixa no momento em que essa se esgota, é construída uma capa com dez centímetros de areia para nivelamento da célula, manta de PEAD de 2 mm, outra manta têxtil de 4 mm, uma camada de argila compactada e vedação total com concreto. As saídas de gases a cada cinco metros podem ser visualizadas. O chão de concreto pode receber solo original e cobertura vegetal com grama.

As “Valas Classe II A” para resíduos considerados não-perigosos, não-inertes, engloba uma camada compactada de argila de 30 cm, geomembrana de PEAD de 2 mm, outra de proteção mecânica e, ainda, camadas impermeabilizantes, cobertura metálica e sistema de drenagem de gás e de percolado. Quando a célula do aterro industrial se esgota a taxa de infiltração na área deve ser igual a zero. Diversos pontos de coleta de amostras estão espalhados pela área do ARIP para conferir eventuais infiltrações de materiais para o lençol freático. Durante o período operacional, todas as valas têm um telhado de zinco montado sobre elas.

Desde a entrada em operação, há aproximadamente dez anos, as valas da Classe I já acumulam 25,2 mil metros cúbicos de resíduos. As valas Classe II receberam 14,9 mil m³. Os ARIPs de Bento Gonçalves recebem materiais de diversas regiões do sul do país. A principal cliente é a cidade de Caxias do Sul, que para lá envia lodo galvânico e resíduo metal mecânico.

O lodo só é recebido com baixa umidade. “Não queremos a formação de percolado, pois é muito difícil de tratar”, explicou a engenheira química Andressa Brandalise, uma das assessoras ambientais da Proamb. Da mesma forma, a logística é rigorosa. Os motoristas são treinados para identificar se uma carga destinada ao ARIP está embalada adequadamente. Já os caminhões, são vistoriados periodicamente e equipamentos com problemas de emissão não podem rodar.

Além do aterro correto, a Proamb oferece uma série de serviços, dentre os quais se destacam projetos para estações de tratamento de efluentes, ampliação de sistemas de tratamento de resíduo industrial, plano de gerenciamento de resíduos sólidos, planejamento de segregação, acondicionamento e destinação final de todos os resíduos gerados na empresa. Dependendo da necessidade da empresa, a Proamb encaminha a documentação para os órgãos ambientais competentes com a finalidade de obter os licenciamentos, certificados e autorizações pertinentes.

Há ainda projetos para captação e uso da água da chuva que podem diminuir em até 60% o volume de tratamento pré e pós-uso. Como explicou Andressa, com o aumento do volume de reutilização de materiais pós-uso, a reciclagem tem sido uma prioridade para a Proamb, no sentido de diminuir o volume destinado aos aterros.

P+L – Embora administrar um aterro de resíduos sólidos numa microrregião se constitua numa tarefa de alta responsabilidade, as metas são mais ousadas. Os preceitos da produção mais limpa pousaram nos domínios da Proamb. Na medida do possível, a entidade está ajudando os empresários a diminuir a emissão de efluentes e a economizar com matérias-primas. Para tanto, existe uma equipe multidisciplinar, formada por um engenheiro químico, uma engenheira ambiental e um técnico ambiental.

Química e Derivados, Tatiana Merlo, Especialista em geração e produção mais limpa, Andressa Brandalise, Assessora ambiental da Proamb, Ambiente
Tatiana Merlo (esq.) e Andressa: Proamb estimula a adoção dos conceitos de produção limpa

A equipe é gerenciada por Tatiana Merlo, especialista em geração e produção mais limpa. Ela conta que numa indústria moveleira, outro carro-chefe da economia local, a implantação de um programa de melhoria da qualidade da cola de borda dos móveis reduziu financeiramente em R$ 21,2 mil por ano o consumo de adesivos. Além disso, 500 quilos de resíduos classe I não foram mais descartados nas valas do ARIP.

Outra empresa investiu na diminuição do uso de solventes e passou a economizar R$ 35 mil por ano na compra desse material. Conseguiu ainda uma redução de 20% de resíduo no efluente. Uma terceira firma, do segmento galvânico, reduziu em R$ 5 mil por ano o custo de tratamento de efluentes e cortou em 120 m³ o consumo de água. “O objetivo é não gerar. Por enquanto ainda impera o fim de tubo, suja para ver depois o que se faz”, criticou.

Tatiana destaca os diversos convênios existentes entre a Proamb e universidades da Europa e a participação da entidade em feiras e congressos internacionais. Em sua opinião, o intercâmbio de informações e tecnologias garante a atualização permanente da equipe técnica e resulta no reconhecimento positivo da qualidade do serviço prestado pela entidade. Esmero com o meio ambiente é sempre uma ótima notícia. Está aí um exemplo a ser seguido.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.