Ambiente: Polímetro orgânico natural trata água e efluentes

Indústrias químicas e petroquímicas do Brasil e Europa estão empregando um polímero de origem vegetal, no lugar do sulfato de alumínio e outros metais, para proceder a etapa de coagulação da água em estações de tratamento, tanto de lodos industriais como de águas destinadas ao consumo humano. Trata-se do Tanfloc, nome comercial de um produto pioneiro no mercado mundial e derivado do tanino, matéria-prima extraída da casca da acácia negra, árvore abundante no Rio Grande do Sul, tradicionalmente empregado para interromper o processo de putrefação do couro nas unidades de curtume. Tecnicamente a Tanac, fabricante do Tanfloc, o descreve como um polímero orgânico catiônico, de baixo peso molecular, de origem essencialmente vegetal, e que atua simultaneamente nos processos coagulante e floculante, sendo recomendado para o tratamento de águas de abastecimento em geral. Quimicamente, foi batizado de tanato quaternário de amônio.

Química e Derivados: Ambiente: Lamb - floculante gaúcho conta com clientes fiéis na Europa.
Lamb – floculante gaúcho conta com clientes fiéis na Europa.

“O Tanfloc não é simplesmente um polímero de características diferentes. Por ser vegetal, é um produto renovável”, assegura Luiz Lamb, gerente geral da Tanac, maior processadora mundial de tanino, com plantas industriais localizadas nas cidades gaúchas de Montenegro e Rio Grande. Lamb lembra que o tratamento clássico de águas é feito com sulfatos de metais pesados e tóxicos, o que no seu entender confere ao Tanfloc um papel revolucionário neste segmento da Química Industrial. Segundo o executivo, em função de suas características e propriedades, o polímero de origem vegetal não altera o pH da água, eliminando a adição das substâncias utilizadas para restabelecer a alcalinidade.

“Nosso produto diminui a quantidade de oxigênio no sistema eliminando o lodo. Não é um novo produto, mas um novo conceito”. Se o usuário olhasse só para o preço, não compraria o Tanfloc porque ele é mais caro que o sulfato de alumínio. No entanto, como ele não exige correção de pH e é floculante, o Tanfloc elimina outros produtos do processo, o que reduz o custo total da operação. Dessa forma, em águas de abastecimentos com pH entre 6.5 e 8.5 não se faz necessária a utilização de agentes alcalinizantes do tipo cal ou barrilha.

De acordo com Lamb, o Tanfloc com sua destinação é produto único no mundo, explicando que a Tanac começou suas pesquisas com o polímero há cinco anos. Como a legislação brasileira não prevê a utilização de polímeros vegetais para a finalidade para a qual foi concebido, o Tanfloc está certificado pela National Saneament Federal, dos Estados Unidos, órgão vinculado ao FDA (Federal Drugs Administration), o departamento norte-americano responsável pela liberação comercial de fármacos e alimentos. O cuidado com a fabricação do produto é tão minucioso, que o Tanfloc é processado em reatores revestidos com vidro refratário, mesmo tipo de equipamento empregado na obtenção de medicamentos.

O Tanfloc é vendido nos estados líquido e sólido (pó). No caso do líquido, é formulado em um tanque de preparação, em que se adiciona água tratada até a metade. Sobre ela adiciona-se o Tanfloc. Sob agitação, completa-se o volume final do tanque com água tratada. Normalmente, o próprio turbilhonamento de água durante a adição já é suficiente para uma boa homogeneização. Na opção em pó, o Tanfloc deve ser adicionado lentamente à água até a metade do tanque, sempre sob agitação. Finalizado o procedimento, a capacidade do tanque pode ser completada. Se possível, aconselha-se dissolver o polímero em água a 50º C. O Tanfloc é o único polímero de origem vegetal para a finalidade a qual foi desenvolvido e está certificado pela norma Ansi 60.

Química e Derivados: Ambiente: A acácia negra é a matéria-prima para o floculante.
A acácia negra é a matéria-prima para o floculante.

Conforme Lamb, algumas refinarias da Petrobrás já utilizam o Tanfloc como a Presidente Bernardes, em São Paulo, a Gabriel Passos, de Minas Gerais, a Getúlio Vargas, no Paraná, além da Petroquímica União. O produto é utilizado ainda durante o processo de lavagem da cana para a obtenção de álcool e açúcar, em mineradoras e indústrias cerâmicas. A Tanac está começando a exportá-lo para empresas terceirizadas, especializadas no tratamento de água potável da Inglaterra, França, Alemanha, Espanha, Itália e Portugal. Lamb assinala que essas firmas optaram pelo Tanfloc porque a Tanac vende o produto num pacote fechado que inclui a capacitação tecnológica e assistência técnica necessárias à adaptação do cliente ao novo conceito.

Chips para o Japão – A primeira etapa da pesquisa da Tanac em busca de novas alternativas para a acácia negra, além das aplicações em curtumes, foi iniciada há 20 anos, quando a empresa decidiu pelo lançamento de sua fábrica de cavacos de madeira, construída na cidade de Rio Grande, no Extremo Sul do Brasil. A escolha do local teve motivação nitidamente estratégica, visto que a planta hoje em plena operação, situa-se próxima a um terminal portuário privado, onde dois navios japoneses atracam intercaladamente a cada 22 dias para abastecer seus porões com os chips de madeira, para serem empregados na obtenção de celulose e na forma de madeira prensada, usada na estrutura das placas de computadores. Em média, são 500 mil toneladas por ano de madeira em pedaços descarregadas no mercado asiático.

Com tudo isso, a Tanac transformou-se também numa das maiores exportadoras de madeira do Brasil. Atualmente, conta com 60 milhões de unidades de acácias negras plantadas no Rio Grande do Sul, em um total de 26 mil hectares. A grande maioria do reflorestamento localiza-se em cinco fazendas da empresa espalhadas pela metade sul do Estado, em pontos estratégicos para atender a planta de Rio Grande. Além disso, a Tanac possui 35 mil famílias de plantadores terceirizados, distribuídos em minifúndios, que variam desde zero até 12 hectares, em 90% dos casos. Conforme o diretor-superintendente da Tanac, a logística exige a manutenção desses enormes estoques de matéria-prima, pois o ciclo de corte da acácia negra é de sete anos, após o plantio. Estabelecida na cidade de Rio Grande desde 1995, esta unidade conta com 60 funcionários e produz chips de madeira, que são exportados para o Japão como matéria-prima para a produção de celulose. Com seu sistema de gestão ambiental certificado pela norma NBR ISO 14001, a Tanac ratificou também seu compromisso com o meio ambiente.

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