Laboratório e Análises

Ambiente – Laboratórios nacionais podem realizar estudos para o GHS e o REACH

Marcelo Furtado
16 de dezembro de 2011
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    In vivo predomina – O vencimento das barreiras burocráticas traria um pouco mais de competitividade a um setor que tenta se modernizar e acompanhar tendências mundiais de análise, embora algumas questões ligadas a testes toxicológicos ainda precisem evoluir no país. Nesse sentido, a principal diz respeito à baixa disponibilidade no Brasil de alternativas a testes in vivo com mamíferos para estudar os possíveis efeitos de insumos químicos no ser humano. A comunidade europeia tem restringido ao máximo testes com animais no seu Reach. Para poder fazer ensaios com o sacrifício de animais como ratos, camundongos, coelhos e cachorros, a agência europeia de controle de substâncias químicas, a Echa, sediada na Finlândia, precisa analisar e conceder uma autorização especial. E ela só é dada se a agência avaliar que o teste não pode ser feito pela alternativa in vitro, com tecidos ou cultura de células. Há até leis europeias que limitam o uso de animais, reverberando um profundo sentimento de proteção animal comum no velho continente.

    No Brasil, a questão é muito incipiente e o padrão continua sendo o de testes com animais: mamíferos para os toxicológicos e peixes, algas, micro-organismos aquáticos e abelhas para os ecotoxicológicos. Os ensaios toxicológicos in vivo, aliás, são determinados pelas legislações nacionais para registro de agroquímicos e saneantes. Isso faz os laboratórios locais ou terem biotérios próprios ou se utilizarem da compra de terceiros para realizarem os testes. Enquanto isso, os testes in vitro fazem parte apenas de especulações para o futuro ou de análises esporádicas para tentativa de domínio da técnica.

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    Bidinotto: ecotoxicológicos com daphnias e toxicológicos com mamíferos

    “Há uma tendência mundial, que também deve chegar ao Brasil, de diminuir o uso de animais, mas enquanto isso não acontece precisamos atender às exigências das leis para nossos clientes”, explicou Paulo Bidinotto, coordenador técnico de estudos ecotoxicológicos e toxicológicos da Bioagri, considerado o maior laboratório de análises ambientais do país. A empresa utiliza, segundo ele, coelhos, cobaias, ratos e até cachorros (filhotes da raça beagle) para os testes toxicológicos.

    Segundo o diretor da Bioagri, Roberto Bonetti, a empresa está até investindo na ampliação dos biotérios para atender à grande demanda de testes crônicos com animais. Mas, ao mesmo tempo, também desenvolve novas técnicas de avaliação in vitro. Nesse caso, o uso de culturas de célula de olho de animal pode ser uma alternativa para avaliar a irritação dérmica de substâncias, segundo explicou o coordenador técnico, Paulo Bidinotto. “Isso sem falar que dá para comprar de laboratórios especializados outras culturas de células para testes específicos”, disse. Com o inconveniente, é claro, de que se forem necessárias importações, a confusão aduaneira do Brasil pode complicar o negócio.

    Também avalia estudos in vitro o laboratório Tecam, segundo revelou a diretora Cynthia Pestana. No laboratório já foi implantado um sistema de teste com córneas bovinas para substituir o uso de coelhos (que depois precisam ser sacrificados) em análises para irritação ocular. Segundo ela, porém, o teste com as córneas apenas permite saber se o produto é corrosivo, mas não estabelece avaliações intermediárias (grau de irreversibilidade, por exemplo) e, portanto, não é conclusivo, ou seja, não determina se o produto é irritante. “Nesse caso, e na maioria dos outros, o in vitro não consegue ainda substituir com eficácia o in vivo”, disse. “Mas a pesquisa internacional caminha para isso”, completou.

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    Janete (esq.) e Cynthia: estudos in vitro servem agora como

    Na sua opinião, por enquanto, o in vitro serve mais como uma triagem das análises, para saber se será necessário o uso de animais ou não. “Ou então quando se quer apenas resultados parciais”, explicou. Mas por causa das determinações das leis que regem o uso de agroquímicos e saneantes no Brasil o mercado continua em alta. O Tecam não utiliza cachorros e nem porcos para as pesquisas, mas em média sacrifica 200 ratos por mês em testes, usados em testes de toxicidade aguda até o nível subcrônico (exposição de até 90 dias). Testes de toxicidade crônica, que levam no mínimo 18 meses, são pouco exigidos pela legislação de agroquímicos, apenas quando há registros de ingredientes ativos novos, o que é raro acontecer. Já a Bioagri costuma realizar testes crônicos de até dois anos, daí seu espectro maior de uso de animais.

    “Apesar de ainda haver o uso de mamíferos, roedores ou não, podemos afirmar que os testes com eles caíram muito nas últimas duas décadas, desde quando inauguramos o laboratório. Hoje o banco de dados é muito maior e permite que se evitem novos testes quando há muita informação sobre determinada substância em análise”, disse Janete Moura, do Tecam.

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    Daphnias – Microcrustáceos

    Ecotoxicidade – Já os testes de ecotoxicidade são de imagem mais branda por usarem organismos vivos que não despertam tanta compaixão, como um dócil filhote de beagle ou um coelhinho. São qualificados como bioindicadores, para avaliar a reação de poluentes na natureza, e suas “cobaias” são pequenos peixes (espécie paulistinha), microcrustáceos (daphnias), algas verdes, abelhas ou minhocas. “Eles são usados principalmente como rotina para testes com amostras periódicas de efluentes. Os organismos são expostos a várias concentrações das amostras para saber que tipo de tratamento o descarte precisa passar, seguindo determinações dos órgãos ambientais”, explicou o coordenador técnico da Bioagri, Paulo Bidinotto.

    Os peixes avaliam a possível mortalidade provocada pelos efluentes. As algas, a possibilidade de inibição de crescimento e os microcrustáceos, a imobilidade provocada pelo descarte. “Dependendo do organismo vai haver uma resposta diferente, o que chamamos de dose resposta. Algumas vezes o teste determina até que não é necessário tratamento do efluente”, disse. Em média, a Bioagri utiliza 15 mil paulistinhas por ano para os testes.



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