Ambiente: Fitma atrai interesse estrangeiro

O mercado de tecnologias ambientais atrai cada vez mais o interesse do meio industrial e vem se consolidando como setor de destaque. Uma prova recente do seu desempenho além da média do restante da economia foi a realização da última feira internacional de tecnologias para o meio ambiente, a Fitma Aquatech Brazil 2002, de 27 a 29 de agosto, em São Paulo. Em sua terceira edição anual, na Bienal do Ibirapuera, a feira teve seu número de visitantes praticamente dobrado, recebendo cerca de 6.700 pessoas. Para os 181 expositores, esse número foi suficiente para garantir um bom intercâmbio técnico-comercial.

Química e Derivados: Ambiente: Costa e Silva - mercado movimenta R$ 20 bilhões.
Costa e Silva – mercado movimenta R$ 20 bilhões.

Também foi importante na feira o contingente de empresas estrangeiras, 21 com estandes próprios e a maioria delas em dois espaços reservados aos Estados Unidos e à Alemanha. Embora tenha contado contra o fato de a Fitma ter ocorrido em período pré-eleitoral, que ajuda a aprofundar o clima de indefinição para investimentos, o grande potencial do mercado privado e público de saneamento ambiental explica a presença estrangeira. Estimativa divulgada na feira por Antônio César da Costa e Silva, presidente nacional da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), uma das organizadoras do evento, revela que esses setores movimentam por ano no Brasil cerca de R$ 20 bilhões.

“Os expositores se mostraram confiantes, apesar de os recursos federais para saneamento básico ainda estarem travados para atender ao acordo com o FMI”, lembrou Costa e Silva. As torneiras fechadas pelo governo, segundo o presidente da Abes, deixam de atender a demanda anual de cerca de R$ 5 bilhões para investimentos em água e esgoto, valor determinado pela secretaria de desenvolvimento urbano para se chegar à chamada universalização, em um período de dez anos.

O presidente da Abes crê, porém, numa retomada de investimentos públicos em 2003, período no qual também deve ser aprovada a lei que regulamenta o setor de saneamento, há muito tempo em discussão no Congresso. Embora ela discipline, entre outras questões, a titularidade do sistema, ponto considerado fundamental para fomento de parcerias com a iniciativa privada, ou até mesmo privatizações, a lei 4.147 não é vista como tão necessária para aumentar as vendas das empresas do setor. Pelo menos na opinião de Costa e Silva.

Química e Derivados: Ambiente: Luca e Smith - decanter nacionalizada.
Luca e Smith – decanter nacionalizada.

“Tanto faz quem vai comprar, se a concessão privada ou a empresa pública, o importante é viabilizar recursos para universalizar o tratamento”, diz. A visão da Abes, aliás, é contrária à privatização pura e simples das empresas de saneamento como a solução dos problemas do saneamento. Principalmente por uma questão: apenas 15% dos municípios brasileiros são considerados interessantes em termos de retorno para a iniciativa privada investir em água e esgoto. Para ampliar esse percentual seriam necessários aumentos expressivos na tarifação, o que a longo prazo, e politicamente falando, inviabilizaria a privatização.

Decanter nova – O interesse pelo mercado brasileiro pôde ser exemplificado por meio dos planos de alguns expositores. Várias dessas empresas, independente da pendência com a regulamentação ou da disponibilidade de financiamentos públicos (que por sinal não são tão escassos, tendo em vista os projetos em andamento pela Sabesp em São Paulo), demonstraram estar de “bem” com os negócios no Brasil.

Um caso ilustrativo ocorre com a fabricante inglesa de centrífugas decantadoras, a Centriquip. Há quatro anos no Brasil, com escritório em Curitiba-PR, está no final de um processo de nacionalização de suas máquinas, que reduz em 25% o custo total do produto. De acordo com o diretor da Centriquip brasileira, Joelci José Luca, a produção local atende a 80% das necessidades da centrífuga. Apenas continuam a ser importadas da Inglaterra o miolo da máquina, um sistema hidráulico automatizado para acionar a helicóide.

O sistema importado, para o diretor internacional da Centriquip, Peter Smith, é o grande diferencial das suas decantadoras, voltadas tanto para uso em efluentes como em processos industriais. Esse sistema inteligente hidráulico, chamado Viscotherm, controla a velocidade diferencial e a pressão da máquina conforme a entrada de carga de sólidos, reduzindo as chances de bloqueio e melhorando assim a continuidade da produção. “Se aumenta a carga, a máquina automaticamente fica mais veloz, caso contrário diminui a velocidade no range de 0 a 22 rpm”, explica o diretor.

Por enquanto a Centriquip já possui cerca de 13 decantadoras em aplicações de efluentes. Mas o plano, com a nacionalização, é aumentar rapidamente esse número. Outro ponto considerado por José Luca como essencial para melhorar o desempenho da centrífuga em aplicações grosseiras, como a de efluentes, é o material construtivo utilizado (também importado da matriz inglesa). Trata-se de aço duplex, com inox, cromo, cádmio e níquel, combinação 30% mais resistente à abrasão e corrosão do que o aço 316. Além de efluentes, a decanter da Centriquip se encontra em aplicações de processo no Brasil, como em separação de pectina, em curtumes e em café solúvel.

Alemães – Outro bom exemplo de empresa empolgada com o Brasil é a alemã Enviro-Chemie, importante empresa de equipamentos e sistemas de engenharia ambiental que reservou estande no pavilhão alemão da Fitma. A empresa divulgava na feira a introdução no Brasil de um novo conceito para tratamento de efluentes de pequenas vazões. No bairro de Jacarepaguá, na zona oeste do Rio, a Enviro-Chemie passa a operar, a partir de novembro, uma central de tratamento para pequenas indústrias com vazões pequenas de efluentes concentrados de quaisquer espécies.

A capacidade inicial da central será de 40 metros cúbicos por dia, mas o plano abrange a meta de 100 metros cúbicos. A unidade conta com tanque de armazenagem, etapa biológica, físico-química e, por fim, a possibilidade de reciclagem de água. De acordo com Cleibson Moreira da Silva, gerente administrativo da Enviro-Chemie do Brasil, cujo escritório comercial também ficará sediado em Jacarepaguá, antes mesmo de iniciar a operação a carteira de clientes já está quase completa. “Devemos crescer muito rapidamente, tendo em vista o interesse que o projeto despertou no Rio”, diz. O sistema de cobrança será por metro cúbico tratado.

Química e Derivados: Ambiente: Cleibson - central de tratamento no Rio.
Cleibson – central de tratamento no Rio.

Além da central, a Enviro-Chemie divulgava seus serviços de reuso de efluentes. Para tanto, expôs uma estação piloto para 500 litros por hora, com osmose reversa e ultrafiltração. A estação representa também uma parceria com a Universidade de São Paulo (USP), cujos trabalhos de bancada servirão para identificar efluentes industriais possíveis de serem reciclados com os sistemas da Enviro-Chemie. A unidade em exposição, aliás, será usada em teste na Cognis, de Jacareí-SP.

Com apenas um ano de Brasil, a empresa já instalou sistemas de tratamento de efluentes e de reuso na Altana Pharma, em Jaguariúna-SP, na qual 12 metros cúbicos de efluentes são 100% reciclados por osmose reversa e ultrafiltração para aproveitamento na alimentação da torre de resfriamento da empresa. Também na Nívea, de Itatiba-SP, a Enviro-Chemie instalou uma estação de tratamento de efluentes (ETE) completa, com tratamento biológico, numa primeira fase já concluída, e futuramente com reuso por ultrafiltração. Bom lembrar que a Enviro-Chemie tem know-how para qualquer tipo de solução de fim-de-tubo, desde estações compactas até unidades de grande porte, sob análise, estudo e planejamento do seu corpo de engenharia.

Também com origem alemã, e sede no Rio, a Tribel (sigla de Tratamento de Resíduos Industriais de Belford Roxo) também tinha novos planos para anunciar na Fitma. Fruto de joint-venture realizada em agosto de 2001 entre a divisão ambiental da Bayer com a francesa Tredi, a Tribel divulgava sua entrada no mercado de co-processamento de resíduos em fornos de cimento. Com essa alternativa, a empresa amplia suas possibilidades de tratamento de resíduos, que tradicionalmente conta com as operações de seu incinerador de Belford Roxo e do aterro para resíduos classe 1.

Química e Derivados: Ambiente: Claudia e Lucio - Tribel vai co-processar.
Claudia e Lucio – Tribel vai co-processar.

“Estamos oferecendo o serviço aos nossos clientes e já nos encontramos em fase final de negociações com cimenteiras”, afirmou a engenheira da Tribel, Claudia Cristina dos Santos. Uma vantagem natural da estrutura já montada no complexo da Bayer é o fato de os resíduos para fornos de cimento poderem ser segregados e preparados sem precisar de novos investimentos. “Já realizamos essa operação para preparar os resíduos para o incinerador”, comentou o chefe de laboratório da Tribel, Luiz Henrique Lucio. De forma geral, a limitação para o co-processamento será com relação aos contaminantes clorados, mais indicados para a incineração.

A concorrente Basf também divulgava investimentos totais de R$ 11 milhões na sua área ambiental em Guaratinguetá-SP. O plano engloba a construção da primeira célula de aterro industrial para disposição de resíduos classe 2, situado ao lado de seu incinerador e de estação de tratamento de efluentes. Com área total de 12 mil metros quadrados e com obras finalizadas neste ano, foram empregados R$ 2,5 milhões na etapa. A segunda célula do aterro, cujas obras já foram iniciadas, absorverão R$ 2 milhões.

O propósito da Basf é aumentar a oferta de serviços de incineração, possibilitando que seus aterros suportem uma demanda maior das cinzas geradas no processo de queima. O incinerador de forno rotativo, que destrói resíduos líquidos, pastosos e sólidos, é supervisionado por dois microcomputadores e uma câmera de vídeo que monitora o processo. Sua capacidade de incineração atinge a marca de 2.700 toneladas.

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