Ambiente – Desconhecimento sobre biota aumenta os riscos do pré-sal

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Estimativas de entradas anuais de petróleo e derivados no mar - Clique para ampliar

CO2 – Permeando toda essa fábrica de impactos, que precisam ser monitorados, evitados e mitigados, há ainda um outro, este de caráter mais macro, que deve ser levado em conta: as emissões de gás carbônico. Segundo cálculos do Greenpeace, se o Brasil estiver ao longo dos próximos quarenta anos usando todas as reservas estimadas do pré-sal a emissão será de 1,3 bilhão de toneladas de CO2 só com o refino, abastecimento e queima de petróleo. Isso significa, segundo a organização ambientalista, que se o desmatamento da Amazônia fosse zerado nos próximos anos esse impacto positivo seria nulo com a entrada dos novos campos de exploração de petróleo, colocando o Brasil entre os três maiores emissores do gás mais responsável pelo aquecimento global. Não custa lembrar que o gás natural gerado no pré-sal tem de 10% a 12% de gás carbônico como contaminante.

A alternativa apresentada pela Petrobras para minimizar esse macroimpacto é empregar a tecnologia, ainda em teste, denominada captura e armazenamento em carbono, que consiste em reinjetar o CO2 nos poços de extração para manter a pressão dos reservatórios e aumentar a produtividade. Atualmente, a estatal injeta água do mar para a mesma função. A nova tecnologia, porém, deve ter um custo muito elevado e seu total domínio levará muitos anos ainda.

Entre os ambientalistas, há desconfiança com relação a essa medida tecnológica. Eles a consideram muito cara e não convincente. Uma alternativa apresentada pelo Greenpeace é utilizar a capacidade do mar como regulador climático. Com capacidade para absorver até 50% das emissões geradas pela atividade humana, a solução seria criar áreas marinhas protegidas, que ainda trariam como bônus preservar estoques pesqueiros e a biodiversidade do litoral brasileiro. Fica difícil, porém, imaginar que a ânsia de se tornar uma “Arábia Tropical” permitirá ao Brasil incluir na sua agenda a criação de reservas marinhas, hoje áreas visadas mais por companhias de petróleo.

Fundo social – Propostas como a do Greenpeace podem receber recursos do fundo social do pré-sal, aprovado no ano passado pelo Senado Federal e que será feito com parte dos royalties da exploração. Isso porque esse mecanismo financeiro vinculado à Presidência da República foi elaborado não só com o propósito de gerar fonte de recursos para o desenvolvimento social e regional, tanto na forma de projetos nas áreas de combate à pobreza e de desenvolvimento social como também para o meio ambiente, especificamente na mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Seria só uma questão de convencer os tomadores de decisão do país.

Nesse sentido, vale relatar o que ocorreu recentemente no Senado Fe­deral, em palestra feita pelo especialista em remediação ambiental Manoel Maia Nobre, mentor de vários projetos de recuperação de solos e águas contaminadas pelo país e professor da Universidade Federal de
Alagoas. Chamado para falar sobre os impactos ambientais do pré-sal aos senadores, Maia Nobre finalizou sua palestra técnica com uma série de recomendações aos senadores para que estes orientassem legalmente o uso dos recursos do fundo social, que seria futuramente votado naquela casa legislativa. Para começar, o especialista sugeriu o fortalecimento do arcabouço legal-institucional do Brasil para monitoramento ambiental e fiscalização das atividades de exploração do petróleo e seus impactos ambientais. Recomendou também ajuda financeira para melhoria do saneamento básico das regiões envolvidas.

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Maia Nobre recomenda aplicação de parte do fundo social em pesquisa

Mas Maia Nobre deu destaque ainda para a necessidade de se fomentar pesquisas em universidades brasileiras e institutos de pesquisa para conhecimento da biota e aproveitamento sustentável das riquezas naturais da chamada “Amazônia Azul” (leia-se o nosso rico e biodiverso Oceano Atlântico). Além disso, pediu aos senadores que refletissem sobre a urgência em semapear as áreas da costa brasileira mais sensíveis ambientalmente à contaminação por hidrocarbonetos do petróleo com o fim de criar um banco de dados confiável para a prevenção de impactos.

Complementou sua explanação recomendando ainda que o fundo social tenha uso também na educação ambiental em todos os níveis escolares, para maior monitoramento e conscientização das atividades petrolíferas; que capacite o setor pesqueiro nacional; que provenha a Marinha Brasileira de maior quantidade de recursos para fiscalizar e proteger o litoral; e, por fim, que permita a criação de um “Marco Zero Ambiental”, para se criar uma política de gestão ambiental independente das empresas de exploração de petróleo. Ou seja, com a palestra do especialista, autoridades nacionais foram alertadas sobre o que deve ser feito para o Brasil aproveitar essa grande chance de enriquecer de forma sustentável. E perene, ao contrário do que historicamente sempre fizemos com o “ouro” da vez.

 

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