Ambiente – Desconhecimento sobre biota aumenta os riscos do pré-sal

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Mecanismos de intemperização de hidrocarbonetos com o tempo - Clique para ampliar

As pesquisas do instituto para identificar o padrão da água do mar no litoral paulista, por meio de amostragens de sedimentos, já revelaram, por exemplo, que a região de Cubatão tem nível altíssimo de hidrocarbonetos. “É uma região com pouca dinâmica, o que faz com que os poluentes se concentrem muito no local”, disse. No caso de operações offshore e, sobretudo, nas profundidades onde estarão os poços do pré-sal, a dinâmica do mar é muito maior e tende a dispersar melhor os HDTs. Mas isso não significa um sinal verde para a nova operação petrolífera, pelo contrário, com o maior movimento, tráfego de navios, dutos, enfim, toda a logística e operação instalada, a poluição crônica da região tende a aumentar. E principalmente mais próxima da costa, no caminho para os novos poços, o que agrava uma situação já considerada ruim pelos especialistas. “A atenção tem que ser voltada não só para evitar os acidentes, mas para prevenir e diminuir as descargas crônicas, que são o maior problema”, completou.

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Contribuição Relativa de Contaminantes para o ambiente marinho em relação às vias de transporte/disposição - Clique para ampliar

A poluição crônica tem o agravante de não dar tempo para o oceano fazer algo que ele comprovadamente tem capacidade: se autorregenerar, realizar o que os profissionais da área chamam de atenuação natural. Isso foi provado em vários estudos que avaliaram o famoso acidente do navio Exxon Valdez, no Alasca, no qual a própria biota marinha, as correntes, a dinâmica do mar, foram mais eficientes do que a ação do homem para remediar a área afetada. “Já a poluição crônica agrava as consequências ao longo do tempo, como uma doença não tratada e que continua a ser alimentada pelas suas causas ininterruptamente”, explicou a professora.

Nessa perspectiva, a gestão ambiental do pré-sal – mesmo sabendo que um derrame em alta profundidade é muito mais difícil de ser controlado – pode considerar um acidente como “o menor dos males” (se é que possível qualificar esses riscos). O mais preocupante para essas regiões é pensar no grande movimento petrolífero que passará a ser acrescentado com o pré-sal. Para se ter uma ideia, apenas nas áreas de descobertas iniciais, a Petrobras projeta operar com 50 plataformas, que consumirão o mesmo tanto de energia de toda a Grande São Paulo (5.000 MW). Além das plataformas operacionais, haverá a necessidade de se criar centros logísticos flutuantes para navios e helicópteros no meio do caminho entre a costa e as plataformas, que ficarão muito distantes do litoral (mais de 300 km), trajeto impossível de ser coberto em voos diretos por helicópteros. Também farão parte da estrutura do pré-sal plataformas especiais para geração de eletricidade e ainda outras para misturar substâncias químicas para os fluidos de perfuração.

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Faixa de níveis típicos de concentrações de hidrocarbonetos do petróleo em águas superfeciais - Clique para

Toda essa megaestrutura precisará ser alimentada por uma frota de navios, embarcações, helicópteros (e talvez até dirigíveis), que trará consigo uma geração extra, crônica e alta de combustíveis e todos os seus poluentes conhecidos (hidrocarbonetos, metais, óxidos de nitrogênio e de enxofre etc), que devem ser computados como uma fonte de impacto bem maior do que as esporádicas (e não esperadas) ocorrências de sinistros. “A Petrobras e demais operadoras precisam ter um plano de contingência para acidentes, tudo bem. Mas também precisam pensar em minimizar os impactos que farão aos oceanos diariamente”, disse a professora Márcia.

‘Fábrica’ de impactos – Os impactos ambientais na exploração e produção de petróleo são inerentes à atividade e começam já nas fases mais iniciais de prospecção. Durante a pesquisa geológica e geofísica por sísmica, há fortes indícios de que a sondagem por ultrassom interfira na capacidade de ecolocalização de mamíferos marinhos, sobretudo as baleias e os golfinhos. De acordo com o professor Alexander Turra, embora seja um tema polêmico, com estudos prós e contras, pelo princípio da precaução a recomendação dos pesquisadores é considerar como se o efeito já tivesse sido provado. E também não é para menos, dado o grande número de baleias que hoje em dia encalham em praias mundo afora.

Com conhecimento das rotas migratórias dos mamíferos, sob a orientação de centros de pesquisa, o ideal é ter cautela nessas áreas e, na impossibilidade, determinar ações mitigadoras ou compensatórias para as empresas petrolíferas. “Por exemplo, pode ser proposto o financiamento de um projeto de conservação para a baleia jubarte ou para o golfinho-rotador, comuns na nossa costa e ameaçados de extinção”, lembrou Turra. É bom acrescentar que, além da alteração na ecolocalização, as pesquisas sísmicas também podem interferir na atividade pesqueira.

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Principais fatores de impacto ambiental em diferentes estágios da produção offshore de óleo e gás - Clique para ampliar

Ainda na fase de prospecção, o outro impacto importante é na perfuração de poços para testes, feitos em grande quantidade. Nessa hora, com o uso das brocas e do líquido lubrificante (composto de barita), mais a água, são gerados particulados ou lamas dos resíduos da perfuração, que sobem à embarcação e por ressuspensão caem de volta próximos ao poço. “Apesar de não ser uma área muito grande, o fundo do oceano fica alterado. O que era um substrato mole, um lodo, passa a ter fragmentos de rocha. E os animais que vivem em fundo mole não vivem no duro, o que altera a fauna local”, disse. E esse novo cenário, no caso do pré-sal, por ser em áreas muito profundas, é mais difícil para se autorregenerar. “Nessa profundidade, o movimento das águas é muito lento”, completou o professor.

Depois da fase de prospecção, na instalação da infraestrutura para a exploração, há também uma sequência grande de impactos, muitos deles em alto grau de importância. Há a necessidade de deitar dutos no fundo do mar, de cavar e perfurar, o que gera muito resíduo de perfuração. São impactos semelhantes aos da fase de testes quando há perfuração de poços, mas em um nível maior de gravidade. “Pode ser que no pré-sal haja menos construção de dutos. Por causa da distância, parte deve ser escoada por navios”, disse. “Mas aí haverá um aspecto negativo durante a produção: se um duto provoca um vazamento, basta fechar a válvula. Já os navios, além de ficarem circulando sob risco de acidentes, podem afundar com todo seu óleo a bordo”, complementou Turra. Mas não custa acrescentar que a Petrobras estuda e cogita construir também vários dutos para escoar óleo e gás, que seriam bombeados por geradores elétricos submarinos.

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Márcia: poluição crônica da E&P é pior que os derrames de petróleo

Na fase de exploração e produção, o impacto maior é o vazamento, mas com certeza não pode ser considerado o único. Para começar, a operação constante gera distúrbios físicos, com lançamentos na construção e comissionamento de instalações de suporte e tubulações. Além disso, cotidianamente são realizados serviços de manutenção que geram lançamentos operacionais de efluentes e resíduos e derrames acidentais. O cotidiano operacional, enfim, altera o bioma e consequentemente quem vive dele (pescadores, principalmente). E é bom lembrar que os impactos seguem até o término da operação, quando as reservas se esgotam. Quando se removem plataformas e estruturas e se fecham os poços, há emissões e lançamentos operacionais e o uso de cargas explosivas para a desativação impactam os organismos aquáticos.

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