Ambiente – Desconhecimento sobre biota aumenta os riscos do pré-sal

O navio Alfa Crucis, segundo Turra, é modernamente equipado, tem autonomia de 60 dias de mar, pode levar 20 pesquisadores a bordo, conta com guinchos poderosos e, sobretudo, pode fazer amostras em profundidade. “O navio atende a uma demanda urgente: é fazer ou fazer”, disse o professor. Para ele, o bioma das zonas ultraprofundas, embora desconhecido no Brasil, indica ser, pelos estudos em outras áreas dos oceanos, alto e diferenciado, e com certeza de muita importância para o ecossistema. “Trata-se de uma zona muito sensível, com movimento baixo, o que dificulta a dispersão de alterações provocadas por poços. E com certeza ela tem papel muito importante nos fluxos marinhos”, completou. Segundo o professor, depois que começar a exploração em larga escala do pré-sal, com muitos poços abertos, o risco de impacto cumulativo nessas regiões passa a ser muito alto, principalmente se não se estipular restrições e medidas de contenção e preservação.

Outra iniciativa que reflete a preocupação com a informação veio da própria estatal do petróleo, que resolveu dar o primeiro passo para conhecer a biota das zonas profundas dos locais onde deve passar a explorar mais daqui para frente. Neste ano, a Petrobras financia o Instituto Oceanográfico para fazer o chamado Levantamento de Dados Pretéritos da Bacia de Santos. Trata-se da reunião e sistematização de tudo o que até hoje foi pesquisado pelo IOUSP nessa bacia. “A partir daí vamos saber quais as lacunas que precisam ser preenchidas em projetos futuros”, disse Turra.

A falta de informação sobre os oceanos, aliás, não se limita a zonas profundas. De acordo com Turra, nem mesmo as zonas costeiras mais rasas são suficientemente cobertas pelo conhecimento científico. Isso fica nítido no documento oficial do Ministério do Meio Ambiente, chamado Levantamento de Áreas Prioritárias para Conservação, feito em 1999 e revisado em 2006, uma espécie de mapeamento de áreas sensíveis de todos os biomas do Brasil. Apesar de didático (dividindo por gradações de cores as áreas mais e menos sensíveis), as faixas litorâneas contam com poucas observações no documento, em detrimento de outros biomas. “Está aí um grande projeto: suprir de informações o levantamento do ministério, para classificar os oceanos com sua devida importância”, disse. Não custa lembrar que a maior parte dos seres vivos do planeta está nos oceanos e que alguns ecossistemas marinhos são tão complexos quanto as florestas úmidas tropicais.

Química e Derivados, Tabela, Ambiente, Biota, Pré-Sal, Intemperização de hidrocarbonetos do petróleo no mar, Riscos do Pré-Sal
Hidrocarbonetos do petróleo no mar - Clique para ampliar

Poluição crônica – Toda a preocupação em preservar o ambiente marinho, desde as áreas desconhecidas e profundas do oceano até as mais costeiras e próximas do ser humano, tem justificativas mais do que fundamentais. A importância cresce na medida em que os mares se consolidam cada vez mais como grande fonte futura de alimento para o homem e, sobretudo, quando se nota o risco a que essas atividades pesqueiras estão expostas com a crescente poluição.
É notória hoje entre os especialistas a certeza de que os oceanos recebem uma carga constante e alta de poluentes e, nessa conta, os hidrocarbonetos de petróleo têm participação relevante. Para a professora do departamento de oceanografia física, química e geológica do IOUSP, Márcia Caruso Bícego, a chamada poluição crônica dos oceanos pelos hidrocarbonetos é até pior do que os derramamentos acidentais. “Ela é constante, gerada pelas indústrias instaladas nas regiões costeiras, pelo tráfego de navios, movimentação portuária, pela combustão incompleta, pelo esgoto, enquanto o derrame de petróleo é eventual”, disse Márcia. Um percentual estatístico dá conta de que apenas 12% dos hidrocarbonetos detectados nos oceanos são provenientes de acidentes. A maior parte, cerca de 70%, vem dos navios e o restante de atividades offshore, da exsudação natural e de outras fontes, como da indústria.

A professora, que coordena laboratório de análises químicas no IOUSP e já fez vários levantamentos analíticos no litoral paulista, chama atenção para o fato de que apenas uma média de 15% dos HDTs presentes nos mares são realmente tóxicos, ou seja, se enquadram como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). “Eles se concentram mais ou menos nessa média dentro da composição do petróleo”, disse. O restante possui um potencial de prejuízo mais físico. “Muitas vezes os animais acabam usando até as bolas de piches de óleo como substrato”, acrescentou.

Página anterior 1 2 3 4Próxima página

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios