Ambiente – Cetrel cria empresa para recuperar resíduos industriais

Extrair de efluentes e resíduos industriais os metais valiosos e compostos, sintéticos e naturais, com potencial de se transformar em matérias-primas diversas é o core business do recentemente inaugurado Centro de Inovação e Tecnologia Ambiental (Cita), instituição anexa à Cetrel S.A., a empresa de soluções ambientais controlada pela Braskem (53%), com participação do estado da Bahia (23%).

A pretensão do Cita, onde foram investidos R$ 15 milhões, passa pelo desenvolvimento e registro de patentes em atendimento à onda inovadora de reciclar integralmente os resíduos e transformá-los em riqueza em vez de descartá-los, mesmo parcialmente, por meio das chamadas soluções “fim de tubo”.

O líder de Pesquisa e Desenvolvimento de Inovação da Cetrel, Alexandre Machado, ressalta a determinação de se antecipar à tendência global de valorização dos resíduos: “Pensamos no resíduo como matéria-prima, fonte de muita riqueza.” Ele apresenta a “filosofia” dessa estratégia: fechar o ciclo de recuperação de metais e substâncias compostas sem gerar qualquer resíduo. Sete a dez por cento da receita da Cetrel deve ser investida em pesquisa e desenvolvimento.

Como exemplo de metais com grande potencial de recuperação no Polo Industrial de Camaçari, o ambiente da Cetrel/Cita, o líder de pesquisa aponta o enxofre e o mercúrio. Dentre os compostos com potencial de retorno à cadeia produtiva, ele enumera os termoplásticos descartados na própria indústria ou usados, principalmente polietilenos (PE), polipropilenos (PP) e policloreto de vinila (PVC), restos de celulose e outras fibras naturais, além de resíduos particulados, ricos em carbonato e sílica, que podem entrar na formulação de compósitos.

O Cita desenvolve também um projeto para produzir material de pavimentação, à base de um diversificado conjunto de matérias-primas potenciais: cinzas e escórias procedentes da indústria siderúrgica e metalúrgica, solos contaminados por resíduos do tipo classe dois, incluindo borras oleosas e outros sistemas orgânicos.

Alexandre Machado lista os equipamentos já instalados no Cita: difratômetro de raios X, para análise mineralógica de materiais; fluorescência de raios X; termobalança, para análises termogravimétricas TG/DSC/DTA; equipamentos diversos “para caracterização e desenvolvimento de cimentos e misturas asfálticas; para o desenvolvimento de compósitos poliméricos; e para o desenvolvimento e caracterização de materiais para a indústria metal-mecânica”.

Metais – O enxofre, disponível na Cetrel em resíduos sólidos, depositados em um dos aterros, ou nos efluentes líquidos, necessariamente deve ser recuperado sem produzir emissão atmosférica e demandar energia elétrica. Para tanto, o processo escolhido é a hidrometalurgia, já prestes a ser instalada no Cita, em escala piloto, com previsão de partida para 2012. Machado resume: “O enxofre é solubilizado em um tanque com solvente, passa pela filtragem, é aquecido à baixa temperatura, volatizado, em seguida chega ao condensador, onde então é precipitado.”

Para aproveitar outras fontes de enxofre, das emissões atmosféricas, o projeto prevê o abatimento das partículas presentes, usando membranas de adsorção colocadas nas fontes pontuais, e posterior recuperação pela hidrometalurgia. Uma das indústrias mapeadas já dispõe de sistema de abatimento próprio, mas ainda deixa escapar 90 t/mês de enxofre. “O excesso desse elemento na atmosfera pode causar chuva ácida”, pondera.

As fontes de enxofre de grande parcela das mais de cem empresas do Polo de Camaçari são consideradas suficientes para viabilizar o projeto. A intenção é que, recuperado, esse enxofre chegue ao mercado com grau de pureza correspondente a até cinco vezes ao do usualmente encontrado. “Quando nosso sistema de abatimento estiver com a tecnologia consolidada, esse potencial será ampliado”, enfatiza.

Quanto ao projeto da membrana para abatimento do enxofre e demais poluentes gasosos, segundo Machado, baseado em uma solução “muito simples”, a etapa é a de desenvolvimento e testes de laboratório. “Logo estaremos solicitando a patente”, prevê.

O projeto de abatimento atmosférico inclui também o desenvolvimento de um filtro automotivo, com tempo de vida útil, para ser acoplado nos escapamentos de automóveis e veículos de passageiro e carga, inicialmente nos das próprias empresas de Camaçari, a fim de reter CO2 e metais pesados diversos. Os primeiros protótipos já estão sendo testados em uma bancada com forno acoplado e suprimento de gás. “É um projeto na linha do crédito carbono, já aprovado na Finep”, esclarece.

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Machado: foco na revalorização de metais

Caso o processo de recuperação de um ou outro metal possa liberar algum resíduo instável, o que pode e deve ser feito? Machado responde: recuperada a espécie química, o material solúvel deve ser agregado a um composto onde permaneça estabilizado. A sugestão mais imediata é a agregação a blocos de material de construção, telhas etc., mas não como se faz usualmente, sem previsão das consequências. Para tanto, é preciso caracterizar o resíduo antecipadamente, apontar os possíveis efeitos e reações que possam causar em determinadas circunstâncias, e a qualquer tempo. “Não será porque a telha não estourou logo que a solução está aprovada.”

Para que esse procedimento seja bem-sucedido, o Cita se propõe a observar, previamente, como o material propenso à instabilidade está estruturalmente estabilizado na natureza, para que o mesmo processo seja simulado em laboratório. Alexandre Machado dá um exemplo: em atendimento à demanda de uma empresa, às voltas com um resíduo contendo alto teor de mercúrio, identificou-se que na natureza, combinado com o enxofre, esse metal forma um composto altamente estável, insolúvel, o cinábrio (sulfeto de mercúrio). “No laboratório, obtivemos um composto com característica semelhante”, assegura.

Assim estabilizado, o mercúrio pode ser vendido como matéria-prima. O executivo lembra que o país importa mercúrio. E arremata: “O que o Cita faz? Faz uma reengenharia do material, examina os elementos nele contidos, o estabiliza, e assim transforma esse material em matéria-prima.”

Uma idealizada extensão desse projeto é a que prevê um salto à frente na reciclagem da sucata eletrônica (e-lixo), notadamente dos metais como ouro, prata e paládio contidos em computadores e celulares – os mais valiosos –, e também, cobre, estanho, gálio, rutênio, índio, bismuto etc. Para recuperar esses metais nobres e valiosos está nos planos estabelecer parcerias, até mesmo em outros estados, a começar pelo Rio Grande do Sul, onde a Braskem controla o 3º Polo Petroquímico.

Compósitos– Uma das linhas de compósitos em desenvolvimento é a da madeira plástica, barras e perfis adequados à construção de decks de piscinas, tablados de varandas e áreas externas, revestimentos de paredes, bancos de jardins etc. Tal madeira resulta da combinação de polímeros sintéticos com restos de fibras naturais.

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O Cita é uma sociedade sociedade entre a Braskem e o governo baiano

Grãos de PP, PE e PVC caídos do reator, perdidos no decorrer dos processos e nos efluentes, decantados nas barreiras de contenção do sistema de água pluvial ou sob forma de aparas procedentes de empresas de transformação são a matéria-prima da madeira plástica, juntamente com restos de celulose de uma fábrica local.

A motivação dessa linha reside no mercado florestal, que no Brasil movimenta US$ 28 bilhões por ano e rende ao país embaraçoso passivo de acusações de desmatamento, destruição do meio ambiente e outros desmazelos.
Com compósitos formados por restos de PP e PE e fibras naturais particuladas, como sisal ou bagaço da cana-de-açúcar, já foram produzidos protótipos de contêineres, móveis e cadeiras, manequins para roupas e outros objetos. Uma educativa exposição desses objetos está presente em uma das salas do prédio construído recentemente na área da Cetrel, onde o Cita foi instalado.

Pavimentação – Além de solução para transformar cinzas e escórias, solos contaminados por hidrocarbonetos e restos betuminosos da refinaria à condição de matérias-primas, o projeto de pavimentação e produção de cimentos oferece também mais uma alternativa à incorporação, e consequente estabilização, dos compostos instáveis que possam resultar da recuperação de algum metal.

O líder de pesquisa, desenvolvimento e inovação fala sumariamente das massas asfálticas e artefatos (blocos, bloquetes etc.) que foram ou estão sendo desenvolvidos e apresenta algumas amostras. Ele justifica: os detalhes não podem ser revelados em razão de as patentes ainda estarem em tramitação. “O que podemos ressaltar é que todos os produtos atendem aos requisitos necessários para a utilização segura na pavimentação.”

 

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