Alimentos – Mudança de paradigmas abre oportunidades

Mas impõe restrições ao uso de insumos

Nada será como antes talvez seja um bom clichê para definir os rumos da indústria de alimentos e bebidas neste ano.

Novos paradigmas refletem o maior interesse do consumidor pela funcionalidade dos produtos, além da busca do mercado por práticas de proteção ambiental.

Em meio a tudo isso, as demandas por itens de origem vegetal e industrializados avançam.

As mudanças nos rótulos das embalagens, que preveem as informações nutricionais na parte frontal, também têm movimentado o setor, impulsionando os fabricantes a reduzir sódio, açúcar e gordura saturada das formulações.

Pós-pandemia – Novos padrões de consumo despontaram após o aparecimento da Covid-19, e estes se tornaram mais evidentes no ano passado.

Com o avanço da vacinação e o retorno dos compromissos nos ambientes corporativos e sociais, o mercado seguiu aquecido em setores de suplementos e vitaminas, assim como de bebidas dietéticas ou de baixas calorias.

Aliás, a fabricação desses dois últimos itens cresceu 7,6%, nos nove primeiros meses de 2021, se comparado ao mesmo período do ano anterior.

Alimentos – Mudança de paradigmas abre oportunidades ©QD Foto: iStockPhoto
Gislene Cardozo, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria para Fins Especiais e Congêneres (Abiad)

“Essa expansão reflete a retomada dos hábitos de se alimentar fora de casa e o retorno gradual aos eventos e atividades sociais”, ratifica Gislene Cardozo, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria para Fins Especiais e Congêneres (Abiad).

Vale mencionar que, no mesmo período, as vendas de vitaminas cresceram 7%, enquanto as de suplementos, 1,3%.

No entanto, apesar dos índices positivos de alguns segmentos, no acumulado de janeiro até setembro de 2021, o setor de alimentos para fins especiais manteve retração de 2,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Para Gislene, esse resultado reflete alguns fatores, como queda no poder aquisitivo do brasileiro, elevadas taxas de desemprego, aumento da inflação e diminuição do poder de compra.

De qualquer forma, a pandemia impulsionou a comercialização de alguns tipos de alimentos, pois instigou no consumidor algumas preocupações relacionadas aos cuidados com a saúde e destacou a importância da manutenção de hábitos saudáveis e de uma alimentação equilibrada, além da atenção às carências nutricionais que o corpo demanda.

“Observamos a manutenção de crescimento em 2021, e as perspectivas para 2022 são positivas”, diz Gislene.

Não é por acaso que, no ano passado, o que mais chamou a atenção de Helvio Tadeu Collino, presidente do conselho diretor da Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Ingredientes e Aditivos para Alimentos (Abiam), foram as soluções para desenvolver formulações voltadas à saudabilidade e ao aumento de imunidade.

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Helvio Tadeu Collino, presidente do conselho diretor da Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Ingredientes e Aditivos para Alimentos (Abiam)

“A busca por produtos como esses, bem como por uma alimentação preventiva e de valor agregado deverão seguir sendo os drivers principais de evolução”, afirma Collino.

Apesar de a procura por produtos funcionais não ser novidade para o setor alimentício, seu avanço impressiona. Segundo Luís Madi, diretor de Assuntos Institucionais do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, o consumidor percebeu que saúde e bem-estar são muito correlacionados.

“Ele busca a funcionalidade de alguns alimentos para o trato digestivo, para o trato respiratório e para o trato circulatório, que proporcione melhores condições físicas do ponto de vista da funcionalidade”, afirma.

Em consonância com este cenário, a regulamentação dos alimentos para fins especiais também progrediu, com algumas publicações. Um exemplo é a IN 102/2021 (atualização da IN 28/18), para o segmento de suplementos, com a aprovação do ingrediente melatonina.

Também foram regulamentados os padrões microbiológicos de fórmulas para nutrição enteral e erros inatos do metabolismo (IN 110/2021). Gislene comenta ainda a RDC 460/2020: “foi um importante avanço no setor, por regulamentar os requisitos sanitários das fórmulas dietoterápicas para erros inatos do metabolismo”.

Destaques – Olhando para 2021, os desafios ligados à sustentabilidade da produção de alimentos se destacaram, e devem continuar assim em 2022, segundo Madi.

As empresas estão fazendo várias melhorias nesse sentido, como a redução do consumo de água e do uso de embalagem, a reciclagem e o aproveitamento de resíduos. Esta questão tem sido levada a sério pelo setor de alimentos.

Prova disso se nota na adesão do mercado a um levantamento do Ital (a ser lançado, em março deste ano, no site Indústria de Alimentos 2030) que mostra o que as principais companhias de ingredientes, alimentos, bebidas e embalagem têm feito neste sentido.

Em comparação ao primeiro estudo, dobrou o número de empresas participantes – hoje são 34.

Fica fácil entender por que um tema muito relevante para este ano tem sido o ESG (Environmental, Social and Governance).

Normalmente, empregado para avaliar as práticas ambientais, sociais e de governança de uma organização, esse método abrange questões como contenção de perdas e desperdícios e diminuição da pegada de carbono, além de eficiência no uso da água e da preservação da sustentabilidade dos ingredientes.

Aliás, uma das “10 Principais Tendências Globais de Consumo 2022”, divulgada em relatório da Euromonitor International, no início do ano, se refere ao que o instituto chamou de Agentes do Clima.

O termo diz respeito ao ativismo verde e aos estilos de vida centrados no baixo teor de carbono que, segundo consta, vieram para ficar.

O levantamento aponta que à medida que a emergência climática aumenta, intensificam-se as cobranças da sociedade quanto ao posicionamento das marcas.

A saber: em 2021, segundo o levantamento, 35% dos consumidores no mundo reduziram ativamente suas emissões de carbono.

Novo consumidor – Sobre os hábitos de consumo dos alimentos, a categoria de produtos de origem vegetal despontou de forma vigorosa e se firmou como tendência.

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Luís Madi, diretor de Assuntos Institucionais do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital)

“O plant-based veio para ficar, porque há uma demanda do consumidor em utilizar maior quantidade de produtos de origem vegetal, seja como hambúrguer ou como bebida”, reforça Madi.

Não por acaso, o Ital conta com o Centro de Inovação em Proteína Vegetal (PRO-VEG). A ideia é aproveitar melhor o potencial do Brasil para o desenvolvimento de novas fontes de proteínas vegetais e de processos modernos e economicamente viáveis e sustentáveis para obtenção dessas proteínas.

A expectativa é a de que haverá um impacto positivo desse tipo de demanda de ingredientes e aditivos para alimentos e bebidas. “Agrega valor e inovação aos novos produtos colocados no mercado”, comenta Collino. No entanto, ele associa o crescimento da categoria plant-based à regulamentação.

De acordo com ele, os órgãos reguladores em parceria com as universidades e representantes da indústria estão trabalhando nesta questão (o que deve levar um tempo ainda para sua finalização), tomando como base os aditivos utilizados mundialmente e devidamente avaliados por órgãos internacionais renomados.

Entre as preferências dos consumidores, em 2021, o maior destaque foi o aumento das vendas dos industrializados, segundo diagnosticou Madi.

Com a dificuldade de circulação imposta pela pandemia, esses produtos passaram a ser adquiridos de uma forma mais consistente. Aliás, ele faz questão de reforçar a importância desses alimentos para o consumidor brasileiro. “Seria um desastre se deixassem de ser consumidos, pois são altamente estratégicos e, sim, benéficos à saúde”, afirma.

O seu discurso vai de encontro à recomendação do Guia Alimentar para a População Brasileira, que se baseia na classificação Nova, proposta pelo Ministério da Saúde. A sugestão desse documento é dar preferência ao consumo de alimentos minimamente processados e evitar os ultraprocessados.

Esse último tipo, de acordo com a definição da publicação, trata de produtos em cujos rótulos há cinco ou mais ingredientes, como gordura vegetal hidrogenada, xarope de frutose e corantes, aromatizantes e realçadores de sabor, entre outros aditivos.

E por falar nela, a indústria de ingredientes e aditivos para alimentos e bebidas manteve, no ano passado, sua tradicional evolução, com investimentos e geração de empregos e oportunidades. “Mesmo diante de um cenário complicado, mantivemos o ritmo acelerado de trabalho, especialmente com os órgãos reguladores”, comenta Collino.

Alimentos – Mudança de paradigmas abre oportunidades ©QD Foto: iStockPhoto

O resultado dessa postura se reflete em números: o mercado cresceu 6%. E, segundo as previsões, continuará avançando. Para este ano, é esperado que o tíquete médio (valor médio das vendas de um período) desse setor seja elevado.

Além disso, vislumbram-se o aumento do consumo e a geração de mais empregos. “Estamos diretamente atrelados à evolução da indústria de alimentos do país, que é o segundo maior PIB do Brasil. Para 2022, seguiremos da mesma forma, devendo o nosso PIB ficar um pouco acima do da indústria de alimentos”, diz Collino.

Pela saúde – As mudanças promovidas em prol da melhoria do valor nutricional dos produtos alimentícios, sobretudo pelos acordos coordenados pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) junto ao Ministério da Saúde, para a redução de gordura saturada, de sódio e de açúcar impactaram o setor neste ano que passou, e assim deve se manter não apenas em 2022, mas durante a próxima década.

“As transformações são imensas e isso não aparece com clareza para o consumidor, porque é um processo lento e as inovações tecnológicas são complexas”, afirma Madi.

Ele cita que um exemplo dessa complexidade se refere à diminuição do açúcar em cereais e chocolates.

Madi também pontua a necessidade de as alterações serem implantadas paulatinamente. Segundo consta, se a mudança for feita de uma hora para outra, o consumidor brasileiro simplesmente deixa de ingerir esses produtos e busca outros que atendam a sua preferência por mais sal, açúcar e gordura.

Atrelada a esse movimento está uma das novidades da indústria de alimentos: a rotulagem nutricional, cuja legislação foi publicada em novembro do ano passado. Vale dizer que a quantidade de gordura saturada, sódio e açúcar das formulações deverá estar destacada, no rótulo frontal das embalagens.

O cronograma de implantação prevê a nova rotulagem obrigatória a partir de 9 de outubro deste ano para novos produtos. Em 2023, o mesmo será exigido de todos os alimentos que já existem no mercado.

A exceção ficará por conta de itens artesanais e os da agricultura familiar, de empreendimentos econômicos solidários e das agroindústrias de pequeno porte e artesanal.

Neste caso, a exigência valerá em 2024. Existe também um último prazo, em 2025, para a implantação do novo rótulo em bebidas não alcóolicas em embalagens retornáveis. “O setor vem trabalhando para estar preparado, a fim de atender o prazo”, conclui Collino.

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