Alimentos: Funções nutritivas, cosméticos e farmacológicas avançam como tendências

Química e Derivados, Alimentos: Funções nutritivas, cosméticos e farmacológicas avançam como tendências dessa indústria

Pesquisas fartamente divulgadas pelos meios de comunicação apontam o crescente apelo de alimentos que sejam percebidos como “naturais”, embora passem por industrialização. Mostram também a busca por alimentação mais saudável, ou seja, entre outras coisas, isso significa conter menores teores de sal, açúcar e gorduras. Manifestam ainda o interesse por alimentos com funcionalidades adicionais à nutrição, como a capacidade de regularização das funções intestinais – anunciada pelos alimentos probióticos e prebióticos –, e os benefícios metabólicos associados aos ácidos graxos da família Ômega 3, muito em voga.

A indústria alimentícia não só está atenta a essas tendências, mas também delas se vale para criar novos conceitos e abrir mercados. É o caso dos chamados produtos nutracêuticos, que integrando em seu nome trechos dos termos ‘nutriente’ e ‘farmacêutico’ vinculam incisivamente alimentos e benefícios à saúde. E já se fala nos ‘nutricosméticos’, que associam ingredientes nutricionais aos apelos relacionados à estética, como preservação da pele e dos cabelos.

Química e Derivados, Ômega 3 extraído de algas marinhas serve aos vegetarianos
Ômega 3 extraído de algas marinhas serve aos vegetarianos

Tais movimentos são acompanhados pelos fornecedores de ingredientes e aditivos para produtos alimentícios: caso da Química Anastácio, empresa com quase oito décadas de existência que há pouco mais de uma dez anos passou a atuar de forma estruturada no mercado da nutrição, no qual inicialmente privilegiou as commodities. “Mas agora começamos a avaliar mais também os nichos que vão se fortalecendo: alimentos funcionais, nutracêuticos, nutricosméticos, ingredientes e extratos naturais”, relata Fábio Rodrigues, gerente comercial da área de nutrição da distribuidora química.

Química e Derivados, Rodrigues: os antioxidantes naturais substituem sintéticos
Rodrigues: os antioxidantes naturais substituem sintéticos

Como exemplo de produto nessas tendências recentemente integrado ao portfólio, Rodrigues cita o edulcorante natural extrato de estévia. “Nos últimos anos esse edulcorante evoluiu muito em termos de qualidade sensorial e vem ganhando espaço em mercados como bebidas, aromas e adoçantes de mesa”, diz.

Além disso, prossegue Rodrigues, a indústria de óleos e gorduras busca antioxidantes naturais capazes para substituir antioxidantes tradicionais, como BHT, BHA e TBHQ, quando aplicados diretamente em seus produtos ou integrados aos alimentos de cuja composição eles façam parte. Nessa busca, as pesquisas hoje destacam os extratos de alecrim. “Estamos acompanhando esse movimento, até porque os antioxidantes naturais podem ser usados não apenas em produtos alimentícios, mas também em nutrição animal e em cosméticos”, explica o gerente comercial.

Alexandre Duque Sousa, diretor comercial da Buschle & Lepper, também enfatiza a expansão da demanda por produtos mais naturais, além da busca por itens capazes de aumentar o tempo de vida útil dos alimentos e reduzir os desperdícios dos processos. Mas, simultaneamente, a indústria alimentícia também quer reduzir teores de sal, açúcar e gorduras sem alterar o sabor dos alimentos. “Para substituir o sal, por exemplo, podem ser utilizados fosfatos, sais com baixos teores de sódio e aromas com função de realçar o sabor”, informa Souza (ele cita a combinação entre cloreto de sódio e cloreto de potássio como uma das possibilidades para se formular um ‘sal light’). “Por sua vez, o açúcar pode ser substituído por edulcorantes e alguns tipos de aromas”, acrescenta.Maior solubilidade – A redução do teor de sódio nos produtos alimentícios acontece não apenas pela substituição do sal tradicional. Há outras iniciativas, como o uso mais intensivo nas massas expandidas – casos dos pães e bolos –, de bicarbonato de amônio como alternativa aos fermentos compostos com bicarbonato de sódio e acidulante. Os fermentos com bicarbonato de sódio, explica Rogério Bonato, diretor da Boraquímica, quando aquecidos liberam água e gás carbônico, mas deixam o sódio no alimento. “Já o bicarbonato de amônio é totalmente volátil, não deixa resíduos”, ressalta.

Também se desenvolve, destaca Bonato, o uso de adoçantes para além do universo dos produtos para diabéticos. “Com sabor cada vez mais próximo ao do açúcar, adoçantes são atualmente associados à redução calórica dos alimentos em geral”, relata o diretor da Boraquímica, empresa que recentemente incorporou ao portfólio diversos edulcorantes – como acessulfame K, aspartame, ciclamato, sacarina e sorbitol –, além do fermento químico de bicarbonato de amônio e das gomas.

Bonato observa ainda crescente emprego dos fosfatos em diversas categorias de alimentos, oferecendo ampla gama de funções adicionais – acidulante, regulador de pH, estabilizante, entre outras. Os fosfatos fornecem ao organismo humano não apenas o fósforo, mas também minerais como cálcio, sódio e potássio.

E nutrientes mais biodisponíveis, ou seja, mais facilmente absorvíveis pelo organismo por serem mais solúveis em água, constituem tendência atual da indústria alimentícia destacada por Jorge Machado Duarte, diretor industrial da Aksell. Ele cita, como nutriente já mais demandado devido a essa característica, o sulfato ferroso, que é altamente solúvel e constitui alternativa ao fumarato ferroso, que é menos solúvel, porém interfere menos no sabor. “Alguns fabricantes já dispõem de tecnologia, como o microencapsulamento, para usar o sulfato ferroso sem interferência no sabor”, explica. “E a tendência é ampliar o uso do sulfato ferroso, até porque ele também é mais barato que o fumarato”, acrescenta Duarte.

Química e Derivados, Carvalho: uso de goma gelana avança na produção alimentícia
Carvalho: uso de goma gelana avança na produção alimentícia

Sócio-proprietário e diretor de marketing da Sunset, José Ramos de Carvalho nota a consolidação, na indústria alimentícia brasileira, do uso da goma gelana para, por exemplo, promover suspensão de pedaços de frutas em bebidas. “Isso já é comum na Ásia, e deverá ser mais aproveitado no Brasil”, prevê Carvalho, lembrando que sua empresa tem expressiva presença no mercado de gomas, fornecendo também antioxidantes, aminoácidos, aromatizantes, corantes, conservantes, edulcorantes de corpo, emulsificantes, espessantes, reguladores de acidez e estabilizantes, óleos essenciais, sucos concentrados, polpas, entre vários outros produtos.

Paralelamente, Carvalho visualiza intensa busca por corantes naturais para substituir os sintéticos, mas tal tarefa não é simples, até porque, além de gerar custos adicionais, a maioria dos corantes naturais ainda não atende às especificações para aplicação industrial em produtos alimentícios. “Ainda é difícil encontrar, por exemplo, corantes naturais do tipo lake, que recobrem corantes e pastilhas; aqueles hoje disponíveis para essa aplicação se soltam facilmente nas mãos dos usuários”, ele diz. “Também deve crescer a busca por ingredientes nutracêuticos, já havendo forte demanda por sucos concentrados de frutas vermelhas, como blueberry, cranberry, cereja, morango, que contêm diversas substâncias com propriedades antioxidantes”, projeta.

Segmentando os nichos – É de origem “natural”, ou seja, não decorre de síntese, todo o portfólio da Gelita, provedora de gelatinas e peptídeos bioativos para diversas aplicações da indústria alimentícia, como agentes gelificantes, estabilizantes, emulsionantes, formadores de película, entre outras. Essas gelatinas, por exemplo, podem ajudar a reduzir o teor de gorduras e carboidratos, e ainda aumentar o teor protéico de itens como balas, sobremesas, iogurtes, sorvetes, recheios, margarinas, patês, requeijões e produtos cárneos, detalha Eduardo Araújo, gerente de marketing e comunicação da Gelita para a América do Sul.

Assim como os peptídeos bioativos, também as gelatinas da Gelita provêm de colágeno (no caso dessa empresa, no Brasil quase sempre extraído de couro bovino). Mas os peptídeos, ressalta Araújo, adequam-se muito diretamente às atuais tendências da indústria alimentícia por agregaram funções bioativas aos produtos. “O colágeno é extremamente importante para a saúde dos tecidos, assim como para a integridade dos músculos, ligamentos, tendões, articulações e ossos”, observa.

Química e Derivados, Tacconi: parceria para atuar em nutrição personalizada
Tacconi: parceria para atuar em nutrição personalizada

A família de peptídeos da Gelita já inclui produtos como o Bodybalance e o Verisol, que prometem aos consumidores, respectivamente, ganho de massa muscular e beleza da pele com redução da celulite, e assim se inserem na crescente busca por alimentos funcionais, nutracêuticos ou nutricosméticos.

Também a Basf disponibiliza para a indústria alimentícia ingredientes que, anunciando benefícios diretos para a saúde humana, podem se vincular a esses conceitos, como vitaminas, fitoesterol, betacaroteno e Ômega 3. Esse último, aliás, já se segmenta para atender demandas cada dia mais específicas: “Recentemente lançamos um Ômega 3 dirigido ao mercado vegetariano, pois ele não provém de peixes, como geralmente acontece, mas de algas marinhas”, conta Claudio Tacconi, gerente sênior de nutrição humana para a América Latina dessa empresa que também disponibiliza para a produção de alimentos estabilizantes, antioxidantes e emulsionantes, entre outros aditivos.

A Basf, lembra Tacconi, em 2014, inaugurou em Jacareí-SP seu primeiro Centro de Aplicações de Nutrição e Saúde na América do Sul. E no início deste ano anunciou um acordo de cooperação com a empresa de suplementos nutricionais By-Health, que com ela trabalhará para desenvolver conceitos e tecnologia para soluções nutricionais personalizadas. “A parceria também inclui um estudo clínico conjunto sobre sarcopenia, doença associada à perda de massa muscular, bem como trocas regulares de insights e tendências do mercado”, ressalta. Também no começo deste ano, a Basf anunciou uma parceria com a startup Nuritas, em uma estratégia de pesquisa e desenvolvimento de peptídeos bioativos.

Retomada de investimentos – Embora raramente revelem números e índices, os representantes das empresas fornecedoras de ingredientes e aditivos para a indústria alimentícia brasileira preveem, de maneira quase unânime, um mercado doravante mais favorável a seus negócios. Araújo, da Gelita, não divulga números, mas fala em “perspectiva de crescimento para o mercado de gelatina no país, principalmente porque o país está saindo da crise”.

Porém, apesar da sua conhecida resiliência às conjunturas adversas, a indústria alimentícia nacional também sentiu os efeitos da crise econômica, realça Duarte, da Aksell (empresa que fornece para essa indústria itens como micronutrientes à base de ferro, zinco, potássio, magnésio, vitaminas e enzimas, entre outros). Mas esse setor, ele pondera, também responde agilmente aos sinais de uma melhora, que já é perceptível, e que aliada às atuais demandas dos consumidores, beneficiará significativamente a Aksell. “Trabalhando com sais de alta pureza e performance, nossos resultados são positivamente impactada pela busca por produtos mais saudáveis”, justifica.

Já Rodrigues, da Química Anastácio, observa que, premida pelas agruras da economia nacional, nos últimos dois anos a indústria alimentícia brasileira reduziu os investimentos em inovação, e priorizou a readequação de portfólios e a redução de custos. “Mas projeções mostram um cenário econômico mais aquecido a partir de 2018, e a indústria de alimentos e bebidas deve retomar os investimentos em produtos de maior valor agregado e inovação, e em conceitos como agregação de valor, vaidade, luxo e indulgência para o consumidor”, ele destaca.

Para nutrição humana a Química Anastácio hoje oferece um rol de produtos que entre outros itens inclui emulsificantes, espessantes, acidulantes, conservantes, edulcorantes, gomas, aromas e ingredientes para suplementos. “Temos um portfólio bem vasto, para os diversos segmentos da indústria alimentícia: bebidas, frigoríficos, lácteos, panificação, óleos e gorduras, entre outros”, relata Rodrigues.

E as perspectivas de um mercado mais favorável já geram inclusive anúncios de investimentos. A Sunset, adianta Carvalho, já projeta um aumento – das atuais 35 para quarenta pessoas – em seu quadro de funcionários. A empresa, ele projeta, crescerá também porque atuará com novos produtos, podendo até mesmo retornar a segmentos que abandonara, como o mercado de vegetais desidratados, usados em produtos como sopas e caldos. “Esse é um mercado grande, já atuamos nele algum tempo atrás; saímos devido à guerra fiscal entre estados, mas para esse gênero de produto esse problema está solucionado”, relata Carvalho.

Recentemente, a Sunset fechou uma parceria que lhe permitirá distribuir também dióxido de titânio. “A indústria de alimentos usa esse produto para, por exemplo, promover turbidez em bebidas à base de limão”, especifica o diretor da empresa.

Na Boraquímica, o plano de investimentos inclui a inauguração, no próximo ano, de uma área adicional de armazenamento, com capacidade para até 350 mil litros e disponibilidade para acondicionar até dez produtos diferentes, entre eles glicerina, ácido fosfórico e soda. Esse novo espaço estará localizado na unidade mantida em Cravinhos-SP pela Boraquímica (que tem operações também na cidade de São Paulo e no município catarinense de Itajaí). “Nos próximos quatro meses disponibilizaremos cinco novos itens: três deles, voltados ao mercado de alimentos”, adianta Bonato.

A Boraquímica oferece ao mercado um vasto conjunto de produtos para uso tanto nos próprios alimentos – acidulantes, alcalinizantes, edulcorantes, espessantes, preservantes, entre outros –, quanto em processos como limpeza e higienização dos equipamentos e linhas de produção, além do tratamento da água utilizada no processo. A água potável é apontada por Bonato como fundamento de um mercado que, na medida em que escasseiam as fontes minerais de água, se tornará crescentemente relevante para ao menos uma categoria de produtos fornecidos para a indústria alimentícia: os sais minerais. “Será necessário ressalinizar a água após seu tratamento, pois ela é importante fonte desses sais”, justifica.

Química e Derivados, Fábrica da Buschle & Lepper extrai e purifica magnésio marinho
Fábrica da Buschle & Lepper extrai e purifica magnésio marinho

Na Buschle & Lepper, integram o portfólio itens como ácido cítrico, ácido lático, fosfato trissódico, cloreto de cálcio, entre outros. E atualmente essa empresa implementa um projeto de ampliação da capacidade de produção de um item fabricação própria, o magnésio, prevista para o próximo ano. “Também está em nossos planos a montagem de um laboratório de aplicação, que pode constituir diferencial fundamental em nossa proposta de oferecer soluções para os clientes”, diz Sousa.

Sediada em Joinville-SC, a Buschle & Lepper também trabalha para fortalecer sua presença em outras regiões do país (além do Sul, onde tem atuação consolidada). “Para isso, inauguramos há aproximadamente um ano e meio uma filial em Embu das Artes, na Grande São Paulo”, finaliza o diretor comercial da empresa.

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