Alimentos: Crescimento para os próximos anos

Perspectivas 2023 - Indústria de alimentos projeta crescimento para os próximos anos, apesar da elevação de custos e juros

Antes mesmo do primeiro dia de 2023, já se sabia que o país seria soterrado por uma avalanche de incertezas e desconfianças.

O ano começou com a troca de comando do país, potencializando as preocupações.

Mas, ainda que nebuloso, esse cenário não impediu que as projeções para o mercado de alimentos fossem positivas e sugerissem estabilidade.

O setor se mostra disposto a se blindar das adversidades e deixar para trás os rastros do desafiador 2022.

Marcado pela fragilidade tanto econômica quanto política, em âmbito nacional e no exterior, inclusive, com conflitos bélicos internacionais, o ano passado foi difícil e exigiu muita resiliência da indústria.

As expectativas iniciais eram de que seria um período de acomodação dos preços das matérias-primas.

No entanto, o cenário mudou ainda no primeiro trimestre de 2022, com a invasão da Ucrânia pelas tropas da Rússia.

A guerra trouxe impacto direto para os preços internacionais das commodities, afetando os rumos do mercado.

Como consequência, a indústria de alimentos precisou enfrentar a alta dos preços de insumos, que já estava em patamares elevados desde a pandemia, como é o caso das embalagens, do óleo de palma e do glúten de trigo.

Fôlego – Apesar das adversidades, no entanto, existem indícios de que o desempenho da indústria de alimentos será positivo daqui para frente, segundo Luís Madi, diretor de assuntos institucionais do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital)/Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (SAA).

Ele se baseia na fala do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, proferida em reunião da diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), da qual Madi é diretor de divisão no Departamento do Agronegócio (Deagro).

Na ocasião, Alckmin defendeu um programa positivo para a produtividade e a competitividade, abrangendo maior apoio às pequenas e médias empresas, inclusive para a exportação de seus produtos.

Alimentos: Crescimento para os próximos anos ©QD Foto: iStockPhoto
Madi: MDIC prioriza aumento de produtividade e competitividade

“Cabe pontuar que elas são a maior fonte de inovação, sejam elas disruptivas ou incrementais. Se isso se concretizar, teremos um salto no desenvolvimento da indústria, que enfrentou dificuldades nos últimos quatro anos”, afirma.

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) também espera bons ventos para este ano.

Segundo a entidade, considerando que este mercado acompanha o crescimento da economia, a previsão é de que haverá estabilidade em 2023, apesar de ainda existirem incertezas quanto à expectativa de desaceleração do crescimento das economias brasileira e mundial, diante do ciclo de juros elevados para o controle da inflação pelos bancos centrais dos principais países.

Além disso, um fator contundente na trajetória desse setor tem sido os custos da produção industrial, que continuam pressionados pelos preços das commodities no mercado internacional, pela restrição na oferta de insumos e pelos preços da energia.

De qualquer forma, mesmo sem ter os números fechados, a Abia estima que a indústria de alimentos tenha encerrado 2022 com aumento no volume de vendas no patamar de 2,5%.

Essa perspectiva reflete, em alguma medida, o bom desempenho do segmento da alimentação fora do lar.

Esse setor vem se destacando e segundo as previsões continuará em recuperação neste ano. O food service se viu às voltas com o fechamento de diversos negócios em 2020.

Nesse ano, houve retração de 27,5% no faturamento real, o que foi de encontro aos índices positivos registrados na última década.

Porém, com a retomada do mercado, a tendência é de que volte a crescer. Para 2023, estima-se uma expansão real de 10,2%, superando os 3,2% de 2019.

Sobre as exportações também há bons indicadores.

As vendas ao mercado externo alcançaram US$ 49 bilhões, entre janeiro e outubro de 2022.

O montante equivale a 30% a mais do registrado em igual período do ano anterior. Em volume, a alta foi de 9,1%.

Os principais destaques ficaram por conta das proteínas animais, com US$ 21,9 bilhões; farelo de soja, US$ 8,9 bilhões; açúcares, US$ 8,7 bilhões, e óleos e gorduras vegetais, US$ 4,2 bilhões.

A China se consolidou como o maior comprador dos alimentos industrializados brasileiros, com US$ 11 bilhões, seguida pela União Europeia (US$ 6,8 bilhões) e pela Liga Árabe (US$ 6,8 bilhões).

Segundo a Abia, as vendas dos alimentos industrializados para o exterior permanecem com tendência de crescimento, estimuladas pelo cenário de expansão da demanda mundial e favorecidas pela taxa de câmbio. No entanto, há um senão.

A desaceleração da economia mundial, decorrente da alta dos juros para o controle da inflação trará, conforme a Abia prevê, um ambiente mais desafiador para as exportações brasileiras, apesar de ainda positivo, diante da perspectiva da redução na pressão sobre os custos de matérias-primas e energia.

Pensando na oferta dos produtos, caso a atual projeção para a safra de grãos 2022-23 da Conab/Ministério da Agricultura se confirme, com expansão superior a 15%, haverá uma importante contribuição para a melhoria na disponibilidade de matérias-primas para a indústria de alimentos e alívio sobre os custos, segundo a Abia.

Especiais – O setor de alimentos para fins especiais e congêneres segue confiante na sua expansão. Uma das justificativas está na recente mudança de comportamento dos consumidores.

Eles passaram a buscar alternativas de alimentos mais saudáveis para suas respectivas dietas, que têm como principal foco a melhora na saúde e na qualidade de vida.

De acordo com os dados de mercado mais recentes divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad), em setembro último, o consumo aparente de alimentos para fins especiais cresceu 2,7%, no acumulado do ano (janeiro-setembro), quando comparado ao mesmo período de 2021.

As bebidas dietéticas ou de baixas calorias também apresentaram aumento (15,7%) no mesmo período.

Para corroborar o bom desempenho do setor, as vendas de concentrados de proteínas cresceram 41,5%, assim como de vitaminas, com alta de 3,5%.

Segundo a diretora-executiva da Abiad, Gislene Cardozo, esse cenário pode ser explicado pela queda na taxa de desocupação, além da preocupação com a saúde e o bem-estar, hábito adquirido durante o período pandêmico.

Outro indicativo se refere ao número acumulado de contratações com carteira assinada. Houve crescimento, com registro de 164 mil admissões ao final de setembro.

Alimentos: Crescimento para os próximos anos ©QD Foto: iStockPhoto
Gislene: concentrados proteicos devem se manter em alta

“O ano foi positivo para o setor, que ainda apresentou alta de 4,5% na evolução de empregos. Tomando esse recorte como base, a projeção para 2023 é positiva”, reforça Gislene.

Chegar a esse patamar, no entanto, não foi fácil, sobretudo considerando o quão desafiador foi 2022.

Ela destaca que o setor foi afetado por muitas movimentações políticas e também pela economia instável tanto no país, quanto mundialmente.

“Houve impacto global em relação ao abastecimento de muitos setores, gerando um efeito cascata, que afeta o consumo e os preços em todos os países”, acrescenta.

Aditivos – No caso do mercado de ingredientes e aditivos para alimentos, em 2022, a sua evolução ficou próxima às estimativas do início do ano, permanecendo em 6%.

Alimentos: Crescimento para os próximos anos ©QD Foto: iStockPhoto
Colino: consumidores valorizam mais os produtos saudáveis

“Apesar dos meses de novembro e dezembro terem demonstrado certo recrudescimento, ficando um pouco abaixo do estimado, o que nos preocupa”, avalia Helvio Collino, presidente do conselho diretor da Abiam – Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Ingredientes e Aditivos para Alimentos.

Traçar estimativas assertivas sobre o setor é uma tarefa difícil, por mais que o ano já tenha começado e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja um velho conhecido do empresariado.

Porém, ainda assim, para Collino, algumas ações tomadas pelo novo governo, a atual reação do mercado e o panorama internacional sinalizam que, provavelmente, os resultados obtidos em novembro e dezembro devem se repetir, ao menos no primeiro semestre deste ano.

“Se esta perspectiva realmente ocorrer, ficaremos abaixo de 2022”, analisa, com a ressalva de que 2023 é um ano particularmente difícil para previsões.

De qualquer forma, é possível vislumbrar possíveis cenários. Collino aponta que gargalos podem surgir decorrentes dos rumos da economia, medidas governamentais que aumentem custos e da fuga de capital, por exemplo.

A logística interna e de comércio exterior, além da inflação mundial também são pontos de atenção, com forte incidência sobre o “custo Brasil”, além da evolução dos preços no mercado internacional.

Tendências – Os desafios, segundo Collino, no entanto, serão superados com pesquisa, inovação e a continuidade de investimentos. Um dos pilares do setor, aliás, consiste no foco em novos desenvolvimentos que, no caso, em sua grande maioria, tendem a ser saudáveis.

“O mercado vem pedindo este tipo de produto”, reforça.

Ele explica que houve uma grande mudança no comportamento do consumidor durante a pandemia. Hoje há uma preocupação maior com alimentação e hábitos menos prejudiciais à saúde.

“Em 2023, a tendência da indústria é lançar mais produtos visando à saudabilidade”, afirma Collino.

Pensando no que virá pela frente, Gislene reitera essa tendência e revela três categorias de produtos que estão em expansão.

Segundo ela, os concentrados de proteínas e outras preparações, incluindo pós e gelatinas; bebidas dietéticas ou de baixas calorias e adoçantes demonstraram crescimento no acumulado do ano (janeiro-setembro) e devem continuar em alta.

Outra categoria de produtos em evidência é a linha plant-based (alimentos à base de vegetais), apesar de, segundo Collino, ser um segmento ainda carente de regulamentação.

“Haverá uma expansão quando o marco regulatório evoluir”, atesta. Sobre isso, Madi anuncia uma novidade: o Ital acabou de realizar um estudo de bebidas plant-based comercializadas no Brasil e estima desenvolver outro, dedicado a alimentos.

Madi explica que como a regulamentação técnica e o sistema de avaliação microbiológica de alimentos não são baseados em plant-based, o GFI, organização internacional que prioriza proteínas alternativas no sistema de produção de alimentos, está trabalhando junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) um modelo adequado de legislação para esses produtos.

Outra tendência anunciada pela indústria diz respeito ao conceito de que os alimentos devem ser cada vez mais seguros e com altos valores nutricionais, porém, sem deixar de considerar a sua viabilidade econômica. “Em países como o nosso, o custo também é um fator importante”, diz Collino.

A segurança e a qualidade dos alimentos, não por acaso, sempre foram pontos estratégicos na atuação do Ital. Desde 2018, o instituto atua com o slogan “inovando para a segurança e qualidade dos alimentos”.

Aliás, um dos seus projetos trata-se do Brasil Food Safety Trends 2030, que será lançado em 2023, quando o instituto completa 60 anos.

Madi explica que são comuns discussões sobre alimentos alternativos, plant-based e agricultura familiar, mas raríssimas vezes se fala sobre como são feitos o controle e a segurança desses alimentos e dos processamentos realizados.

“Esse documento abrangerá inúmeras questões fundamentais para a saúde do consumidor: vamos entrar em uma nova era em que o food safety será estratégico”, afirma.

Madi avalia que nos setores de alimentos e bebidas, ingredientes, processamento e embalagem, houve um crescimento e uma evolução muito grande na melhoria da qualidade nos pontos de produção e de fabricação.

“Essas mudanças não são percebidas pela sociedade, que tem a ideia de que o alimento industrializado não é tão bom quanto o alimento caseiro e o alimento artesanal”, observa.

Segundo ele, a indústria não consegue se comunicar mostrando o que faz em relação às boas práticas de fabricação, sendo que avanços já ocorreram há algum tempo e continuarão acontecendo.

As novas gerações de consumidores, no entanto, hoje exigem rastreabilidade e transparência sobre o que estão comprando.

Ou seja, a tendência é de que o diálogo com a indústria se aperfeiçoe. Prova disso se viu com a nova rotulagem nutricional que entrou em vigor em outubro do ano passado.

A Resolução de Diretoria Colegiada (RDC) nº 429 e Instrução Normativa nº 75, publicadas em outubro de 2020, foram criadas para padronizar e melhorar a comunicação com o consumidor.

Uma das regras determina que no rótulo frontal dos alimentos as quantidades de açúcar adicionado, gordura saturada e sódio apareçam em destaque.

Vale mencionar que, para este ano, a rotulagem nutricional continua em fase de implementação, já que seu prazo se encerra em outubro próximo.

O que focar – Entre as questões atuais e de relevância referentes à indústria de alimentos também está a reforma tributária, pois é essencial para reduzir os custos de produção.

Estudo Fipe/Abia aponta que a média da carga tributária sobre os alimentos industrializados no Brasil é de 23%.

A saber: esse índice nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de apenas 7%.

Outra discussão importante se dá quanto ao mercado internacional. Madi comenta que sempre deve ser levada em consideração a barreira técnica e o governo precisa estar atento a esta questão.

A grande crítica, que existe há anos, é sobre o Brasil ser lento na liberação de produtos que já estão em uso em vários outros mercados.

Segundo ele, com a devida atenção a esses gargalos, questões regulatórias podem se tornar uma grande oportunidade, considerando o potencial do setor produtivo nacional.

A Abia aponta outro tema que estará cada vez mais em evidência: a redução do desperdício de alimentos.

Uma das propostas da indústria brasileira, aliás, é estudar de forma ampla a marcação da data de validade dos alimentos, conhecida internacionalmente como “best before” – em tradução livre: “melhor antes de” ou “consumir preferencialmente antes de”.

Trata-se de um conceito aplicado em diversos países a produtos “shelf stable”, ou seja, estáveis em temperatura ambiente, como macarrão, conservas, grãos, sucos de frutas e leite UHT.

O combate ao desperdício de alimentos é urgente e necessário.

Não por acaso, a Organização das Nações Unidas tem a meta de reduzir pela metade, até 2030, as perdas de alimentos nos níveis de varejo e do consumidor, assim como ao longo das cadeias de produção e abastecimento.

Outra questão que deve estar em discussão é a imagem do produto industrializado. “Ele é tão bom quanto o feito em casa.

É preciso, no entanto, balancear o seu consumo, sem exageros”, pontua Madi. Para ele, são disseminadas fake news que colocam o produto industrializado como inadequado.

O Ital revela, aliás, uma preocupação dos empresários em relação à possibilidade de um maior ativismo contra os alimentos industrializados, considerando o histórico das gestões anteriores do Partido dos Trabalhadores (PT), do atual presidente da República.

Lula – Segundo Madi, o assunto mais importante que Lula tem destacado é o combate à fome e é, sobretudo, a população pobre do país que mais tem dificuldade de acesso a alimentos seguros e de qualidade.

Na opinião do diretor do Ital, só é possível combater a fome com alimentos industrializados.

Ele sustenta essa ideia, afirmando que o Brasil é um país muito extenso, que enfrenta dificuldades de distribuição e tem mais de 90% da população na zona urbana.

“Só temos um caminho: educação e informação”, ressalta.

Ainda sobre a gestão do novo presidente, segundo Gislene, os outros dois mandatos de Lula dão indícios de como as pautas alimentares serão percebidas pelo governo e aliados.

Ela cita a recriação do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Consea) e o aumento de pastas focadas em alimentação e nutrição, que já eram medidas esperadas.

“Porém, os cenários internos e externos são diferentes”, observa.

De qualquer forma, em 2023, a tendência é de que a questão alimentar siga em destaque, conforme Gislene prevê.

“A importância do combate à fome na agenda política é maior e congrega variáveis internas, como o retorno do Brasil ao Mapa da Fome, e externas, como a dificuldade de abastecimento de alimentos por razões geopolíticas”, aponta.

Há ainda a considerar que os efeitos socioeconômicos da Covid-19 tornaram o cenário mais adverso, ao passo que novos temas relacionados às cadeias alimentares, tais como a sustentabilidade, passaram a ter destaque nas discussões internacionais.

Nesse contexto, Gislene vê como positiva a recriação do MDIC como pasta importante para a interlocução com a indústria nacional.

De modo geral, no entanto, as mudanças de governo geram um cenário de incertezas. Segundo Collino, até por isso o setor está em compasso de espera. “Estamos na expectativa do que poderá realmente ocorrer”, finaliza.

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