Alimentos – Cresce a procura por produtos sustentáveis

Química e Derivados - Alimentos - Cresce a procura por produtos sustentáveis e com vantagens nutricionais reforçadas - Perspectivas 2021 ©QD Foto: iStockPhotos

Cresce a procura por produtos sustentáveis e com vantagens nutricionais reforçadas – Perspectivas 2021

O mercado de alimentos e bebidas projeta para 2021 a consolidação de um novo perfil de compra. A indústria se prepara para atender um consumidor mais consciente e atento à sua saúde. Em meio à crise da Covid-19, na qual uma parte da população perdeu sua fonte de renda e outra grande parcela viu seu poder aquisitivo despencar, o setor ainda assim prevê o aumento da demanda de produtos sustentáveis e com apelo nutricional.

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Ribeiro: linhas intermediárias tendem a perder mercado

O cenário será desafiador. No entanto, mesmo considerando as circunstâncias adversas do pós-Covid-19, o mercado de alimentos deve expandir. Para os próximos cinco anos, é esperada uma taxa de crescimento anual média de 3,4%, segundo projeção de Gregory Ribeiro, analista de pesquisa da Euromonitor International. A título de comparação, de 2019 a 2020, o setor cresceu 1,8% em termos reais, taxa maior do que a registrada entre 2018 e 2019, de 1,3%.

No ano passado, diante do aumento dos preços dos alimentos básicos, a população se viu obrigada a repensar o que era de fato essencial, o que se refletiu no aumento da demanda dos alimentos mais saudáveis e sustentáveis. “A pandemia nos mostrou que os consumidores brasileiros, assim como de outros países, passaram a priorizar a saúde”, comenta Gislene Cardozo, diretora executiva da Abiad – Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres.

Não por acaso, os alimentos funcionais, orgânicos, veganos e afins tendem a formar um dos segmentos mais beneficiados nos próximos anos, conforme prevê a Euromonitor. “É cada vez mais comum a transição para alimentos que substituam o papel da carne na cesta do consumidor, fazendo com que ele explore opções mais variadas de frutas e legumes e passe a reservar uma renda maior para esse tipo de alimento”, exemplifica Ribeiro.

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Outro efeito da pandemia se refere ao favoritismo das marcas que trazem o apelo de serem fabricadas por pequenos agricultores, por grupos locais e/ou de maneira mais sustentável e igualitária. “O consumidor se sente melhor sabendo que apoiou uma iniciativa remunerada de forma mais justa e transparente”, diz Ribeiro.

O analista destaca ainda o crescimento do mercado de orgânicos nos últimos anos. Esses produtos vêm sendo foco de investimentos de grandes grupos globalmente. Para Ribeiro, os alimentos orgânicos carregam uma transparência maior em relação à sua cadeia produtiva, algo muito valorizado para o consumidor que busca no alimento uma forma de “retribuir algo à sociedade”. A saber: o mercado mundial de alimentos e bebidas orgânicos deve crescer 11,5% até 2024, atingindo US$ 211,3 bilhões, conforme indica pesquisa da BCC Research, divulgada pela Food Connection.

O levantamento da Euromonitor demonstra também que o consumidor pós-pandemia estará mais apegado às marcas que já confia e aos produtos que considera como básicos, olhando sempre pelo viés econômico, mas migrando progressivamente para alternativas mais saudáveis. Ribeiro sugere que as indústrias posicionem seus produtos se baseando na opção mais econômica (com melhor custo-benefício) ou a mais premium (com alta qualidade), pois as linhas intermediárias tenderão a ficar em segundo plano para o consumidor.

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Gislene: venda de suplementos alimentares segue em elevação

Especiais – Em 2020, por causa dos riscos da Covid-19, a população passou a se preocupar mais em melhorar a condição física e a imunidade, o que impulsionou a busca por uma alimentação mais equilibrada e suplementada. Esse fenômeno recente teve reflexos no desempenho do mercado de suplementos alimentares. A pesquisa “Hábitos de Consumo de Suplementos Alimentares no Brasil”, realizada pela Toledo & Associados sob a coordenação da Abiad, analisou as vendas dessa categoria de produto e constatou que em relação à sua primeira edição (de 2015) houve um aumento de 10% no consumo. Gislene comenta que, no primeiro trimestre de 2020, o item estava presente em 59% dos lares brasileiros.

De acordo com ela, um estudo complementar feito durante a pandemia observou que entre os consumidores de suplementos houve um aumento nas vendas de 48%, dos quais 42% tinham a intenção de fortalecer a alimentação e 91%, a imunidade. O levantamento aponta também que 75% dos entrevistados declararam que continuarão consumindo esses produtos. “O mercado de suplementos alimentares é bastante promissor e com bom desempenho global nos últimos anos”, diz.

A categoria de vitaminas também tem apresentado resultados positivos. Gislene divulga levantamento segundo o qual, entre janeiro e setembro de 2020, houve aumento de 2,9% nas vendas de vitaminas. Apesar de não dispor de dados finais do ano passado, ela divulga que o mercado mundial de vitaminas e suplementos alimentares movimenta quase US$ 110 bilhões por ano. No Brasil, esse segmento cresceu 7% em 2019, atingindo vendas de R$ 6,6 bilhões, segundo dados da Euromonitor.

A produção industrial nacional de alimentos para fins especiais e congêneres apresentou crescimento de 6% no acumulado de janeiro a setembro de 2020 (na ‘‘atividade de fabricação de produtos alimentícios”), segundo a Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física (PIM-PF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Em relação ao consumo aparente, de acordo com a nossa consultoria econômica (Websetorial), o crescimento foi de 3,9%, e as importações totalizaram US$ 517 milhões, apresentando crescimento de 1,7% em relação ao mesmo período do ano anterior”, afirma Gislene. A entidade reúne empresas relacionadas às áreas de matérias-primas e alimentos para fins especiais, incluindo nutrição infantil, esportiva e enteral, produtos diet e light, suplementos alimentares e alimentos funcionais, dentre outras categorias.

Aliás, uma das explicações para esses números do setor se refere ao fato de que ele atende à demanda de populações impactadas pela Covid-19, como os pacientes internados nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs) e os idosos.

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Previsões – Voltando às tendências anunciadas para 2021, espera-se o aumento da demanda de alimentos econômicos e “mais práticos”, seja por cozimento instantâneo, congelados ou semiprontos. A busca por itens que tragam um apelo de conforto e bem-estar é outra tendência do mercado. Segundo Ribeiro, a indústria tem investido em produtos considerados nostálgicos, os quais ativam a memória afetiva dos consumidores. Ele cita como exemplo os alimentos com formatos antigos de embalagens.

Em linhas gerais, a estimativa é de que terão mais espaço na preferência do consumidor as companhias que saibam ao mesmo tempo manter a confiança de seus clientes e se renovar, trazendo à tona um “propósito” adicional, independentemente, da competição por preço. Ribeiro prevê que o consumidor pós-pandemia irá manter a atenção maior em relação à procedência do alimento que consome, analisando com mais cautela o seu impacto ambiental e social, e o conteúdo nutritivo, esperando maior transparência por parte das marcas.

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Colino: nova rotulagem melhora informação

Um reflexo dessa tendência é a nova norma para a rotulagem nutricional de alimentos embalados, que foi aprovada em outubro último e deve entrar em vigor em 24 meses após sua publicação. Essa mudança promovida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) exige informações com mais clareza nas embalagens. A proposta é adotar uma rotulagem frontal e incorporar alterações na tabela de informação nutricional, por exemplo. Na prática, foi desenvolvido um design de lupa para identificar o alto teor de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio. “É uma grande evolução para o mercado de alimentos, que beneficia o consumidor, fornecendo informações mais detalhadas sobre o alimento que ele está consumindo”, resume Helvio Tadeu Collino, presidente do conselho diretor da Abiam – Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Ingredientes e Aditivos para Alimentos.

E por falar nesta indústria, aliás, estima-se que o desempenho dela no ano passado tenha sido positivo. “O setor se apresentou com um comportamento de elevação de consumo nos primeiros meses da pandemia”, afirma Collino. Apesar de não ter dados consolidados, a associação acredita que o mercado de ingredientes e aditivos para alimentos encerrou 2020 com resultados um pouco acima dos registrados no ano anterior.

Segundo Collino, foi fundamental essa indústria ter sido classificada como um serviço essencial, o que refletiu os esforços da associação em conjunto com entidades parceiras. “Tomamos todos os cuidados para preservar em 100% a saúde e a integridade de nossos colaboradores e demais envolvidos no setor, mantendo-se, desta forma, a cadeia de alimentos adequada às necessidades de consumo”, diz.

Sobre o que esperar daqui em diante, Collino, sem ser pessimista e olhando apenas a situação atual, acredita que o melhor cenário para 2021 deverá ser o de permanecer mais ou menos em linha com os resultados de 2020. “Entretanto, torcemos para que estejamos equivocados e que novos ventos positivos venham nos impulsionar”, enfatiza.

As estimativas para a indústria nacional de óleos vegetais, por sua vez, são de crescimento. Em 2021, o setor deve processar 46,3 milhões de t de soja e produzir 9,3 milhões de t de óleo de soja. Estima-se que o mercado interno demandará 9,2 milhões de t de óleo. As expectativas se baseiam no passado recente. Este mercado processou, em 2020, cerca de 45,5 milhões de t de soja e produziu cerca de 9,1 milhões de t de óleo de soja, dos quais 8,3 milhões de t foram consumidos no mercado interno.

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Amaral: processamento de soja alcançou produção recorde

“Os volumes recordes de processamento de soja, produção de farelo, de óleo e de biodiesel e de comercialização desses produtos provam a capacidade da indústria brasileira de óleos vegetais de se adaptar às condições adversas e garantir o abastecimento do mercado interno e internacional”, afirma Daniel Furlan Amaral, economista-chefe da Abiove (Associação das Indústrias de Óleos Vegetais). A saber: desde o início da pandemia da Covid-19, as fábricas seguiram funcionando.

Em relação ao futuro da soja no país, as projeções atuais indicam que o Brasil deve colher uma safra superior a 132 milhões de t. Vale dizer que o ano passado foi complicado, pois o país encerrou 2020 com estoques baixos. Apesar da safra recorde, estimada em 128 milhões de t, a demanda pela oleaginosa cresceu, sobretudo no mercado internacional. Foram exportadas cerca de 83 milhões de t de soja em grão, com alta de mais de 12% em relação a 2019.

Amaral conta que não faltou matéria-prima para a indústria nacional de alimentos no ano passado, pois a disponibilidade interna de soja foi suficiente para atender ao esmagamento da oleaginosa e, portanto, suprir as necessidades de consumo de farelo e óleo de soja. “Além disso, a própria indústria de alimentos tem flexibilidade para alterar a formulação de seus produtos, substituindo, quando necessário, o óleo de soja por outros óleos vegetais, tanto por questões técnicas, quanto por conta da disponibilidade e preço das matérias-primas”, conclui. Essa é uma prova de que o mercado de alimentos e bebidas é resiliente e capaz de superar a instabilidade econômica prevista para 2021. Pelo menos, essa é a ideia.

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