Álcool e Açúcar (usinas)

Álcool – Produtos de álcool vivem fase de euforia

Marcelo Furtado
3 de setembro de 2004
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    Para ele, a solução do problema da água para as usinas poderá ser encontrada “dentro de casa”. “Cada tonelada de cana fornece, além da sacarose, 300 kg de bagaço e de 500 a 600 kg de água”, informou. “Já existe tecnologia para recuperar essa água e operar em circuito fechado, porém é preciso investir.”

    Considera-se, atualmente, que 4 milhões de toneladas de cana moídas por safra seja o limite superior de uma usina. Esse limite é dado pelo custo de transporte da cana do campo para o pátio industrial. Olivério ressalta o fato de ser difícil formar um canavial contínuo em regiões tradicionais de produção, pois é preciso competir com outras culturas (como a soja e a laranja), com a presença de cidades e acidentes geográficos, e também com outras usinas. “Em geral, buscar matéria-prima além de 60 km de distância é pouco econômico”, comentou. Já há usinas de capacidade bem acima desse limite, mas que dificilmente rodam cheias.

    “Em regiões pioneiras, de relevo plano, é possível montar um projeto com a usina situada no centro de um círculo com raio até 60 km, com um canavial praticamente contínuo; nessa situação, uma usina nova poderia pensar em capacidades maiores, com plena viabilidade econômica”, ponderou.

    DHR avança – O processo Dedini Hidrólise Rápida está em desenvolvimento desde a década de 1980 com o objetivo de obter etanol a partir do bagaço resultante da moagem da cana-de-açúcar. É formado por três etapas: a hidrólise da lignina, de modo a tornar disponível a celulose e a hemicelulose das fibras vegetais; a fermentação desses materiais; e a destilação do fermentado (detalhes na QD-417, de julho de 2003). O DHR é um desenvolvimento conjunto entre Dedini, Copersucar e Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), que chegou em outubro de 2003 a iniciar a produção contínua da unidade-piloto para 5 mil litros/dia de álcool, instalada na Usina São Luiz (do Grupo Dedini), em Pirassununga-SP. Em julho daquele ano, a unidade funcionou por bateladas, com o intuito de levantar parâmetros de operação.

    “A safra 2003 terminou em novembro, impedindo a continuidade do programa de testes por falta de bagaço, mas já conseguimos fazer, durante a entressafra, vários ajustes”, afirmou Olivério. Já em 2004, como a safra atrasou, só foi possível retomar a operação do piloto em julho, dada a pouca disponibilidade de bagaço. “De julho a outubro, continuamos a determinar parâmetros de engenharia para suportar o dimensionamento da planta em escala industrial”, afirmou. Com esses dados, será possível traçar as curvas de desempenho, consumo de material e de energia, necessárias para os cálculos de uma unidade dez vezes maior. “É provável que o levantamento de parâmetros ainda ocupe boa parte da operação na safra de 2005”, antecipou o vice-presidente.

    Segundo Olivério, a maior dificuldade encontrada diz respeito ao sistema de alimentação do reator de alta pressão. Existem soluções semicontínuas para isso, mas o processo foi idealizado para operação contínua. “Nos testes, verificamos que o bagaço apresenta um comportamento estranho, com ondas de choque e refluxos que repercutem no colchão de alimentação. “Lembra um pouco uma asa de avião durante o vôo”, comentou, salientando que a solução tecnológica do problema já está adiantada.

    A etapa seguinte, das fermentações, será implementada apenas para as hexoses, que representam 50% do resultado da hidrólise. “Só com isso, já conseguiremos uma produção de 109 litros de etanol por tonelada de bagaço in natura, com 50% de umidade”, explicou. A parte das pentoses, com outros 30% de material, exigiria o desenvolvimento de fermentos e processos novos, mais adequados, de modo a oferecer outros 70 litros de etanol. “Para o futuro estudaremos parcerias nacionais ou internacionais para desenvolver essa parte, que dará um plus ao processo, que já é econômico com as hexoses”, comentou.

    Olivério já apresentou o DHR em simpósios internacionais com excelente receptividade, tendo até despertado o interesse de investidores. “Vamos esperar até a operação da primeira planta industrial antes de buscar novos parceiros”, disse. Ele informou que há várias linhas de aproveitamento de biomassa para processos fermentativos. Entre elas, parece ser promissora a via da digestão enzimática, que ainda está em fase de pesquisas. “A hidrólise está à frente, e o DHR lidera a corrida tecnológica”, avaliou.

    Biodiesel promete – O projeto de adicionar ésteres etílicos de ácidos graxos ao óleo diesel como aditivo ecologicamente correto para a redução de poluição nas grandes cidades brasileiras pode ampliar a demanda pelo etanol. Diferente da situação dos motores de ciclo Otto, essa aplicação consiste em mercado totalmente novo para o álcool. Apesar disso, os usineiros não revelam grande interesse. “O potencial de mercado é pequeno, inferior a 200 mil litros, e ainda há algumas questões preliminares a resolver”, explicou o consultor Plínio Nastari.

    O plano federal de adicionar 2% de ésteres ao diesel nacional a partir de 2005 poderá ser realizado a partir de unidades de esterificação já instaladas no Pará, no Mato Grosso e em São Paulo (Ribeirão Preto), além de outras de menor porte. “O governo federal tem reiterado a idéia de incentivar o cultivo de mamona em pequenas propriedades para abastecer fábricas de éster de baixa escala, com um enfoque social”, afirmou. “Um projeto dessa envergadura precisa ter viabilidade econômica.” Para o consultor, a proposta tem sérias limitações, a começar pela baixa produtividade da mamona atualmente cultivada no País. Seria preciso iniciar estudos com outras variedades, importadas, ou desenvolver cultivares locais. “Tudo isso demanda tempo, não dá para fazer até 2005”, criticou. Para Nastari, a melhor alternativa para o suprimento de ácidos graxos seria a palma (dendezeiro).



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