Álcool e Açúcar (usinas)

Álcool – Produtos de álcool vivem fase de euforia

Marcelo Furtado
3 de setembro de 2004
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    Apesar de todas as vantagens do álcool combustível, Rodrigues, da Única, aponta um problema grave: as diferenças entre o ICMS cobrado em cada Estado. “O álcool só é competitivo em São Paulo e nos outros Estados que cobram ICMS de 12%; nos demais o imposto varia de 22% a 31%, fazendo com que o álcool custe de 80% a 90% do preço da gasolina na bomba”, explicou. “É preciso uniformizar o tributo no País, no nível paulista.” Também a cobrança da Cide na gasolina dá algum fôlego para o etanol, que ainda não foi desonerado totalmente da incidência do PIS/Confis no âmbito das distribuidoras. “O governo federal ainda não implementou a lei que dá isenção, e os distribuidores têm de recolher 8,2% no hidratado”, criticou.

    Garantia de abastecimento – Nos anos 1990, quando a atividade sucroalcooleira ainda era controlada pelo governo federal, houve séria crise de abastecimento de mercado, provocada pela má gestão de estoques. Como conseqüência, os consumidores passaram a preferir carros movidos a gasolina, prejudicando o setor. Até hoje, quando se fala em ampliação de demanda, muitos proprietários de carros a álcool franzem a testa.

    “Não há mais razão para preocupação porque, depois da desregulamentação, o setor se organizou em torno de centrais de abastecimento e comercialização, capazes de garantir o atendimento da demanda”, afirmou Nastari. “O setor, hoje, prefere perder renda a deixar o mercado desabastecido.”

    “Os produtores estão atentos às oportunidades e se preparam para atendê-las, tanto que há mais de 30 projetos de instalações novas para começar a produzir até 2007, apenas na região Centro-Sul, sem falar nas ampliações das usinas existentes”, afirmou Rodrigues. Para o diretor da Única, os preços atuais de R$ 0,75/l para o anidro e de R$ 25/t de açúcar são compensadores, mas precisam ter estabilidade.

    Nastari confirma a estimativa de projetos em andamento, cuja conclusão é muito plausível durante os próximos três anos. Com base em modelo preditivo próprio, ele espera que o Brasil alcance a produção de 582 milhões de t de cana por safra até 2013, ante as 358 milhões de t em 2003, e a expectativa de 389 milhões de t para este ano.

    Apesar da previsão, que elimina o risco de desabastecimento, Nastari ainda considera importante a criação de um mecanismo de regulação de mercado por meio de política de estoques, a ser mantido pelo próprio setor. “O governo não pode participar, porque comprometeria a entrada dos produtos brasileiros no mercado internacional”, explicou. Para ele, seria importante manter estoque regulador, pelo menos, equivalente a 30 ou 45 dias de consumo. Segundo afirmou, a capacidade física de estocagem já existe, pois as usinas sempre operaram com períodos de safra de 180 dias, mas precisavam suprir o mercado durante o ano todo. “Hoje a safra já passa de 200 dias, há ociosidade nos tanques”, afirmou. Porém, falta definir quem arcará com o ônus do carregamento do estoque regulador, questão a discutir na cadeia produtiva.

    Química e Derivados: Álcool: Olivério - parceria com Ballestra dá biodiesel em planta contínua. ©QD Foto - Marcelo Bairbanks

    Olivério – parceria com Ballestra dá biodiesel em planta contínua.

    O estoque proposto por Nastari é mais ou menos igual ao excedente da safra do ano passado, que se revelou útil em face do atraso do início da safra deste ano. “No começo do ano, enquanto muitos produtores consideravam alto o excedente, eu afirmei que o volume existente, igual a apenas um mês de consumo, era até pequeno”, disse.

    A abertura de novas regiões para a produção canavieira é acompanhada de perto pela Dedini S/A Indústria de Base, que opera fábricas nas cidades paulistas de Piracicaba e Sertãozinho (vinda do grupo Zanini, com o qual se fundiu na década passada), e também nos Estados de Pernambuco e Alagoas, conformando-se no maior fornecedor de equipamentos do setor. “Estudamos continuamente a abertura de novas unidades para atender às solicitações dos clientes em menos de 24 horas, dentro do nosso plano de reposição garantida”, afirmou José Luiz Olivério, vice-presidente de operações. A seqüência evolutiva é sempre a mesma: criação de estrutura para prestação de serviços, seguida da implantação de oficina própria, que servirá como embrião de nova fábrica, dependendo da demanda local. “Atualmente, a região de Araçatuba-SP apresenta volume de projetos que justifica a intensificação de nossas operações”, comentou, ressaltando o interesse na região Noroeste do Paraná, com grande potencial para atender aos contratos futuros de exportação de álcool.

    “A cana ocupa hoje aproximadamente 5 milhões de hectares no Brasil que apresenta uma área para possível expansão agrícola, reconhecida como tal pelo Ministério da Agricultura, da ordem de 90 milhões de hectares”, comentou. Pelo acompanhamento de Olivério, nos últimos anos o setor sucroalcooleiro conseguiu ampliar sua produção com incrementos de produtividade, mais do que com expansão da área cultivada. Os novos projetos do setor podem adicionar três bilhões de litros de álcool à oferta anual brasileira, com a ampliação de 650 mil hectares de canaviais. Dá para atender a demanda interna e também as exportações, com folga.

    Além dos projetos de unidades novas e ampliações, Olivério salienta o fato de a indústria sucroalcooleira no Brasil operar em regime sazonal, com um período determinado para manutenção geral, criando uma demanda constante a cada ano, concentrada na entressafra. Como 2004 começou com perspectivas pouco otimistas, a Dedini chegou a vender chapas de aço que possuía em estoque, formado em bases mais otimistas. “A situação mudou e estamos com falta de chapas de aço, cujo preço subiu muito”, lamentou Olivério.



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