Álcool e Açúcar (usinas)

Álcool – Produtos de álcool vivem fase de euforia

Marcelo Furtado
3 de setembro de 2004
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    Boa aceitação dos carros multicombustíveis e perspectivas otimistas na exportação de álcool e de açúcar abrem caminho para investimentos

    Química e Derivados: Álcool: alcool_abre. ©QD Foto - Ilustração - Martinez

    Álcool – carros bicombustíveis

    O início do ano não foi dos melhores para o setor sucroalcooleiro.

    O aumento da produção de cana-de-açúcar e seus derivados não foi acompanhado pelo consumo: a frota de carros movidos a álcool envelhecia, sem renovação, as vendas de açúcar se mantinham estáveis, com poucas possibilidades de expansão, pois prejudicadas pelas barreiras erguidas pela União Européia. Para piorar, a safra na região Centro-Sul deveria começar em março, mas foi atrasada pela ocorrência de fortes chuvas, capazes de prejudicar a qualidade da matéria-prima do setor.

    Mas, do limão surgiu a limonada. A atraso na entrada da safra deste ano permitiu consumir o estoque de passagem vindo de 2003, estimado em um mês de demanda interna brasileira, ou seja, aproximadamente 1 bilhão de litros, que representava um custo a ser carregado pelos produtores, além de pressionar para baixo o preço do álcool. Iniciada com atraso e com perdas de produtividade, a safra atual mostra poder recuperar-se e até superar a do ano anterior, de 15 milhões de m³.

    O excesso de álcool, porém, já não representa risco nenhum para o setor. “As vendas de carros multicombustível e as perspectivas de exportação crescente, tanto de álcool, quanto de açúcar, afastam qualquer nuvem negra do horizonte”, comentou Antonio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), Estado que oferta 60% da produção etílica nacional. Segundo informou, os veículos que aceitam dois ou mais combustíveis (gasolina, álcool e gás natural, por exemplo) apresentam grande aceitação de mercado, chegando, em alguns modelos, a deter 37% das vendas. Como o diferencial de preços com a gasolina, ainda que se desconte o menor rendimento, é amplamente favorável ao uso do etanol hidratado, a antiga frota de carros movidos apenas com o álcool se mantém estável, afastando a hipótese de sucateamento. “Não temos como saber quanto do consumo do álcool deste ano foi para os multicombustíveis, até porque o uso de misturas do tipo ‘rabo-de-galo’ em carros a gasolina é grande, mas a demanda aumentou sensivelmente”, afirmou.

    Também o aumento das exportações de álcool absorve maior volume. A previsão para 2004 aponta para a venda externa 600 milhões de litros além do volume negociado em 2003, chegando a 2 bilhões de litros, segundo Rodrigues. “Houve quebra de safra na Índia e, com a situação de preços baixos no Brasil e a alta da gasolina nos EUA, tornou-se viável exportar álcool para lá, mesmo bancando todos os impostos e sobretaxas”, explicou. Até 2007, espera-se que as vendas externas se estabilizem em torno dos 2 bilhões de litros/ano. Para 2010, a expectativa é de exportar 5 bilhões de litros.

    Química e Derivados: Álcool: Nastari - setor precisa manter estoque regulador. ©QD Foto - Marcelo Bairbanks

    Nastari – setor precisa manter estoque regulador.

    Plínio Mário Nastari, presidente da consultoria Datagro, é mais otimista. “As exportações de álcool devem se situar entre o mínimo de 1,87 bilhão e o máximo de 2,2 bilhões de litros neste ano, mais do que o dobro dos 910 milhões de litros de 2003”, afirmou. “Isso sem falar no Japão, que pretende incluir 2% de etanol na sua gasolina a partir de 2006.”

    Também a Rússia sinaliza interesse em aderir ao Protocolo de Kyoto, motivo pelo qual também se tornará consumidora de álcool para redução da emissão de poluentes.

    Os contatos com o Japão avançam com bastante cautela, principalmente quanto à logística da operação e o temor de depender de um fornecedor único. Embora se possa argumentar que o Brasil apresenta várias regiões, com diferenças marcantes de clima, assegurando o fornecimento, o ideal seria contar com uma rede de países produtores. Índia , Tailândia, África do Sul e Austrália, além de países da América Latina, são exemplos de produtores de cana-de-açúcar que tem atuação incipiente no mercado de álcool. “Esses países têm sua matriz de produção voltada exclusivamente para o açúcar”, explicou Nastari, que participa ativamente de seminários e palestras em vários locais do mundo. “O Brasil prova que a atividade pode ser muito mais rentável se houver o aproveitamento de todo o potencial da cana, ou seja, quando se faz açúcar e álcool e se gera eletricidade a partir dos resíduos.”

    O consultor recomenda não ver a entrada desses países como aumento de concorrência, mas como garantia de oferta para os consumidores. “Além disso, só o Brasil possui área significativa para a expansão de canaviais, os demais países produzirão álcool com sacrifício da oferta de açúcar, cujos preços devem se tornar mais remuneradores, beneficiando também os produtores brasileiros, que têm custos baixos e capacidade de conquistar oportunidades de mercado.” A exportação açucareira motiva, principalmente, as usinas da região Norte-Nordeste, cuja oferta de sacarose (em parte aproveitada para álcool) cresceu 33% nos últimos dois anos. Segundo o especialista, a vantagem logística para exportação do Norte-Nordeste compensa a diferença de produtividade e custos em relação ao Centro-Sul do País, cujas usinas se situam longe da faixa litorânea.

    Em artigo recente, escrito a quatro mãos com o físico José Goldenberg, Nastari evidenciou que a produção de álcool de cana segue perfeitamente uma curva de aprendizado. “Na fase atual, está sendo adicionado valor ao bagaço, pontas e palhas, agregando receita ao processo, que se torna cada vez mais competitivo”, comentou.


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