Álcool – Produtos de álcool vivem fase de euforia

Boa aceitação dos carros multicombustíveis e perspectivas otimistas na exportação de álcool e de açúcar abrem caminho para investimentos

Química e Derivados: Álcool: alcool_abre. ©QD Foto - Ilustração - Martinez
Álcool – carros bicombustíveis

O início do ano não foi dos melhores para o setor sucroalcooleiro.

O aumento da produção de cana-de-açúcar e seus derivados não foi acompanhado pelo consumo: a frota de carros movidos a álcool envelhecia, sem renovação, as vendas de açúcar se mantinham estáveis, com poucas possibilidades de expansão, pois prejudicadas pelas barreiras erguidas pela União Européia. Para piorar, a safra na região Centro-Sul deveria começar em março, mas foi atrasada pela ocorrência de fortes chuvas, capazes de prejudicar a qualidade da matéria-prima do setor.

Mas, do limão surgiu a limonada. A atraso na entrada da safra deste ano permitiu consumir o estoque de passagem vindo de 2003, estimado em um mês de demanda interna brasileira, ou seja, aproximadamente 1 bilhão de litros, que representava um custo a ser carregado pelos produtores, além de pressionar para baixo o preço do álcool. Iniciada com atraso e com perdas de produtividade, a safra atual mostra poder recuperar-se e até superar a do ano anterior, de 15 milhões de m³.

O excesso de álcool, porém, já não representa risco nenhum para o setor. “As vendas de carros multicombustível e as perspectivas de exportação crescente, tanto de álcool, quanto de açúcar, afastam qualquer nuvem negra do horizonte”, comentou Antonio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), Estado que oferta 60% da produção etílica nacional. Segundo informou, os veículos que aceitam dois ou mais combustíveis (gasolina, álcool e gás natural, por exemplo) apresentam grande aceitação de mercado, chegando, em alguns modelos, a deter 37% das vendas. Como o diferencial de preços com a gasolina, ainda que se desconte o menor rendimento, é amplamente favorável ao uso do etanol hidratado, a antiga frota de carros movidos apenas com o álcool se mantém estável, afastando a hipótese de sucateamento. “Não temos como saber quanto do consumo do álcool deste ano foi para os multicombustíveis, até porque o uso de misturas do tipo ‘rabo-de-galo’ em carros a gasolina é grande, mas a demanda aumentou sensivelmente”, afirmou.

Também o aumento das exportações de álcool absorve maior volume. A previsão para 2004 aponta para a venda externa 600 milhões de litros além do volume negociado em 2003, chegando a 2 bilhões de litros, segundo Rodrigues. “Houve quebra de safra na Índia e, com a situação de preços baixos no Brasil e a alta da gasolina nos EUA, tornou-se viável exportar álcool para lá, mesmo bancando todos os impostos e sobretaxas”, explicou. Até 2007, espera-se que as vendas externas se estabilizem em torno dos 2 bilhões de litros/ano. Para 2010, a expectativa é de exportar 5 bilhões de litros.

Química e Derivados: Álcool: Nastari - setor precisa manter estoque regulador. ©QD Foto - Marcelo Bairbanks
Nastari – setor precisa manter estoque regulador.

Plínio Mário Nastari, presidente da consultoria Datagro, é mais otimista. “As exportações de álcool devem se situar entre o mínimo de 1,87 bilhão e o máximo de 2,2 bilhões de litros neste ano, mais do que o dobro dos 910 milhões de litros de 2003”, afirmou. “Isso sem falar no Japão, que pretende incluir 2% de etanol na sua gasolina a partir de 2006.”

Também a Rússia sinaliza interesse em aderir ao Protocolo de Kyoto, motivo pelo qual também se tornará consumidora de álcool para redução da emissão de poluentes.

Os contatos com o Japão avançam com bastante cautela, principalmente quanto à logística da operação e o temor de depender de um fornecedor único. Embora se possa argumentar que o Brasil apresenta várias regiões, com diferenças marcantes de clima, assegurando o fornecimento, o ideal seria contar com uma rede de países produtores. Índia , Tailândia, África do Sul e Austrália, além de países da América Latina, são exemplos de produtores de cana-de-açúcar que tem atuação incipiente no mercado de álcool. “Esses países têm sua matriz de produção voltada exclusivamente para o açúcar”, explicou Nastari, que participa ativamente de seminários e palestras em vários locais do mundo. “O Brasil prova que a atividade pode ser muito mais rentável se houver o aproveitamento de todo o potencial da cana, ou seja, quando se faz açúcar e álcool e se gera eletricidade a partir dos resíduos.”

O consultor recomenda não ver a entrada desses países como aumento de concorrência, mas como garantia de oferta para os consumidores. “Além disso, só o Brasil possui área significativa para a expansão de canaviais, os demais países produzirão álcool com sacrifício da oferta de açúcar, cujos preços devem se tornar mais remuneradores, beneficiando também os produtores brasileiros, que têm custos baixos e capacidade de conquistar oportunidades de mercado.” A exportação açucareira motiva, principalmente, as usinas da região Norte-Nordeste, cuja oferta de sacarose (em parte aproveitada para álcool) cresceu 33% nos últimos dois anos. Segundo o especialista, a vantagem logística para exportação do Norte-Nordeste compensa a diferença de produtividade e custos em relação ao Centro-Sul do País, cujas usinas se situam longe da faixa litorânea.

Em artigo recente, escrito a quatro mãos com o físico José Goldenberg, Nastari evidenciou que a produção de álcool de cana segue perfeitamente uma curva de aprendizado. “Na fase atual, está sendo adicionado valor ao bagaço, pontas e palhas, agregando receita ao processo, que se torna cada vez mais competitivo”, comentou.

Apesar de todas as vantagens do álcool combustível, Rodrigues, da Única, aponta um problema grave: as diferenças entre o ICMS cobrado em cada Estado. “O álcool só é competitivo em São Paulo e nos outros Estados que cobram ICMS de 12%; nos demais o imposto varia de 22% a 31%, fazendo com que o álcool custe de 80% a 90% do preço da gasolina na bomba”, explicou. “É preciso uniformizar o tributo no País, no nível paulista.” Também a cobrança da Cide na gasolina dá algum fôlego para o etanol, que ainda não foi desonerado totalmente da incidência do PIS/Confis no âmbito das distribuidoras. “O governo federal ainda não implementou a lei que dá isenção, e os distribuidores têm de recolher 8,2% no hidratado”, criticou.

Garantia de abastecimento – Nos anos 1990, quando a atividade sucroalcooleira ainda era controlada pelo governo federal, houve séria crise de abastecimento de mercado, provocada pela má gestão de estoques. Como conseqüência, os consumidores passaram a preferir carros movidos a gasolina, prejudicando o setor. Até hoje, quando se fala em ampliação de demanda, muitos proprietários de carros a álcool franzem a testa.

“Não há mais razão para preocupação porque, depois da desregulamentação, o setor se organizou em torno de centrais de abastecimento e comercialização, capazes de garantir o atendimento da demanda”, afirmou Nastari. “O setor, hoje, prefere perder renda a deixar o mercado desabastecido.”

“Os produtores estão atentos às oportunidades e se preparam para atendê-las, tanto que há mais de 30 projetos de instalações novas para começar a produzir até 2007, apenas na região Centro-Sul, sem falar nas ampliações das usinas existentes”, afirmou Rodrigues. Para o diretor da Única, os preços atuais de R$ 0,75/l para o anidro e de R$ 25/t de açúcar são compensadores, mas precisam ter estabilidade.

Nastari confirma a estimativa de projetos em andamento, cuja conclusão é muito plausível durante os próximos três anos. Com base em modelo preditivo próprio, ele espera que o Brasil alcance a produção de 582 milhões de t de cana por safra até 2013, ante as 358 milhões de t em 2003, e a expectativa de 389 milhões de t para este ano.

Apesar da previsão, que elimina o risco de desabastecimento, Nastari ainda considera importante a criação de um mecanismo de regulação de mercado por meio de política de estoques, a ser mantido pelo próprio setor. “O governo não pode participar, porque comprometeria a entrada dos produtos brasileiros no mercado internacional”, explicou. Para ele, seria importante manter estoque regulador, pelo menos, equivalente a 30 ou 45 dias de consumo. Segundo afirmou, a capacidade física de estocagem já existe, pois as usinas sempre operaram com períodos de safra de 180 dias, mas precisavam suprir o mercado durante o ano todo. “Hoje a safra já passa de 200 dias, há ociosidade nos tanques”, afirmou. Porém, falta definir quem arcará com o ônus do carregamento do estoque regulador, questão a discutir na cadeia produtiva.

Química e Derivados: Álcool: Olivério - parceria com Ballestra dá biodiesel em planta contínua. ©QD Foto - Marcelo Bairbanks
Olivério – parceria com Ballestra dá biodiesel em planta contínua.

O estoque proposto por Nastari é mais ou menos igual ao excedente da safra do ano passado, que se revelou útil em face do atraso do início da safra deste ano. “No começo do ano, enquanto muitos produtores consideravam alto o excedente, eu afirmei que o volume existente, igual a apenas um mês de consumo, era até pequeno”, disse.

A abertura de novas regiões para a produção canavieira é acompanhada de perto pela Dedini S/A Indústria de Base, que opera fábricas nas cidades paulistas de Piracicaba e Sertãozinho (vinda do grupo Zanini, com o qual se fundiu na década passada), e também nos Estados de Pernambuco e Alagoas, conformando-se no maior fornecedor de equipamentos do setor. “Estudamos continuamente a abertura de novas unidades para atender às solicitações dos clientes em menos de 24 horas, dentro do nosso plano de reposição garantida”, afirmou José Luiz Olivério, vice-presidente de operações. A seqüência evolutiva é sempre a mesma: criação de estrutura para prestação de serviços, seguida da implantação de oficina própria, que servirá como embrião de nova fábrica, dependendo da demanda local. “Atualmente, a região de Araçatuba-SP apresenta volume de projetos que justifica a intensificação de nossas operações”, comentou, ressaltando o interesse na região Noroeste do Paraná, com grande potencial para atender aos contratos futuros de exportação de álcool.

“A cana ocupa hoje aproximadamente 5 milhões de hectares no Brasil que apresenta uma área para possível expansão agrícola, reconhecida como tal pelo Ministério da Agricultura, da ordem de 90 milhões de hectares”, comentou. Pelo acompanhamento de Olivério, nos últimos anos o setor sucroalcooleiro conseguiu ampliar sua produção com incrementos de produtividade, mais do que com expansão da área cultivada. Os novos projetos do setor podem adicionar três bilhões de litros de álcool à oferta anual brasileira, com a ampliação de 650 mil hectares de canaviais. Dá para atender a demanda interna e também as exportações, com folga.

Além dos projetos de unidades novas e ampliações, Olivério salienta o fato de a indústria sucroalcooleira no Brasil operar em regime sazonal, com um período determinado para manutenção geral, criando uma demanda constante a cada ano, concentrada na entressafra. Como 2004 começou com perspectivas pouco otimistas, a Dedini chegou a vender chapas de aço que possuía em estoque, formado em bases mais otimistas. “A situação mudou e estamos com falta de chapas de aço, cujo preço subiu muito”, lamentou Olivério.

Apenas neste ano, a Dedini vendeu duas novas usinas, para os Estados de Mato Grosso do Sul e Minas Gerais (região do Triângulo Mineiro).

“Temos outros quatro projetos em análise até fevereiro de 2005”, informou Olivério, que pretende disputar 12 projetos anunciados de novas instalações para iniciar produção até 2008.

Internacionalização – O setor sucroalcooleiro abandonou a postura isolacionista mantida durante décadas e já colhe os primeiros frutos de articulações com parceiros internacionais. “O setor produtivo do Brasil abre mercados por meio da atuação na Global Sugar Alliance, que congrega os principais produtores mundiais”, explicou Nastari. A recente vitória na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os subsídios oferecidos à produção de açúcar de beterraba na Europa, por exemplo, foi fruto de uma queixa oferecida em conjunto por Brasil, Austrália e Tailândia.

A expectativa é romper barreiras contra a entrada de açúcar obtido de cana na União Européia, mas os resultados práticos devem demorar um pouco. Segundo o consultor, o relatório do painel de julgamento será divulgado para todos os membros da OMC em outubro, oferecendo prazo de 60 dias para os países afetados apresentarem apelação, cujo julgamento demora, em média, seis meses. “Depois do julgamento das apelações, sendo confirmadas as posições do painel, começa o período de implementação das decisões, quando o mercado ao açúcar deverá ser aberto em um período variável de dois meses a um ano”, explicou. Não havendo implementação, é possível retaliar comercialmente, contra qualquer produto daquela região.

No cenário internacional, o mercado de açúcar se revela interessante quando se sabe que Índia e Austrália sofreram quebra de safra por motivos climáticos, a Europa já prevê redução dos plantios de beterraba, e a Tailândia anunciou a retirada de incentivos oficiais à produção de cana, que ficarão restritos a 50 milhões de t/ano, para uma expectativa de produção de 75 milhões de t. “O preço de US$ 0,08 a US$ 0,085 por libra peso de açúcar é bom para o produto brasileiro, cujo ponto de equilíbrio se situa perto de US$ 0,05 na região Centro-Sul (granel FOB) para o tipo VHP”, afirmou.

O antigo tipo demerara, com 96º pol, perdeu a condição de padrão de mercado para outros açúcares crus com mais sacarose. Produtos com teores entre 96º a 99º pol predominam nos negócios a granel. Há uma escala de prêmios pagos pelos compradores por acréscimos de polarização (maior teor de sacarose) até o topo dessa escala. Imediatamente acima dessa categoria, aparece o tipo VHP (muito alta polarização), de 99,0º a 99,5º pol, ainda na faixa dos crus. “Os produtores brasileiros unidos conseguiram ingressar com um membro no comitê mundial da Bolsa de Mercadorias de Nova York, e incluíram o pagamento de um prêmio para açúcares de 99º a 99,3º pol, adicionando 0,1% ao preço para cada 0,1º pol a mais, a partir em março de 2006”, comentou Nastari.

A premiação da qualidade impulsiona investimentos no setor. Para o futuro, desponta o tipo VVHP (polarização muito muito alta), de 99,5º a 99,7º pol, já considerado um tipo intermediário entre crus e refinados. “As refinadoras mais modernas do mundo preferem esse tipo, que é mais fácil para processar”, explicou. Além do VVHP, aparecem os tipos refinados, vendidos ensacados, ou em big bags, e os refinados e granulados, com 99,8º pol, prontos para uso. Nastari acredita que o mercado ainda se concentrará nos granéis, embora nas faixas mais sofisticadas, incluindo controle sobre amido e dextrana. “Já existe estrutura de refino nos países desenvolvidos e o custo logístico favorece os granéis”, explicou, mencionando também a existência de regimes tarifários que favorecem o refino no país de destino.

Apesar disso, as restrições aos subsídios europeus abrem novas oportunidades. “Com as restrições que podem advir da decisão da OMC, a Europa deverá deixar de exportar três milhões de toneladas de granulado por ano, abrindo espaço para outros fornecedores, entre eles o Brasil”, explicou.

Conceitos revistos – A produção de etanol a partir de cana-de-açúcar é uma atividade na qual o Brasil apresenta domínio total da tecnologia. “Recebemos todos os meses visitantes de vários países interessados no sistema brasileiro de produção, mas sobretudo para ver de perto carros movidos exclusivamente a álcool”, afirmou Olivério. Do ponto de vista do fabricante de equipamentos, não foram introduzidas mudanças significativas nos processos. Mas, recentemente, foram obtidos resultados importantes nos rendimentos das operações industriais, conduzindo a economias de energia. “As utilidades dentro das usinas podem e devem ser otimizadas, principalmente por meio de um projeto integrado de todas as etapas e operações”, recomendou.

Além do melhor desempenho energético, as modificações também se refletem em um item ainda pouco considerado nas planilhas de custo do setor: a água. No Estado de São Paulo, por exemplo, já há regiões com limitações para a captação direta nos rios, além da cobrança recente de taxas, dada a concorrência com o abastecimento urbano. “A água ainda é barata para as usinas, que preferem direcionar investimentos para ampliar a produção”, disse Josué Vitti, superintendente de negócios de açúcar e álcool da Dedini S/A .

Para ele, a solução do problema da água para as usinas poderá ser encontrada “dentro de casa”. “Cada tonelada de cana fornece, além da sacarose, 300 kg de bagaço e de 500 a 600 kg de água”, informou. “Já existe tecnologia para recuperar essa água e operar em circuito fechado, porém é preciso investir.”

Considera-se, atualmente, que 4 milhões de toneladas de cana moídas por safra seja o limite superior de uma usina. Esse limite é dado pelo custo de transporte da cana do campo para o pátio industrial. Olivério ressalta o fato de ser difícil formar um canavial contínuo em regiões tradicionais de produção, pois é preciso competir com outras culturas (como a soja e a laranja), com a presença de cidades e acidentes geográficos, e também com outras usinas. “Em geral, buscar matéria-prima além de 60 km de distância é pouco econômico”, comentou. Já há usinas de capacidade bem acima desse limite, mas que dificilmente rodam cheias.

“Em regiões pioneiras, de relevo plano, é possível montar um projeto com a usina situada no centro de um círculo com raio até 60 km, com um canavial praticamente contínuo; nessa situação, uma usina nova poderia pensar em capacidades maiores, com plena viabilidade econômica”, ponderou.

DHR avança – O processo Dedini Hidrólise Rápida está em desenvolvimento desde a década de 1980 com o objetivo de obter etanol a partir do bagaço resultante da moagem da cana-de-açúcar. É formado por três etapas: a hidrólise da lignina, de modo a tornar disponível a celulose e a hemicelulose das fibras vegetais; a fermentação desses materiais; e a destilação do fermentado (detalhes na QD-417, de julho de 2003). O DHR é um desenvolvimento conjunto entre Dedini, Copersucar e Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), que chegou em outubro de 2003 a iniciar a produção contínua da unidade-piloto para 5 mil litros/dia de álcool, instalada na Usina São Luiz (do Grupo Dedini), em Pirassununga-SP. Em julho daquele ano, a unidade funcionou por bateladas, com o intuito de levantar parâmetros de operação.

“A safra 2003 terminou em novembro, impedindo a continuidade do programa de testes por falta de bagaço, mas já conseguimos fazer, durante a entressafra, vários ajustes”, afirmou Olivério. Já em 2004, como a safra atrasou, só foi possível retomar a operação do piloto em julho, dada a pouca disponibilidade de bagaço. “De julho a outubro, continuamos a determinar parâmetros de engenharia para suportar o dimensionamento da planta em escala industrial”, afirmou. Com esses dados, será possível traçar as curvas de desempenho, consumo de material e de energia, necessárias para os cálculos de uma unidade dez vezes maior. “É provável que o levantamento de parâmetros ainda ocupe boa parte da operação na safra de 2005”, antecipou o vice-presidente.

Segundo Olivério, a maior dificuldade encontrada diz respeito ao sistema de alimentação do reator de alta pressão. Existem soluções semicontínuas para isso, mas o processo foi idealizado para operação contínua. “Nos testes, verificamos que o bagaço apresenta um comportamento estranho, com ondas de choque e refluxos que repercutem no colchão de alimentação. “Lembra um pouco uma asa de avião durante o vôo”, comentou, salientando que a solução tecnológica do problema já está adiantada.

A etapa seguinte, das fermentações, será implementada apenas para as hexoses, que representam 50% do resultado da hidrólise. “Só com isso, já conseguiremos uma produção de 109 litros de etanol por tonelada de bagaço in natura, com 50% de umidade”, explicou. A parte das pentoses, com outros 30% de material, exigiria o desenvolvimento de fermentos e processos novos, mais adequados, de modo a oferecer outros 70 litros de etanol. “Para o futuro estudaremos parcerias nacionais ou internacionais para desenvolver essa parte, que dará um plus ao processo, que já é econômico com as hexoses”, comentou.

Olivério já apresentou o DHR em simpósios internacionais com excelente receptividade, tendo até despertado o interesse de investidores. “Vamos esperar até a operação da primeira planta industrial antes de buscar novos parceiros”, disse. Ele informou que há várias linhas de aproveitamento de biomassa para processos fermentativos. Entre elas, parece ser promissora a via da digestão enzimática, que ainda está em fase de pesquisas. “A hidrólise está à frente, e o DHR lidera a corrida tecnológica”, avaliou.

Biodiesel promete – O projeto de adicionar ésteres etílicos de ácidos graxos ao óleo diesel como aditivo ecologicamente correto para a redução de poluição nas grandes cidades brasileiras pode ampliar a demanda pelo etanol. Diferente da situação dos motores de ciclo Otto, essa aplicação consiste em mercado totalmente novo para o álcool. Apesar disso, os usineiros não revelam grande interesse. “O potencial de mercado é pequeno, inferior a 200 mil litros, e ainda há algumas questões preliminares a resolver”, explicou o consultor Plínio Nastari.

O plano federal de adicionar 2% de ésteres ao diesel nacional a partir de 2005 poderá ser realizado a partir de unidades de esterificação já instaladas no Pará, no Mato Grosso e em São Paulo (Ribeirão Preto), além de outras de menor porte. “O governo federal tem reiterado a idéia de incentivar o cultivo de mamona em pequenas propriedades para abastecer fábricas de éster de baixa escala, com um enfoque social”, afirmou. “Um projeto dessa envergadura precisa ter viabilidade econômica.” Para o consultor, a proposta tem sérias limitações, a começar pela baixa produtividade da mamona atualmente cultivada no País. Seria preciso iniciar estudos com outras variedades, importadas, ou desenvolver cultivares locais. “Tudo isso demanda tempo, não dá para fazer até 2005”, criticou. Para Nastari, a melhor alternativa para o suprimento de ácidos graxos seria a palma (dendezeiro).

O plano do Ministério de Minas e Energia é de alcançar um percentual de mistura de 20% de ésteres no diesel até 2020, obtendo grande redução da poluição ambiental e também reduzindo a necessidade de importação do derivado de petróleo, cuja matriz de oferta nacional é deficiente. O problema não está no álcool, mas na parte graxa. O País é um grande produtor de soja, mas conta com ampla variedade de plantas capazes de oferecer óleos aproveitáveis, embora sejam ainda produzidos em pequena quantidade.

“A soja é uma commodity internacional, com preços que flutuam muito, às vezes caros demais para sustentar o desenvolvimento do projeto”, afirmou José Luiz Olivério, da Dedini. Para ele, a transesterificação adequada ao Brasil deve ser flexível o bastante para operar com diferentes óleos, acompanhando as variações sazonais de oferta. “A parte agrícola precisa ser muito bem integrada à industrial”, recomendou, com a experiência na altamente integrada indústria sucroalcooleira. Aliás, segundo ele, uma unidade de transesterificação seria um anexo muito interessante para as usinas nacionais.

A Dedini fechou, em abril, um contrato de venda de uma unidade para produzir biodiesel a partir de um ácido graxo residual do processamento da palma da Agropalma, de Belém-PA. A tecnologia dessa unidade foi desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com engenharia, produção e montagem a cargo da tradicional metalúrgica de origem piracicabana. “Essa unidade tem flexibilidade para usar etanol ou metanol no processo”, informou. Essa característica deve-se à localização geográfica do cliente, que tem facilidade para obter metanol no Golfo do México, com custos razoáveis. Segundo Olivério, as reações com etanol e metanol diferem nos tempos e regimes, além dos catalisadores. O processo escolhido opera por bateladas.

Em julho deste ano, a empresa começou a oferecer aos interessados o fruto de sua parceria com a italiana Ballestra, líder na produção de equipamentos para a indústria graxa e detergentes. Trata-se de processo contínuo de transesterificação de óleos vegetais, usando apenas o etanol. “O álcool entra no reator isento de umidade e em quantidade bem acima da relação estequiométrica”, explicou. Depois da reação, o álcool não reagido precisa ser separado do biodiesel para posterior purificação e retorno ao processo.

O processo contínuo desenvolvido em conjunto aceita vários tipos de óleos vegetais, oferecendo como subproduto glicerina loira (85% de pureza), com bom valor comercial. “A Ballestra está acostumada com essa diversidade, pois na Itália usa-se a matéria-prima disponível em cada estação”, disse. “Cada tipo de óleo gera um biodiesel um pouco diferente, mas é possível atender aos principais parâmetros técnicos.” Na Europa, como forma de criar barreira não-tarifária à importação de ésteres feitos a partir de óleo de soja mais econômicos, exige requisitos não-essenciais, a exempo de baixíssimo índice de iodo, que só consegue ser atendido pela colza (rapeseed).

“Pelas intenções declaradas pela Ministério das Minas e Energia, bastariam duas plantas grandes contínuas para atender o mercado brasileiro”, calculou Olivério. Na sua avaliação, unidades de grande porte apresentam economia de escala e permitem obter melhor controle sobre a qualidade da produção. Já as unidades de pequenas dimensões teriam como vantagem o melhor aproveitamento das oleaginosas regionais. “É arriscado depender de plantas pequenas e de bateladas, melhor incentivar a construção de unidades contínuas”, recomendou.

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