Álcalis Barrilha: Clientes Habituais Mantém Crescimento e Surgem Novos Usos, como a produção de Lítio

O carbonato de sódio, ou barrilha, é outro conhecido álcali que pode ser obtido tanto pela mineração de jazidas naturais, quanto pela rota sintética. A primeira forma origina um produto mais denso, enquanto a outra leva a uma forma mais leve. Daí os nomes barrilha pesada (ou densa) e barrilha leve.

Estima-se que o mercado brasileiro consumiu 1,45 milhão de toneladas de barrilha em 2019, um aumento de 6,2% sobre o total de 1,36 milhão de t de 2018, que já representaram elevação de 15% sobre os dados de 2017. O ritmo dos negócios apontava novo crescimento de demanda em 2020, previsão agora turvada pela crise sanitária.

No mercado brasileiro, a participação da barrilha leve é pequena, avaliada por fontes do mercado em quase 70 mil t/ano, ou seja, 5% do total. É um produto mais caro que a barrilha densa.

O processo sintético Solvay gera uma barrilha que tem a metade da densidade do produto natural, com granulometria muito fina. Daí a sua alta velocidade de dispersão e facilidade de reação. Em contrapartida, precisa ser embalada cuidadosamente, em sacos ou big-bags, aumentando o custo logístico.

A barrilha pesada é também chamada de barrilha vidreira, por ser este seu principal destino. A cada quatro anos, um novo forno de vidro é inaugurado no Brasil, em média. Há pelo menos um projeto de investimento em nova e grande linha de vidros planos, além de uma unidade de produção de bicarbonato de sódio no Sul do país. Somados, os dois projetos agregariam quase 70 mil t/ano à demanda nacional por barrilha.

Os Estados Unidos são o maior exportador de barrilha densa para o Brasil, explorando jazidas carbonáticas no Wyoming e na Califórnia. São cinco os produtores de barrilha natural nos EUA, três deles (Genesis Alkali, Tata Chemicals e Ciner) participam da Ansac, organização para exportação da barrilha, ou outros dois são a Solvay (saiu da Ansac em 2010) e a SZM (na Califórnia). A Ansac comanda a comercialização de 10 milhões de t/ano, das quais exporta 4,5 milhões de t, sendo o maior fornecedor do Brasil.

O grupo Ciner tem origem turca, aliás a Turquia também explora jazidas cabonáticas e é um grande fornecedor global de barrilha.

No Brasil, estima-se que os fabricantes de vidros absorvem 55% da barrilha densa importada. Outros 25% são direcionados para a fabricação de detergentes em pó e 15% atendem à produção química.

No campo dos vidros, os planos são os de maior relevância, representando 25% da produção, destinada à construção civil e ao setor automotivo. A fabricação de garrafas responde por 20% desse mercado. Mas é exatamente o setor vidreiro que está sendo mais impactado pela Covid-19, pois os principais clientes do ramo automotivo e da construção civil estão com atividade reduzida. Os consumidores da área de domissanitários e químicos foram menos afetados.

Pedro Nelson Almeida, vice-presidente de operações da Manuchar, considera que o abastecimento global de barrilha está bem equilibrado, sem gerar preocupação.

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“Há previsão de aumento de produção de Trona, que é a barrilha pesada natural nos Estados Unidos”, comentou. A Manuchar ampliou sua capacidade de armazenamento no Brasil com o objetivo de melhorar a capacidade de distribuição logística, não só para a barrilha, mas para todos os produtos do portfólio.

Marcelo Silva, diretor da Basequímica, comercializa as formas densa e leve de barrilha, importando os produtos da China. “A barrilha pesada melhor sua qualidade, reduziu impurezas e acertou a granulometria, assim, conquistou aplicações que antes requeriam a leve, esta continua sendo preferida em alguns casos, mais exigentes”, considerou.

Química e Derivados - Del Bell projeta crescimento da demanda na América do Sul
Del Bell projeta crescimento da demanda na América do Sul

Barrilha Sintética: Ligação histórica Solvay

O grupo de origem belga Solvay tem fortes laços com a barrilha sintética.

“Foi o primeiro produto da companhia, o processo foi criado pelo fundador, o químico Ernest Solvay, em 1864”, comentou Maurício Del Bell, diretor de unidade de negócios soda ash e derivados. Além disso, a barrilha tem grande importância na indústria química, motivo pelo qual permanece no portfólio do grupo.

Del Bel explica que a Solvay mantém fábricas de barrilha leve na Espanha (Torrelavega), Alemanha, Bulgária, Itália e na Ásia, além de ser uma das maiores produtoras de barrilha densa nos Estados Unidos, em Green River (Wyoming).

A América Latina, como informou, consumiu 2,7 mihões de t de barrilha em 2019, dos quais ele avalia que 10% sejam da forma leve, que é preferida pela indústria de detergentes em pó e têxtil.

“A barrilha pesada é o grande produto, consumido pela indústria videira, detergentes e, em importância crescente, na obtenção de carbonato de lítio, essencial para as baterias elétricas modernas”, salientou. A América do Sul conta com importante produção de lítio.

Na sua avaliação, a América do Sul tende a aumentar o consumo de barrilha e isso está sendo comprovado ao longo dos anos. “Em 2020, porém, a Covid-19 bagunçou todas as previsões, ainda não sabemos como o mercado vai se comportar daqui para a frente”, afirmou. Os primeiros três meses de 2020 apresentaram bons resultados comerciais, mas o segundo trimestre começou a apontar dificuldades. Segundo o diretor, os fluxos internacionais de mercadorias não foram afetados pela pandemia, não havendo problemas de abastecimento.

De modo geral, PIB e consumo de barrilha andam juntos. O vidro continua sendo muito usado e é reciclável, portanto tem apelo ecológico. A região também permanece fiel aos detergentes em pó, enquanto outras já adotaram a forma líquida, que não consome barrilha. “É cultural, vemos o mesmo fenômeno na Índia, lá também há uma demanda reprimida por detergentes”, comentou.

Del Bell comenta que a barrilha pesada tomou alguns mercados da leve, embora tenha menor qualidade. “Houve um trade off, a barrilha densa é muito mais barata que a leve, quem podia trocar aproveitou”, disse. Em algumas aplicações, porém, a leve é imbatível. “Temos uma barrilha leve com grau farmacêutico, o tipo IPH, que é usada na formulação de efervescentes”, comentou.

No caso da barrilha pesada, a Solvay retirou-se da Ansac, mas manteve fortes investimentos na produção. “A Ansac mudou muito, o número de participantes já foi maior, mas ainda é um concorrente agressivo no mercado”, avaliou. Del Bel considera que o mercado mundial e o da América do Sul, em particular, estão mudando de mãos. “Desde que os turcos começaram a atuar na América do Sul os preços desabaram, há mudanças acontecendo”, informou.

Na sua avaliação, no futuro, dois grandes produtores com alcance mundial deverão se destacar: Solvay e Ciner. “Os dois estão investindo pesado, além deles há os produtores chineses, que têm um carbonato diferente, mas eles precisam melhorar o aspecto ambiental da produção”, avaliou.

Química e Derivados - Produção de barrilha pesada na Califórinia, EUA
Produção de barrilha pesada na Califórinia, EUA

A Solvay também está desenvolvendo derivados da barrilha para aplicações ligadas à sustentabilidade. É o caso do Solvair, feito à base de bicarbonato de sódio com granulometria especial, que é pulverizado em contra-corrente ao fluxo de gases ácidos resultantes de combustão. “Com isso, aproveitando a temperatura do ponto de contato, forma-se sulfato de sódio a seco, sem gerar lama, como acontece quando se usa cal”, explicou.

O Solvair já é usado por dois clientes no Chile e está sendo avaliado na Colômbia e no Peru. “Faltam normas mais rígidas contra poluição aqui no Brasil para impulsionar esse mercado”, disse. Del Bell.

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