Água Ultra Pura: Anvisa e receio de contaminação forçam setor cosmético a melhorar água

Química e Derivados, Água Ultra Pura: Anvisa e receio de contaminação forçam setor cosmético a melhorar água

A indústria de cosméticos está cada vez mais preocupada com a água que utiliza em sua produção. Primeiro porque, tecnicamente, o fato se justifica: seus produtos têm contato direto com o ser humano e, se não são ingeridos, contaminações ou alergias podem se instalar pela pele, cabelo ou olhos e, acidentalmente, até por via oral. E, em segundo lugar, porque a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está aumentando as exigências e fiscalizações nas empresas, chegando até a autuar ou cancelar registros de produção de indústrias descuidadas com a qualidade da água.

A agência federal tem baseado sua atuação em resolução normativa, a RDC 17, de 2010, que estende as exigências de boas práticas de fabricação de fármacos para a indústria de cosméticos, o que no caso da água significa o atendimento a padrões mais elevados, de água ultrapura. Além disso, por enquanto, a preocupação maior é para verificação da qualidade da água utilizada e não abrange o padrão de fabricação dos equipamentos, o que pode vir a ocorrer no futuro.

Para fornecedores de sistema de produção de água ultrapura, aliás, não basta verificar se a água está dentro dos padrões aceitáveis, principalmente ao se pensar em combate à contaminação microbiológica. Isso porque as unidades empregadas na indústria farmacêutica contam com equipamentos, como tubulações, vasos e conexões, todos de aço inox 316 L, o que evita a formação de colônias de microrganismos.

Na indústria de cosméticos, as grandes e algumas médias empresas já investem em unidades de água ultrapura que seguem os padrões farmacêuticos, sejam os da farmacopeia norte-americana (USP) ou o europeu. O desafio maior fica no grande universo formado por pequenas empresas, que ainda têm sistemas antigos e resistem a investir em unidades caras para alimentar a produção de seus xampus, cremes, condicionadores, entre vários outros produtos cosméticos que atendem a uma boa parte do consumo nacional, de forma direta ou por meio de contratos de terceirização da produção com grandes fabricantes.

Química e Derivados, Sistema de aço inox para água purificada: sanitização a quente
Sistema de aço inox para água purificada: sanitização a quente

Riscos – Não ter uma unidade apropriada, de aço inox, significa que pode haver contaminações ocasionadas pelos equipamentos construídos com materiais suscetíveis, como tubulações e conexões de PVC, pontos mortos e rugosidades, que se tornam meios de culturas para microrganismos. “Você pode analisar a água de um sistema desses e não encontrar nada, mas, ao longo dos dias ininterruptos de produção, podem aparecer contaminações”, explicou o engenheiro de vendas da Veolia Water, Edson Ferreira. Não é por outro motivo que a água para fármacos, cujo rigor antimicrobiano é muito alto, obrigatoriamente precisa ser gerada por unidades de aço inox.

Segundo revela Ferreira, tradicionalmente, a preocupação da indústria de cosméticos é a de atender ao padrão físico-químico, ou seja, apenas remover os sais da água, por osmose reversa ou colunas de troca iônica, e não ao microbiológico, que vai precisar seguir as determinações mais rigorosas das farmacopeias. Além da construção de inox, o padrão USP para ultrapure water (UPW), que condiciona a água para níveis abaixo de 10 ufc/ml (unidade formadora de colônias), requer duplo passo de osmose reversa. A mesma água, para a farmacopeia europeia, exige osmose reversa mais uma coluna de destilação.

O outro tipo de água para a indústria farmacêutica, e que começa a ser usado pelo ramo cosmético, é o denominado PW (pure water), de exigência menor: abaixo de 100 ufc/ml. Esse padrão é atendido normalmente por duplo passo de osmose reversa ou osmose reversa com polimento em eletrodeionizador (EDI). A Veolia conta com sistemas standard para as duas demandas, em vazões de 1 m3/h a 10 m3/h. “Mas podemos fazer unidades customizadas de qualquer vazão”, disse Ferreira.

Apesar da preocupação maior com o aspecto físico-químico, o engenheiro da Veolia ressalta que os cuidados microbiológicos devem ser vistos com mais atenção pelo setor cosmético. Principalmente porque é crescente a oferta de produtos para crianças, mais predispostas a contaminações, e também de linhas hipoalergênicas, cuja produção precisa ser mais criteriosa. Há ainda casos específicos de produtos, como os lenços umedecidos, de contato íntimo em crianças e para remoção de maquiagens em mulheres, cuja água recomendavelmente precisa ter padrão farmacêutico.

Química e Derivados, Sistema Ionpro é para vazões de 500 l/h até 1.000 l/h
Sistema Ionpro é para vazões de 500 l/h até 1.000 l/h

Essa tendência, aliada às cobranças da Anvisa, segundo Ferreira, tem gerado solicitações diárias por unidades da Veolia. O que não significa compras de fato. “Enquanto a agência não obrigar um novo padrão de construção para as estações de tratamento de água para cosméticos, as empresas, principalmente as pequenas, vão postergar os investimentos”, disse. E esse cenário, para ele, se agrava com o atual momento da economia. “O investimento não pode ser considerado baixo. E as empresas não estão capitalizadas para isso”, complementa. Até mesmo em virtude da baixa na economia a Anvisa dá sinais de que não fará essa exigência muito em breve.

Ferreira confirma a constatação de que as grandes indústrias normalmente veem a água para cosméticos com preocupação similar à da produção farmacêutica. Quem atinge uma faixa maior de consumidores, e tem um nome a zelar, preocupa-se em não deixar que lotes de produtos contaminados pela água eventualmente cheguem ao mercado. O problema é que boa faixa de consumidores pode estar exposta a esse perigo, ao comprar produtos de mais baixo custo. “O consumidor comum sequer sabe que a água do cosmético precisa ser desmineralizada, quanto mais saberá que o ideal é ela ser ultrapura”, afirmou Ferreira.

De olho na demanda – Em busca de negócios com a maior demanda de água ultrapura no setor cosmético, a brasileira Gehaka lançou no último ano, e está em fase de maior divulgação comercial, um sistema específico para a aplicação. Trata-se do modelo de purificador de água OS50 TQ300, para necessidades de 300 litros por hora, podendo chegar a 500 l/h.

O sistema completo reúne em uma central única um filtro de partículas, filtro de carvão ativado, três unidades de osmose reversa, bomba de recirculação, lâmpadas para radiação ultravioleta, deionizador de troca iônica, cápsula de ultrafiltração em loop e filtro microbiológico em cápsula de saída com membrana em fibra oca com retenção de 0,01 mícron.

Química e Derivados, Adel: Gehaka lançou sistema específico para uso em cosmético
Adel: Gehaka lançou sistema específico para uso em cosmético

Segundo Anselmo Adel, do departamento comercial da Gehaka, o diferencial do sistema é sua recirculação permanente de água purificada, para mantê-la preservada de contaminação microbiológica. “Depois de passar pelos filtros e ir para o reservatório de armazenagem, a água recircula de forma constante em duas lâmpadas de UV”, disse Adel. Segundo ele, a empresa vende bem o equipamento e as expectativas são boas. “A norma da Anvisa está fazendo o setor cosmético acordar para a necessidade de trabalhar com água ultrapura, sobretudo a produzida por membranas, sem a necessidade de regenerantes como ocorre com a troca iônica”, complementou.

Outro exemplo de empresa interessada em buscar negócios nessa área é a Ecolab, grupo norte-americano com amplo portfólio em tratamento de água e efluentes que se associou à Nalco. Segundo o gerente de marketing, João Teodoro, a empresa pode ofertar soluções completas para água ultrapura, em várias modalidades de negócios, incluindo em regime de BOT. “Podemos financiar a planta, projetar e construir a unidade e depois nos responsabilizarmos pela operação e manutenção”, disse.

A parte de projeto ficaria a cargo da divisão E&EP (engineering and project development), com expertise em construção de unidades para tratamento de água em todos os setores industriais. “O comum nesse setor é a construção de unidades de osmose reversa de duplo passo ou de osmose com polimento em EDI”, afirmou. Fechando um contrato para projeto de unidade completa, a Ecolab de preferência agregaria a prestação de serviço com pagamento por água tratada. “O foco é vender serviço, mas temos capital e conhecimento para criar uma solução completa”, finalizou.

Um Comentário

  1. Prezados,
    O aço inox 316 L apesar de muito eficiente não é o único produto indicado para tubulações e construção de equipamentos para água PW ou UPW.
    Atualmente o mercado conta com alternativas como os fluorpolimeros principalmente o PVDF um termoplastico que tem metade da rugosidade do inox 316 L o que reduz a possibilidade de biofilme e ainda traz vantagens adicionais como: tem muito menos lixiviação, não precisa de processos de passivação, não tem corrosão “rouge”, é muito mais leve e durável, tem processos de solda limpo que não contamina o ambiente com partículas metálicas, aceita qualquer processo de sanitização, inclusive a quente.

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