Água para Cosméticos – ABC Cosmetologia

Recentemente, houve um evento na ABC – Associação Brasileira de Cosmetologia, focando no conceito de “Blue Beauty”.

Ou seja, fazer cosmético sem agredir o meio ambiente, os corais, os mananciais, as águas dos rios, dos lençóis freáticos.

Esse novo conceito veio para ficar.

As indústrias químicas, já estão dentro deste conceito de respeito ao meio ambiente, porém agora, em relação aos cosméticos, não basta trazer bem-estar, saúde e beleza.

Precisa também ser amigo do meio ambiente.

E dentro desse conceito, um dos itens fundamentais é, sem dúvida, a água.

Aproximadamente dois terços da superfície da Terra estão cobertos por água.

Em razão da abundância da água em nosso planeta, muitos de nós a consideram um elemento barato e inesgotável.

Contudo, do total de água disponível no planeta, apenas pequena parte é adequada para nosso consumo: 0,7% de água doce, que está em rios, lagos e lençóis freáticos.

O restante não é próprio para o consumo humano, pois 97% são água salgada e ficam nos oceanos, e 2,3% é congelada e está nos polos.

Do total de água doce, 70% são utilizados na agricultura; 22% na indústria; e apenas 8% nas cidades, para consumo humano.

Sem dúvida, pode-se dizer que a água é a principal matéria prima utilizada nos bens de consumo humano.

Entretanto, tem um agravante, a água como riqueza natural está se tornando escassa, devido ao aumento da demanda em escala geométrica para atender ao crescimento da população mundial.

Tudo isso somado ao comprometimento das reservas hídricas, causado pelos desequilíbrios ambientais.

Por essa razão, cada vez mais o uso da água deve ser estudado e planejado para que possa atender a sua demanda na qualidade necessária.

Água para Cosméticos - ABC Cosmetologia ©QD Foto: iStockPhoto Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em 2009, o abastecimento mundial de água doce está seriamente ameaçado por aumento da população, irrigação irresponsável, mudanças climáticas e desperdícios crônicos.

O documento afirma que a água faz parte de uma complexa rede de fatores que determinam a prosperidade e a estabilidade de um povo e que a falta desse recurso, aumenta a pobreza e as privações, sendo uma causa potencial de distúrbios e conflitos.

A água, como o principal insumo da indústria de cosméticos, produtos de higiene pessoal e perfumaria, pode representar 80% da composição de muitos produtos.

Por exemplo, tem participação importante nas emulsões, como solubilizante de certos princípios ativos, e em deo-colônias e outros produtos perfumados. Também é um insumo importante na limpeza de equipamentos e instalações. Por isso, para evitar sua contaminação, é importante que se tenha cuidados especiais para obtê-la, tratá-la e armazená-la.

RDC 48 – ANVISA – Capítulo 13

No Brasil, a maioria das categorias de água utilizada pela indústria cosmética segue padrões definidos pela Farmacopeia dos Estados Unidos (USP) e, em alguns casos, também pela Farmacopeia Europeia (EP).

Nos processos de produção de cosméticos basicamente é usada água de baixa concentração de sólidos, sais e minerais dissolvidos, e livres de contaminantes biológicos.

Todavia, em algumas aplicações, por causa de necessidades específicas ou conveniência, podem ser usadas águas com características que não se enquadrem necessariamente nos padrões das farmacopeias, casos em que atenderão aos requisitos mínimos de água potável.

De acordo com a RDC 48 (que substitui a RDC 348), o responsável pela caracterização da água é o fabricante, que deve atender, no mínimo, os requisitos básicos de potabilidade.

Essas águas, dependendo da característica físico-química, também passarão por tratamento adicional, para que atendam a demandas específicas do processo. Isso ocorre, por exemplo, na fabricação de shampoos.

As empresas que fabricam esses produtos não necessitam, obrigatoriamente, usar água desmineralizada, pois os shampoos apresentam alta concentração de sais. Mas, ao mesmo tempo, essa água tem de atender aos requisitos microbiológicos.

Sebastião D. Gonçalves - Diretor-técnico da ProServ Química Ltda.

Materiais presentes na água

A água é o solvente universal da maioria das substâncias. Principalmente devido às suas características, a água é utilizada por todos os setores da economia em diversos processos industriais. Para tanto, esse recurso é retirado de rios, poços e outros mananciais.

Também pode ser captada do mar, caso em que é dessalinizada, o que demanda um processo dispendioso. Mas não basta retirar a água desses locais e em seguida utilizá-la, é preciso tratá-la para retirar suas impurezas.

Quando em estado natural, a água contém impurezas que variam dependendo do histórico prévio e do contato que teve com a atmosfera e o solo. Essas impurezas podem ser matérias em suspensão (partículas não dissolvidas que ficam suspensas no corpo da água) ou matérias em solução (dissolvidas na água).

Em geral, são compostos orgânicos dissolvidos, sólidos dissolvidos ionizados, gases dissolvidos, matéria em suspensão, incluindo micro-organismos e matéria coloidal.

A avaliação da qualidade da água, para consumo humano ou uso industrial, não exige o conhecimento de todos os materiais nela presentes. É suficiente identificar suas características gerais para, a partir destas, definir os sistemas de tratamento para a adequação da água ao uso final.

Água para Cosméticos - ABC Cosmetologia ©QD Foto: iStockPhoto

Essas características são:

– Dureza total: é a soma das concentrações de sais de cálcio e magnésio. Em água doce, suas concentrações podem variar de 10 ppm a 200 ppm e chegam a alcançar valores maiores; já em águas salgadas, as concentrações atingem até 2.500 ppm. Para a água ser potável, sua dureza total tem de ser inferior a 85 ppm.

– Alcalinidade total: em geral, deve-se à presença de bicarbonatos de Ca++, Mg++ e Na+, com concentrações que variam entre 10 ppm e 30 ppm. O dióxido de carbono dissolvido na água se torna altamente corrosivo. A alcalinidade pode ser reduzida ou controlada por meio de processos de dealcalinização, ou removida pelos processos de desmineralização ou evaporação. Só é potável quando não exceder 250 ppm.

– Sulfatos: geralmente estão presentes na água bruta os sulfatos de sódio, de cálcio e de magnésio. Ocorre grande variação em suas concentrações. Dependendo da origem da água, os valores variam entre 5 ppm e 200 ppm. Podem ser eliminados por meios de abrandamento, desmineralização ou evaporação. Para fins potáveis, sua concentração não deve exceder 250 ppm.

– Sílica solúvel ou reativa: em geral está na água na forma de ácido silícico e silicatos solúveis, cujas concentrações podem variar de 2 ppm a 10 ppm. Essas concentrações não comprometem o uso da água para fins potáveis.

– Cloretos: normalmente, os cloretos presentes na água são os de sódio, cálcio e magnésio. Suas concentrações em água doce podem variar entre 3 ppm e algumas centenas de ppm. Em águas salgadas, o valor chega a 26.000 ppm. Podem ser removidos por desmineralização ou evaporação. A água somente é potável se sua concentração não exceder 250 ppm.

– Ferro: presente na água em forma de bicarbonatos. Variam desde poucas até 100 ppm. Quando depositados sobre superfícies metálicas, podem contribuir para a formação de pilha corrosiva. A remoção pode ser feita por meio de vários processos: aeração ou cloração em tanques de armazenamento, ou desmineralização, ou evaporação. Não pode ultrapassar 0,3 ppm para fins potáveis.

– Oxigênio dissolvido: presente na forma de O2, sua concentração chega a atingir 10 ppm. Quando se encontra na água, corrói ferro e ligas de cobre. Sua remoção das águas de alimentação (que, genericamente, são as que abastecem as caldeiras durante os processos de produção de vapor) pode ser feita por meio de desaeradores. Sua concentração na água não apresenta inconveniente quando é destinada a fins potáveis.

– Matérias em suspensão e coloidais: As quantidades desses materiais são avaliadas pela turbidez e a cor. São encontradas em grande quantidade em águas de superfície, por exemplo, as de rios e lagos, e em pequenas quantidades em águas do subsolo. Tanto os materiais em suspensão quanto os coloidais são constituídos pelas mais diversas substâncias, como matéria orgânica, areia, argila, lama, óleos, sílica coloidal, ácidos húmicos, fúlvicos (que resultam da decomposição de vegetais) e orgânicos (por exemplo, bactérias e esporos).

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Processos Básicos de Tratamento de Água

O processo clássico para eliminar matérias em suspensão, cor e odor da água consiste em coagular, decantar e filtrar, ao qual podem ser adicionados os processos de cloração e desmineralização.

As quantidades de matéria em suspensão são analisadas por meio da cor e da turbidez.

A cor nas águas é produzida pela reflexão da luz em partículas minúsculas chamadas coloides, finamente dispersas, principalmente de origem orgânica e dimensão inferior a 1 ?m. Em geral, essas partículas provêm da decomposição de matéria orgânica (em sua maior parte de origem vegetal) e do metabolismo de micro-organismos que vivem no solo.

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Também podem resultar de descargas de efluentes domésticos ou industriais, lixiviação de vias urbanas e solos agricultáveis. Compostos de ferro e manganês ou de diversos tipos de resíduos industriais presentes na água também podem lhe conferir cor. Em águas de lençóis freáticos, quando há cor, esta, geralmente, ocorre por causa da presença desses compostos. Eles podem se apresentar na forma de partículas ou estar dissolvidos na água.

A turbidez é causada por matérias sólidas em suspensão, a turbidez é a medida de dificuldade que um feixe de luz encontra para atravessar certa quantidade de água. A luz é dispersa ou absorvida, em vez de ser transmitida em linha reta através da água.

Coagulação: A coagulação consiste na desestabilização das partículas em suspensão e coloidais realizada pela conjunção de ações físicas e reações químicas, com duração de poucos segundos, entre o coagulante – um produto químico –, a água e as impurezas presentes, para que haja floculação (aglomeração das partículas suspensas). Dentre os coagulantes mais conhecidos estão: sulfato de alumínio, sulfato férrico, sulfato ferroso, cloreto férrico e polieletrólitos.

Quando coagulantes são colocados na água, o sulfato de alumínio, sulfato ferroso ou sulfato férrico reagem com a alcalinidade natural da água ou adicionada a esta, formando polímeros, como hidróxido de alumínio e hidróxido de ferro, dependendo das reações. Posteriormente esses hidróxidos, que têm carga superficial positiva, neutralizam as cargas negativas dos coloides em suspensão na água, encapsulando-os dentro de sua estrutura floculenta. Os flocos relativamente densos se precipitam e a água fica praticamente livre de turbidez.

Decantação: Após passar pelo tanque de coagulação, a água floculada é levada para o decantador, que remove as partículas em suspensão mais densas do que a água. Este percurso deve ser o menor possível e realizado em condições que evitem a quebra de flocos e impeçam a sedimentação de partículas. O tempo de decantação é aquele necessário para encher o decantador a uma dada vazão.

A ação da gravidade faz que as partículas em suspensão se depositem no fundo do decantador. Quanto maior for o tempo de decantação, melhor será a qualidade da água na saída do decantador, pois os flocos terão mais tempo para se sedimentar, e o desempenho dos filtros será facilitado, pois estes poderão ser mantidos por mais tempo em operação sem a necessidade de que sejam lavados.

 

Filtração: É a separação mecânica de sólidos presentes em uma suspensão através da sua passagem por meio filtrante, ou seja, é uma fase líquida que se movimenta através de um sólido estacionário.

Consiste na retenção de impurezas ou substâncias suspensas na água, realizada por meio de filtros de areia, carvão ativo e cascalho. As estações de tratamento de água possuem filtros rápidos que funcionam por ação da gravidade e sob pressão, com diversas camadas filtrantes. São lavados em contracorrente (inversão de fluxo) com vazão capaz de assegurar uma expansão adequada para o meio filtrante.

Os filtros também podem ser do tipo cartucho com grau de retenção de 5 µm, capaz de retirar da água, sólidos em suspensão, micro-organismos, cloro, sabores e odores desagradáveis. Também é muito comum a utilização de um pré-filtro de polipropileno com grau de retenção de 5 µm (para retirar partículas em suspensão) e, em seguida, um filtro com carvão ativado compacto, para retirar cloro, sabores e odores.

Cloração: O processo de cloração consiste na adição de cloro na água, com o objetivo de esterilizá-la e torná-la potável. Além de amplo espectro de ação germicida, o cloro forma compostos que ficam na água, oferecendo um residual desinfetante ativo que permite a inativação de micro-organismos após o ponto de sua aplicação, nas tubulações da rede de distribuição e nos reservatórios domiciliares dos pontos de consumo.

Devido ao seu alto poder oxidante, o cloro também é aplicado para controle de cor e sabor, remoção de ferro e manganês, prevenção de crescimento de algas e controle do desenvolvimento de biofilmes em tubulações. Hoje, há disponível no mercado, além do hipoclorito de sódio, hipoclorito de cálcio, cloro cianúrico e cloro gás, há também, o dióxido de cloro, que não deixa gosto, e o teor de residual é da ordem de 0,2 ppm.

Processos Complementares de Tratamento de Água

Para determinados usos, principalmente, em operações industriais, água é submetida a processos específicos.

Desmineralização (ou deionização):

É o processo de remoção praticamente total dos íons presentes na água e de redução de sua condutividade, realizado por meio de resinas de troca iônica: catiônicas e aniônicas. A água pode conter íons (devido aos sais minerais dissolvidos), como os cátions cálcio, magnésio, sódio, potássio, hidrogênio, ferro e manganês, e ânions, por exemplo, bicarbonato, carbonato, hidróxido, cloreto, sulfato e nitrato.

A desmineralização ocorre quando a água atravessa colunas de resina catiônica, carregadas com íons H+, e aniônicas, carregadas com íons OH-, ou ao passar por uma única coluna que apresente estes dois tipos de resina, chamada de leito-misto.

As resinas catiônicas são regeneradas pela introdução, em seu grupo funcional, de cátions H+, por meio de soluções diluídas de ácido sulfúrico ou ácido clorídrico. Simultaneamente à introdução de cátions H+ são trocados, devido ao seu excesso, os íons catiônicos tais como: Ca++ ,Mg++ , Na+ e K+.

Para a regeneração das resinas aniônicas são introduzidos em seu grupo funcional íons OH- que, é trocado, durante a operação desmineralização, com íons tais como: CO3–, HCO3-, Cl-, NO3-,SO4–, SiO2 e CO2. A regeneração da resina é obtida passando-se por ela determinada quantidade de solução diluída de NaOH.

Os copolímeros sintéticos reagem com grupos funcionais (ativos) que absorvem íons (cátions ou ânions) de uma solução e os substituem por quantidades equivalentes de outros íons da mesma carga, de acordo com uma escala de seletividade, ou seja, de preferência iônica. Por exemplo:

R-H+ + Na+Cl- ? R-Na+ + H+Cl-

R+OH- + HCl ? R+Cl- + H+OH-

com a formação de H2O

Separação por membranas:

O processo de separação por membranas sintéticas, porosas ou semipermeáveis, é eficaz para separar partículas sólidas de pequeno diâmetro, moléculas e até mesmo compostos iônicos dissolvidos. Para que o processo de separação ocorra, utiliza-se um gradiente de pressão hidráulica ou um campo elétrico.

Os processos de separação por membranas são divididos em cinco categorias: microfiltração, ultrafiltração nanofiltração, osmose reversa e eletrodiálise.

O que difere cada uma das categorias é o diâmetro dos poros das membranas e o tipo e intensidade da força motriz que promove a separação dos contaminantes. As membranas de osmose reversa, são as mais restritivas, ao passo que as de microfiltração são as menos restritivas.

Osmose reversa:

Dentro dos processos de separação por membranas, o de osmose reversa é o mais discutido e amplamente utilizado.

O processo se baseia no fenômeno natural da osmose, que consiste na passagem de água pura através de uma membrana semipermeável de uma solução salina diluída para uma solução mais concentrada. Essa diferença de nível entre as duas soluções é conhecida como pressão osmótica de equilíbrio.

Se uma pressão hidráulica superior à pressão osmótica de equilíbrio for aplicada do lado da solução mais concentrada, a água passa a fluir através da membrana, da solução concentrada para a solução diluída.

É processo no qual a água atravessa, sob pressão, uma membrana para que ocorra a redução da concentração de íons, moléculas orgânicas, micro-organismos, endotoxinas e particulados.

Polimento:

Após os tratamentos principais, dependendo da aplicação a que se destinar a água, esta poderá passar por tratamentos complementares – “polimento” – para atingir os parâmetros da especificação requerida pelo uso. Como exemplo de polimento, temos a combinação de osmose com leito misto de resina de troca iônica.

Ultrafiltração:

É realizada novamente na fase de “polimento”, após a troca iônica, para redução de componentes orgânicos, sílica coloidal, carga microbiológica e endotoxinas.

Radiação ultravioleta (UV):

É um agente físico usualmente empregado para reduzir cargas microbianas em águas, principalmente, de uso industrial. Para a desinfecção da água são utilizadas lâmpadas de UV de baixa pressão de vapor de mercúrio, que emitem entre 85% e 90% de radiações no cumprimento de 254 nm.

Radiações eletromagnéticas no cumprimento de onda de 240 a 280 nm têm efeito desinfetante. A radiação UV provoca danos ao DNA dos micro-organismos, principalmente nas bases pirimídicas (sistema timina-arginina) e nas ligações de dissulfeto presentes nos complexos proteicos e enzimáticos, levando à morte celular.

Abrandamento:

O abrandamento – diminuição da dureza total das águas – é realizado por meio de troca de iônica e dealcalinização. A água pode ser abrandada, por exemplo, por uma técnica que utiliza resinas trocadoras de cátions, especificamente, as que trocam sódio (Na+) por cálcio (Ca++) e magnésio (Mg++).

Esse processo consiste em passar a água a ser abrandada por um leito de resinas trocadoras de cátions, cujo grupo funcional está carregado com Na+. Assim, o Ca++ e o Mg++ são trocados pelo Na+; além disso, outros íons, além do Ca++ e o Mg++, tais como: Fe, Mn e Al, na forma de sais solúveis, são também trocados por sódio.

Água para Cosméticos - ABC Cosmetologia ©QD Foto: iStockPhoto

Lembrando, apenas que devido a sua afinidade, as resinas podem perder a capacidade de troca quando a água é muito rica em ferro solúvel.

Por esta razão, é muito importante o pré-tratamento da água para eliminar íons como ferro e matéria orgânica, os quais podem “envenenar a resina”, ou seja, diminuir a capacidade de troca iônica, por perda da capacidade de troca de íons dos grupos funcionais.

A regeneração de resinas consiste em introduzir o átomo de sódio na resina, deslocando-se o cálcio e o magnésio. Isso é obtido com a utilização de uma solução a 10% de NaCl.

Preservação da Qualidade da água

Para que a qualidade da água de processo seja preservada, é fundamental controlá-la sob o aspecto físico-químico e, principalmente, microbiológico, por meio de monitoramento e de sanitização.

Monitores:

O controle da qualidade da água de processo é realizado por meio de medições, que são feitas, por exemplo, por medidores de pH e condutivímetros. Diariamente, é necessário avaliar o pH, a condutividade e a concentração do agente antimicrobiano.

Juntos, o pH e o valor da condutividade indicam o estado de saturação das resinas e se há necessidade de regeneração. Valores fora do especificado podem indicar fuga de íons, o que compromete a qualidade do produto final.

A presença de íons inorgânicos em grande concentração, como magnésio e zinco, pode provocar a separação de fases em emulsões. Caso haja pequena concentração de cálcio, magnésio, ferro ou alumínio, pode ocorrer precipitação lenta de resíduo em produtos hidroalcoólicos (loções e loções pós-barba).

Isto causará a turvação do produto quando este já estiver no ponto de venda. A presença de metais (principalmente de ferro) traz risco de alteração da cor de certos produtos, principalmente daqueles que contenham compostos fenólicos, por exemplo, extratos vegetais que contenham polifenóis.

Higienização:

A higienização dos equipamentos, de linhas de água e de processo, realizada com agentes de limpeza e sanitizantes, deve ser ocorrer periodicamente para evitar formação de biofilme e acúmulo de matéria orgânica combinados com sais minerais.

Os sanitizantes devem ser selecionados a partir da verificação experimental da eficácia da concentração e o tempo de contato. Aconselha-se que os procedimentos de limpeza, sanitização e manutenção sejam descritos e documentados, com frequência definida, e devidamente validados.

Devem ser definidos os pontos críticos do sistema de água, que são o armazenamento, filtros, pós-desmineralização, pós-UV, ponto de uso. O monitoramento físico-químico e microbiológico deve ser contínuo.

O sistema deve possibilitar a amostragem nos pontos de entrada e de saída dos principais unidades e sistemas de tratamento, armazenamento e circulação, bem como nos pontos de uso. Também deve ser realizado o monitoramento microbiológico sistemático dos pontos críticos.

Esse procedimento pode e deve ser seguido atendendo as necessidades particulares de cada empresa.

Efeito dos Biofilmes:

Biofilmes são ecossistemas estruturados altamente dinâmicos, que atuam de maneira coordenada e podem ser formados por populações de micro-organismos desenvolvidas a partir de uma ou de múltiplas espécies. São formados por bactérias que aderem a qualquer superfície sólida, como tanques, tubulações, cotovelos e registros, quando em contato com água não esterilizada.

As bactérias que formam biofilmes são sésseis, pois aderem a superfícies, diferentemente das células individuais, que crescem de maneira planctônica (livres, em suspensão). Na natureza, os biofilmes são encontrados em forma de limo aderido a pedras de cachoeiras, ou de lodo nos leitos dos rios, atuando como filtros biológicos.

Água para Cosméticos - ABC Cosmetologia ©QD Foto: iStockPhoto

Em estações de tratamento de água, os biofilmes podem ajudar a remover organismos patogênicos, participam na reciclagem do enxofre proveniente de drenados de ácidos de minas e reduzem a quantidade de matéria orgânica nos efluentes. Trabalham como filtros naturais, quando a velocidade de permeação da água é baixa.

Contudo, em muitas situações o crescimento de biofilmes não é desejável, pois sua presença pode trazer consequências negativas. A contaminação microbiana traz risco de deterioração da qualidade da água, que exerce papel fundamental nas diferentes fases do processo de fabricação de produtos, como os cosméticos. Também pode provocar redução de fluxo e corrosão das linhas do sistema de água.

Sistemas de purificação e distribuição de água são meios propícios para a colonização microbiana porque fornecem as quatro condições necessárias à existência desta: água, nutrientes, superfície inerte e presença de células livres (planctônicas).

O processo de formação de biofilmes é inevitável. Por isso, para evitar a formação de novas colônias, é necessário controlar rigorosamente os sistemas de purificação de água e os processos de tratamento, realizando remoção química e mecânica, além de manutenção preventiva e uso de agentes antimicrobianos.

O controle dos sistemas de purificação da água é realizado, por exemplo, por meio da utilização de compostos clorados (hipoclorito de sódio, cloro gás, dióxido de cloro, cloro cianúrico), oxidantes que formam compostos (cloro residual) que ficam na água após sua aplicação, e se degradam após certo tempo, variando de acordo com o tipo de oxidante usado.

Conclusão

A viscosidade de um xampu sofreu alteração, ou seja, ele ficou mais fluido? Além disso, sua cor e cheiro também mudaram? Por que ocorreram essas alterações?

As características desse produto se alteraram se ele foi contaminado. Dentre as vias de contaminação de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, uma das mais importantes é a água.

Para garantir a qualidade de seus produtos, evitando sua contaminação, a indústria de cosméticos deve possuir um sistema preservante adequado a cada tipo de formulação e adotar certos cuidados em relação às condições de processo (incluindo a água), às instalações, aos equipamentos e até à higiene pessoal dos profissionais que atuam nas áreas produtivas.

A água, mesmo sendo submetida a processos de tratamento, é a maior fonte de contaminação de cosméticos, principalmente, devido à formação de biofilmes em dutos, tubulações e reservatórios (principalmente, aqueles confeccionados em materiais susceptíveis a erosão, como o polietileno), e para evitar a sua formação é recomendado a instalação de looping, ou seja, a recirculação de água, numa velocidade tal que dificulte a formação do biofilme.

Os micro-organismos mais frequentes em biofilmes são a Pseudomonas aeruginosa e o a Burkholderia cepacia, frequentes em águas de processo. Sua ocorrência e proliferação estão ligadas principalmente à formação de biofilmes e falha na oxidação da água com uso de compostos clorados.

Há estudos que mostram a necessidade do aumento de dosagens dos ativos que compõe o sistema conservante quando há a presença de Burkholderia cepacia selecionada e adaptada nos biofilmes do sistema. As dosagens podem variar em até 60% para que haja controle adequado destes micro-organismos.

A produção de produtos cosméticos requer especificações mínimas de qualidade para as águas, de acordo com cada tipo de aplicação, de processo de fabricação e as características do produto.

Por isso, essas especificações têm de ser consideradas na elaboração do projeto do sistema de tratamento de água, levando em conta os investimentos iniciais no projeto e a instalação do sistema e os custos de operação e manutenção durante a sua vida útil deste.

Existem muitos sistemas disponíveis no mercado para atender a variadas demandas de vazão e características finais das águas de processo.

Bibliografia:

-Tecnologia de Tratamento de Água – Davino F. dos Santos Filho (1976);

-II Seminário de utilização de Água na Industria – Proteção e Corrosão – Coordenação Técnica – Prof. Dr. Deniol K. Tanaka (1991);

-Kurita Handbook of Water Treatment – Kurita (1988);

-Geração de Vapor e Água de Refrigeração – Evandro Dantas (1988);

-Corrosão – Vicente Gentil (1989);

-Guia ABC de Microbiologia – Associação Brasileira de Cosmetologia (2008).

Água para Cosméticos - ABC Cosmetologia ©QD Foto: iStockPhoto
Sebastião D. Gonçalves

Sebastião D. Gonçalves é engenheiro químico e professor universitário, tem 41 anos de experiência profissional com problemas microbiológicos e com qualidade da água. É sócio-diretor da ProServ Química Ltda. e da Biocenter, e também é diretor administrativo/financeiro da Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC).

Texto: Sebastião D. Gonçalves

ABC Cosmetologia

Sebastião D. Gonçalves - Diretor-técnico da ProServ Química Ltda.

A Associação Brasileira de Cosmetologia (ABC Cosmetologia), é uma entidade sem fins lucrativos, fundada em 10 de abril de 1973, com objetivo de promover o desenvolvimento da cosmetologia nacional.
Formada por um grupo de profissionais das áreas de Farmácia, Química e afins, ligados a universidades e empresas de produto acabado e matérias-primas para a indústria de higiene pessoal, cosméticos e perfumes, a ABC promove atividades tecnológicas, científicas e de regulamentação em prol do setor.
Mais informações: https://www.cosmetologiabrasil.com/

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