Meio Ambiente (água, ar e solo)

Água: Indústria química faz plano de contingência e amplia reúso para superar período de seca

Antonio C. Santomauro
23 de abril de 2015
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    Química e Derivados, Pauli: tecnologia atual garante alta qualidade da água de reuso

    Pauli: tecnologia atual garante alta qualidade da água de reuso

    Reciclar é preciso – A elaboração de planos de contingência não dispensa as indústrias da busca por contínua otimização do uso da água. E, nessa agora obrigatória procura, torna-se a cada dia mais valorizada a possibilidade de reaproveitamento da água previamente utilizada tanto nos processos produtivos quanto nas chamadas utilidades (limpeza, irrigação e consumo humano, entre outras).

    No Brasil, preconceitos ainda inibem uso mais intensivo da água de reúso, observa Dante Ragazzi Pauli, presidente nacional da Abes (Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental) “Tal preconceito se manifesta em vários países, mas existem hoje tecnologias capazes de gerar água de reúso com qualidade superior à da água potável convencional”, salienta.

    O reúso é apontado como medida importante de redução do consumo de água também por Giuliano Dragone, presidente do Sindcon (Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto). Essa busca pela redução de consumo, ele prevê, será intensificada não apenas pela escassez, mas também pela elevação de seu preço, decorrente tanto do aumento do preço da energia – um dos principais componentes dos custos das concessionárias –, quanto da diminuição da receita dessas empresas em consequência da racionalização do uso da água por parte de seus clientes. “No Brasil a água ainda é barata, mas esse preço vai subir, e não subirá pouco”, projeta Dragone.

    Química e Derivados, Dragone: preço da água ainda é barato no Brasil, mas vai subir

    Dragone: preço da água ainda é barato no Brasil, mas vai subir

    Porém, ao menos no curto prazo, ele restringe as possibilidades de problemas maiores de abastecimento basicamente às regiões norte e leste da região metropolitana de São Paulo, mais dependentes do sistema Cantareira, o mais afetado pela estiagem. “Na região do PCJ, se houver algo mais agudo será porque a natureza não deixou nenhuma alternativa, pois lá as concessionárias têm feito bem o seu trabalho”, afirma Dragone, referindo-se à região formada pelas bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, onde estão situados municípios como Campinas e Paulínia, entre outros.

    Além disso, quaisquer impactos da escassez de água serão hoje muito menos sentidos do que ocorreria caso tal problema acontecesse há dez ou quinze anos, ressalta Reynaldo Young Ribeiro, presidente da AESabesp (Associação dos Engenheiros da Sabesp, composta por profissionais de engenharia da concessionária responsável por água e saneamento na Grande São Paulo e em outros municípios paulistas).

    Afinal, ele justifica, já há vários anos a indústria brasileira trabalha para otimizar o uso desse insumo, e as empresas mais estruturadas do setor já desenvolveram seus planos de contingência. “A indústria nacional tem um elevado índice de reutilização da água e, embora não seja o maior usuário desse recurso – posição ocupada pela agricultura –, é o setor mais preparado para enfrentar possíveis problemas”, analisa Ribeiro.

    Ele sugere, como medida capaz de incrementar ainda mais os índices de aproveitamento da água pelas empresas brasileiras, uma legislação com benefícios tributários para projetos destinados a aprimorar a gestão desse recurso. É o caso, por exemplo, da implantação de estações de reúso e aquisição de novos equipamentos. “Já temos no Brasil tecnologia de ponta e profissionais capacitados para lidar com essa questão”, ressalta o dirigente da AESabesp.

    Química e Derivados, Almeida: custo da aplicação de membranas cai a cada ano

    Almeida: custo da aplicação de membranas cai a cada ano

    Demanda alta, preços em baixa – Evidenciada mais nitidamente a partir de meados do ano passado, a possibilidade de crise no abastecimento de água em algumas partes do país vem sendo aventada há algum tempo. Reis, do Sinproquim, lembra que há alguns anos a Sabesp destacou a necessidade de obras indispensáveis para a continuidade da oferta do insumo na Grande São Paulo. Entre elas, o chamado Sistema Produtor São Lourenço, cujo objetivo é ampliar a oferta de água tratada para essa região, e que deveria ter entrado em operação em 2011 (mas apenas recentemente foi retomado). “Entramos, porém, em um período hidrologicamente mais favorável, e praticamente nada se fez”, ele critica. E o verão está acabando.

    Mas, assim como a possibilidade de crise, manifesta-se também a demanda dirigida aos provedores de soluções para otimização do consumo de água. Na EP Engenharia, por exemplo, no ano passado os negócios registraram aumento de aproximadamente 30% em relação a 2013. “E este ano deveremos crescer em índice similar”, calcula Otávio Riedel Almeida, coordenador de projetos da empresa, fornecedora de projetos e de equipamentos para essas aplicações, como skids de osmose reversa e vasos de pressão para troca iônica, entre outros.

    Química e Derivados, EP oferece sistemas para reúso de água montados em skids

    EP oferece sistemas para reúso de água montados em skids

    Atualmente, diz Riedel, as tecnologias possibilitam o tratamento de qualquer gênero de efluente, e a reutilização de sua água tanto em usos mais básicos – como na lavagem de pisos e descarga em sanitários –, quanto em aplicações mais nobres, que exigem a eliminação dos sais nela presentes, por exemplo, em torres de refrigeração e em caldeiras. Não há, ele afirma, definições precisas sobre os volumes mínimos capazes de justificar ou não o reúso da água, mas a EP considera tal reaproveitamento viável a partir de uma vazão mínima de cinco metros cúbicos por hora.

    Para a reutilização da água em aplicações mais básicas, especifica Riedel, bastam tratamentos simples, como oxidações, polimento e filtração. Já água de reúso desmineralizada – passível de aproveitamento nos processos industriais críticos – é atualmente obtida a partir da troca iônica ou por osmose reversa. “Essas duas tecnologia atingem objetivos similares, mas a troca iônica tem custo de implantação menor, e em contrapartida custo operacional maior”, compara.

    Química e Derivados, Ramos: consumo de eletricidade das membranas não é elevado

    Ramos: consumo de eletricidade das membranas não é elevado

    Também começa a se consolidar, ressalta Riedel, uma tecnologia denominada EDR (Eletrodiálise Reversa), apta a concorrer com ambas as anteriormente citadas. Ela utiliza membranas seletivas que, estimuladas por corrente elétrica, conseguem separar cátions e ânions, desmineralizando a água que flui através delas (no Brasil, a Petrobras já usa em escala piloto essa tecnologia para gerar água de reúso em uma de suas refinarias). “Ela não dispensa o pré-tratamento, mas é menos exigente quanto à qualidade de água de alimentação; por ter ainda uma quantidade pequena de fornecedores, seu custo é mais elevado no momento”, explica o especialista da EP.

    Segundo ele, vem caindo o custo das tecnologias de reuso. “Uma membrana de oito polegadas, por exemplo, há três ou quatro anos não saía por menos de R$ 5 mil, mas hoje pode ser encontrada por cerca de R$ 2 mil”, exemplifica Riedel.

    Essa queda nos preços das membranas é confirmada por Renato Ramos, gerente de marketing para a América Latina da área de tratamento de água da Dow (um dos grandes fabricantes mundiais desses produtos). Como informou, o custo de implantação de um projeto de tratamento de água via membranas de ultrafiltração é atualmente compatível com o de um projeto para tratamento convencional. “Considerando a redução na produção de lodo, menor necessidade de atuação do operador, menor manutenção e menor consumo de químicos, o custo operacional do sistema de membranas algumas vezes chega a ser até 40% inferior”, ressalta.

    Química e Derivados, Sistema para desmineralização de água por osmose reversa, da EP

    Sistema para desmineralização de água por osmose reversa, da EP

    Existe, diz Ramos, uma visão errônea das membranas como consumidoras intensivas de energia (assim como a água, insumo cuja oferta hoje também preocupa). Há, porém, membranas de baixa energia, que consomem cerca de 0,08 kWh por m³ de água e, por ultrafiltração, produzem água que pode ser aproveitada nas chamadas utilidades de processo. Já as membranas para osmose reversa exigem cerca de 0,6 kWh por m³ em aplicações industriais, e geram água desmineralizada apta ao aproveitamento em operações como resfriamento e geração de vapor em caldeiras.

    Na opinião de Ramos, dada a sua qualidade e a consequente minimização dos custos de manutenção dos equipamentos, mesmo considerando o consumo energético do processo, a água proveniente da osmose reversa tem preço competitivo com aquela oriunda das fontes convencionais, como captação direta de rios e concessionárias. No Maranhão, relata, uma empresa siderúrgica aplica essa tecnologia até para dessalinizar – e utilizar em seus processos – a água do mar (aplicação na qual, devido à necessidade de retirada de alta concentração de sais o consumo de energia pode chegar a 3 kwh por m³).



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