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Agroquímicos: Safra recorde anima, mas entraves regulatórios freiam avanço tecnológico

Marcelo Fairbanks
21 de agosto de 2017
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    Embora a previsão de safra deste ano seja animadora, Leduc comenta que as compras de defensivos pelos agricultores estão atrasadas. “O mercado tem estoques, além disso, a comercialização dos grãos também está lenta e já começam a aparecer problemas logísticos, pois os silos ainda estão cheios com a soja e o milho está chegando”, comentou. Ele admite que não era esperado um aumento tão grande na produção de soja e milho, reflexo do clima muito favorável. A indústria de agroquímicos projeta melhores resultados a partir do segundo semestre deste ano.

    Leduc também considera que a variação cambial ajudou os produtores rurais em 2016. Os defensivos ficaram quase 15% mais baratos, enquanto os grãos registraram aumento de preço em reais. “Neste ano, a situação se inverteu, demonstrando que as operações de barter [venda de insumos com base em produto agrícola] são uma boa forma de reduzir o risco financeiro da atividade”, ressaltou.

    O dirigente também observa que a relação entre quantidade de agroquímicos vendidos e área plantada não sofreu redução nos últimos anos, mas está em queda quando considera a produção obtida no campo. “O Brasil está usando menos defensivos por tonelada de grãos colhidos”, afirmou Leduc. Os agricultores europeus usam seis vezes mais agroquímicos por tonelada produzida que os brasileiros. Os japoneses, dez vezes mais. Isso atesta que o país usa de forma comedida esses insumos, pois, por estar em região tropical, tende a apresentar maior incidência de pragas e doenças nocivas às lavouras.

    Química e Derivados, Bojanic: produtividade agrícola precisa crescer

    Bojanic: produtividade agrícola precisa crescer

    A indústria de defensivos agrícolas se esforça para suprir as necessidades dos produtores rurais. Em todo o mundo, o lançamento de novas moléculas está sob pressão, pois os custos de aprovação pelas entidades oficiais se tornaram muito elevados, quase proibitivos. “Basta ver que o setor está vivendo uma fase de concentração empresarial sem precedentes, com muitas fusões e aquisições que envolvem até grandes players mundiais”, comentou. “Isso é um sinal de que as coisas não estão indo bem.”

    Bojanic, da FAO, aponta que a produtividade dos cultivos está estagnada em todo o mundo, exigindo novos esforços para dar um salto semelhante ao obtido na Revolução Verde. “Estamos ingressando na quarta fase da Revolução Industrial, a chamada Era 4.0, vamos ver como as inovações cibernéticas e de tecnologia da informação podem contribuir para o novo avanço”, afirmou.

    Em todo o mundo, as indústrias buscam formar parcerias com a academia, como forma de acelerar seus desenvolvimentos. “No Brasil, essa aproximação é muito difícil, há preconceitos que atrapalham a relação, até mesmo no tocante a patentes”, considerou Leduc.

    Com ambiente regulatório hostil para inovações, a indústria procura alternativas para suprir demandas mais críticas. “Nos casos mais críticos, verdadeiras emergências, como os da lagarta da Helicoverpa e da ferrugem asiática, o governo precisou usar um fast track para liberar os produtos adequados para esses casos, mas essa não é a situação ideal”, avaliou. A alternativa de recorrer às misturas de ativos tem dado bons resultados, mas também exige aprovação lenta e custosa.

    Além de impedir aos agricultores o acesso a produtos mais modernos e com menor impacto ambiental, a demora em liberar ativos e formulações promove outros problemas sérios: o contrabando e a fraude de produtos. “São crimes praticados por quadrilhas perigosas, quem usa esses produtos está contribuindo para o aumento da violência no campo”, advertiu Leduc. No caso das fraudes (produtos fabricados sem o menor controle, geralmente com baixa qualidade e efeitos nulos no campo), o produtor coloca em risco a sua lavoura, pois não há garantia alguma de eficácia.

    Na atual situação do mercado brasileiro, Leduc aponta um risco estratégico muito grande para a agricultura. “Hoje, importamos cerca de 90% dos princípios ativos agroquímicos aplicados no campo, mas entendemos que a América do Sul deveria produzir pelo menos 30% dessas moléculas na região, evitando uma dependência perigosa de outras origens”, avaliou. “Nas atuais circunstâncias, porém, não conseguimos justificar investimentos em fábricas no Brasil, falta previsibilidade.”

    Dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) corroboram essas informações. De janeiro a dezembro de 2016, as vendas de defensivos agrícolas caíram 1%, somando US$ 9,56 bilhões, em relação aos US$ 9,6 bilhões de 2015. Caso a comparação fosse feita com 2014, o resultado seria ainda pior, com uma queda de 22%. O Sindiveg atribui essa variação à flutuação cambial, aos efeitos climáticos e à diferente incidência de pragas nas lavouras.

    As estimativas de vendas para 2017, segundo Silvia Fagnani, diretor executiva do Sindiveg, são conservadoras e com possível registro de queda, justificada pela existência de estoques anteriores, do risco de crédito para a indústria e também pela maior presença de produtos ilegais. A indústria financia perto de 70% das vendas aos agricultores. O Sindiveg estimou em 20% a participação de produtos contrabandeados nas vendas do setor no Brasil em 2015.

    Em 2016, os fungicidas se tornaram a classe de produtos mais vendida no país, acompanhando a incidência maior da ferrugem da soja, respondendo por 33% do mercado. Os herbicidas chegaram perto, com 32,5% das vendas, com aumento de participação dos produtos seletivos, fato relacionado ao aumento de plantas invasoras de difícil controle na soja.

    Por sua vez, os inseticidas sofreram queda de 12% nas vendas, representando 29% do mercado. Esse segmento é o mais afetado pelo contrabando, segundo o Sindiveg.

    Em 2016, as importações de agroquímicos cresceram 5,72% em relação a 2015, totalizando 414.975 toneladas, equivalentes a 85% do mercado nacional. Desse total, 56,5% corresponderam a produtos técnicos (ativos) e 43,5% aos formulados. A China foi o maior fornecedor de agroquímicos para o Brasil (32,75% do total importado), seguida pelos Estados Unidos (17,51%), Índia (11,95%), Argentina (4,99%), Inglaterra (4,27%), Israel (4,2%) e Alemanha (3,6%). Os produtos mais importados são os herbicidas (243 mil t, com 3,76% de crescimento), mas 2016 registrou forte aumento (59%) nas importações de fungicidas, enquanto os inseticidas baixaram as importações em 22,87%.



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