Agroquímicos: Ingredientes proporcionam o máximo efeito dos caros princípios ativos

Química e Derivados, Agroquímicos: Ingredientes proporcionam o máximo efeito dos caros princípios ativos
A agricultura brasileira é uma das poucas atividades econômicas a obter resultados positivos. Com produção e área de cultivo crescentes – foram 105 milhões de hectares em 2012, incluindo pastagens e florestas plantadas –, o setor é o maior mercado mundial para defensivos agrícolas, consumindo 20% do faturamento global desses insumos.

Os defensivos entregues aos produtores rurais são formulações de princípios ativos. Enquanto essas moléculas complexas são fornecidas por um grupo restrito de companhas químicas, mesmo com o aparecimento dos genéricos, os ingredientes para a elaboração das formulações contam com um rol bem mais amplo de opções e fornecedores.

No entanto, isso não significa que essas indústrias químicas estejam atravessando um “céu de brigadeiro”. A Bain & Co., consorciada à Gas Energy, foi contratada pelo BNDES para elaborar um estudo profundo sobre o mercado de defensivos agrícolas, com o objetivo de orientar futuros investimentos que possam ser apoiados pelo banco. O estudo está sendo finalizado, mas a sua terceira revisão, divulgada em março deste ano, oferece informações importantes sobre esse segmento. Esses dados nem sempre são animadores.

Sempre se soube que o Brasil depende da importação de produtos técnicos (os tais princípios ativos, as moléculas principais que atuam sobre insetos, fungos e ervas daninhas), produtos resultantes de tecnologia de alta complexidade. Mas o estudo preliminar apontou que a importação de formulações prontas para a venda aos usuários aumentou 17% ao ano entre 2008 e 2012. O percentual superou em muito os 7% anuais de incremento da importação de produtos técnicos.

Segundo o relatório preliminar da Bain e Gas Energy, em 2012, o consumo nacional de defensivos agrícolas (somando produtos técnicos e formulados) chegou a US$ 9,7 bilhões, dos quais US$ 5,4 foram importados, ou seja, 56%. Desse montante de importação, 44% se referem aos formulados.

Química e Derivados, Runge: rumo aos produtos mais concentrados e sem solventes
Runge: rumo aos produtos mais concentrados e sem solventes

Importância da formulação – Embora sejam o principal constituinte dos defensivos, os princípios ativos não atuam sozinhos. Outros produtos químicos são necessários para garantir a estabilidade dos ingredientes ativos, facilitar a sua solução, suspensão ou dispersão em água (o principal veículo usado na fase de aplicação) e, ainda, contribuir para o melhor desempenho do conjunto.

A dose dos ativos por área, geralmente determinada em hectares, é muito pequena, mas eficaz. Os demais ingredientes da formulação devem proporcionar um resultado homogêneo, para que cada planta ou unidade de área receba exatamente a mesma dose de produto. Essas propriedades são desenhadas e comprovadas pelos formuladores, com o auxílio dos seus fornecedores.

As pressões atuais de demanda pedem defensivos que alcancem os resultados desejados com o menor consumo de energia e de água. A fácil dissolução, suspensão ou dispersão são muito valorizadas, bem como o baixo impacto à saúde dos trabalhadores e ao ambiente. Além disso, como o custo de transporte é significativo, quanto mais concentradas as formulações, melhor. Pós e grânulos deveriam ser, dessa forma, preferidos, quando aplicáveis.

Frank Runge, gerente de desenvolvimento global de formulações da unidade de proteção de cultivos da Basf, confirma essa tendência. “Faz parte da nossa estratégia trazer para o mercado agrícola brasileiro soluções cada vez mais sustentáveis e isso significa produtos formulados de alta concentração que possibilitam uma dose menor de produto por hectare, usando ingredientes ativos e inertes da formulação, como emulsificantes e dispersantes, com perfil toxicológico ameno, preservando o meio ambiente, evitando o uso de solventes quando tecnicamente possível”, afirmou. Caso os solventes orgânicos sejam necessários, Runge aponta a existência de novas opções, menos agressivas, a exemplo dos chamados green solvents com um baixo perfil toxicológico, desenvolvidos há poucos anos. “Na Basf, incluímos a avaliação dessas alternativas em novos produtos e desenvolvimentos”, ressaltou.

A companhia trabalha em novas tecnologias de formulação para, por exemplo, substituir os solventes nafta-pesados por sistemas sem solventes, com base em água ou em sólidos. “Isso é um grande desafio, porque as formulações baseadas em solventes tipicamente têm a melhor performance no campo dentre todos os tipos de formulações, contudo já foram obtidos vários bons exemplos que serão introduzidos no mercado”, comentou Runge, apontando, nesses casos, o uso de conceitos inteligentes de adjuvantes. “Com esse objetivo, a unidade de aditivos para Agro da Basf tem dedicado esforços para desenvolver adjuvantes para potencializar o uso de defensivos nas áreas plantadas pelo Brasil afora, otimizando a quantidade aplicada e reduzindo os impactos ambientais, melhorando a aplicabilidade e a absorção dos produtos”, complementou Samuel Bortolin, gerente de marketing de aditivos para Agro da Basf América do Sul.

Como se percebe, as formulações líquidas usam quantidades apreciáveis de surfactantes e solventes orgânicos, mas também incorporam uma série de aditivos com funções diversas, a exemplo de modificadores de viscosidade e agentes de fluxo.

Química e Derivados, Oliveira: estrutura para gerar respostas rápidas ao mercado
Oliveira: estrutura para gerar respostas rápidas ao mercado

“O fator determinante de uma formulação é a sua bioeficiência, a capacidade de controlar a praga a que se destina”, apontou Adriano Sales de Oliveira, coordenador de pesquisa e desenvolvimento da Oxiteno para o mercado de agroquímicos. Além disso, é preciso considerar as características de cada princípio ativo. Alguns deles são solúveis em água, a melhor situação, podendo formar concentrados solúveis (SL, na classificação da ABNT NBR 12697/2004), de fácil formação de calda com água para aplicação no campo.

“Em geral, as moléculas mais novas apresentam vantagens evidentes em toxicidade e eficácia, mas tendem a ser mais complexas e raramente são solúveis em água”, comentou Oliveira. Nesses casos, o princípio ativo precisa ser dissolvido em solvente orgânico, dando origem a concentrados emulsionáveis (EC) ou suspensões concentradas (SC), por exemplo, para diluição final em água. “O mercado tenta evitar o uso de solventes nas formulações, preferindo formar suspensões aquosas quando o ativo aceita essa opção”, comentou. Ele também apontou que os usuários tendem a rejeitar produtos em pó, considerados problemáticos para diluir e manipular, especialmente em situações de campo com vento, nas quais sofre perdas por deriva. “Nas apresentações sólidas, os grânulos são preferidos”, considerou.

Curiosamente, segundo Oliveira, os fazendeiros de todo o continente americano preferem produtos comerciais na forma líquida. “Talvez por uma questão logística, pois os produtos entamborados ficam mais protegidos”, comentou. Além disso, a produção de grânulos exige gasto maior de energia com a secagem do material e sua extrusão, tornando-os mais caros que os líquidos. “Os grânulos exigem surfactantes mais complexos, capazes de resistir à temperatura do secador, e também devem apresentar resistência mecânica, para não chegarem ao destino como pó”, salientou.

“As formulações mais promissoras para a unidade de proteção de cultivos são as de alta concentração, contendo água como solvente, como SC, SE, CS ou produtos sólidos granulados, a exemplo do WG; essas apresentações são mais sustentáveis, respeitam o meio ambiente e o perfil de toxicologia, por exemplo, a irritação ocular e de pele”, afirmou Runge, da Basf. “Também são responsáveis por reduzirem os investimentos realizados pelos agricultores em logística, consumo de combustível e de recursos naturais, como a água.”

Química e Derivados, Fejfar: tensoativos apresentam forte interação com os ativos
Fejfar: tensoativos apresentam forte interação com os ativos

“Dentro de uma formulação, os tensoativos podem operar como emulsionantes, dispersantes, antiespumantes, espalhantes adesivos, entre outras funções, dependendo das moléculas do princípio ativo e do que se pretende fazer com elas”, comentou Jorge Don Carlos Fejfar, diretor-comercial da Ata Tensoativos. Ele ressaltou que a interação entre ativo e surfactante é forte, gerando efeitos positivos ou negativos.

Entre as dezenas de tipos de formulações, Fejfar aponta as suspensões concentradas e os grânulos solúveis como as mais usadas no país, mas salienta que cada apresentação tem vantagens e desvantagens. “A formulação coloca a molécula no campo com eficiência e eficácia, preocupando-se em não prejudicar a saúde humana, não produzir efeitos fitotóxicos indesejados, nem afetar o meio ambiente”, afirmou.

Ele explicou que a elaboração de uma formulação é um processo caro, mesmo contando com a ajuda de modernos softwares, exigindo verificação do desempenho físico, químico e biológico alcançado. “É preciso verificar as diferenças intrínsecas e as ocasionais nas formulações”, considerou Fejfar, apontando as especificidades das condições locais de clima, solo e vegetação (o terroir), a aplicação de misturas de princípios ativos, e a presença de outros ingredientes. Essas condições deveriam incentivar a produção local de formulações, mas não é isso que as estatísticas apontam.

Mesmo assim, o interesse pelo setor de defensivos agrícolas é elevado. “Trata-se de um mercado maior que o de cosméticos e o de óleo/gás”, avaliou Fejfar. Fundada por ele 1986, a Ata Tensoativos contou com sua experiência profissional anterior na área de tensoativos desenvolvida na Hoechst, Rohm and Haas, Atlas e Akzo. Agora está construindo uma unidade de produção em Mairiporã-SP, onde ocupará 40 mil m² de um terreno próprio, onde poderá comandar a expansão de negócios nos mais de 35 subsegmentos de atuação.

Ele aponta algumas dificuldades de relacionamento com as formuladoras de todos os portes, em especial as grandes. “As multinacionais aprovam seus produtos na Europa, Estados Unidos ou na Ásia e procuram ter fontes globais de suprimento”, comentou, salientando que algumas delas preferem comprar ingredientes de fabricação nacional.

Mesmo as empresas de menor porte evitam a substituição de ingredientes, devido à complexidade técnica envolvida e os entraves regulatórios. “Podemos fazer a diferença na formulação dos clientes, mas se a informação que recebemos é ruim, a resposta será ruim também”, afirmou, referindo-se à resistência de alguns clientes em revelar os demais ingredientes ou as suas características. Isso ocorre mesmo quando existe um acordo de sigilo entre as partes.

“Além de oferecer uma boa solução para um problema, ela deve ser repetível e reprodutível, ou seja, não pode apresentar variações ao longo do tempo, exigindo ter alta qualidade”, considerou Fejfar.

Como a tendência atual é de formular defensivos com baixa irritabilidade ocular – característica supérflua se os aplicadores usam os EPIs adequados, como ressaltou –, é preciso buscar tensoativos mais sutis que, por sua vez, costumam ser mais caros. “Não basta olhar apenas o tensoativo, mas o conjunto da formulação”, adverte.

Oliveira, da Oxiteno, também aponta a dificuldade em obter informações completas por parte dos fabricantes de defensivos, sempre cercadas de sigilo. “Existe um diálogo, mas não precisamos saber exatamente o que está sendo feito, apenas os requisitos básicos do produto final e qual o problema a ser resolvido”, comentou.

Química e Derivados, Agroquímicos: Ingredientes proporcionam o máximo efeito dos caros princípios ativosCom o objetivo de melhorar sua relação com clientes globais, há três anos a Oxiteno passou a se relacionar diretamente com as matrizes dessas companhias. “Dá mais trabalho por causa da distância física, mas os resultados têm sido muito bons com as Big 5, passamos a ser vistos como fornecedores globais”, comentou. Em geral, as filiais têm alguma autonomia para modificar as formulações e resolver problemas tipicamente locais. “Quando possuem centro de pesquisa aqui, a autonomia é maior.”

A presença global é importante para a Oxiteno. “O mercado brasileiro é grande, mas há muitos negócios lá fora, ou seja, temos espaço para crescer ainda mais”, considerou.

Em termos tecnológicos, Oliveira ressaltou que a atividade agrícola brasileira não fica atrás de nenhum outro país. “O controle de pragas por aqui é muito eficiente e exige esforços dos fornecedores para melhorar a produtividade e, por isso, estamos na vanguarda tecnológica mundial”, afirmou Oliveira. Por isso, a companhia investe em câmaras de vegetação para desenvolvimento de formulações, além de contar com acordos com universidades e parcerias com clientes para realizar ensaios de campo. “O segmento agroquímico é o segundo maior dentro da companhia e é o que consome maior variedade de surfactantes”, comentou.

A rápida resposta às demandas do campo também é relevante para o estabelecimento de laços mais fortes com os fabricantes de defensivos. “Há alguns anos, quando o último dos organoclorados, o endosulfan, foi banido, ele foi substituído por uma combinação de ativos que exigiu um esforço muito grande para selecionar o surfactante adequado, mas nós conseguimos”, afirmou Oliveira.

Da mesma forma, segundo informou, o controle da esfomeada lagarta Helicoverpa armigera gerou uma demanda explosiva por formulações específicas, em 2013. “Reagimos rapidamente à demanda e oferecemos uma solução”, afirmou.

As diversas pressões que influem sobre a indústria química mundial afetam o desenvolvimento de novas moléculas, tanto no setor farmacêutico, quanto nos defensivos agrícolas. “As companhias investem mais no desenvolvimento de associações de ingredientes ativos com efeitos sinérgicos do que em novas substâncias”, apontou Jorge Fejfar, da Ata. “Mas a combinação desses ativos complica ainda mais a seleção dos surfactantes, exigindo mais esforços.”

Em termos estratégicos, a Ata procura atuar mais com as demandas mais sofisticadas, que exijam alguma customização. “Com a fábrica nova, vamos ampliar nossa linha de prateleira, mas não teremos commodities”, afirmou. A empresa opera instalações multipropósito, sendo capaz de realizar as operações diversas, como quaternização, aminação, amidação, condensação, etoxilação e sulfonação, entre outros processos. “Temos expertise comprovada em sínteses, com tecnologia própria, a química nos dá múltiplas possibilidades de atuação”, comentou.

Nessa linha de trabalho, uma das estratégias é aprimorar o que está sendo oferecido ao mercado. “Oferecemos um desempenho melhor com o mesmo número CAS”, afirmou. Como explicou, um tensoativo começa a ser eficaz a partir de 0,01% na formulação, uma dosagem muito pequena. “É um campo muito complexo, por isso mesmo é que gosto dele”, salientou.

Química e Derivados, Valdirene e Dall Orto: área química de Santo André vai a Itatiba
Valdirene e Dall Orto: área química de Santo André vai a Itatiba

Reforço nos tensoativos – A divisão Novecare da Rhodia, empresa do grupo Solvay, investe na ampliação da linha de tensoativos para uso agrícola e também na transferência de suas instalações produtivas do tradicional sítio de Santo André-SP para Itatiba-SP, onde está a fábrica da Herga, adquirida no ano passado. “A área química da Rhodia em Santo André será desativada em 2015”, informou Valdirene Licht, vice-presidente da Novecare América Latina.

As instalações históricas da companhia já não suportavam mais ampliações e estavam limitadas pela proximidade com a área urbana, com todos os inconvenientes que isso representa. “Anunciaremos em julho o plano de duplicação da capacidade produtiva da fábrica de Itatiba, que receberá novos reatores e também alguns dos equipamentos de Santo André”, adiantou. A unidade estará pronta para operar dez tecnologias de processos, como aminações, quaternizações e outras, com prioridade para os agroquímicos, mas também atendendo os setores têxtil, de higiene pessoal e cosméticos.

No campo dos surfactantes agrícolas, a Rhodia possui uma forte posição nos anfóteros, principalmente com as betaínas. Por apresentarem baixa irritabilidade dérmica e ocular, esses insumos são muito requisitados. Mas o principal produto dessa divisão ainda é representado pelos triesterilfenóis. “São tensoativos muito robustos, que não tem nenhuma relação com o nonilfenol, nem geram metabólitos assimiláveis por animais”, afirmou Leopoldo Dall Orto, líder de desenvolvimento técnico para o mercado Agro da Rhodia.

Valdirene admite que o portfólio da Rhodia era pequeno para garantir uma participação maior nesse mercado, mas ela comenta que a companhia está crescendo por aquisições e desenvolvimentos globais, contando com laboratório de aplicações no Brasil, em Paulínia-SP.

A companhia abre novos caminhos no setor agrícola. Aproveitando sua expertise em gomas (polissacarídeos), desenvolve aplicações com grande potencial de crescimento. Como informou, a goma xantana já é usada em suspensões concentradas para ajustar a viscosidade final e estabilizar a formulação. A goma guar também tem aplicação no campo dos defensivos, atuando como agente antideriva, controlando o tamanho das gotas formadas na aplicação. “A goma guar suporta alta temperatura e pressão, sendo compatível com alguns processos produtivos mais intensivos”, comentou Dall Orto. A biodegradável guar pode ser solubilizada em óleos vegetais ou nos seus ésteres metílicos.

Segundo Valdirene, a Rhodia quer entrar em aplicações de tratamento de sementes e de fertilizantes. “Oferecemos um GSB – germination seed booster –, feito com essas gomas, que retém água e nutrientes em volta das sementes, oferecendo aumento de germinação de 10% a 30% sob estresse hídrico”, comentou. Esse produto está em fase final de testes de campo para aferir esse ganho.

Na área dos fertilizantes, a ideia é oferecer um solvente de fonte renovável e seguro para dissolver o NBPT (n-butil triamida tiofosfórica), insumo usado para inibir a urease do solo e, dessa forma, reduzir a volatilização da ureia no campo. “Pretendemos entregar ao mercado o NBPT na forma líquida”, comentou a vice-presidente.

No campo dos defensivos, a Rhodia tem encontrado boa receptividade para os solventes da linha Augeo, que usam como insumo a glicerina residual de biodiesel. “O mercado está deixando de usar o xileno e quer solventes menos agressivos e de fonte renovável”, considerou Dall Orto.

A estratégia de substituir formulações na forma de concentrados emulsionáveis, que contêm solventes orgânicos, por soluções concentradas de base água é criticada por Dall Orto, por não apresentar a mesma eficácia biológica ou exigir a incorporação de adjuvantes avançados. “Isso cria outro problema, então é mais fácil substituir o solvente por outro menos agressivo e de fonte renovável”, considerou. Ele prevê que o futuro do setor aponta para a dispersão dos ativos em óleos vegetais ou seus ésteres, unindo baixa toxicidade com alta eficácia biológica, bastando aplicar um surfactante adequado. “Já temos essa alternativa configurada no exterior”, afirmou.

Dadas as dificuldades regulatórias, Valdirene encontra maior receptividade nos clientes quando eles se preparam para lançar novidades, mesmo no campo dos genéricos. “Há produtores de alta qualidade de genéricos e eles buscam inovações”, comentou. “O mercado Agro ainda vai muito bem no Brasil, é um verdadeiro oásis”, comentou.

Oliveira, da Oxiteno, também considera irreversível a tendência de substituir os solventes aromáticos pelos ésteres de óleos de fontes renováveis. “São produtos muito mais amigáveis aos seres vivos e também mais seguros, por serem menos inflamáveis”, afirmou, apontando a necessidade de ajustar a formulação ao novo ingrediente.

Ele também considera possível eliminar o uso de solventes orgânicos. “Os surfactantes podem umectar e suspender os princípios ativos, permitindo a formação de suspensões aquosas, mas isso precisa ser testado em campo”, comentou.

Com a inauguração da fábrica de oxo-álcoois da Oxiteno em Camaçari-BA, a chamada unidade oleoquímica, a companhia ampliou o portfólio de possibilidades de geração de surfactantes, especialmente os etoxilados – a empresa é a única produtora de óxido de etileno do país. “Podemos fazer todos os itens, inclusive os modernos surfactantes poliméricos, que são altamente dispersantes e suspensionantes”, comentou. Esses produtos são classificados como não-iônicos, por não apresentarem cargas elétricas livres. A companhia também produz óleo mineral branco, muito usado no setor agrícola.

Oliveira aponta os efeitos dos surfactantes dentro do tanque, garantido a formação da calda, e também sobre as plantas, conferindo espalhamento perfeito, ou seja, que o produto as recubra perfeitamente, sem quicar ou escorrer. “O surfactante aumenta o ângulo de contato com a superfície”, explicou.

Química e Derivados, Veronese: trisiloxanos modificados podem cobrir superfícies hidrofóbicas
Veronese: trisiloxanos modificados podem cobrir superfícies hidrofóbicas

Na linha dos não-iônicos, a Evonik oferece o Break-Thru, família composta por trisiloxanos organomodificados que proporciona a rápida cobertura de superfícies hidrofóbicas, como as folhas das plantas, sendo chamados de superespalhantes. “A dosagem desses produtos é de 0,1% ou menos”, explicou Rogério Veronese, chefe de produto da área Interface&Performance – Agro, da Evonik América do Sul. “As soluções aquosas contendo Break-Thru formam um ângulo de contato zero em contraste com a água tratada com surfactantes convencionais, como os etoxilados de nonilfenol.” A linha de produtos dessa área de negócios da Evonik inclui aditivos espalhantes para óleos, umectantes, antiespumantes, agentes dispersantes e emulsificantes.

Entre as tendências para o futuro no mercado agro, Veronese aponta a substituição de derivados de nonilfenol etoxilado, proibidos na Europa desde 2005 e em um estado do Brasil. “O uso de aditivos de baixa irritação ocular poderia eliminar o uso de aminas graxas etoxiladas, ainda muito usadas em algumas formulações”, considerou. Ele também vê espaço para a maior aplicação de adjuvantes “verdes”, como os óleos vegetais metilados (na linha do biodiesel), e de organosiloxanos modificados.

Regulamentação crítica – Embora seja líder mundial de consumo de defensivos agrícolas, o Brasil apresenta um baixo índice de aplicação desses insumos por kg de produto colhido, estimado como sendo seis vezes menor que o da França. Esse indicador atesta a eficiência dos produtores rurais brasileiros, que trabalham sob uma condição paradoxal. O mesmo clima quente e úmido que permite a obtenção de duas ou três safras por ano também é propício para o aparecimento de pragas e sua multiplicação, exigindo o uso criterioso de métodos de controle. Entre os quais estão os defensivos químicos.

“O Brasil usa pouco defensivo por capita, mas já houve excessos e por isso há uma ‘jihad’ contra esses insumos e também contra o agronegócio em geral”, comentou Jorge Fejfar. A alternativa escolhida pelo governo para lidar com a situação foi estabelecer um sistema de avaliação e registro complexo, excedendo os rigores aplicados na maioria dos países do mundo.

A questão regulatória é apontada no relatório preliminar da Bain e Gas Energy como a primeira barreira a ser eliminada, caso se pretenda incentivar a fabricação local tanto de formulações quanto de ingredientes e princípios ativos. Basta mencionar que um produto novo só pode ir ao mercado depois de avaliado e aprovado por órgãos de três ministérios: da Agricultura e Pecuária (Mapa), da Saúde (Anvisa) e do Meio Ambiente (Ibama). E esses processos de avaliação não são concomitantes. Esse procedimento pode levar de quatro a seis anos, se não houver nenhum problema adicional. Mesmo nos casos em que se pode aplicar a via rápida (fast track), a demora nunca é inferior a dois anos. Daí se entende a relutância dos fabricantes em alterar suas formulações, ainda que para aprimorá-las.

“Existe um entrave tecnológico nesse sistema que é a necessidade de informar tudo para o órgão regulador, sem nenhuma garantia de proteção do conhecimento”, comentou Fejfar. Nessa condição, as empresas que se esforçam para desenvolver tecnologia correm o risco de nunca recuperar o investimento.

Os órgãos reguladores exigem de quem solicita o registro a indicação de todos os componentes da formulação, com a apresentação do número CAS (Chemical Abstracts Service) de cada substância, como determina o Decreto 4.074/2002. “Antes disso, vendíamos efeitos para as formulações e éramos remunerados por eles; agora vendemos pela composição química, de forma bem menos atrativa”, criticou Fejfar.

Oliveira recomenda aos fabricantes que desejem obter o registro de seus produtos a declarar a sua composição da forma mais genérica admissível, por exemplo, indicando classes de produtos. “Isso exige alguma habilidade, mas pode ser feito”, comentou. Ele citou como exemplo o título dispersante polimérico, geralmente aceito, mas cuja composição pode admitir amplas variações. “A Anvisa pede a classe química e o perfil toxicológico dos ingredientes, e isso basta”, explicou, salientando que alterar uma formulação para pior seria uma conduta antiética e inaceitável.

O rigor da regulamentação pode ser interpretado de duas formas opostas. De um lado, dificulta a introdução de inovações. De outro, barra algumas substâncias, incentivando o desenvolvimento de alternativas. “A inovação das formulações agroquímicas está conectada ao processo de regulamentação ao qual e de que forma esta inovação estará disponível ao mercado”, afirmou Rogério Veronese. Ele defende que o Brasil adote um sistema de controle centralizado em um único órgão de registro, semelhante ao da Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos.

“A regulamentação ajuda as empresas que têm um forte perfil inovador, além de proteger os cidadãos, que passam a ter a certeza de um controle maior com relação aos produtos usados”, defendeu Camila Pecerini, chefe de produto na América Latina da área de Inorganic Materials, da Evonik. “Um potencial de melhoria é a desburocratização, mas não a redução dos controles.”

Jorge Fejfar entende que o governo poderia adotar uma lista positiva para produtos de baixo impacto, como os surfactantes. Quando um produto fosse substituído em uma formulação por outro que já constasse dessa lista, o registro seria aprovado imediatamente. “Já se fala nessa lista positiva desde 2010, pelo menos, seguindo o modelo dos EUA, mas até agora nada mudou, infelizmente”, comentou Valdirene Licht, da Rhodia.

Do ponto de vista do formulador, o respeito às normas pode ir além dos requisitos legais nacionais. “O desenvolvimento de formulações na Basf segue as regras de sustentabilidade da empresa, com padrões internos mais rígidos do que os estabelecidos pelas normas locais”, afirmou Frank Runge.

Segundo informou, a companhia não usa há mais de dez anos os componentes críticos suspeitos de ser cancerígenos ou teratógenos – caso de alguns hidrocarbonetos aromáticos – ou suspeitos de gerar efeitos endócrinos – caso do nonilfenol etoxilado – em desenvolvimentos de novos produtos. “Além disso, buscamos substituir esses componentes críticos por outros que são considerados não agressivos nas formulações presentes há muito tempo no mercado, aproveitando a grande disponibilidade de novos ingredientes inertes, designados como green solvents ou green surfactants que facilitam essas substituições”, salientou.

Química e Derivados, Camila: regulamentação rígida protege as empresas inovadoras
Camila: regulamentação rígida protege as empresas inovadoras

Aditivos e auxiliares – As formulações contam com um leque amplo de insumos químicos capazes de contribuir para a melhoria de suas propriedades. Entre eles, as sílicas possuem um papel de destaque, como informou Camila Pecerini, da Evonik. “As sílicas, tanto a precipitada como a pirogênica, encontram aplicação como veículo para líquidos, ou seja, um produto que permite transformar um líquido em pó, alternativa muitas vezes necessária para manuseio e dosagem”, comentou. Ela também apontou o uso das sílicas como auxiliares de fluidez de pós, antiaglomerantes, além de estender o tempo de prateleira das formulações em pó, prevenindo a formação de pedras ou aglomerados. Outra aplicação da sílica é o revestimento de sementes, minimizando absorção de água pelas mesmas durante o armazenamento, aumentando sua vida útil e eficiência na germinação. “A sílica pirogênica também opera como um excelente espessante para sistemas líquidos”, afirmou.

A presença de contaminantes na água de diluição final pode provocar a redução do efeito esperado do defensivo agrícola. A presença de metais e de argilominerais, por exemplo, é uma conhecida causa de insucesso para determinados princípios ativos. “Existem meios na formulação para melhorar a robustez de produtos agroquímicos na presença de metais ou argilominerais”, afirmou Frank Runge. No desenvolvimento de novas formulações, a Basf sempre testa a compatibilidade em água mole (baixo teor de metais dissolvidos) e dura (alto teor de metais) para ter certeza de que isso não poderá ser um problema na aplicação no campo. “Um produto experimental com deficiências nesse sentido não poderá ser introduzido no mercado, ele será otimizado antes de sua comercialização” garantiu.

Como salientou, no Brasil este aspecto não é muito importante, pois a grande maioria da água encontrada é mole. Em casos extremos, podem ser adotadas soluções técnicas adicionais para gerenciar dificuldades dessa ordem. “Por exemplo, existem aditivos para mistura nos tanques, como tampões, acidulantes ou formadores de quelatos”, comentou Runge.

Um Comentário

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