Agroquímicos: Apelo para ampliar a produção local de insumos

Crises globais reforçam apelo para ampliar a produção local de insumos e formulações

A invasão da Ucrânia pela Rússia jogou luz sobre a dependência brasileira de insumos químicos importados essenciais para a produção agropecuária.

No caso atual, apenas o suprimento de matérias-primas fertilizantes ficou ameaçado, mas as importações de ingredientes para a composição de defensivos agrícolas ou agroquímicos, também conhecidos por agrotóxicos (termo da legislação em vigor), também pedem atenção.

Nas formulações de herbicidas, inseticidas, fungicidas e outros itens do ramo é quase certo que os princípios ativos, ou produtos técnicos, sejam oriundos da China e Índia, países com relevância mundial nessas sínteses.

Ambos investiram muitos nos últimos 50 anos para montar uma rede de fabricação de intermediários de síntese e de todos os insumos necessários.

Com isso, absorveram grande parte da produção europeia e norte-americana das moléculas mais tradicionais do ramo.

E até de algumas mais modernas, com pesquisa e desenvolvimento próprios. Em condições normais de concorrência, seria impossível ao Brasil substituir essas importações no curto e médio prazo.

Porém, é preciso considerar que um produto agroquímico comercial é uma formulação, ou seja, contém grande quantidade de ingredientes além dos produtos técnicos.

Esses ingredientes têm papel fundamental para que se obtenha no campo o melhor desempenho do produto, reduzindo perdas e o impacto ambiental.

São tensoativos, solventes, modificadores de reologia, corantes, neutralizadores de acidez e vários outros, muitos dos quais com produção local ou possibilidade de receber investimentos para tanto.

Dados publicados pelo Sindicato da Indústria de Defesa Vegetal (Sindiveg), com base em estudo conduzido pela Spark Consultoria Estratégica, indicam que a venda de defensivos agrícolas no Brasil chegou a US$ 14,2 bilhões em 2021, com aumento de 13,2% sobre os US$ 12,6 bilhões de 2020.

Em toneladas aplicadas nas lavouras, o crescimento foi avaliado em 8,1%, de 1,09 milhão de t para 1,18 milhão de t.

O estudo mostrou que a dose média de produtos por aplicação no campo registrou uma redução de 0,91%, com um índice de 0,642 kg ou litro por hectare.

“Os defensivos ditos genéricos respondem por 70% a 75% do mercado nacional, com padrão internacional de qualidade, basta observar que os maiores produtores de genéricos são as companhias multinacionais”, comentou Túlio Teixeira de Oliveira, diretor executivo da Associação Brasileira dos Defensivos Pós-patente (Aenda).

São produtos com princípios ativos bem conhecidos de mercado, cuja proteção patentária já expirou, tal qual os medicamentos que também recebem a denominação de genéricos.

São genéricos 80% dos itens que compõem a lista de mais de 2 mil produtos que aguardam a decisão das autoridades para obtenção (ou não) de registro, permitindo sua comercialização no Brasil.

O sistema atual, com competência distribuída por três ministérios (Saúde, pela Anvisa; Meio Ambiente, pelo Ibama; e Agricultura), pode levar até nove anos para liberar um produto formulado, com média de espera de mais de seis anos.

Apesar da demora, todos os entrevistados consideram importante para um país ter procedimentos rígidos de controle dos agroquímicos em uso no seu território, de modo a favorecer a saúde dos habitantes e a preservação ambiental.

“O sistema brasileiro atual é robusto e confiável, mas o projeto de lei 6.299/2002 foi desfigurado e passou a atender aos interesses apenas dos grandes agricultores e não mais da indústria”, criticou Oliveira.

“Eles querem abrir as portas para qualquer produto formulado na América Latina, sem fiscalização e aprovação; mesmo no campo dos produtos biológicos, está se propondo um afrouxamento perigoso para a produção on farm, isso é um risco, pois se requer conhecimento específico para tanto.”

Segundo Oliveira, o problema da demora na avaliação dos produtos e suas alterações decorre da falta de funcionários qualificados em número suficiente nos órgãos federais.

“Caso não se contratem mais técnicos, a fila vai aumentar e o registro vai demorar mais ainda, mesmo com a aprovação do PL”, salientou.

Flávio Hirata, diretor da Allier Brasil Consultoria e Assessoria, considera que o Decreto 10.833, de outubro de 2021, já reduziu bastante a burocracia do processo de registro, melhorando a rotulagem, dispensando o Registro Especial Temporário (RET) em vários casos, e facilitando a inclusão de formuladores e fabricantes nos registros.

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Flávio Hirata, diretor da Allier Brasil Consultoria e Assessoria

“Isso foi positivo para o setor, processos no Ministério da Agricultura que levavam até um ano começaram a ter resultados em semanas”, comentou.

Para o especialista em assuntos regulatórios, que considera o processo de registro necessário e robusto, pior que a demora é a imprevisibilidade para a obtenção de resultados.

“Os produtores estrangeiros desanimam; sem saber quando começarão a vender aqui, eles não conseguem calcular a rentabilidade dos investimentos.”

Ele citou o caso da China, que possui uma grande quantidade de moléculas ainda inéditas por aqui, fruto de intensa pesquisa e desenvolvimento feito por lá.

Nesse sentido, a aquisição de empresas com atuação local permite ao produtor estrangeiro ganhar experiência nos aspectos regulatórios daqui.

Hirata considera que o PL em tramitação tem aspectos bons, como a unificação do protocolo de trâmite de registro, com remessa rápida entre os órgãos de governo.

“Hoje, no caso de um produto técnico, é preciso protocolar três vezes, em órgãos distintos, a mesma documentação; já no caso de formulados, cada ministério tem suas exigências e pode haver conflito, por exemplo, na determinação de dosagem de uso, nesse caso vale a mais restritiva. Caso os órgãos deliberassem juntos, as decisões poderiam ser diferentes e melhores”, comentou.

Ele também pondera que há problemas no PL. “Produtos equivalentes, por exemplo, hoje levam entre quatro e seis anos para tramitação, com a nova lei, se aprovada, haverá um prazo limite de dois anos, mas os ministérios não têm estrutura para cumprir esse prazo”, disse.

Oliveira salienta que o Brasil é um bom exemplo do aumento de eficiência nos uso de produtos defensivos.

“Veja que, de 20 anos para cá, o consumo de defensivos cresceu muito pouco em comparação com o aumento da produção agrícola, que vem batendo recordes sucessivos; aos poucos, os produtos mais tóxicos estão sendo substituídos por outros mais modernos e seguros”, comentou.

Hirata observa que o sistema de registro poderia contribuir ainda mais para essa evolução.

“Existe uma determinação do Ibama de só aprovar para registro formulações que não sejam piores do que as existentes no mercado, mas seria preciso retirar do mercado os produtos velhos que foram superados pelos mais seguros e eficientes, isso só é feito na reavaliação ambiental de cada registro, feita a cada dez anos”, explicou.

Aliás, Hirata comentou que o custo de elaboração dos dossiês sobre produtos técnicos e formulados caiu de US$ 200 mil para US$ 50 mil com o aumento do número de laboratórios qualificados para conduzir ensaios.

“O alto custo era uma barreira à entrada de novos players”, disse.

Grande conhecedor do mercado asiático de insumos agroquímicos, Hirata informou que a China mudou seus conceitos e o registro de produtos ficou muito mais caro por lá, chegando a um milhão de dólares para um item genérico.

Além disso, o governo chinês apertou o cerco contra indústrias poluentes e pouco eficientes no consumo de energia. Nos últimos 15 anos, várias empresas fecharam as portas por não conseguirem se adaptar aos novos requisitos.

“Fabricantes da Índia aproveitaram o problema de energia da China e aumentaram o portfólio de produtos técnicos competitivos, antes limitado a 2,4D e cipermetrina, mas só tiveram êxito por contar com uma diversificada produção de intermediários”, explicou.

Além disso, Hirata apontou o aumento da importação de produtos formulados, não apenas de sólidos (pós e granulados), mas também de líquidos.

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Laboratório da Oxiteno, em Mauá-SP, gera inovações para o campo

“O Brasil já formulou mais produtos há 15 anos, hoje até emulsionados concentrados estão vindo para cá, apesar do custo logístico”, lamentou.

Como o registro de produtos é feito por culturas, os fabricantes preferem concentrar recursos nos grandes cultivos, como soja, milho, cana e laranja, dos quais o Brasil está entre os principais produtores mundiais.

Por isso, alguns produtores usam defensivos em lavouras para as quais não há registro, o chamado uso off label (fora do rótulo, em tradução livre).

“Não sou favorável ao uso off label, os consumidores finais dos produtos agrícolas devem ter a máxima segurança ao comprar alimentos”, criticou Hirata. Da mesma forma, a chamada “mistura de tanque”, feita no campo pelos agricultores para reduzir o número de pulverizações, não está regulamentada, portanto segue proibida no país.

“Em outros lugares a regulamentação é diferente e admite a mistura de tanque, mas aqui isso não é legal e poder render multa”, alertou o especialista. Faltam estudos técnicos para embasar uma regulamentação dessas misturas.

Formulação qualificada – A prestação de serviços de formulação de defensivos agrícolas é uma atividade bem regulada e praticada há décadas no Brasil. Até 2017, bastava aos formuladores autorizar que seus clientes pedissem o registro de um produto sob a sua produção.

Naquele ano, houve uma alteração normativa que passou a exigir o RET e amostras de produto de produção original (geralmente vindas do exterior) para o registro, complicando muito o processo.

Em outubro de 2021, nova regra foi lançada, reduzindo a complexidade do procedimento para os formuladores, que voltaram a autorizar o pedido de registro por parte dos clientes, com aprovação dessa informação acelerada para 45 dias, em média.

“Isso não quer dizer que qualquer um pode formular agroquímicos”, explicou Larissa Altmann, sócia e diretora comercial da Ultrafine, de Indaiatuba-SP, empresa com 40 anos de atuação, dos quais 25 em prestação de serviços mediante contrato (toll manufacturing).

“O formulador precisa ter licença da Cetesb específica para a atividade, cadastro na defesa agropecuária estadual e um químico responsável, além de se submeter a auditorias conduzidas pelos clientes ou por auditores externos acreditados”, relatou.

O registro oficial dos produtos precisa apontar todas as empresas que participam das etapas de produção, como o fornecedor dos princípios ativos, formulador, manipulador e outros.

“Empresas experientes costumam colocar no registro as fontes principais e alternativas dos produtos e prestadores de serviços, de modo a se prevenir contra restrições de suprimento de qualquer um deles”, disse.

Caso haja alteração de fornecedores ou formuladores, é preciso atualizar o registro, um procedimento mais simples que o completo.

Larissa explicou que a maioria das fórmulas são registradas e repassadas aos formuladores que, por sua vez, devem segui-las minuciosamente, sem alterações.

“Quando o cliente nos procura na fase de desenvolvimento da formulação, antes do registro, podemos colaborar com sugestões para aprimorá-la, buscando ingredientes mais facilmente acessíveis ou com melhor desempenho industrial e no campo”, comentou.

Em alguns casos, a fórmula trazida do exterior se revela inadequada às condições brasileiras.

“Nesse caso, avisamos ao cliente sobre o problema e procuramos ajudar no que for possível.”

Nos contratos, cabe aos clientes enviar ao formulador todos os ingredientes e materiais de embalagem.

“Nós conferimos os ingredientes conforme a fórmula desejada, mas alguns itens exigem análise de qualidade na sua recepção”, salientou, citando o caso da goma xantana, insumo muito usado no setor, mas que registra variações muito amplas.

“Todos os insumos precisam ser qualificados para evitar contaminações químicas ou microbianas, isso é muito importante”, salientou.

Ela identifica que muitos ingredientes químicos são importados, mas essa escolha é feita pelo cliente.

Como o volume de produção de agroquímicos é muito elevado, Larissa recomenda muita cautela nos procedimentos operacionais.

“Não pode haver contaminação de inseticidas com herbicidas, por exemplo, os resultados no campo seriam catastróficos”, apontou.

Na Ultrafine, a planta de formulação de herbicidas fica a 7 km de distância da unidade de inseticidas e fungicidas, impossibilitando a contaminação durante o processo.

O mercado é animador. “Estamos com nossa capacidade de produção totalmente contratada para 2022”, afirmou, além de apontar planos de investimento em curso.

“Teremos uma planta para inseticidas e fungicidas emulsionados concentrados, base solvente, em operação a partir de julho, ampliando nossa linha de formulações que já opera com suspensões concentradas (flowable), pó molhável e solúvel, e grânulos dispersíveis em água (WDG), de alta concentração”, relatou.

Nos herbicidas, em que produz formulações líquidas e pó molhável, terá uma unidade para suspensões concentradas a partir de 2023.

Embora aponte o crescimento de formulações emulsionadas de base solvente, Larissa entende ser desejável usar alternativas mais concentradas quando possível, de modo a reduzir o uso de embalagem e custos logísticos.

“O WDG é sensacional, embora requeira uma tecnologia de formulação mais complicada, com várias etapas”, ressaltou.

O uso de solventes derivados do petróleo, como xileno e AB-9, os mais conhecidos na atividade, requer cautela e qualificação da planta e dos profissionais.

“Nossas instalações são adequadas para o uso de solventes, mas não trabalhamos com o metanol, que é muito tóxico, e mantemos um rigoroso controle de segurança operacional e ocupacional”, informou.

Larissa explicou que a produção de formulações começa em maio de cada ano, para que os produtos estejam nas prateleiras dos pontos de venda do Brasil inteiro a partir de setembro.

“O shelf life de muitos dos formulados é curto, por volta de dois anos, isso obriga a planejar muito bem a produção, ajustando-a às necessidades dos clientes, conforme o contrato”, explicou.

A diretora comercial observa que as dificuldades para registro de agroquímicos atrasam a entrada de novas tecnologias.

“No Paraguai, o procedimento é muito mais rápido, isso está atraindo vários formuladores para lá”, disse.

Ela também observa o forte crescimento dos produtos biológicos e biotecnológicos no campo dos agroquímicos, que também precisam ser formulados.

“É um campo novo e interessante, mas ainda não recebemos nenhuma consulta para isso”, comentou.

Ingredientes locais – A palavra de ordem no setor agro é aumentar a eficiência produtiva, obtendo melhores resultados com menor consumo de insumos.

“Tudo é caro, defensivos, fertilizantes, sementes e até o óleo diesel, por isso mesmo os produtores rurais buscam aumentar a eficiência; nós contribuímos com tecnologia química”, comentou Gunther Zaremba, gerente de vendas da Nouryon para a América do Sul para agricultura, mineração e petróleo.

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Gunther Zaremba, gerente de vendas da Nouryon para a América do Sul para agricultura, mineração e petróleo

“O agro é a vocação da América do Sul”, ressaltou, apontando que o setor responde por um terço do PIB brasileiro e pela metade das exportações.

Zaremba considera que é fundamental contar com uma indústria local de formulação de defensivos, bem como dos seus ingredientes, para oferecer mais segurança de suprimento aos consumidores.

“No Brasil, cerca de 75% das formulações são feitas aqui, isso é uma vantagem importante, e há anúncios de investimentos para ampliar as capacidades de formulação”, afirmou.

André Conde, head do negócio de Crop Solutions da Oxiteno, avalia entre 30% e 40% a participação das formulações importadas no mercado local.

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André Conde, head do negócio de Crop Solutions da Oxiteno

“Em parte, são produtos patenteados com produção concentrada em algum país; os demais encontram algum tipo de vantagem econômica na importação, que pode ser revertida”, considerou.

Na sua visão, o Brasil tem capacidade para suprir quase totalmente a demanda por insumos de formulação de agroquímicos.

Lucelena Cardoso, gerente de pesquisa e desenvolvimento do negócio de soluções industriais da Dow, apontou estudo recente da FAO (da ONU) que estimou a necessidade de ampliar a produção mundial de alimentos em crescer 61% até 2050 para suprir a demanda global.

“O Brasil será responsável por 41% desse incremento, ou seja, a produção nacional deve crescer 10% ao ano nos próximos 30 anos e de forma sustentável, ou seja, sem aumentar o desmatamento, apenas aumentando a produtividade, mediante o uso de tecnologia”, comentou.

A Dow mantém unidade de produção de insumos de formulação no Guarujá-SP, além de contar com uma rede de mundial de sites de produção, garantido o suprimento de insumos.

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Lucelena Cardoso, gerente de pesquisa e desenvolvimento do negócio de soluções industriais da Dow

“A companhia investe para manter a confiabilidade e a sustentabilidade das suas operações”, disse Lucelena.

Zaremba ressaltou a complexidade técnica e científica envolvida nas formulações agroquímicas. Para lidar adequadamente com esse mercado, a Nouryon inaugurou, em dezembro de 2021, um centro de desenvolvimento de aplicações, em Itupeva-SP.

“Temos condições de fazer em laboratório muitas das formulações que os clientes produzem ou pretendem produzir, atuando em parceria de desenvolvimento com eles, com garantia de confidencialidade, caso necessário”, explicou.

Ele comentou que atualmente são raros os lançamentos de ingredientes ativos totalmente novos, dado o alto custo desse tipo de inovação. A tendência atual é aproveitar ao máximo as moléculas disponíveis, associando-as em novas formulações. Isso, aliás, é usual no setor farmacêutico, por exemplo.

“Já temos formulação com três ativos diferentes associados, isso exige muita expertise para compatibilizar os ingredientes”, explicou. Com isso, pode-se reduzir o número de pulverizações, com menor consumo de combustível, além de reduzir emissões de carbono.

Zaremba considera que os defensivos agrícolas devem ser adaptados ao ambiente ao qual serão aplicados.

“Lugares muito secos podem exigir umectantes, lugares mais úmidos devem preferir aditivos que melhorem a aderência às folhas; isso se reflete no desempenho do produto”, salientou. “Isso pode ser feito nas formulações ou no preparo da calda, com a inclusão de adjuvantes.”

A Nouryon está atenta ao fato de as alterações nas formulações registradas ou lançamentos de produtos terem um prazo de maturação longo, decorrente do processo de registro.

“O sistema brasileiro de registro é muito bom, mas demora um pouco, talvez isso melhore com novas regulamentações, porém é bom lembrar que todo país tem seu sistema de controle rígido de defensivos, a inovação é sempre lenta”, disse.

A complexidade do processo de registro impõe algumas restrições ao desenvolvimento de formulações, levando o mercado a preferir os insumos mais conhecidos para facilitar a aprovação.

“Também pesquisamos inovações, mas a maturação delas é mais lenta”, comentou Conde, da Oxiteno.

“Se não desenvolvemos nada, o portfólio fica muito pobre e vulnerável no longo prazo, pois as negociações com os clientes são demoradas, exigindo ensaios exaustivos.”

Na sua visão, os clientes do setor agro são muito exigentes. Como os surfactantes são muito sensíveis, os fornecedores são selecionados com rigor e os aprovados raramente são trocados, com alta fidelização.

Com o mesmo conceito, Zaremba entende que a Nouryon precisa manter uma “caixa de ferramentas” (tool box) com vários insumos atualizados para atender as demandas dos clientes com rapidez.

“Em algum momento vai surgir um problema e devemos estar preparados para resolvê-lo, ainda que seja necessário aguardar o prazo de registro”, reforçou.

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Centro de desenvolvimento de aplicações da Nouryon, em Itupeva-SP

Uma vez que o insumo entra numa formulação, ele dificilmente será substituído. “Queremos oferecer a solução mais completa para o mercado.”

Exemplo disso é a oferta de amidas da Nouryon que atuam como solventes verdes, mais sustentáveis do que os aromáticos usuais, com excelente desempenho.

“O Brasil é o país que mais consome solventes verdes no mundo”, comentou.

Na região, a Nouryon mantém a produção de alguns ingredientes. No Brasil produz aminas, aplicadas direta ou indiretamente nas formulações.

“Um exemplo de uso indireto é o ácido monocloroacético, o MCA, do qual a Nouryon é líder mundial, que é intermediário para a síntese do herbicida 2,4 D”, explicou.

Na Argentina, a especialidade recai nos derivados de enxofre, o bissulfeto de carbono, por exemplo, que entra na síntese do fungicida Mancozeb.

“A companhia tem centros de produção química nos Estados Unidos, Europa e Ásia, cada qual com sua especialização; há intercâmbio de produtos entre eles”, comentou.

A Nouryon também se destaca na produção de tensoativos, coadjuvantes de formulação que auxiliam a calda a se espalhar melhor sobre as folhas e a aderir a elas.

Também ajuda a controlar o tamanho das gotas aplicadas pelos pulverizadores, reduzindo a deriva dos produtos, ou seja, evitando atingir a área contígua à da lavoura.

“É preciso reduzir de forma controlada a tensão superficial do produto diluído, a calda, porque gotas muito pequenas sofrem deriva, gotas grandes tem espalhamento deficiente”, explicou.

A Oxiteno, por sua vez, conta com 40 anos de experiência no ramo e no Brasil, mantendo fábricas aqui e nos Estados Unidos, com laboratórios nestes países, bem como na Europa e Ásia.

“Somos uma das empresas com maior capacidade de alcoxilação no mundo e o maior fabricante de tensoativos das Américas; o mercado agro é fundamental para a estratégia de negócios”, salientou.

Reconhecida produtora da cadeia oleoquímica, a Oxiteno oferece solventes, tensoativos (com função emulsionante, dispersante, adjuvantes e de outros efeitos), condicionadores de solo e compatibilizantes para produtos biológicos.

“Fornecemos insumos para todos os tipos de formulações de defensivos e adjuvantes de calda, melhorando seu desempenho no campo”, disse Conde.

Ele comentou que os ingredientes ativos defensivos são moléculas orgânicas e, em geral, insolúveis em água. Daí que a primeira função dos surfactantes na formulação é manter estáveis as misturas.

“Outras funções buscam melhorar a eficácia dos produtos na aplicação, mediante mecanismos físico-químicos e biológicos; além disso, há efeitos nas características das caldas”, explicou.

Nos solventes, a função primeira é a solubilização de ingredientes ativos, mas também podem ser aplicados para interagir melhor com a camada cerosa das folhas de alguns cultivos.

“Temos um foco muito forte em sustentabilidade, nesse ponto oferecemos solventes verdes ou menos agressivos que os usuais de mercado”, afirmou Conde.

É o caso do Surfom CE 8434, um éster de origem oleoquímica lançado no ano passado, com alta aceitação de mercado para uso com vários tipos de formulação e ingredientes ativos.

“A substituição dos solventes aromáticos nos defensivos não é simples, porque eles são muito eficientes na solubilização dos ativos, mas podemos oferecer várias soluções com solventes oxigenados ou propor a dispersão dos ativos com o auxílio de surfactantes”, disse Conde.

A companhia segue os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, mediante os quais tem por objetivo reduzir o impacto ambiental, por exemplo, mediante economia de água, diminuição de emissões e de desperdícios.

“Produtos mais eficientes significam menor volume transportado, baixo consumo de água e de óleo diesel, ou seja, menos emissões de CO2”, considerou.

Nesse ponto, a compatibilização de ativos na mesma formulação é desejável e já está disponível no país.

A Dow oferece amplo portfólio de insumos para a formulação de defensivos agrícolas, a começar pelos surfactantes não-iônicos derivados de álcoois etoxilados, como o Tergitol 15-S, capazes de substituir técnica e economicamente o nonilfenol e o octifenol etoxilados.

Oferece também os tensoativos não-iônicos copolímeros de EO/PO, como Tergitol X, Dowfax 63N, Tergitol P-104, Dowfax 100N50 e Tergitol L, todos versáteis e de alto desempenho para estabilizar e dispersar sistemas aquosos, podendo ser usados em conjunto com outros insumos em formulações concentradas aquosas ou oleosas.

Os surfactantes biodegradáveis Ecosurf EH, de baixa toxicidade e odor, são opções para a composição de adjuvantes, com alto poder de umectação, penetração, dissolução rápida e baixa formação de espuma.

Nos solventes e co-solventes, a companhia atua com linhas de oxigenados Dowanol, Cellosolve e Carbitol, de modo a compatibilizar ingredientes ativos insolúveis em água. As linhas Xiameter e Dowsil compreendem antiespumantes de base silicone, com emulsões com 10% a 45% de ativos, até fluidos de silicone (a 100%).

“Destacamos o Dowsil ACP-1920, antiespumante em pó que é compatível com ampla faixa de pH e com produtos biológicos”, disse Patrícia Augusto, gerente de marketing para o segmento agroquímico, divisão de silicones da Dow.

A companhia também fornece componentes intermediários para síntese de princípios ativos, como etanolaminas, isopropanolaminas e solventes oxigenados.

Avanços em tecnologia – A dinâmica da evolução tecnológica exige ir ao campo para conhecer melhor as dificuldades encontradas pelos clientes.

Estes, muitas vezes, solicitam respostas para problemas. “Somos uma companhia global, a troca de informações entre as regiões é intensa, mas é preciso manter um centro de pesquisa e desenvolvimento local porque as diferenças de solos, climas e mercado são grandes em relação às demais regiões”, salientou Zaremba.

O centro de Itupeva, por exemplo, atende a toda a América do Sul, na qual o Brasil é o mercado mais relevante, porém há um bom crescimento na Colômbia e na Argentina, além dos mercados chileno e uruguaio.

“O novo centro de desenvolvimento está em evolução, deveremos estar com nossa capacidade completa em alguns meses”, disse Zaremba.

O crescimento do mercado de defensivos biológicos e biotecnológicos é considerado auspicioso pela Nouryon.

“Eles também precisam ser formulados para oferecer o melhor desempenho, mas demandam soluções diferentes, que não os inativem”, explicou, salientando que o laboratório de Itupeva já desenvolve soluções para isso usando insumos químicos disponíveis, com tecnologia adequada.

A Oxiteno conta com laboratórios em várias regiões. No Brasil, em Mauá-SP, conta com instalações completas para o desenvolvimento de formulações.

“O nosso posicionamento ‘do laboratório ao campo’ busca endereçar os avanços demandados pelo setor ao direcionar como pensamos e desenvolvemos soluções práticas que facilitem a vida do produtor, que está na ponta da cadeia”, comentou Conde.

Para tanto, a companhia conduz testes de campo para garantir a eficiência, além de usar equipamentos avançados, como casas de vegetação, túnel de vento e outros, para simular as diversas condições de aplicação.

Conde salienta que cada cliente desenvolve formulações diferentes, ainda que usem os mesmos ingredientes ativos, obtendo resultados de campo diferenciados.

“O glifosato, por exemplo, o defensivo mais vendido no mundo, é solúvel em água, mas recebe adjuvantes e outros insumos para compor formulações mais ou menos eficientes conforme desejado pelos formuladores”, explicou.

A companhia oferece aos clientes insumos isolados ou pacotes de tensoativos desenhados para cada situação. “Isso nos obriga a conhecer de perto as exigências e problemas de mercado”.

Segundo Conde, a inovação no setor deve buscar o aumento da eficiência dos defensivos; melhorar a sustentabilidade das formulações; e favorecer o uso de produtos biológicos, que representam menos riscos para os trabalhadores e para o meio ambiente.

“O jeito tradicional de atuar no setor é atacar a praga da lavoura, mas isso está mudando rapidamente”, salientou. A tendência é aumentar a resistência das plantas, lançando mão de bioestimulantes e outras técnicas para que ela aproveite melhor os nutrientes e a água disponível.

“Há muitas oportunidades para inovação no setor”, concluiu.

Lucelena Cardoso, da Dow, apontou a necessidade de reforçar a inovação em insumos.

“Ao desenvolver novas tecnologias para os inertes das formulações de defensivos, adjuvantes e fertilizantes, nossos desafios refletem os de nossos clientes, abrangendo mudanças nas condições climáticas e requisitos regulatórios para aplicação direcionada e produtos eficientes para a proteção de plantas”, ressaltou.

“Ao considerar outras megatendências, como a redução do uso de pesticidas ou aumento de produtividade da agricultura orgânica, há uma clara necessidade de novos co-formulantes que atendam aos crescentes desafios de hoje”.

Ela se referiu às inovações que contribuem para melhor absorção e aumentem a biodisponibilidade do ingrediente ativo; e inovações em retenção e resistência às chuvas para reduzir a taxa de perda do ingrediente ativo no meio ambiente.

“Inovações em tecnologia de formulação são de especial importância para fornecer propriedades otimizadas dos agroquímicos”, afirmou.

“Nossas novas tecnologias entregam produtos de fontes renováveis e sustentáveis que estão diretamente ligadas ao agronegócio, tais como derivados de etanol ou óleos de origem vegetal.”

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