Aditivos de alimentos: Desequilíbrio climático abre mercado para novos hidrocolóides

Escassez de de gomas vegetais importantes incentiva o desenvolvimento de novas alternativas para espessamento e gelificação

Química e Derivados: Aditivos: aditivos_abre. ©QDUma peculiaridade do mercado de hidrocolóides, polímeros de cadeia longa e alto peso molecular que se dispersam em água para dar o efeito de espessamento ou de aumento de viscosidade a alimentos e bebidas industrializadas, tem incentivado sua evolução tecnológica. Por serem aditivos principalmente extraídos de algas marinhas, exsudados de árvores e sementes, a característica sazonal dessas atividades extrativistas vem obrigando produtores e clientes a procurarem alternativas tecnológicas para combater os cada vez mais freqüentes desabastecimentos de importantes gomas vegetais utilizadas no setor.

Química e Derivados: Aditivos: O refino das sementes da Tara peruana dão origem a uma goma muito versátil e competiva. ©QD Foto - Divulgação - Transformadora Agrícola
O refino das sementes da Tara peruana dão origem a uma goma muito versátil e competiva.

A oferta ciclotímica de hidrocolóides de origem vegetal tem se acentuado sobretudo nos últimos anos, em decorrência de desequilíbrios climáticos registrados em todo o planeta. Há no momento três casos importantes de quebras de safra de gomas, que provocaram aumento de preços e forçaram a busca por substituições. Para começar, chuvas demais na Índia e Paquistão diminuíram a oferta da bastante popular goma guar, extraída do endosperma da semente da leguminosa Cyamopsis tetragonolobus. Já o verão muito forte na costa do Mediterrâneo, em países como Espanha, Portugal e Marrocos, prejudicou a colheita da LBG (locust bean gum), a chamada goma locusta ou alfarroba, extraída do endosperma da semente da árvore carob, a Ceratonia siliqua. A quebra da safra aumentou o preço da LBG em 30% em 2003.

Além das originárias de sementes, uma terceira goma vegetal, considerada a mais antiga e conhecida de todas, a arábica ou acácia, oriunda da seiva exsudada de espécies de plantas do gênero Acacia, também sofre com as intempéries climáticas. Com uma queda de 5ºC na temperatura média da região subdesértica do Saara, que oscila normalmente em cerca de 35ºC em países africanos como Sudão, Mali, Mauritânia e Somália, a disponibilidade da goma acácia tipo Senegal, cujas árvores se concentram nessa região, caiu em 60%. O resultado foi o aumento do preço em praticamente no mesmo percentual.

Tara no mercado – Acostumados a esse caráter sazonal, os produtores e distribuidores de gomas buscam alternativas para driblar os desabastecimentos, valendo-se de pesquisas e de lançamentos de novos produtos no mercado. Como confirmação dessa tese, basta afirmar que esses dois tipos de movimentações ocorrem no momento para tentar solucionar os problemas que afetam as três gomas em falta no mercado: guar, LBG e acácia.

Química e Derivados: figura.-©QDA reação ao desabastecimento da LBG é a que vem chamando mais atenção do mercado. E isso nem tanto por causa da importância da LBG, que no Brasil mesmo não tem muita penetração, mas porque envolve o lançamento de uma nova goma, a Tara, originária do Peru e com potencial de conquistar market share não só do LBG, como da própria goma guar, da xantana e das pectinas. Aprovada pela americana Food and Drugs Administration (FDA) em 2001 e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2002, e com boa disponibilidade por empresas peruanas beneficiadoras, a Tara passa por testes em muitas indústrias alimentícias e já começa a ter destino comercial em alguns casos.

Química e Derivados: Aditivos: Adriana - Tara pode substituir qualquer goma. ©QD Foto - Cuca Jorge
Adriana – Tara pode substituir qualquer goma.

Originária do endosperma da semente da árvore peruana Tara (Caesalpinea spinoza), similar à carob, da qual se extrai o LBG, trata-se de um polissacarídeo composto de manose e galactose que, como a goma guar, é solúvel a frio e proporciona viscosidade máxima em sistemas aquosos, lácteos e em sistemas de baixa solidez, em poucos minutos. Ela tem preço competitivo (de US$ 8,50 a US$ 9,80 o quilo) quando comparada à LBG, que está cotada em média a US$ 14/kg. Apesar de em relação à guar (preço médio de US$ 4,50) não ser tão competitiva, nada impede que em virtude do agravamento do abastecimento não consiga também ganhar mercado nesse segmento.

Aliás, a primeira empresa a vender a Tara no Brasil, a distribuidora Makeni Chemicals, de Diadema-SP, pretende difundir o seu uso como opção a vários outros hidrocolóides. Desde 2003 sob contrato com a produtora peruana Transformadora Agricola, de Lima, a Makeni, segundo a engenheira de alimentos responsável pelo produto, Adriana Leite, oferece para seus clientes a Tara como opção também a pectinas, goma xantana e CMC (carboximetilcelulose).

“Vários testaram e estão aprovando o uso”, diz Adriana. O foco das vendas, que já fez a Makeni realizar três importações (de 500 kg, 1 t e 2 t, respectivamente), tem sido por enquanto nos segmentos de sobremesas lácteas, geléias, bebidas e panificação.

Um caso para ilustrar a versatilidade da goma peruana visou subsitituir as pectinas cítricas em geléias. De acordo com Adriana, nenhum outro hidrocolóide, apesar de atender o quesito textura e viscosidade, conseguia dar o brilho requisitado para esses produtos. “Só a pectina servia, mas testamos a Tara e deu certo”, afirmou a engenheira. Apenas quando há necessidade de corte da geléia, ou seja, de uma consistência mais firme, a indicação é fazer um blend entre a tara e a pectina ou com a kappa-carragena.

Um exemplo de aplicação já vendida no Brasil foi para substituir um blend de CMC e guar em mistura para shake achocolatado em pó. Nesse caso a vantagem foi de melhora de desempenho. “O cliente conseguiu estabilizar a espuma com a Tara”, explica Adriana. Além desse exemplo, e das aplicações comuns em sucos e molhos, a engenheira confia em vendas para aditivações, segmento em que até agora negociava mais a goma xantana da Rhodia (agora da Danisco), representada pela Makeni. São exemplos as aplicações no mercado de panificação, onde os hidrocolóides vêm cada vez mais sendo usados para retenção de umidade em pães de forma e bolos, para aumentar a vida útil (shelf life) dos produtos.

Química e Derivados: Aditivos: Petroni também confia nas vendas da goma do Peru. ©QD Foto - Cuca Jorge
Petroni também confia nas vendas da goma do Peru.

Uma vantagem da Tara é seu sinergismo com outras gomas, com a própria xantana, as carragenanas e a ágar-ágar. A interação com a xantana, por exemplo, permite a formação de um gel elástico, forte e termicamente reversível, quando esta goma não consegue essas propriedades de gelificação sozinha. Um blend entre tara e xantana pode substituir uma tradicional mistura feita com a LBG com vantagem: a gelificação fica até três vezes mais potente.

A goma Tara só pode ser produzida por empresas no Peru. Uma lei daquele país proibiu a exportação dos grãos. Isso logicamente significa que os interessados em comercializar a goma precisam fechar contratos de representação com processadoras peruanas. Foi o também feito pela distribuidora Metachem, de São Paulo, desde o início do ano representante da Exportadora El Sol. Por enquanto, segundo afirma seu diretor, Nicodemo Petroni Jr., a empresa apenas mantém um estoque de desenvolvimento, para fazer testes em clientes.

Petroni concorda com o potencial da Tara no Brasil. Segundo ele, há a possibilidade de dentro de algum tempo ela ser a goma mais utilizada, chegando a um consumo de 3 mil t/ano.

Como exemplos de uso adormecido ele cita a aplicação como espessante em molhos (ketchup, entre outros), agente gelificante em preparações lácteas, texturizantes em panificações e como solução para combater sinérese (fenômeno responsável pela liberação de água do gel após pequeno aumento de temperatura) em queijos frescos. “O seu uso é muito amplo e inclui até o emprego em argamassas de cimento, fumo reconstituído, como aglutinante de lama de perfuração de petróleo e até como curtente de couro”, diz Petroni. Nesse último caso, aliás, há empresas vendendo no sul do País, já há alguns anos, o pó de Tara, um grade mais barato que passa apenas por um semi-refino e cujo uso como curtente é possível graças ao elevado grau de tanino da semente.

Química e Derivados: Aditivos: Marta acredita no potencial da goma em maioneses. ©QD Foto - Cuca Jorge
Marta acredita no potencial da goma em maioneses.

Em vista desse potencial, aliás, as distribuidoras da Tara reivindicam da Anvisa a permissão para uso em outros produtos. Isso porque a agência permitiu a aplicação apenas para uma lista de alimentos e bebidas e deixou de fora outros com possibilidade de aplicação.

Um item importante deixado de lado foi justamente o uso em maioneses. Não por menos, a Metachem, segundo sua gerente de negócios, Marta Regazzini, já testou com sucesso em clientes a Tara para substituir totalmente a goma xantana em maioneses. “Mas não podemos vender porque a Anvisa ainda não permitiu o uso”, diz. Concorda com essa opinião Adriana Leite, da Makeni. “Já requisitamos formalmente à Anvisa a avaliação e liberação de uso em maioneses”, revela Adriana.

Acácia reage – O outro caso interessante de reação técnica do mercado contra a sazonalidade das gomas vegetais ocorreu com a acácia, ou arábica, hidrocolóide utilizado desde a antiguidade, pelos egípcios, a partir de meados de 2650 a.C para unir as bandagens de linho durante a mumificação. Para combater as dificuldades de colheita com a queda da temperatura no sub-Saara, a maior produtora mundial da goma, a francesa Colloïdes Naturels, grupo familiar fundado em 1895, criou no final de 2003 uma nova linha, de nome comercial Eficacia, cujo principal mérito é o de ter um rendimento até cinco vezes maior do que o da acácia convencional.

Química e Derivados: Aditivos: Teresa - Colloïdes criou acácia com redimento 5 vezes maior. ©QD Foto - Cuca Jorge
Teresa – Colloïdes criou acácia com redimento 5 vezes maior.

Desenvolvida para apenas estabilizar emulsões de óleo em água, sobretudo aromas, a nova goma acácia é dosada em percentuais entre 4% e 7%, contra 18% e 25% da convencional. Segundo a gerente comercial da filial brasileira, Teresa Yazbek, o melhor foi a modificação ter sido obtida por meio de um novo processo físico de extração, sem modificação química que tirasse o caráter natural do hidrocolóide. “Isso sem falar que contornamos o problema de preço e sobretudo de disponibilidade”, diz.

O trabalho de venda agora tem sido o de promover as substituições para o novo contratipo, apenas na aplicação como emulsão de aromas de refrigerantes, sucos e bebidas alcoólicas.

Apesar de ter preço por quilo (14 euros) maior do que a acácia Senegal (9 euros) e bem maior do que a acácia Seyal (4 euros, usada para aplicações menos nobres), ela tem sido objeto de migração em vários clientes. Apenas em aplicações sólidas, como nas pastilhas Valda, ainda é necessário usar a Senegal (considerada mais nobre), pelo motivo óbvio de a viscosidade da Eficacia ser menor em virtude de sua maior dissolução. “Mas por outro lado essa característica de baixa viscosidade permite melhoras no processo em líquidos, porque a homogeneização é mais rápida e fácil”, completa a engenheira de alimentos da Colloïdes, Suzan Nessaif.

Aliás, de forma geral, a goma acácia dissolve-se rapidamente, tanto em água quente como fria. Isso porque ela é o menos viscoso (5 cps a 1%, contra até 6 mil cps da guar, por exemplo) e o mais solúvel dos hidrocolóides. Isso significa que em concentrações de 55%, a acácia se equipara a concentrações médias de 5% de outras gomas convencionais. Daí se compreende porque a goma acácia não é considerada um gelificante ou espessante. O máximo que ela consegue é ser emulsificante de balas de gomas (como nas pastilhas Valda), mas apenas no tipo Senegal.

Química e Derivados: Aditivos: africacolheita1. ©QD Foto - Divulgação
A goma acácia extraída no sub-Saara, precisou ter um grade especial para manter a oferta constante.

Mesmo assim, e apesar do desenvolvimento da infinidade de outros hidrocolóides mais viscosos, ela possui nichos que lhe garantem um mercado mundial de 55 mil t/ano (2003), dos quais quase metade pertence a Colloïdes Naturels, cuja fábrica na França produz 17 mil t/ano, exportando 87% do total e faturando 48 milhões de euros. Essas cifras são mantidas em virtude das aplicações como emulsificante de doces industrializados, onde age também para retardar a cristalização do açúcar; como agente de textura; estabilizante; e, como já citado, como agente microencapsulador de compostos aromáticos, para evitar sua volatilização e oxidação. Nessa última aplicação, um cliente global é a Coca Cola.

Mas a acácia também atua como agente nutricional, em razão de ser rica fonte de fibras solúveis. Esse mercado bifuncional da goma, segundo a gerente Teresa Yazbek, já responde por até 60% das vendas no Brasil. Iogurtes e achocolatados começam a aproveitar dessa qualidade da goma para divulgar em suas embalagens a propriedade de conter fibras que ainda estimulam o crescimento de bactérias lácticas benéficas, dando o chamado efeito prebiótico. Também por ter baixo valor calórico, a acácia no Brasil está sendo utilizada para substituir o xarope de glicose como ligante de barras de cereais light.

A filial brasileira da Colloïdes, há 12 anos no País, de acordo com sua gerente controla 90% das vendas de goma acácia, o que significou em 2003 um volume de cerca de 700 toneladas. Além da aplicação nutricional, 20% das vendas seguem para emulsão de aromas, 15% para confeitos e 5% em aplicações técnicas.

Oferta completa – Além dessas medidas tecnológicas contra os problemas sazonais, uma outra iniciativa não tão objetiva das empresas do setor é a de procurar ampliar o portfólio de suas gomas, para compensar períodos de escassez de algumas delas. Um pequeno exemplo disso é o fato da distribuidora Metachem estar ampliando suas representações de hidrocolóides. Além do recente contrato com a goma Tara, e da representação do CMC da Bayer e da LBG da italiana Idea, a empresa passará a distribuir as gomas acácia da francesa Alland & Robert em 2005 e procura parceiros para vender carragenatos, xantanas, alginatos e ágar-ágar, segundo afirmou seu diretor, Nicodemo Petroni Jr.

Química e Derivados: Aditivos: acaciapronta. ©QD Foto - DivulgaçãoPorém, o que melhor simboliza essa estratégia de ampliação de portfólio é o movimento dos grandes produtores e líderes do mercado, empresas como Danisco e CP Kelco, que de uns anos para cá promovem uma onda de fusões e aquisições corporativas. Ao aumentarem as possibilidades de texturização com linhas de produtos incorporadas, é inegável também a proteção que esses grupos conseguem contra os perigos da sazonalidade produtiva.

No caso da Danisco, não custa lembrar que em junho último o grupo dinamarquês adquriu por 320 milhões de euros a divisão de ingredientes alimentícios da Rhodia. Além de aumentar, com a compra, sua oferta de LBG e goma guar, produzidas pela adqurida em Portugal e EUA, o principal trunfo com a negociação foi incluir no portfólio a linha Rhodigel de gomas xantana, fabricada em Melle, na França. “Passamos a contar com uma goma muito versátil”, comemorou o gerente da divisão de ingredientes de textura, Arnaldo Siguemoto. Segundo ele, a meta já vinha sendo perseguida antes mesmo da aquisição. Em abril o grupo havia firmado joint-venture com o governo chinês para controlar, com 80% das ações, a operação de uma unidade de xantana naquele país asiático. Esta fábrica, aliás, será padronizada com a tecnologia proveniente da Rhodia.

Química e Derivados: Aditivos: A goma acácia extraída no sub-Saara, precisou ter um grade especial para manter a oferta constante. ©QD Foto - Divulgação“Vamos ser muito competitivos em uma goma de grande aceitação no mercado, que só no Brasil representa cerca de 1.500 t/ano [parte do volume tem outras aplicações, como perfuração de petróleo] e cuja participação da Rhodia era bastante forte”, diz Siguemoto. Além de ter muita sinergia com outras gomas, sobretudo com a guar (com a qual aumenta o poder de viscosidade) e a LBG (para formar gel elástico e termorreversível), a xantana não depende de extrativismo sujeito a sazonalidades, visto ser obtida pela fermentação microbiana de Xanthomonas campestris. E o melhor é seu desempenho técnico: cria alta viscosidade em sistemas aquosos e é conhecida como o mais eficiente estabilizante para suspensões ou emulsões. Sua competividade também tem a ver com o fato de ser altamente resistente à degradação enzimática, ao álcool, e estável a ampla faixa de temperatura (0 a 100ºC) e pH (1 a 13).

A aposta na xantana no Brasil, para Siguemoto, é grande ao se considerar o seu crescente uso em bebidas e molhos e ao fato desta goma ter passado a ser o maior mercado em faturamento entre os hidrocolóides comercializados pela empresa. Até em volume é importante, representando mercado menor apenas do que o da outra goma de largo uso, a carragenana, cujo consumo nacional oscila em 2 mil t/ano e que tem a desvantagem de contar com muitos competidores.

O mercado da xantana, por exemplo, é bem maior do que o da pectina (também considerada goma de bom futuro), importada pela Danisco de sua filial no México e cujo consumo oscila em 500 t/ano. Também supera o segmento dos alginatos, de cerca de 550 t, e o de LBG, de 300 t/ano. Ganha ainda da goma guar, uma commodity de grande uso fabricada pela Danisco na Holanda (mas um grade especial de baixa viscosidade), responsável por mercado anual de cerca de 600 t.

Produtora não só de guar como de LBG (este último em fábricas na Espanha e Portugal), justamente as duas gomas com problemas atuais de abastecimento, a Danisco sabe da importância de contar com um portfólio completo. Sua divisão de ingredientes de textura, com produção espalhada por oito fábricas, disponibiliza ainda alginatos (unidade em Brittany, França), carragenatos (Chile e Escócia) e pectinas (México, República Checa e Dinamarca). A produção globalizada, aliada ao fato de a empresa produzir e comercializar ainda emulsificantes, sistemas funcionais, aromas, edulcorantes e enzimas para alimentos, a torna um player com liderança e vice-liderança na aditivação alimentar em quase todos os continentes. Dentro do universo das gomas, a Danisco lidera mundialmente o mercado de LBG, é a segunda em xantana, atrás apenas da CP Kelco, e se posiciona entre as cinco primeiras nas demais.

Química e Derivados: Aditivos: Siguemoto - Danisco agora conta a xantana originária da Rhodia. ©QD Foto - Cuca Jorge
Siguemoto – Danisco agora conta a xantana originária da Rhodia.

One-stop-shop – A formação da CP Kelco é a outra prova concreta de complementação de linha de hidrocolóides. O princípio de tudo foi a junção dos negócios de dois grandes conglomerados do ramo, em 2000: a Kelco Biopolymers, divisão da americana Monsanto, com a Food Gums Division, da conterrânea Hercules. Por meio da aquisição da Kelco pelo controlador da Hercules, o grupo de investimentos Lehman Brothers, criou-se um megagrupo, com linha dobrada de hidrocolóides. Uniu-se as forças da Hercules em pectinas (cerca de 12 mil t/ano, inclusive fábrica no Brasil em Limeira-SP), carragenatos (segunda maior produtora mundial) e LBG com a liderança da Kelco em goma xantana e gelana. Apenas a parte de alginatos da Monsanto foi descartada na negociação, tendo esta área ido parar na americana ISP.

E a sanha por crescimento do grupo pode não parar por aí. Em julho de 2004, a CP Kelco foi adquirida pelo grupo americano JM Huber, por sinal proprietário da líder mundial de carboximetilcelulose (CMC), a finlandesa Noviant. De acordo com o gerente de vendas da CP Kelco no Brasil, João Carlos Golfi, embora ele não tenha recebido nenhuma indicação da nova controladora de que o CMC da Noviant poderá também ser comercializado pela CP Kelco, essa possibilidade não é remota. Sobretudo ao se levar em conta o propósito global da empresa em ser um one-stop-shop em hidrocolóides.

Atualmente, o grupo americano produz em três fábricas a goma xantana (duas nos EUA e uma na Inglaterra) e em duas os carragenatos (Dinamarca e Filipinas). Já as pectinas são produzidas em três locais: a mesma dinamarquesa onde também fabrica carragenatos e de onde veio a sigla CP (Copenhagen Pectin), mais uma na Alemanha e outra no Brasil. A nacional fica em Limeira-SP, fundada na década de 50 como Braspectina (ver QD-377, pág. 21), vendida em 1998 ao grupo Hercules.

A unidade brasileira, embora não seja a maior do grupo, segundo Golfi é a mais moderna, por ter passado por sucessivos investimentos desde sua desnacionalização. Sua capacidade atual é para 3 mil t/ano, das quais a grande parte segue para exportação. Esse percentual, mesmo sem ser revelado pelo gerente de vendas, pode diminuir caso sua impressão relativa à recuperação do mercado interno se concretize até o final do ano.

Química e Derivados: Aditivos: aditivos_grafico01. ©QDFMC mantém linha – Apesar da movimentação dos grandes grupos em ampliar o portfólio, há empresas líderes nos hidrocolóides contentes com o desempenho de suas linhas tradicionais. É o caso da americana FMC, que mesmo sem ter feito ultimamente nenhuma aquisição ou fusão continua líder mundial em carragenatos e microcelulose cristalina (MCC) e a segunda em alginatos (atrás da ISP). Isso pelo menos até que a dinâmica do mercado não faça um dia grupos como este seguirem a tendência do one-stop-shop, procurando ofertar todos tipos de hidrocolóides ao mercado.

Com escala global, e também atuante em outros setores, como agroquímico e de petróleo, a FMC tem condições de suportar o aumento de competitividade de seus principais concorrentes. Mas uma coisa é inegável: o fortalecimento de empresas como CP Kelco e Danisco (esta ainda mais verticalizada em aditivos para alimentos) com certeza atrapalha as vendas de grupos limitados a apenas alguns tipos de espessantes/gelificantes. E os efeitos a longo prazo podem ser um pouco mais complicados de suportar.

No Brasil, a FMC, por meio de seu escritório em Campinas-SP, segue sua atuação mundial. De acordo com a gerente regional, Magali Carregã, a empresa possui 36% do mercado de carragenanas importadas, 70% do de celulose microcristalina alimentícia e 33% dos alginatos. A necessidade de definir o segmento de carragenatos como proveniente de importação se explica pela existência de produtor local, a Griffith, de Mogi das Cruzes-SP, que semi-refina pellets de algas Kappaphycus importados das Filipinas. Esse mercado é voltado para embutidos de consumo nacional e tem domínio dessa empresa em razão do baixo preço conseguido (os pellets de algas secas têm 6% de alíquota de importação contra 10% das gomas prontas).

A linha de carragenas da FMC, ao contrário da Griffith, é totalmente refinada e completa, ou seja, conta ainda com as frações Iota e Lambda, que podem formar blendas para selecionar melhor suas características. Com as três frações, e seus pesos moleculares e estruturas diferentes, permitem combinações que exploram melhor as propriedades funcionais da goma. A iota e a kappa são agentes gelificantes, já a lambda atua mais como espessante. A iota-carragena gelifica mais fortemente com ions de cálcio, formando gel claro, elástico e sem sinérese. A kappa gelifica com a presença de íons de potássio.

Mundialmente, a divisão FMC Biopolymers fatura US$ 366 milhões. É líder em celulose microcristalina com 34% de um mercado avaliado em US$ 235 milhões, segunda colocada em alginatos com 9% do total de US$ 185 milhões, e a primeira em carragenatos, com 57% do mercado de US$ 335 milhões. Com unidades nos EUA, Dinamarca, Bélgica, Filipinas, entre outros países, esses dados relativos a 2003 colocam a FMC na frente da vice-líder CP Kelco em carragenas, da alemã Retenmayer em MCC e a deixam atrás da ISP em alginatos. O mercado latino-americano representa 13% dos negócios e o Brasil, 38% dessa parte.

Química e Derivados: Aditivos: Magali - FMC acha viável carrana nacional. ©QD Foto - Cuca Jorge
Magali – FMC acha viável carrana nacional.

Carragena no Brasil? – Extraídas principalmente da alga vermelha Chondrus crispus (musgo irlandês), mas também das espécies Eucheuma, as carragenas possuem reatividade especial com certas proteínas, como a caseína do leite, o que as tornam ideais para gelificar, espessar, emulsificar e estabilizar produtos lácteos, como sorvetes, iogurtes, sobremesas, entre outros. Formadoras de soluções altamente viscosas em razão de sua estrutura macromolecular, o controle da temperatura, escolha das frações e concentração amplificam seu campo de atuação e interesse comercial.

Esse interesse crescente, aliás, incentivou tentativas de aproveitamento de algas brasileiras para produção comercial. Porém, embora a Universidade de São Paulo tenha tentado desenvolver o cultivo local de algas Kappaphycus alvarezzi (ver QD-377, pág. 24), a iniciativa não demonstrou viabilidade. Para se ter uma idéia, a própria líder FMC deslocou um pesquisador para passar uma temporada no litoral brasileiro e estudar as algas locais. Sua conclusão também foi negativa.

De acordo com Magali Carregã, o técnico relatou à empresa que a única alga viável comercialmente no Brasil é a Hypnea musciformis, mas mesmo assim apenas em âmbito local, sem condições de competir globalmente com a alga Eucheuma cottoni, uma espécie vermelha das Filipinas que gera a kappa-carragena e que vem se mostrando muito competitiva, inclusive em comparação com a Chondrus crispus.

Ao contrário da Hypnea, já extraída e produzida no Nordeste pela empresa Agar Brasileiro, de João Pessoa-PB, a Eucheuma cottoni tem disponilibidade suficiente no mar filipino para torná-la comercialmente interessante para a FMC (conta com unidade em Cebu, nas Filipinas) e outros grupos do ramo, segundo informou o pesquisador.

Confirma essa análise o diretor da Agar Brasileiro, Jun Setoguchi. Segundo ele, a coleta da Hypnea, no litoral do Ceará e Rio Grande do Norte, realizada por pescadores, não pode ser feita incessantemente, sob o risco de haver desequilíbrio e escassez. “Mas a alga também tem a vantagem de ser reposta naturalmente de forma rápida”, diz. Mesmo assim, afirma Setoguchi, a produção de carragenana refinada com essas algas brasileiras tem crescido: passou de 1 t/mês em 1999 para 10 t/mês atuais na unidade da Agar em João Pessoa. Suas vendas voltam-se para produtos lácteos e, dependendo do câmbio, seu preço torna-se mais atraente do que as importadas, o que não ocorre muito no momento, segundo o diretor.

Além da produção dessas carragenas, a Agar também está importando algas secas das Filipinas para produzir as semi-refinadas, em uma média também de 10 t/mês, e tentar competir com a outra produtora local, a Griffith, e distribuidores pequenos. Setoguchi considera esta uma arefa difícil. Não só porque o preço da Griffith é bastante baixo, mas também porque outros fornecedores pequenos importam com alíquota zero carragenanas da empresa Gelymar, do Chile, que possuía joint-venture com a Rhodia até esta ser adquirida pela Danisco neste ano. Esse mercado, voltado para fornecer aos produtores de embutidos, consome cerca de 100 t/mês de carragenatos. Apenas a Sadia, líder do ramo, responde por até 35% desse montante.

Tradicionalmente, a Agar Brasileiro produz o ágar-ágar, gelificante extraído das algas Gracilaria, também colhidas em bancos naturais por pescadores, e utilizado em doces, como goiabadas, geléias e marrons glacê. Trata-se, porém, de mercado estagnado na mesma produção de 8 t/mês, por ter matéria-prima limitada no Brasil, ser muito caro e aplicado somente em aplicações onde nenhum outro hidrocolóide pode ser usado. Uma pena, aliás, tendo em vista que a evolução da atividade poderia ser mais uma alternativa para gerar riqueza a populações carentes do nordeste brasileiro.

Química e Derivados: Aditivos: aditivos_grafico2. ©QD

Química e Derivados: Aditivos: aditivos_grafico1. ©QD

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