Aditivos alimentícios – Ultraprocessados provocam disputa

O mercado de alimentos e bebidas se vê às voltas com uma polêmica acerca dos produtos ultraprocessados.

Patrícia Jaime, vice-coordenadora científica do Nupens/USP, alega que a classificação surgiu após diversas análises sobre o consumo de alimentos e o estado de saúde da população brasileira ao longo do tempo.

Segundo ela, observou-se uma associação direta entre o aumento da prevalência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) como obesidade, diabetes e hipertensão com a maior ingestão de alimentos prontos e comidas rápidas (ricos em açúcar, sal e gordura saturada).

“Há uma série de evidências científicas que apontam para o potencial nocivo dos alimentos ultraprocessados na saúde humana”, afirma Patrícia.

Diante dessa premissa, segundo o núcleo, não existe nem mesmo uma quantidade mínima de consumo de ultraprocessados que seja segura para a saúde.

Patrícia explica que o ultraprocessamento modifica a natureza do alimento, o que provoca a perda de benefícios do consumo de alimentos in natura ou minimamente processados.

Química e Derivados - Aditivos alimentícios - Ultraprocessados provocam disputa entre ministérios ©QD Foto: Divulgação
Patrícia: ultraprocessamento provoca perdas

“Ao comer abacaxi in natura, ingerimos seus nutrientes e compostos bioativos. Se o abacaxi estiver em calda (configurando um alimento processado), você ainda tem a ingestão dos nutrientes e compostos bioativos, apesar da adição de açúcar. Já quando você toma um suco em pó sabor abacaxi não existe mais matriz alimentar: existe cor e talvez sabor de abacaxi, o que é propiciado por uma série de aditivos químicos”, exemplifica.

O núcleo defende que o guia está em consonância com as evidências científicas produzidas até então, sendo que essas foram organizadas na publicação Alimentação e Saúde: a fundamentação científica do Guia Alimentar para a População Brasileira, assinada por quatro cientistas do Nupens/USP.

Até por esses motivos, segundo Monteiro, o documento teve uma grande aceitação da comunidade científica, por gestores públicos da área de alimentação e nutrição e pelo público em geral.

“Foi destaque na imprensa internacional e seu caráter inovador influenciou orientações alimentares de uma série de países, como França, Canadá e Israel”, reforça.



O outro lado – A Associação Brasi­leira da Indústria de Alimentos (Abia)

 

A Associação Brasi­leira da Indústria de Alimentos (Abia) encara a revisão do guia como um aprimoramento contínuo em benefício da população.

Segundo a entidade, não há alimento “bom” ou “ruim” e o conceito de alimentação saudável está atrelado ao equilíbrio na dieta do consumidor. Ou seja, todos os produtos alimentícios – caseiros ou industrializados – podem ter alta ou baixa densidade de nutrientes.

Apesar de reconhecer a importância do guia e seus pontos positivos, a associação declara que o seu conteúdo não está em conformidade com o empregado por órgãos internacionais competentes em relação às diretrizes alimentares para reduzir o risco de doenças crônicas não transmissíveis.

Para sustentar sua opinião, a associação divulgou estudo do Comitê Científico da Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição (AESAN-2020), segundo o qual “está demonstrado que o grau e tipo de processamento e o número de ingredientes presentes em alimentos definidos como ultraprocessados não se correlacionam com sua qualidade nutricional”.

O Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, dá respaldo ao parecer da Abia.

Química e Derivados - Aditivos alimentícios - Ultraprocessados provocam disputa entre ministérios ©QD Foto: Divulgação
Luiz Madi: classificação Nova não tem embasamento científico

“A classificação Nova criada não tem embasamento científico”, enfatiza Luis Madi, diretor de Assuntos Institucionais do Ital.

Na verdade, o instituto nem ao menos concorda com o termo ultraprocessado.

 

Segundo Madi, não existe esta categoria de alimentos, pois a ciência e a tecnologia de alimentos determinam que o processamento é uma modificação do produto natural, adequando-o para o consumo, de forma que tenha uma vida de prateleira mais longa e valor nutricional, portanto, alimentos que passam por processamento são denominados alimentos processados.

Sendo assim, se o processamento foi mínimo, o alimento é considerado minimamente processado.

“Vale lembrar que há uma série de alimentos processados aditivados que são fortificados com nutrientes, por exemplo, o que auxilia o consumidor a nutrir-se adequadamente”, afirma.

Mariana Ciribelli, engenheira de alimentos e coordenadora do Segmento Alimentício da Nicrom, reitera esse posicionamento.

Para ela, do ponto de vista técnico, o prefixo “ultra” é utilizado para referenciar a intensidade de um tratamento empregado, e não indica qualidade inferior.

Química e Derivados - Aditivos alimentícios - Ultraprocessados provocam disputa entre ministérios ©QD Foto: Divulgação
Mariana: aditivação contribui com a segurança dos alimentos

“O guia alimentar classifica os alimentos utilizando definições que não encontram respaldo do ponto de vista tecnológico, o que além de ser incoerente, conflita diretamente com as autoridades regulatórias que aprovam os alimentos industrializados para consumo”, diz.

O Ital explica que os alimentos processados são modificados do seu estado original por meio de uma grande variedade de tipos e etapas de processamento como pasteurização, esterilização, congelamento, desidratação e altas pressões, entre outros, de modo que são as características de cada produto que se deseja processar que definem o método ou os métodos de processamento.

Mariana argumenta que a indústria dispõe de algumas alternativas no processamento e desenvolve novas tecnologias que visam à minimização de perdas nutricionais dos alimentos, como a aplicação de alta pressão hidrostática, que conserva os alimentos e mantém as características nutricionais e sensoriais, o envase asséptico a frio e a liofilização.

Vale dizer que há, aliás, processamentos que melhoram a qualidade dos produtos alimentícios. Alguns deles, por exemplo, tornaram possível o cumprimento de acordos do governo com a indústria de alimentos para a retirada de gordura trans e a redução de sódio e açúcar.

Mas, voltando ao guia, segundo Madi, apesar de conter acertos, o guia falhou por não envolver especialistas que entendem de processamento e tecnologia de alimentos na sua criação. Mariana concorda.

Para ela, a publicação foi elaborada sem consultar engenheiros e cientistas da área. “Falar de alimentos industrializados sem participá-los é uma grande incoerência, visto que estes profissionais detêm de conhecimento e técnica acerca do processamento de alimentos e de sua tecnologia”, endossa.

Química e Derivados - Aditivos alimentícios - Ultraprocessados provocam disputa entre ministérios ©QD Foto: Divulgação

Madi comenta que da forma como o guia está escrito pode-se criar um mito de que determinados produtos não são adequados para consumo, o que seria um erro, pois há vários ‘ultraprocessados’ excelentes do ponto de vista nutricional.

Os iogurtes, por exemplo, ilustram essa ideia, pois são fontes de proteínas e cálcio entre outros nutrientes, porém, segundo a orientação do guia, não devem ser consumidos.

O Ital realizou um estudo com o qual comparou 70 tipos de pães industrializados (mais conhecidos como pães de forma) com pães de padaria e os feitos em casa.

A comparação verificou que a maior parte dos industrializados apresenta menos sódio e calorias, e mais fibras. Até por isso, o instituto orienta o consumidor a não definir suas escolhas baseando-se no fato de o alimento ser processado ou não.

A recomendação do Ital também é de não rechaçar produtos aditivados, pois eles não causam mal à saúde e só são aprovados para uso pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Ministério da Saúde, para fins específicos, se demonstradas sua eficácia e segurança. Mariana ressalta que os aditivos são regulamentados por agências internacionais e nacionais, com controles rigorosos sobre sua inocuidade.

Outra falha do guia, segundo o Ital, refere-se ao seu caráter genérico e ao fato de não apresentar em seu texto quanto se deve consumir e quais são os alimentos mais importantes, relacionando-os aos nutrientes.

“Da forma como orientam não consumir determinados alimentos por não serem bons para a saúde, se a população seguir à risca deixará de ter vários nutrientes importantes para o seu organismo”, critica Madi.

Segundo ele, a definição é vaga, pois uma hora o alimento é considerado ultraprocessado pelo tipo de processamento; outra hora é pelo número de ingredientes ou pelo nome complicado do ingrediente.

“Também são mencionados altos teores de sódio, açúcar e gordura como critério de classificação”, completa.

E por falar em excessos, os hábitos alimentares da população também devem ser considerados na análise sobre a saudabilidade dos alimentos.

O Ital aponta que 75% do consumo do sódio e do açúcar ingeridos pelo brasileiro vêm da adição pelo próprio consumidor, portanto, a princípio, 25% são dos produtos industrializados.

Outra questão a ser considerada é a realidade brasileira. O guia traz o que chama de regra de ouro, segundo a qual o consumidor deve sempre preferir alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados.

Madi observa que quando se recomenda a ingestão de frutas, verduras e legumes com frequência, é preciso lembrar o custo do quilo. “Fala-se: ‘você não deve consumir néctar, você tem que consumir suco integral’, e precisa ser levado em consideração a diferença de preço para o suco integral.

Nesse caso, o néctar tem uma série de nutrientes importantes como sais minerais e vitaminas em menor quantidade do que no suco integral, mas é melhor consumir o néctar do que não consumir nada”, pontua.

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