Adesivos – Mercado prefere produtos sem aromáticos e os de base aquosa

química e derivados, adesivosO mercado nacional de colas, adesivos e selantes dá sinais claros de evolução, tanto em termos comerciais como tecnológicos. No primeiro caso, segundo estatísticas da comissão de adesivos e selantes da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), as evidências são grandes: nos últimos cinco anos, o setor cresceu em faturamento por volta de 90%, gerando receita em 2011 de US$ 1,5 bilhão, com um volume de vendas que totalizou 400 mil toneladas. Na dianteira do crescimento, o maior uso nas indústrias da construção civil, de calçados e automotiva puxou a demanda do mercado, de certa forma acompanhando a então boa fase da economia nos últimos cinco anos (que não se repete neste ano), incrementada por novos usos nessas indústrias.

Já em tecnologia, é unanimidade, também comprovada por estatísticas da Abiquim, que o setor passa por mudança para melhor, em direção a soluções mais amigáveis ao meio ambiente e ao ser humano. No caso, a ascensão do consumo de adesivos de base água ou do uso dos chamados solventes “verdes”, menos agressivos e tóxicos, embasa a constatação.

De acordo com os dados da Abiquim, divulgados em primeira mão pelo coordenador da comissão de adesivos e solventes, José Duarte Paes, a mudança é percebida por meio de levantamento realizado pela associação, o qual revela aumento de consumo da tecnologia base água em contraponto à queda nas de base solvente. “Em 2006, 27% dos adesivos eram com solvente, em 2011 caíram para 17%. Os de base água representavam 46% e agora subiram para 57%”, afirmou o coordenador, também gerente de manufatura e desenvolvimento da fabricante de adesivos Lord. Ainda em 2011, os hot-melts somaram 6,5%; selantes, 16%; e outros tipos, 3,5% (epóxis, acrílicos, bicomponentes).

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    Adesivos, Química e Derivados, José Duarte Paes, Coordenador da comissão de adesivos e solventes, Abquim
    Duarte: é clara a preferência pelos produtos de base água

    “Fica clara a diminuição do uso de solventes e a busca por novas alternativas, como a substituição de ftalatos como plastificantes e a troca de catalisadores com metais pesados por outras químicas mais seguras”, disse Duarte. Nessa vertente, aliás, uma substituição com potencial crescente é a troca de solventes com tolueno em adesivos de contato de varejo para sapatos ou madeira, principalmente para inibir seu uso como inalante entorpecente nas chamadas “colas de sapateiro”. A preocupação com o uso indiscriminado e perigoso à saúde, a maior parte das vezes por menores abandonados, fez a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) criar a Resolução RDC 345, de dezembro de 2005, a partir da qual apenas maiores de idade, com apresentação de carteira de identidade e preenchimento de guia, podem adquirir as colas.

    Solventes “sem barato” – Embora com a resolução da Anvisa tenha havido um pouco mais de controle, a verdade é que a medida parece não ter sido muito eficaz. Tanto foi assim que as colas ainda são a terceira droga mais utilizada no Brasil. E isso por um motivo capital: não é difícil imaginar que muitos menores se utilizem de terceiros para comprar as colas, criando um mercado paralelo, ou que muitos apresentem documentos falsos de identidade para a aquisição. A simples existência deles nas prateleiras de lojas já cria a tentação e a possibilidade de uso irregular e maléfico a crianças e adolescentes espalhados pelas cidades.

    Essa constatação está fazendo a Anvisa rever sua posição e é muito provável que em breve os solventes com tolueno (toluol) sejam banidos definitivamente dos adesivos. Foi criado um grupo de trabalho e há informações sérias no mercado de que o desejo da agência é o de seguir o caminho de países europeus, como a Alemanha, que proíbe esses solventes em produtos de varejo e só os permite para uso industrial, ou até mesmo de lugares mais próximos, como o Chile, que também adotou a proibição. No Brasil, apenas algumas empresas mais preocupadas, como a Henkel, efetuaram a mudança total para seus adesivos de contato.

    O banimento dos solventes com tolueno abriria ainda mais o campo para os solventes não-agressivos ao sistema nervoso central, ou seja, para aqueles que “não dão barato” para os drogados e nem causam problemas em trabalhadores sob exposição. As alternativas mais utilizadas aos aromáticos são o acetato de etila, a acetona e o MEK (metil-etil-cetona), normalmente em combinações entre si. E há ainda outros como o acetato de sec-butila e os acetatos de isopentila, isopentanol e isobutanol (obtidos com a fermentação de açúcares) e álcoois graxos etoxilados.

    Química e Derivados, Adesivos, Diretor global da unidade de negócios solventes da Rhodia, Antonio Leite
    Leite: substitutos do aromático dispensam mexer na formulação

    A francesa Rhodia é uma das principais e mais envolvidas fornecedoras desses solventes, por, entre outros motivos, ter fábrica em Paulínia com capacidade para 150 mil t/ano de acetato de etila e 150 mil t/ano de acetona e por também ter alternativas ao MEK (um blend de solventes denominado MEKplus). De acordo com o diretor global da unidade de negócios solventes da Rhodia, Antonio Leite, a modificação das formulações não pode sequer ser chamada de mudança tecnológica. “É simplesmente trocar um por outro, com exatamente a mesma eficácia, e com apenas menos de 1% de diferença no custo total do adesivo e, melhor ainda, sem o problema de provocar adicção e afetar o sistema nervoso central”, explicou Leite.

    Por esse motivo, Leite não vê sentido para o Brasil ainda não ter adotado o banimento desses solventes dos produtos de consumo. Na sua opinião, o problema no país é o fato de os envolvidos na questão terem colocado todos os adesivos sob uma mesma perspectiva, tanto os de uso industrial como os de varejo. “Na indústria você pode até aceitar a utilização, mediante o uso em ambiente controlado e com os corretos EPIs (equipamentos de proteção individual). Agora os produtos de varejo, além de serem empregados por viciados, também afetam aqueles que os utilizam com o propósito correto, pois nenhum sapateiro ou marceneiro vai usar máscara e ter exaustão adequada em seu espaço de trabalho”, explicou.

    Colocar sob a mesma perspectiva de análise os dois usos, para defender ou não o seu banimento, para o diretor da Rhodia. retardou uma medida que já deveria ter sido adotada, em virtude do grande problema social que ocasiona. Mas, segundo ele, a Anvisa já sinalizou firme para as empresas que pretende banir os solventes de tolueno dos adesivos de contato vendidos no varejo. “A informação é a de que a Anvisa chegou à conclusão de que a RDC 345 não surtiu o efeito desejado e caminha para a proibição, seguindo o que ocorre na Europa, onde eles são apenas utilizados pela indústria, com o uso de EPIs”, afirmou.

    Apesar de seu uso controlado na indústria ser aceitável, Antonio Leite lembra que há casos já no Brasil de indústrias calçadistas e moveleiras que baniram os solventes aromáticos de suas linhas de produção. “Eles querem se precaver de possíveis ações trabalhistas”, disse. Mas mesmo assim o fundamental para ele é a mudança nos adesivos de consumo, o que precisa ser feito por iniciativa ou de uma lei, o que está prestes a ocorrer, ou pela consciência dos fabricantes de adesivos. “É simples: o solvente, apesar de representar 80% do volume do adesivo, é apenas o meio do produto. E as tecnologias disponíveis fazem o mesmo”, reiterou. Bom lembrar que os adesivos de contato para esse mercado são formulados normalmente com resinas de policloropreno e poliuretânicas.

    Antecipados – A fabricante de adesivos Henkel, por seguir diretriz rígida da matriz alemã de conduta sustentável, tem papel pioneiro na adoção dos solventes ecológicos. “Desde 2009 abolimos o toluol da nossa linha de varejo”, disse o presidente da Henkel Mercosul, Julio Muñoz Kampff. E, segundo ele, a mudança não diminuiu em nada o desempenho da linha Cascola, pelo contrário, os adesivos passaram a ter cura mais rápida. “Fizemos um trabalho muito grande de treinamento, pelo qual mais de 40 mil marceneiros foram ensinados a usar os novos adesivos. E posso dizer que a aceitação foi muito positiva”, disse. Todo o trabalho de modificação das formulações foi feito com fornecedores locais, que encontraram as soluções ideais para cada item dos produtos Henkel.

    Adesivos, Química e Derivados, Presidente Henkel Mercosul, Julio Muñoz Kampff
    Kampff: sem tolueno, adesivos apresentam desempenho superior

    A iniciativa de se antecipar a possíveis proibições tem a ver com o compromisso global da Henkel de atingir metas sustentáveis, renovadas a cada cinco anos, que englobam não só indicadores internos – redução de consumo de água, energia e geração de resíduos – como na comercialização de produtos ecologicamente corretos. Além dos adesivos de contato sem toluol, em 2011 a empresa lançou um novo hot-melt estirênico denominado Dispomelt Cool, voltado para o mercado de higiênicos descartáveis (fraldas e absorventes), que pode trabalhar com temperaturas mais frias para sua fusão. “Ele economiza muita energia e adesivo e prolonga a vida útil dos equipamentos, menos desgastados com as temperaturas menores, exigindo também menos manutenção e reposição”, explicou Kampff.

    A postura da Henkel com relação às questões ambientais tem peso no mercado por ser ela hoje a líder mundial na área, o que se concretizou com a aquisição da National Starch. Sua receita global em 2011 foi de 15,6 bilhões de euros. A América Latina foi a região com o maior crescimento do grupo, de 11%, totalizando 1,065 bilhão, sendo 826 milhões de reais o faturamento brasileiro. O desempenho na região tem sido tão bem-visto pela matriz que um investimento de R$ 30 milhões foi aprovado para construir nova unidade de adesivos de poliuretano em sua fábrica de Jundiaí-SP, a entrar em operação no primeiro trimestre de 2013. “Esse aporte foi o segundo maior do grupo mundialmente, só perdendo para um realizado na China”, revelou o presidente.

    Mais verdes – O movimento verde parece mesmo dar o tom na indústria de adesivos. É difícil não encontrar, principalmente entre os grandes grupos fornecedores de matérias-primas para a área, discursos afiados para divulgar alternativas tecnológicas de baixo impacto ambiental. As soluções englobam não só o uso dos solventes menos agressivos ou dos hot-melts (sem solventes), mas também formulações base água e até novos polímeros com características alteradas quimicamente.

    Nesse último caso, chama a atenção um recente lançamento da alemã Wacker. Especializada em selantes de base silano (silicones), trata-se de um novo sistema híbrido com silanos especiais para polímeros orgânicos e silicones para promover a propriedade de adesão de cura rápida. A tecnologia é baseada nos chamados alfa-silanos, obtidos por meio de um processo de polimerização pelo qual o propileno, normalmente empregado pela maioria dos silanos como espaçador entre o átomo de silício e o grupo funcional do selante, foi substituído por uma ponte de metileno. Daí resultam os alfa-silanos, caracterizados por uma reatividade extremamente elevada, em virtude da ativação das funções alcoxi no átomo de silício pela proximidade de um doador eletronegativo como o nitrogênio ou o oxigênio na posição alfa relativa ao átomo de silício. Esses polímeros terminados em silano (STPE) hidrolisam mais rápido em caso de entrada de água e assim podem atuar como selantes ou adesivos, não apenas como sequestrantes de água, mas como reticuladores rápidos.

    “Com o auxílio do efeito alfa é possível produzir adesivos de reticulação rápida, com velocidade comparada às supercolas comuns“, disse o gerente de negócios da Wacker, Paulo Suhorebri. A base dos polímeros são normalmente os propilenoglicóis, nos quais são integrados os grupos silanos reticuláveis por meio da reação com isocianatossilanos altamente reativos, gerando o alfa-isocianatodimetoximetilsilano.

    Química e Derivados, Adesivos, Gerente de negócios da Wacker, Paulo Suhorebri / gerente de vendas da empresa, Camila Dietrich - Da marca Geniosil
    Suhorebri e Camila: sistemas híbridos têm cura rápida

    “Graças ao processo de produção patenteado pela Wacker, com o auxílio dos STPEs é possível formular adesivos monocomponentes com cura rápida e com boas propriedades mecânicas e elásticas, nunca antes alcançadas com os antigos polímeros modificados com silanos”, disse a gerente de vendas da empresa, Camila Dietrich. De marca Geniosil, os polímeros terminados em alfa-silanos são mais amigáveis para o meio ambiente porque não empregam os cancerígenos isocianatos, como o concorrente poliuretano, por não precisarem de ftalatos para plastificação, não usarem catalisador de estanho como híbridos antigos de PP e por não usarem solventes. “Isso sem falar de suas vantagens técnicas: ele não tem o chamado tack (pega de sujeira) normal dos silicones, pode ser pintado e tem cura rápida, de 15 a 30 minutos, período no qual o substrato pode ser mexido para ajustar a colagem”, disse Camila. Bom ressaltar que a tecnologia tem não só na construção civil seu público-alvo, mas também o setor automotivo, moveleiro, naval, entre outros.

    A Wacker pode fornecer os adesivos e selantes já preparados para o cliente com os alfa-silanos para apenas envasá-los ou então fornecê-los como base para novas formulações. No primeiro caso, a linha contempla o Geniosil N25 e N35, selantes altamente elásticos, o adesivo multiuso elástico Geniosil N45 e os adesivos de alta resistência e sem plastificantes N70. Também há opções especiais como o produto híbrido adesivo e selante cristalino N35C (que pode ser usado em vidros sem deixar marcas e o adesivo resistente à alta temperatura N550. Lançado há cerca de dois anos na Alemanha, o produto foi efetivamente introduzido no Brasil no final de 2011. “Estamos com vários projetos em andamento”, revelou Suhorebri.

    química e derivados, adesivos, Gerente global de produto da unidade de negócios de emulsões, Pablo Cadavid - Clariant
    Cadavid: PVA reticulável cola madeira com alta resistência

    Base água – Outro exemplo de empresa envolvida com fornecimentos de opções mais verdes para o mercado de adesivos é a suíça Clariant. No seu caso, aliás, a opção é mais radical: seu foco é fornecer ao mercado apenas emulsões base água acrílicas, vinílicas e terpolímeros (vinil-acrílicos, estireno vinil-acrílicos). “Lá fora há mais tempo, e no Brasil a partir de 2005, resolvemos abastecer o mercado de adesivos somente com tecnologias que usam o solvente mais amigável e inofensivo de todos: a água”, afirmou o gerente global de produto da unidade de negócios de emulsões, Pablo Cadavid. De acordo com ele, os mercados de papel e embalagem, construção civil e moveleiro são os principais consumidores das alternativas.

    Segundo Cadavid, os esforços de pesquisa da empresa estão voltados para consolidar e expandir a tecnologia base água ao máximo de aplicações. Exemplo foi o recente lançamento do Mowicoll 1 K, um adesivo à base de dispersão aquosa de poliacetato de vinila reticulável. Como diferencial, trata-se do primeiro dessa versão para madeira com formulação monocomponente. Ele atende à norma europeia DIN EN 204, a chamada D4, com resistência à água em aplicações em madeira.

    Química e Derivados, Adesivos, Gisela Barona, Gerente de marketing da Clariant
    Gisela: polimerização core-shell confere propriedades distintas

    Indicado para madeira compensada e laminação a quente, o adesivo apresenta rápido desenvolvimento de resistência, atingindo valores acima de 10 N/m2, a temperatura ambiente, e de 6 N/m2, a 80ºC, obtendo estabilidade térmica superior aos adesivos de poliacetato de vinila convencionais. “Além disso, por ser monocomponente, não precisa de catalisador de isocianato e torna o manuseio e a limpeza muito mais fáceis”, disse o gerente.

    Segundo a gerente de marketing da Clariant, Gisela Barona, o produto foi obtido graças à tecnologia de polimerização dupla core-shell, que gera em suma dois polímeros em um só, com tamanhos de partículas diferentes entre 60 nm até 240 nm. “As cadeias poliméricas distintas dentro do adesivo têm funções distintas de penetração, adesão e hidrofobia. Podemos com a tecnologia criar grades diferentes, com mais de uma característica e menos de outra, conforme a necessidade da aplicação”, explicou Gisela. “Uma propriedade pode ficar na parte externa e outra na interna do adesivo”, complementou.

    Adesivos – Metalocenos melhoram Hot-Melt

    Fornecedora de adesivos com forte penetração nos setores calçadista e moveleiro e, ultimamente, com novos investimentos, nas áreas de papel e embalagem, transportes e construção civil, a gaúcha Artecola buscou na internacionalização a fórmula para crescer. De acordo com o diretor comercial da empresa, Sérgio Smidt, a Artecola, em 1997, abriu a primeira filial na Argentina, na época uma distribuidora de produtos exportados do Brasil, e hoje conta com plantas em cinco países: Argentina, Chile, Peru, Colômbia e México, além de suas unidades nacionais no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Bahia.

    Além da internacionalização, porém, outra estratégia foi investir em inovação, com desenvolvimentos próprios e em parcerias com institutos de pesquisa. Fazem parte desse rol de parceiros o Senai-RS, as universidades federais de São Carlos-SP, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Dentro dessa política, vale também mencionar as parcerias com empresas internacionais, como a francesa Protechnic, na área de adesivos com a tecnologia dos termofilmes, utilizados na indústria de papel e embalagem.

    São frutos da parceria com os franceses: o adesivo hot-melt metaloceno, que permite alto poder de adesão com menor utilização de matéria-prima e aplicado em menor temperatura (menos gasto de energia e desgaste dos equipamentos); e ainda, os hot-melts com poliuretanos reativos, 100% sólidos; e os adesivos aquosos monocomponentes, feitos com nanotecnologia, que eliminam a necessidade de uso do reticulante de isocianato, substância na categoria de químicos perigosos.

    No varejo, a Artecola atua com a marca Afix, que compõe um portfólio de adesivos e selantes para a construção civil e o setor moveleiro. Desde 2011, foram lançados mais de 20 produtos nessa linha, entre eles adesivo epóxi líquido, adesivo instantâneo, impermeabilizante, silicones, selantes, entre outros.

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    2 Comentários

    1. Tomara que a Anvisa realmente obrigue as empresas a abolirem de vez os solventes entorpecentes das colas de sapateiros. É um absurdo que ainda não o tenham feito. Parabéns pela reportagem.

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