Química

Adesivos: Base água ganha espaço no mercado de calçados e madeiras

Marcelo Furtado
24 de março de 2003
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    Entra o policloropreno – Os adesivos aquosos de PU saíram na frente na tendência de substituição e devem manter esse ritmo por muito tempo. Isso se deve em primeiro lugar ao fato de o poliuretano, mesmo quando ainda formulado apenas com solvente, ter conquistado a confiança dos fabricantes de calçados na colagem de solados, substituindo os adesivos de contato de borracha de policloropreno (CR). Trata-se de um adesivo eficiente e universal (cola vários materiais) e que responde hoje por cerca de 95% dessas aplicações. Em segundo lugar, quando se comparam as taxas de crescimento mundial das duas tecnologias de PU, toma-se conhecimento que os aquosos crescem a uma média anual de 12%, contra 2,4% do solvente.

    Química e Derivados: Adesivos: adesivos04.Mas o futuro para as formulações aquosas de CR também é animador. No próprio mercado calçadista, embora tenha perdido terreno na colagem de solados para o PU, ele ainda é predominante na adesão dos outros componentes do sapato. Isso sem falar que os sapateiros não têm como utilizar o poliuretano por se tratar de processo com demanda de reativação térmica. No mercado varejista a única opção é o adesivo base borracha.

    Química e Derivados: Adesivos: Vera - aquosos são melhores para colar folhas de madeira.

    Vera – aquosos são melhores para colar folhas de madeira.

    Aliás, os CR aquosos têm especial importância por serem uma alternativa para evitar o uso dessas colas como entorpecentes. As colas base solvente vendidas indiscriminadamente, apesar de existirem algumas restrições legais, utilizam tolueno ou n-hexano, aromáticos apropriados para o uso indevido. Não é à toa que empresas de adesivos como Killing, Artecola e grupo Amazonas já possuem formulações base água. A própria Una também lançou no final de 2002 uma versão de sua linha Unagreen de CR aquoso, para calçados e laminados de madeira, cuja aceitação foi rápida: cerca de 20 empresas calçadistas já a utilizam e cerca de 3 t/mês do produto são comercializadas.

    Um desenvolvimento de repercussão de CR aquoso, porém, ocorreu no mercado moveleiro e de madeira. A líder no fornecimento de adesivos para esses setores, a Alba, com fábrica em Boituva-SP e pertencente ao grupo americano Borden, lançou em fevereiro de 2002 no Brasil uma versão base água da tradicional Cascola. Fruto de oito anos de pesquisas, trata-se de um primeiro grade de uma linha de produtos base água que a Alba pretende colocar no mercado nos próximos anos.

    A primeira versão se destina à colagem de folhas de rádica e de lâminas de madeiras (imbuia e marfim, por exemplo) sobre compensados e, principalmente, sobre painéis de MDF (medium density fiberboard), chapas de madeira de alta resistência mecânica feita com cavacos de pinus ou eucalipto e resina de uréia-formaldeído. O projeto teve o mérito, segundo a gerente de assessoria e serviços técnicos da Alba, a química Vera Niida, de atender tanto as aspirações de caráter sócio-ambiental da empresa como as puramente técnicas. “Para essas aplicações em específico, os adesivos de contato aquosos são superiores tecnicamente aos de solvente”, afirma Vera, ela própria a coordenadora da pesquisa inteiramente nacional (a Borden só vende produtos ao varejo no Brasil, via Alba).

    A superioridade do Cascola base água se explica pela estrutura química da madeira. Por serem orgânicas, as folhas do revestimento são hidratadas pelo adesivo, tornando-se maleáveis e moldando-se melhor aos painéis ou compensados. Isso não ocorre com os adesivos base solvente. A agressividade dos solventes, em alguns substratos até considerada uma vantagem por servir de preparo para a colagem, nesses casos trazem problemas de rachaduras nos revestimentos. Além disso, por serem aplicados com espátulas, os adesivos de solvente danificavam o material. Já os base água são empregados com pincel e em pequenas camadas.

    Química e Derivados: Adesivos: Cleide - treinamento de mais de 5 mil usuários no Brasil.

    Cleide – treinamento de mais de 5 mil usuários no Brasil.

    Em especial nas colagens de folhas de rádica, a nova cola tem uma vantagem extra. Isso porque esses revestimentos, muito em voga na marcenaria, são muito caros. Trata-se de folhas feitas com raízes de madeira sob alta pressão, importadas da Itália, e que chegam a custar R$ 500 o metro quadrado. “O marceneiro não pode correr o risco de estragar um produto caro”, ponderou a gerente Vera Niida.

    Para ela, os riscos operacionais usando as colas base água diminuem ainda por outros fatores. O tempo em aberto desses adesivos, período em que depois da secagem do produto aplicado ainda se pode colar os substratos, é bem maior do que os convencionais de solvente: da ordem de 3 horas, contra 40 minutos. Isso amplia o período de trabalho para o marceneiro. Já o tempo de secagem, aquele anterior e obrigatório para se aguardar o momento de colagem dos adesivos de contato, é quase o mesmo nas duas tecnologias. O base água aguarda cerca de 20 a 30 minutos (sob umidade menor que 55% e temperatura acima de 22ºC), contra uma média de 20 minutos dos de solvente. Sob tempo úmido e chuvoso, porém, no base água a Alba recomenda aguardar até uma hora de secagem ou evitar o serviço. “Não existe boa colagem abaixo de 15ºC”, afirmou Vera Niida.

    Esses detalhes técnicos do produto, embora não sejam muito complicados, precisaram ser encarados seriamente no plano de marketing e de divulgação nacional da nova Cascola. Desde que foi lançada, já foram realizados mais de 350 treinamentos no Brasil, atendendo cerca de 5 mil pessoas, entre marceneiros, lojistas e fabricantes de móveis. “Esse treinamento, que manteremos como prioridade, foi fundamental para firmar o produto no mercado”, ressalta a supervisora de assistência técnica da Alba, Cleide Fornereto. O motivo foi o de sempre: os marceneiros estavam acostumados com o produto base solvente, de cheiro forte e viscoso. “Precisamos redobrar os esforços didáticos, porque a mão-de-obra nessa área não é de nível cultural muito elevado”, completou Cleide.



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