Acrílico – Complexo da Basf inicia produção e estimula a cadeia produtiva

Química e Derivados, Vista aérea do complexo da Basf, com destaque para as unidades de ácido acrílico (A), acrilato de butila (B) e polímeros superabsorventes (C)
Vista aérea do complexo da Basf, com destaque para as unidades de ácido acrílico (A), acrilato de butila (B) e polímeros superabsorventes (C)

Destaque para Ácido Acrílico – Não é todo dia que se inaugura uma fábrica química de 500 milhões de euros (R$ 2 bilhões, aproximadamente) no Brasil. Aliás, não é todo ano, nem toda década. Há muitos anos o setor químico nacional não recebe um investimento do vulto do complexo de produção de ácido acrílico, polímeros superabsorventes e acrilatos inaugurado oficialmente pela Basf em Camaçari-BA, no dia 19 de junho.

Química e Derivados, Goerck: produção de Camaçari é competitiva em escala global
Goerck: produção de Camaçari é competitiva em escala global

Proeza tão rara mereceu cerimônia concorrida, com a presença dos titulares dos poderes executivos municipal, estadual e até da república, acompanhados de todo o aparato de segurança requerido. O conjunto fabril, em operação efetiva desde janeiro deste ano, sobreviveu incólume aos modorrentos discursos oficiais. Ponto para os executivos da companhia que falaram pouco e bem, enfatizando a relevância desse projeto.

“O investimento que fizemos na Bahia é o maior já realizado pela Basf em toda a América do Sul”, disse Ralph Schweens, presidente da companhia na região.

Desataca-se na bela instalação da Basf em Camaçari o aspecto visual imponente e notavelmente prático: todas as tubulações e os equipamentos operacionais foram providos de competente isolamento térmico. O desenho das plantas, a tecnologia adotada e a preocupação com a eficiência térmica permitem operar com excelente aproveitamento energético. Sendo a produção do ácido acrílico exotérmica, as providências adotadas tornam o conjunto autossuficiente em calor, com excedente de vapor enviado para a Braskem, sua fornecedora de propeno grau químico, que gera eletricidade com esse recurso.

“Desde 2000, a Basf vem reduzindo continuamente seu consumo de água e de energia nas suas fábricas em todo o mundo, atitude decorrente de sua política de sustentabilidade global.

Nas unidades brasileiras, o consumo de água caiu 53% desde então e o de eletricidade, 17%”, comentou Rui Goerck, vice-presidente sênior da área de produtos químicos e de performance para a América do Sul.

Química e Derivados, Importações de sap
Importações de sap

Conjunto verbund – Famosa por se manter fiel ao conceito de produção integrada – verbund, em alemão –, a maior indústria química do mundo aplicou essa diretriz na fábrica inaugurada em Camaçari. O propeno grau químico, com aproximadamente 94% de pureza, produzido pela unidade de insumos básicos de Camaçari da Braskem, chega à Basf por duto exclusivo, alimentando o reator de produção de ácido acrílico, capaz de gerar 160 mil t/ano. A tecnologia empregada é da própria companhia, considerada a mais avançada no momento.

Esse reator é o equipamento mais crítico do processo, pois as reações de oxidação de propeno a acroleína e desta para o ácido são exotérmicas, exigindo o controle perfeito da temperatura interna para manter a eficiência e proteger o catalisador. O equipamento também precisa impedir qualquer vazamento, lembrando que o ácido acrílico é altamente reativo e inflamável.

O produto emergente do reator passa por um sistema de separação e purificação, este concentrado na coluna de 64 metros de comprimento e 480 t – cujo transporte do porto de Aratu-BA até o local de instalação representou a maior operação logística já realizada na Bahia – dando origem ao ácido glacial (99,9% de pureza), usado para a produção dos derivados. O total importado de ácido acrílico em 2014 chegou a 55 mil t, no valor de US$ 87 milhões, como aponta a Secex, órgão do Ministério do Desenvolvimento da Indústria e do Comércio Exterior (Mdic).

Química e Derivados, Importações de ácido acrílicoA companhia não informou (para defesa de seus interesses comerciais) o destino exato do ácido gerado. Sabe-se que ele alimenta duas linhas distintas e integradas de produção, iniciadas simultaneamente. A produção de polímero superabsorvente (SAP), tecnicamente um poliacrilato de sódio (resultante da neutralização parcial do ácido com soda caústica e posterior polimerização), ocupa um prédio muito alto, com paredes brancas sem janelas ou aberturas visíveis. A grande caixa branca se explica pelo fato de o SAP ter seu maior uso comercial na confecção de artigos de higiene pessoal, como fraldas, fraldões e absorventes íntimos, que devem seguir normas sanitárias rígidas, entre elas o controle de partículas no ambiente fabril. Da polimerização e acabamento, o SAP segue para silos especialmente construídos.

“O SAP tem a capacidade de absorver uma quantidade de água até 40 vezes superior ao seu peso, com isso, uma fralda carrega em média 8 g do polímero, que forma um gel estável quando entra em contato com líquidos, a exemplo da urina”, explicou Goerck.

A produção do SAP consumirá a maior parte do ácido acrílico produzido no site. O polímero também encontra uso na agricultura, como armazenador de umidade no solo, e na produção de um não-tecido capaz de reter a umidade longe do corpo. Segundo Goerck, o mercado brasileiro deverá absorver entre 70% e 80% da produção local do superabsorvente. Dados da Secex, do Ministério do Desenvovlimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), apontam a importação de quase 89 mil t de SAP em 2014, no valor de US$ 186 milhões (FOB).

Bem ao lado da fábrica do ácido acrílico, ergue-se a instalação dedicada à produção de acrilato de butila. Tal qual as unidades anteriores, conta com tecnologia da própria Basf, que já produz o éster desde 2001 em Guaratinguetá-SP, porém com ácido acrílico importado. “Passamos a produzir o acrilato de butila em Camaçari com o dobro da capacidade que tínhamos antes e deixamos a instalação paulista para a produção de outros ésteres, como o acrilato de 2-etilexila, produto muito interessante para preparar resinas especiais para tintas”, comentou Goerck.

Também com base nos dados da Secex, 20 mil t de acrilato de butila foram importadas pelo Brasil em 2014, no valor de US$ 38 milhões. A entrada da produção local de acrilato de butila da Basf em Guaratinguetá, em 2001, representou uma forte reversão de tendência comercial. Em 2000, a Secex registrou a importação de 41,7 mil t do acrilato, no valor total de US$ 34,1 milhões, quantidade reduzida praticamente pela metade nos anos seguintes.

A Basf espera com a produção local desses produtos, causar um impacto positivo na balança comercial do país da ordem de US$ 300 milhões por ano, dos quais US$ 200 milhões em redução de importações e US$ 100 milhões em exportações adicionais.

Segundo Goerck, cerca da metade da produção total de ácido acrílico de Camaçari será consumida pela própria companhia, em suas linhas de produção. No caso do SAP, as exportações devem atender a demanda de países vizinhos, principalmente da Argentina. A Basf já responde pelo suprimento de 45% a 50% do mercado local de acrilato de butila, usado em tintas, adesivos, revestimento de papéis, entre outros.

Química e Derivados, Importações de acrilato de butilaSegundo Goerck, as unidades de Camaçari contam com suprimento de propeno garantido por contrato de longo prazo com a Braskem, com preço definido em parâmetros internacionais. “Nossos acrilatos são competitivos em relação aos concorrentes internacionais, salientando que o mercado global atualmente apresenta excesso de capacidade instalada nesse item, mas esperamos ter vantagens logísticas em relação à concorrência”, afirmou. “As importações são livres, não se pode falar em monopólio ou práticas monopolistas.”

Desde o anúncio do investimento, em 2011, vários grandes clientes se aproximaram da instalação da Basf. “A SNF vai fabricar polímeros acrílicos para tratamento de água na Bahia, e a Kimberly-Clark montou uma grande fábrica de produtos de higiene na região”, comentou.

As alíquotas do imposto de importação do ácido acrílico e do acrilato de butila são, respectivamente, 2% e 12%. No caso do éster, foi concedido um direito de proteção antidumping pelos próximos cinco anos, impondo um adicional por kg de produto importado, porém com valor diferente para cada produtor internacional punido pela Camex.

Até o momento, a Basf não ingressou com nenhum pedido de majoração de alíquota para nenhuma das três linhas de produtos que nacionalizou. Clientes ouvidos manifestaram alguma preocupação com essa possibilidade. Alguns a consideram remota, uma vez que o impacto seria imediato no preço das tintas, insumo de largo uso popular, com reflexo na inflação – uma obsessão atual do governo, que não a aceitaria facilmente. No entanto, várias pessoas ouvidas consideraram que, dada a magnitude do investimento, não seria descabida a adoção de medidas protetivas contra concorrentes oportunistas e predatórios.

De qualquer forma, a Basf precisa se concentrar em montar uma operação logística eficiente e de baixo custo, uma vez que o principal mercado consumidor de ácido acrílico glacial, SAP e acrilatos está no eixo São Paulo-Rio. Isso inclui o abastecimento da fábrica de acrilatos de Guaratinguetá. “Estamos usando a cabotagem, aproveitando o porto químico de Aratu-BA que está saturado, mas terá investimentos para ampliação”, comentou Goerck.

Também presente à cerimônia, Reinaldo Medrano, presidente da IMCD do Brasil, comemorou a entrada em operação do complexo acrílico de Camaçari. “Somos distribuidores exclusivos da Basf em todo o território nacional e a disponibilidade de produto de fabricação local é muito importante para que possamos atender um maior número de clientes e setores industriais consumidores de ácido acrílico glacial”, disse. A produção de resinas para tintas e adesivos é uma das prioridades de mercado, mas Medrano aponta boas possibilidades de negócios em outros segmentos, a exemplo dos domissanitários, produtos para acabamento de couros, entre outros.

A ampliação da produção de acrilatos foi recebida com satisfação pela Elekeiroz, fornecedora dos álcoois butílico e 2-etilexílico para a Basf. “Com ácido acrílico nacional teremos um mercado mais forte para os álcoois, especialmente do etilexílico, um produto de alta performance, mas ainda recente no país”, considerou Elder Martini, diretor industrial da empresa.

Química e Derivados, Heine: complexo da Bahia tem um “irmão gêmeo” na China
Heine: complexo da Bahia tem um “irmão gêmeo” na China

Mercado global – Em 2014 e 2015, a Basf inaugurou fábricas de ácido acrílico, SAP e acrilatos na China e no Brasil. “São unidades gêmeas, as mais modernas do mundo”, afirmou Alejandro Heine, vice-presidente da divisão de químicos industriais para a América do Sul.

Heine explicou que a companhia ainda não contava com produção estabelecida na Ásia e no América do Sul, ambas as regiões com forte potencial de crescimento de demanda. Esses investimentos foram feitos, portanto, dentro de uma visão estratégica de longo prazo.

“Atualmente, o mercado internacional de acrílicos está com superoferta, especialmente na Ásia e as condições econômicas no Brasil ficaram mais frágeis”, avaliou Heine. Com isso, as unidades brasileiras deverão ter excedentes exportáveis da ordem de 20% da produção em termos de equivalência de ácido acrílico. “Não podemos prever por quanto tempo haverá excedentes, pois isso dependerá do comportamento do mercado dos países emergentes, mas apostamos que a demanda mundial registrará crescimento durante os próximos cinco anos, pelo menos”, apontou.

Heine admite que o projeto de investimento no Brasil foi imaginado e decidido em outro contexto econômico. “Em 2010, o Brasil estava crescendo em ritmo chinês e tudo parecia indicar que não haveria mudanças”, afirmou. “Apesar da situação atual da economia, o mercado brasileiro ainda tem muito espaço para crescer, não estamos arrependidos”.

O executivo explicou que o domínio tecnológico da Basf sobre o processo produtivo empregado não se limita ao desenho dos equipamentos, mas também abrange todos os catalisadores envolvidos, tanto na obtenção do ácido, quanto na dos acrilatos e dos polímeros. “Estamos tranquilos quanto a isso”, disse. E a companhia mantém o ritmo de desenvolvimento tecnológico, também no sentido de buscar matérias-primas de origem natural renovável.

A inauguração do complexo acrílico de Camaçari merece toda a comemoração. Passados os festejos, porém, o setor químico ficará com uma pergunta amarga na boca: quando teremos um novo projeto dessa envergadura?

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Um Comentário

  1. Excelente! Espero contar com a ajuda do pioneirismo e filosofia de Sustentabilidade da Basf – para implantar laboratório/estação de produção de mudas de espécies florestais da Mata Atlântica, principalmente de árvores em extinção, produtoras de castanhas, frutos e madeiras para construção naval no Baixo Sul baiano.
    Meu celular: 71 98162-3485

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