Ácidos: Demanda Cresce e Incentiva Produção Local a Investir

Os fabricantes nacionais dos ácidos sulfúrico, clorídrico e nítrico preparam aumentos de capacidades para atender às crescentes necessidades de vários processos industriais.

Caso seja concretizado, esse incremento da oferta virá em boa hora, pois ao menos um deles, o ácido sulfúrico, tem hoje um equilíbrio muito justo de oferta e demanda, e é solicitado cada dia mais vorazmente pela indústria de fertilizantes agrícolas, já responsável por parte extremamente significativa de seu consumo.

Torna-se assim mais complexa a tarefa de quem necessita desse produto para outras finalidades, nas quais se incluem a metalurgia, as indústrias canavieiras, o próprio setor químico e a fabricação de celulose e papel, entre outras.

Há, obviamente, possibilidade de importação, já adotada de maneira significativa no caso do ácido sulfúrico, porém inexpressiva nos outros dois mercados (ver quadro). Mas essa opção não se revela tão simples. Tais produtos são commodities, e têm nos custos relacionados aos transportes itens fundamentais nos cálculos de seus preços.

Torna-se, assim, evidente a importância dos projetos de expansão das capacidades de produção desses três ácidos, analisados nas próximas páginas em suas atuais conjunturas mercadológicas.
Produção e importação dos ácidos clorídrico, sulfúrico e nítrico no Brasil

Ácido clorídrico – Obtido geralmente como subproduto dos processos de obtenção de soda cáustica e cloro gasoso, é empregado em vários setores de atividade, porém mais intensamente nos segmentos de química e petroquímica, na indústria de alimentos e na metalurgia.

O site da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor) apresenta uma lista de sete fabricantes, mas alguns – caso da Dow – só o utilizam em seus próprios processos. Em 2009, ano sobre o qual foram disponibilizadas informações mais recentes, esses fabricantes colocaram no mercado cerca de 243 mil toneladas de ácido clorídrico (quantidade 15% superior à registrada no ano anterior).
Há projetos de ampliação dessa oferta: “Em um prazo máximo de dois anos, devemos dobrar nossa produção de ácido clorídrico, atualmente em 50 mil toneladas anuais”, conta João César Schwarz de Freitas, diretor comercial da Pan-Americana.

A produção dessa empresa já havia sido ampliada em aproximadamente 30% no ano passado, graças a um investimento de R$ 40 milhões no incremento da capacidade de processamento de seu principal produto: a potassa cáustica em solução, muito utilizada na cadeia dos defensivos agrícolas e em processos de neutralização.

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Cerqueira: ampliação em Alagoas terá mais de 24 mil t/ano do ácido

Obtido na produção da potassa, o cloro com o qual a Pan-Americana obtém ácido clorídrico tem custo superior àquele decorrente do processo mais comum, de dissociação do cloreto de sódio. Mas, conforme lembra Freitas, na ampliação de sua capacidade de produção a Pan-Americana instalou uma tecnologia fundamentada em membranas, capaz de gerar cloro com eficiência energética muito superior à das tradicionais células de amianto e mercúrio, e esse benefício torna mais competitivo também o respectivo ácido. Atualmente, diz Freitas, “o mercado de ácido clorídrico está em expansão, acompanhando o crescimento do país”.

Este ano, projeta Marcelo Cerqueira, diretor de negócios vinílicos da Braskem, esse mercado deve registrar expansão de aproximadamente 5% (em relação a 2010). Atualmente, a Braskem produz 26 mil toneladas anuais de ácido clorídrico em uma planta situada no estado de Alagoas (produz também em Camaçari, na Bahia, porém nesse caso apenas para consumo próprio). “E a partir de 2012 teremos uma oferta adicional de 24 mil toneladas por ano, resultado de um investimento de expansão nesse site de Alagoas”, adianta Cerqueira.

Potencial diversificado – O ácido clorídrico deve agora ser mais demandado em setores nos quais já é consumido em pequenos volumes, porém com maior potencial de expansão. “É possível imaginar algum crescimento no segmento de coagulantes utilizados no tratamento de água, por conta de investimentos que deverão ser realizados nessa área para a Copa do Mundo e a Olimpíada”, projeta Aníbal do Vale, presidente da Abiclor.

Química e Derivados, Ácidos, João César Schwarz de Freitas, Pan-Americana - produção de ácido clorídrico
Freitas: produção de clorídrico será duplicada em dois anos

Freitas, da Pan-Americana, também aposta no incremento do uso desse produto no mercado de abastecimento e saneamento, na qualidade de componente dos floculantes e coagulantes. A própria Pan-Americana produz um floculante à base de policloreto de alumínio (PAC), concorrente dos floculantes produzidos com ferro. Esse produto, afirma Freitas, hoje ganha espaço não apenas nos sistemas públicos de abastecimento e saneamento. “A elevação dos custos da água reaqueceu o mercado para reúso industrial, e isso contribui para o uso de floculantes mais eficientes, como o PAC”, analisa. Ele observa também maior consumo de ácido clorídrico na indústria petrolífera, em atividades como dissolução de rochas, durante as prospecções.

Atualmente, algo entre 60% e 70% do ácido clorídrico gerado na Pan-Americana é consumido na fabricação do PAC – o restante é colocado no mercado. Com a expansão anunciada, tais proporções devem se inverter, diz o diretor comercial da empresa, e a maior parte da produção será oferecida ao mercado.

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Tabela: Produção e importação dos ácidos clorídrico, sulfúrico e nítrico no Brasil – Clique para ampliar

No ano passado, conta Cerqueira, da Braskem, os principais incrementos no consumo de ácido clorídrico no Brasil ocorreram nos segmentos de metalurgia e siderurgia – expansão de 17,5% –, química/petroquímica e distribuição (crescimentos, respectivamente, de 8,1% e 10,1%). Agora, ele projeta: “Em função da crescente demanda dos produtos finais oferecidos por eles, os maiores potenciais de crescimento permanecem nos segmentos de metalurgia e siderurgia, química e petroquímica.”

Na opinião de Cerqueira, mesmo quando analisado em prazos maiores, o mercado brasileiro de ácido clorídrico apresenta perspectivas de expansão. “Esse crescimento estará associado ao crescimento da indústria de alimentos, química e petroquímica, e siderurgia e metalurgia, que, juntos, representaram cerca de 76% da demanda brasileira por esse produto”, ele detalha.

Ácido sulfúrico – Ácido inorgânico produzido em maior quantidade no Brasil e destinado em sua esmagadora maioria ao preparo de fertilizantes. O maior produtor do país, a Vale Fertilizantes, sequer o comercializa atualmente, pois consome integralmente os 4 milhões de toneladas que gera a cada ano.

Mas seu uso é fundamental em inúmeras outras aplicações industriais: metalurgia, indústria de papel e celulose, fabricação de explosivos, pigmentos; entre outras. Aliado à perspectiva de ampliação do consumo em fertilizantes, esse uso disseminado gera um contexto de oferta de ácido sulfúrico, para o setor químico, no qual praticamente não há sobras capazes de servir como margem de manobra.

Química e Derivados, Ácidos, Principais consumidores de ácido clorídrico
Gráfico: Principais consumidores de ácido clorídrico – Clique para ampliar

Existe, porém, ao menos um projeto de ampliação da oferta desse produto não relacionado diretamente à produção de fertilizantes. Ele está sendo desenvolvido na Paranapanema, como coproduto no processo de produção de cobre. De acordo com Luis Fernando Rogério de Souza, responsável pela divisão de matérias-primas e químicos da Paranapanema, “já foi aprovado um plano de investimentos, e a partir de 2012 iniciaremos um processo de ampliação de nossa capacidade de produção de ácido sulfúrico, que em 2013 deverá ser entre 10% e 15% superior à atual”. Hoje, a capacidade de produção de ácido sulfúrico da companhia chega a 550 mil toneladas anuais.

Há planos de expansão também na Galvani, produtora de cerca de 400 mil t/ano de ácido sulfúrico em Paulínia-SP, metade das quais usada em seus próprios fertilizantes, destinando o restante ao mercado. “Estudamos a instalação de uma nova planta de fertilizantes na região de Patrocínio, em Minas Gerais”, revela Celso Fajardo, diretor comercial da empresa. “Aumentando a capacidade de produção de fertilizantes, cresce também a produção de ácido sulfúrico, e os fabricantes podem, a cada momento, considerar as demandas dos diferentes mercados. Prova disso é que há dois ou três anos havia excesso de oferta desse insumo”, pondera.

Este ano, prevê Fajardo, o consumo de ácido sulfúrico pelo setor químico – ou seja, desconsiderando os fertilizantes – deve ser algo entre 5% e 7% superior àquele registrado em 2010. “A oferta de ácido sulfúrico para esse setor está hoje muito ajustada à demanda por duas razões: primeiramente, porque a valorização das commodities agrícolas aquece a indústria de fertilizantes. Depois, porque a própria indústria química vem crescendo, em praticamente todos os seus segmentos”, informa.

Diferenciais competitivos – Enquanto as empresas produtoras de fertilizantes ou de outros processos pensam em ampliação de capacidades, esse gênero de investimento parece mais complexo para aquelas que geram o ácido por meio de um processo específico: “É um produto commoditizado, e é difícil pensar em ampliar sua produção imaginando que, no caso de queda da demanda no mercado de fertilizantes, uma empresa desse setor pode inundar o mercado com enormes quantidades de ácido sulfúrico”, observa José Portinho Júnior, gerente geral comercial da Nitro Química, que hoje produz cerca de 240 mil t/ano do ácido em São Paulo. Mas essa possível desvantagem competitiva pode de certa forma ser compensada por empresas que, caso da própria Nitro Química, queimam enxofre para produzir ácido sulfúrico, pois nesse processo elas obtêm também energia.

Na Elekeiroz, associada a outros processos exotérmicos – como aqueles relacionados ao ácido maleico –, a queima de enxofre para obtenção de ácido sulfúrico pode atualmente suprir até 70% das necessidades de energia da planta da cidade de Várzea Paulista-SP (onde a empresa produz esse ácido). E, de acordo com Roberto Rossit, gerente executivo nacional de vendas da Elekeiroz, “existem algumas evoluções tecnológicas que podem disponibilizar maior quantidade de energia elétrica”.

Atualmente, destaca Rossit, há nesse mercado demanda mais intensa pelo ácido sulfúrico na concentração 98%. “Existem algumas concentrações para demandas específicas, mas concentrações menores implicam transporte de água, e aí o custo fica inviável”, argumenta. O oleum – ácido sulfúrico fumegante – também tem aplicações específicas, em detergentes, por exemplo. “Mas é um produto mais agressivo, para o qual falta transporte especializado”, ressalva Rossit.

Segundo ele, os fertilizantes hoje consomem mais de três quartos da produção nacional de ácido sulfúrico, vindo a seguir, nesse ranking, a indústria química e a metalurgia (ver quadro). “Mas, apesar de terem participações menores, os outros segmentos consumidores, além dos fertilizantes, também devem apresentar crescimentos expressivos”, prevê o gerente da Elekeiroz, cuja capacidade atual chega a 264 mil t/ano de ácido sulfúrico.

Papel, celulose e álcool – Embora devam crescer também as demandas em outros segmentos, os fertilizantes ao menos manterão sua já elevadíssima participação no consumo desse insumo. Afinal, lembra David Roquetti Filho, diretor executivo da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), a consultoria RC – referência nesse setor – prevê para este ano um consumo total, no Brasil, de 26 milhões de toneladas de fertilizantes, quantia 6% superior àquela registrada no ano passado.

Apesar de ainda importar cerca de 70% de seus principais nutrientes – integrados na sigla NPK, de nitrogênio, fósforo e potássio –, a indústria brasileira de fertilizantes é abastecida de ácido sulfúrico principalmente por empresas instaladas no país. Esse insumo, diz Roquetti, “é vital para o setor, que o utiliza para, por exemplo, gerar ácido fosfórico”.

E a oferta nacional de ácido sulfúrico para a indústria de fertilizantes está agora sendo fortalecida também pela Vale, cujo complexo industrial da cidade mineira de Uberaba deve inaugurar ainda este ano uma nova unidade capaz de produzir 680 mil t/ano desse ácido.

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Portinho: sulfúrico depende da expansão dos fertilizantes

O crescimento da oferta desse ácido com base na indústria dos fertilizantes não é, porém, fenômeno exclusivamente brasileiro: manifesta-se também em outros países, pois decorre da atual valorização das commodities agrícolas no mercado internacional, lembra Souza, da Paranapanema. Segundo ele, embora destine “pequena parte” de seu ácido sulfúrico para uma fabricante de fertilizantes integrante do mesmo grupo – a Cibrafertil –, a Paranapanema comercializa a maior fatia dessa produção para indústrias químicas instaladas nas proximidades de sua planta produtiva localizada na Bahia.

Este ano, ele prevê, os negócios da Paranapanema no mercado de ácido sulfúrico crescerão cerca de 5%. “Não trabalhamos esse ácido como um subproduto, e sim como coproduto gerador de uma receita relevante”, enfatiza Souza.

Na Nitro Química, projeta Portinho, as vendas de ácido sulfúrico deverão este ano elevar-se aproximadamente em 4% sobre 2010. Assim como nos demais fornecedores sem relacionamento direto com o mercado de fertilizantes, também nessa empresa o mercado consumidor é composto basicamente por indústrias do setor químico. “E, nesse segmento, devem agora crescer mais os negócios relacionados à indústria de papel e celulose”, especifica Portinho. Mas ele percebe ainda potencial para expansão mais acelerada também no setor das usinas de açúcar e álcool, nas quais o ácido sulfúrico é empregado no controle do pH do processo de fermentação da cana.

Química e Derivados, Ácidos, Principais setores consumidores de ácido sulfúrico
Tabelas: Principais setores consumidores de ácido sulfúrico – Clique para ampliar

Para Fajardo, da Galvani (essa empresa produz o ácido também na Bahia, porém nesse caso apenas para consumo interno), a produção de papel e celulose e a indústria canavieira são segmentos consumidores nos quais pode haver evolução mais acelerada nos negócios com ácido sulfúrico. Na opinião de Fajardo, “é hoje necessário investir tanto na produção de fertilizantes quanto na ampliação da capacidade de oferta de ácido sulfúrico para o setor químico”.

Pode-se hoje, na verdade, até mesmo pensar em futuros novos players desse mercado. Caso, por exemplo, da Petrobras, que disporá de grandes quantidades de enxofre com a implementação do processo de dessulfurização de seus combustíveis. Ainda em estágio inicial, esse processo deverá, porém, evoluir, seja pelas demandas ambientais, seja pela necessidade de adequação desses combustíveis às legislações internacionais.

Ácido nítrico – Com capacidade de 470 mil t/ano, a Vale Fertilizantes é hoje responsável por aproximadamente 85% da produção nacional desse ácido, estima Luiz Antonio Veiga Mesquita, diretor comercial e de marketing da empresa. Além dela, também produzem ácido nítrico no Brasil a Petrobras – em sua unidade de fertilizantes – e a Rhodia, nesta, porém, é aproveitado apenas internamente, dentro da cadeia de produção de poliamida.

Química e Derivados, Luiz Antonio Veiga Mesquita, Vale Fertilizantes, amônia e nítrico
Mesquita: falta amônia no Brasil para ampliar a produção do nítrico

Do total de ácido nítrico da Vale, cerca de 35% serve à produção de nitrato de amônio utilizado em fertilizantes. Os 65% restantes seguem para o setor químico, que o aproveita basicamente a 53% de concentração. Há, entretanto, quem o use em concentrações bem mais elevadas, até 99%, para assim empregá-lo na produção de nitrocelulose, nos intermediários poliuretânicos TDI e MDI, e explosivos (a Rhodia o consome na concentração 61%).

Os explosivos, usados em grandes obras de engenharia civil, compõem um dos segmentos de mercado no qual, de acordo com Mesquita, cresce mais aceleradamente o uso do ácido nítrico. “Vem crescendo também o uso em limpeza industrial”, acrescenta.

Mas o ácido nítrico tem inúmeras outras aplicações; por exemplo, na produção de medicamentos, na indústria têxtil, na metalurgia e na fabricação de tintas e cerâmicas. Atenta a esse potencial, a Vale já estuda a ampliação de sua capacidade de fornecimento desse produto – caso aprovada, ela ampliará essa capacidade em uma faixa que vai de 35% a 40%. “Temos em Cubatão-SP quatro unidades de produção de ácido nítrico. E todas hoje operam em plena carga, 24 horas por dia”, justifica Mesquita.

Segundo ele, na produção do ácido nítrico destinado ao setor químico, a Vale Fertilizantes trabalha com amônia importada de Trinidad e Tobago, pois não há no Brasil oferta suficiente para atender a essa demanda. “E até o momento não é viável aumentar a produção de amônia no país, pois não há gás natural suficiente disponível e, mesmo que houvesse, seu preço está completamente fora do mercado mundial”, finaliza o diretor da empresa.

Ácidos – Distribuição segue o avanço do mercado

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