ABTCP 2011 – Celulose e papel traçam planos de expansão no país

química e derivados, abtcp, papel e celuloseEnquanto fábricas de papel e celulose são fechadas na América do Norte, empresas brasileiras como a Veracel, Fibria, Suzano, Celulose Riograndense e Bahia Cellulose já iniciaram obras de ampliação do seu parque fabril. Em 2013, o grupo Eldorado começa a operar sua nova unidade de celulose na cidade de Três Lagoas-MS, um investimento de US$ 2,7 bilhões, dos quais US$ 565 milhões de recursos próprios e o restante financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e por bancos internacionais.

A Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP), em seu 44º Congresso e Exposição Internacional, realizado em outubro, em São Paulo, anunciou que o setor pretende investir US$ 20 bilhões até 2017 na produção de papel, celulose e em florestas. Com as novas unidades, estima-se que a produção de celulose alcance 20 bilhões de toneladas/ano e a de papel chegue a 12,5 milhões de toneladas/ano. Em média, até 2020, o setor prevê um crescimento de 6% a 7% ao ano.

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Lopes: empresas nacionais se unem para fornecer equipamentos ao setor

De olho nesses investimentos, a Jaraguá Equipamentos Industriais se uniu à Ipex Tecnologia para criar a Jaraguá Ipex Empreendimentos, voltada exclusivamente para o setor. “Estamos unindo forças para melhor aproveitar as oportunidades que o mercado nos apresenta”, disse Christiano Lopes, superintendente na nova organização.

De janeiro a julho deste ano, a produção de celulose foi de 7 milhões de toneladas e a de papel, 4,9 milhões de t. Comparado ao mesmo período de 2010, o crescimento foi de 2,2% e de 0,4% respectivamente. Em 2010, o Brasil produziu 14,1 milhões de t de celulose, o que representa um crescimento de 5,6% em relação ao ano anterior. Já a produção de papel atingiu 9,8 milhões de t, 3,9% acima de 2009. (ver tabela)

Os números mostram que a indústria ampliou sua participação no mercado. Segundo a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), a receita de exportação de celulose, por exemplo, somou US$ 6,8 bilhões, com um acréscimo de 35,4% em relação a 2009. As exportações foram puxadas pelas vendas para a América do Norte e Europa, as quais tiveram aumento de receita de 61,6% e 67,8%, respectivamente. Com isso, o saldo da balança comercial brasileira do setor chegou a US$ 4,9 bilhões, 33% acima do resultado de 2009.

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Tabela 1: Produção e consumo de celulose e papel no brasil

Também as empresas da América do Sul se beneficiaram com o incremento da demanda. Suas exportações tiveram um aumento de 28,8% em receita, e responderam por 56% do valor total das vendas internacionais do setor. No Uruguai, a Montes Del Plata, joint venture criada entre a Arauco e a Stora Enso, já iniciou a construção de sua indústria para produzir 1,3 milhão de t/ano de celulose branqueada de eucalipto (BEK). A fábrica fica em Punta Pereira, no departamento de Colônia, e receberá investimentos de US$ 1,9 bilhão.

Um negócio da China – As oportunidades de comercialização de celulose no mercado internacional, principalmente na China, têm condicionado o comportamento dos investidores no Brasil. Embora seja hoje o maior concorrente dos fabricantes brasileiros de papel, a China é também a maior compradora da celulose nacional. Segundo a Bracelpa, 31% de toda a celulose produzida no Brasil em 2011 tem como único destino a República Popular da China.

Para Carlos Farinha e Silva, vice-presidente da Pöyry, multinacional finlandesa de consultoria e serviços de engenharia, é o mercado chinês que está determinando a ampliação e a construção de novas fábricas de celulose. “E será o ritmo de crescimento da economia chinesa que ditará o cronograma dos projetos brasileiros”, concluiu.

Segundo Farinha, até 2020, a demanda mundial de celulose de fibra curta passará de 25,3 milhões de t – dado de 2009 – para 36 milhões. A maior parte desse aumento, cerca de 10 milhões de t, viria de encomendas feitas pelos chineses. (ver tabela 2)

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Tabela 2: Consumo global de celulose branqueada para mercado (em milhões de t) – Clique para ampliar

Com o objetivo de ampliar o relacionamento com fabricantes chineses e atrair empresas fornecedoras de produtos químicos, máquinas e equipamentos, um grupo de empresários embarcou em setembro para Pequim, a fim de participar da 19ª China Paper Forest 2011, evento internacional que reúne cerca de 300 empresas de 21 países.

“Os chineses possuem uma cadeia produtiva muito bem estruturada, com fornecedores de equipamentos, máquinas e demais insumos bastante competitivos em preço e qualidade. E o nosso objetivo é atrair essas empresas para o mercado brasileiro, o que será favorável para a competitividade também da nossa indústria”, disse Francisco Bosco de Souza, gerente institucional da ABTCP.

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Farinha: ritmo da economia chinesa orientará os projetos brasileiros

Mas se a economia chinesa determina a construção de novas fábricas pelo mundo, é a alta produtividade das florestas brasileiras de pinus e eucalipto, a qualidade da madeira, a eficiência energética das fábricas e o preço que colocam o Brasil no 4º lugar em produção de celulose e no 9º lugar na de papel.

Efeito crise – Mesmo a China sendo um mercado em potencial, o cenário mundial apresenta muitas dúvidas quanto à instabilidade econômica global e a possibilidade do aparecimento de outra crise, a exemplo do que ocorreu em 2008. Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, a hipótese de uma nova crise parece distante, porque não há bancos paralelos nem papéis tóxicos, como há três anos. “A alavancagem dos bancos é muito menor e não há travamento do crédito”, afirmou. Para ele, o maior risco para o Brasil no momento é de baixo crescimento.

Os fatores que poderiam detonar uma nova crise financeira seriam o calote da dívida grega, a quebra de algum grande banco europeu e a desaceleração da economia chinesa, com efeito direto sobre os mercados mundiais e as exportações brasileiras. A China representa hoje 17,5% das vendas externas do Brasil.

Segundo Maílson, as tendências para o cenário econômico brasileiro – e para o setor de celulose, que exporta grande parte de sua produção e vinha sendo afetado pela desvalorização do dólar – são: uma taxa de câmbio em alta, com o dólar situando-se em R$ 1,75 ao final deste ano e em R$ 1,65 ao final de 2012, superávit da balança comercial e taxas de juros em queda.

Papel e mercado interno – O aquecimento da economia do Brasil, reflexo da melhora do poder aquisitivo da população, tem garantido o bom desempenho do consumo de papéis, principalmente aqueles para embalagens e também os tipos tissue (para fins sanitários).

O parque industrial papeleiro é constituído por empresas integradas e não integradas, sendo que sua idade tecnológica está defasada da indústria de celulose dadas as condições conjunturais da cadeia produtiva.

Para aumentar a competitividade do papel nacional, Afonso Moura, gerente técnico da ABTCP, aponta a logística como o grande desafio, já que o produto requer cuidados especiais de transporte e armazenamento. “A falta de canais de distribuição eficientes que permitam a comercialização no mercado interno e no externo é um grande empecilho. As fábricas normalmente estão distantes dos centros consumidores, o que dificulta o fornecimento do papel”, salientou.

Moura alerta ainda para a oportunidade atual, surgida com o fechamento de fábricas de papel na América do Norte. “Temos de aproveitar agora e preencher esse vácuo com o papel nacional”, afirmou.

De acordo com Antonio Maciel, presidente da Cia. Suzano, o que barra a competitividade do setor é a carga tributária. “Pagamos 17% de impostos. Após um período, recuperamos créditos relativos a apenas 7%, mas os 10% restantes não existem em nenhum outro país do mundo. Isto é um problema muito sério para a indústria brasileira”, relatou o executivo.

Para Francisco Valério, diretor industrial e de engenharia da Fibria, se o setor quiser ser o vencedor do mercado global, terá que mudar a regra do jogo, trabalhando na redução de 10% a 15% dos seus custos, especialmente os ligados aos insumos químicos e à energia. “A formação de pessoal capacitado, profissionais competentes, é outro desafio”, disse Valério.

 

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