Abrafati Show: Agenda ESG domina o cenário

Agenda domina o cenário do setor de tintas e pede mudanças

Enfim, a cadeia produtiva das tintas teve o seu desejado reencontro.

O Abrafati Show 2022 reuniu todos os segmentos envolvidos na fabricação de tintas e vernizes do Brasil e do exterior, principalmente da América do Sul, de 21 a 23 de junho, no SP Expo.

Além da merecida confraternização, o encontro composto de exposição e congresso internacional enfatizou os esforços setoriais para atendimento da agenda ESG, que abrange os aspectos ambiental, social e de governança.

Quem perdeu a oportunidade não precisa se desesperar.

A Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) e a NürnbergMesse já anunciaram que o próximo Abrafati Show será realizado de 21 a 23 de novembro de 2023 e recuperará a tradição de realizar-se sempre nos anos ímpares.

A bienalidade é importante para permitir que os expositores possam participar também das grandes feiras globais do setor, sem atropelos.

O Congresso Internacional de Tintas manteve o elevado nível que sempre o destacou. Neste ano, foram 90 conferências técnicas, divididas em 15 sessões, realizadas nos três dias do evento. Temas ligados ao meio ambiente e à sustentabilidade foram muito frequentes.

Cada um dos dias do encontro foi iniciado por uma sessão plenária, reunindo congressistas e visitantes da exposição.

A primeira, apresentada por Marcos Allemann, presidente do conselho diretivo da Abrafati e vice-presidente de tintas decorativas da Basf, enfocou o desempenho econômico do setor de tintas.

Abrafati Show: Agenda ESG domina o cenário ©QD Foto: iStockPhoto
Afluxo de visitantes foi grande durante todos os dias

“Crescemos mais de 10% em volume durante a pandemia, estivemos operantes e tivemos um papel essencial em todo o período”, informou.

“Com exceção da tinta automotiva original, que vai para um setor que passa por momento de transformação global, todos os outros segmentos das tintas – repintura automotiva, decorativa, industrial – cresceram, e acima da média histórica, no período da pandemia.”

Em 2021, a indústria brasileira de tintas produziu 1.715 milhões de litros, obtendo incremento de 5,7% sobre o ano anterior que já resgistrara aumento de 3,5% na produção.

 

Allemann explicou que a essencialidade das tintas está ligada à proteção e saúde das pessoas, durabilidade dos ativos e geração de empregos, com presença em todos os setores da atividade econômica.

“Por isso, acredito que nosso crescimento vai continuar, de forma sustentável, independente dos desafios que se apresentem – e não são poucos, como a retomada econômica no pós-pandemia, a guerra da Ucrânia, a política de Covid zero na China, os desafios logísticos internacionais e sem falar do cenário político eleitoral do país, entre outros”, ressaltou.

Abrafati Show: Agenda ESG domina o cenário ©QD Foto: iStockPhoto
Allemann: setor tem desafios para crescer de forma sustentável

O presidente do conselho informou que os números do setor indicam que o primeiro semestre não será ruim.

“Muito provavelmente repetiremos a performance em litros do ano passado; estamos em um momento de ajustes, com inflação em alta e desafios no poder de compra dos consumidores.

Para o ano, a estimativa é de crescer acima do PIB. Projetamos algo entre 1 e 2 % para 2023, com um segundo semestre relativamente mais forte que o mesmo período do ano anterior.”

Ele também apontou que o consumo per capita de tintas no Brasil ainda é baixo, em comparação com o de outros países, o que representa uma oportunidade de crescimento.

O segundo dia começou com a sessão plenária apresentada por Ciro Marino, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), que ressaltou o potencial de crescimento da indústria química no país, desde que sejam realizados investimentos em educação, saúde e infraestrutura.

A agenda ESG teve seu momento de destaque no terceiro dia, quando Daniel Campos, presidente do Comitê de Sustentabilidade da Abrafati, e Hélio Mattar, presidente do Instituto Akatu, comandaram a sessão plenária para expor o programa setorial de ESG da entidade.

O Instituto Akatu foi contratado para desenvolver os indicadores capazes de retratar a situação atual e identificar pontos de atenção e melhoria.

Durante o evento, foram apresentados os 44 indicadores, agrupados em 17 subtemas que se ligam aos quatro temas principais do programa: governança e liderança; capital social; capital humano; e meio ambiente.

“Em julho, serão enviados questionários de avaliação desses indicadores para os nossos associados, isso nos dará uma linha de base, uma radiografia que ajudará a melhorar o setor e permitirá sua expansão”, explicou Luiz Cornacchioni, presidente executivo da Abrafati.

Como informou, a modelagem do programa ESG ouviu não só a indústria de tintas, mas também fornecedores, consultores e vários interessados.

“A indústria precisa que seus fornecedores também tenham aderido às práticas de ESG para que seus resultados sejam positivos.”

O programa ESG da associação é o terceiro adotado pela entidade, ao lado do Programa Setorial da Qualidade (PSQ, que completou 20 anos) e da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Cornacchioni comemorou o grande afluxo de visitantes ao evento, com fluxo constante durante os três dias.

“Recebemos 11 mil visitantes na exposição e 1,8 mil no congresso, foram números excelentes, além disso, os expositores relataram grande volume de negócios realizados ou iniciados nos três dias do encontro”, afirmou.

Ele considera que o momento atual do setor é estável. A linha decorativa imobiliária deve manter o volume vendido no ano anterior, que foi bom.

Por sua vez, as tintas originais automotivas seguem amargando o mau desempenho das montadoras que não conseguem manter o ritmo de produção pela falta de componentes como os chips eletrônicos.

O ano eleitoral é visto com cautela pelo executivo.

“No passado, o auxílio emergencial nos ajudou muito porque ele foi direto para o consumo, mas neste ano a população está muito endividada e os preços de todos os produtos essenciais subiram, talvez sobre pouco para comprar tintas”, comentou.

Além disso, a campanha eleitoral domina o cenário e gera alguma turbulência, atrapalhando a tomada de decisão dos investidores. “Sigo otimista, mas cauteloso”, finalizou.

Expectativas superadas – O Abrafati Show 2022 ofereceu a possibilidade de retomar o contato pessoal entre os participantes do setor.

Havia dúvidas quanto à afluência de público, superadas desde o primeiro dia, com forte presença de visitantes qualificados e interessados em novidades.

Abrafati Show: Agenda ESG domina o cenário ©QD Foto: iStockPhoto
Gardelli: produtor local de insumos segue conceitos ESG

“A feira superou nossas expectativas, recebemos muitas visitas de fabricantes de tintas e de resinas do Brasil e de outros países da América do Sul interessados no surfactante Oximulsion React e no dispersante Oxitive 8000, nossos lançamentos, mas também na linha de produtos de performance”, afirmou Hugo Gardelli, head de vendas para coatings na América do Sul da Oxiteno.

“Há uma carência de produtos como o React no Brasil, existem apenas importados.”

Gardelli apontou que a demanda por informações foi grande por parte de todos os segmentos de tintas, com variações conforme o caso.

Nas tintas decorativas, por exemplo, a tendência é buscar melhores formulações base água com baixo VOC, usando coalescentes de baixo odor e livres de alquilfenóis etoxilados (APEO).

Na pintura automotiva, os solventes são uma fonte de preocupação e todos os fabricantes buscam diferenciação, ou seja, aceitam novidades.

“Os grandes players, em qualquer segmento, puxam a demanda por inovação tecnológica; os menores – que geralmente são atendidos pelos distribuidores – também buscam diferenciação, mas a prioridade é reduzir custos”, explicou.

Neste ano, ele percebeu que a agenda ESG entrou no foco dos debates e deve afetar a cadeia de suprimentos.

“A Abrafati está liderando o processo e isso deve pressionar a cadeia da ponta para trás; no caso da Oxiteno, já estamos muito avançados em ESG, mas como serão avaliados os insumos importados?”, indagou.

Abrafati Show: Agenda ESG domina o cenário ©QD Foto: iStockPhoto
Bonaldi: produção local ganha reforço e garante suprimento

“Encontrar todos os participantes da cadeia de negócios foi marcante, muito embora nós não tivéssemos parado de visitar nossos clientes durante esses últimos anos”, considerou Anderson Bonaldi, diretor de dispersões, resinas e aditivos na Basf.

Ele identificou a presença forte de visitantes de vários países da América do Sul, além dos brasileiros, mas entende que o perfil deles foi semelhante ao das feiras anteriores.

“Muitos tinham real poder de decisão, vieram nos visitar com objetivos claros de desenvolver negócios, não fechamos nada durante a feira, mas preparamos terreno para o futuro”, comentou.

Bonaldi apontou o momento peculiar de mercado.

As tintas para o setor industrial, muito aquecido, buscaram inovações, como as tecnologias Core-Shell e os dispersantes acrílicos para aplicação Direct Metal, além de insumos para formulações base água.

As tintas decorativas tiveram uma expansão de vendas muito forte em 2020 e 2021, agora apresentam um desempenho mais fraco.

“Com inflação subindo e custo alto de crédito, percebe-se que o consumidor final está fazendo um downgrade, trocando tintas standard por econômicas, por exemplo, embora as tintas premium sofram menos, porque os revestimentos alternativos são ainda mais caros, como os papéis de parede”, avaliou.

“As vendas devem crescer no segundo semestre, já há sinais disso.”

Ao mesmo tempo, as tintas automotivas originais estão sofrendo, mas a repintura vai bem.

“Os clientes sempre querem reduzir custos, seja na moagem e dispersão, seja nas estufas de secagem, isso não é novo, não vimos nada disruptivo neste ano; no nosso caso, apresentamos insumos para formulações base água, eliminando solventes, considerando que todo o nosso portfólio é isento de APEO há anos”, salientou.

Bonaldi observou que os lançamentos da Basf neste ano (duas dispersões anticorrosivas para tintas industriais e dois espessantes para decorativas) são nacionalizações de tecnologias ou desenvolvimentos locais.

“As cadeias globais de suprimentos estão com problemas desde o início da pandemia e contar com fornecedor local é ótimo para os clientes que passam a contar com suprimento garantido e a sofrer menos com as variações cambiais”, afirmou.

“Uma dispersão acrílica, por exemplo, não viaja bem, tem 50% de água; ampliar a produção local é uma estratégia vitoriosa.”

Há limites para a nacionalização de todo o portfólio. Aditivos, por exemplo, continuam sendo importados tanto pela baixa escala da demanda local, quanto pela ausência de produção nacional de intermediários de síntese.

“Mesmo assim, os 15 produtos de maior volume comercializado do nosso portfólio são fabricados aqui”, ressaltou.

Durante a feira, a Basf aproveitou para apresentar a atualização do sistema Lab Assistant, agora disponível em português e espanhol, que reúne todas as fichas dos insumos necessários para a fabricação de tintas e também oferece sugestões de formulações adaptadas ao mercado regional da linha decorativa.

Também divulgou a plataforma de e-commerce shop@BASF, voltada para pequenos e médios fabricantes de tintas decorativas.

“É um segmento que não conseguimos atender com nossa força de vendas, mas com essa ferramenta os clientes podem comprar diretamente, mas há atendimento por telefone se necessário, e contamos com estrutura logística para pronta entrega”, explicou.

Marcos Basso, gerente de desenvolvimento de mercado da Eastman para a América Latina, também atestou a forte participação de visitantes neste Abrafati Show, mas ressaltou a presença de interessados de toda a América Latina, embora a participação de norte-americanos e europeus tenha sido reduzida, assim como a de asiáticos.

Abrafati Show: Agenda ESG domina o cenário ©QD Foto: iStockPhoto
Basso: resina poliéster pode substituir epóxi nas latas

“O movimento foi intenso todos os dias no nosso estande, interagimos com muita gente, cabe apontar que os fabricantes de tintas levaram equipes inteiras para o evento: diretores, laboratoristas, formuladores, as conversas foram muito direcionadas para o interesse de cada um deles”, comentou.

Na sua visão, a pandemia acelerou processos que estavam começando, porque ela ampliou a conscientização das pessoas sobre problemas que afetam a todos.

“Não por acaso, o foco em sustentabilidade cresceu muito e vai ficar ainda mais forte, com a Abrafati estabelecendo métricas para a agenda ESG”, afirmou.

Essa tendência também norteou a seleção de lançamentos da Eastman para este ano, considerando que os clientes sempre querem inovações que também reduzam seus custos.

A companhia apresentou novos produtos da sua linha Tetrashield de poliésteres derivados de tetrametil ciclobutanodiol (TMCD) com alto desempenho, agora direcionados para pintura protetiva e embalagens metálicas.

“A linha Tetrashield segue em evolução; ela começou com tintas automotivas OEM, depois foi para linhas industriais e agora para pinturas anticorrosivas, mas também para revestimento interno de embalagens metálicas, hoje consumidoras de vernizes epóxi que contêm bisfenol A”, disse Basso.

Nesse sentido, o poliéster Tetrashield garante proteção do material de embalagem igual ou superior à do epóxi, sem conter o indesejável BPA.

“Para 2023, teremos novas resinas derivadas de TMCD, elaboradas por nossos especialistas que contam com monômeros da melhor qualidade”, informou.

Nas tintas decorativas, a Eastman atua com coalescentes e neutralizadores de pH.

Também oferece ésteres de celulose para aplicação em madeira.

“Ouvimos as angústias dos clientes e as usamos como ponto de partida para novos desenvolvimentos”, disse.

A Eastman está reforçando sua atuação sustentável. “Os plásticos usados são considerados os vilões do planeta, nós os processamos para recuperar o carbono neles contido para sintetizar o neopentilglicol (NPG) que utilizamos em nossos processos”, explicou Basso, informando que a companhia ergue na França uma unidade para reciclagem química de resíduos.

“O mercado para químicos vai durar muito, mas será diferente do que é hoje”, avisou.

“Quando o consumidor sente que não está sendo ouvido, ele reclama e pede regulamentação oficial, isso é um fenômeno global que tende a aumentar”, comentou Basso.

A Europa é o centro dessa atividade regulatória, refletindo a elevada conscientização da população.

“No setor de tintas, as normas europeias chegam rapidamente ao Brasil, pois muitas empresas daqui tem origem europeia e seguem essas diretrizes”, observou.

“Isso é uma oportunidade para inovação”, destaca.

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