Abrafati – Abrafati 2007 reúne público qualificado

E enfatiza temas ligados a ambiente e saúde

A manhã tipicamente paulistana, fria e garoenta, do dia 24 de outubro marcou a abertura do 10º. Congresso Nacional de Tintas e sua respectiva Exposição de Fornecedores, ambos sob a denominação de Abrafati 2007.

Com imagem consolidada no mercado mundial, a promoção brasileira disputa a posição de melhor reunião técnico-comercial da indústria de tintas, ao lado de similares norte-americanos e europeus, como o European Coatings Show.

Quem enfatizou a relevância internacional do encontro foi o presidente do International Paint & Printing Ink Council (IPPIC), Edward J. Donnelly Jr., durante a primeira sessão plenária, apresentada logo depois da breve cerimônia oficial, comandada pelo presidente- executivo da Abrafati, Dilson Ferreira.

A expectativa inicial da entidade nacional era de reunir mais de 150 expositores e milhares de visitantes, metas cumpridas ao final do dia 26 de outubro, quando começaram a ser desmontados os estandes que ocupavam o Transamérica Expo Center.

Temas ligados à proteção ambiental e à saúde de trabalhadores e consumidores dominaram as 60 palestras técnicas, ao lado das novidades tecnológicas, automação industrial, qualidade e logística.

O vasto temário foi tratado por especialistas brasileiros, argentinos, norte-americanos e europeus, após rigorosa seleção.

O coordenador do comitê científico da Abrafati, Jorge Fazenda, avaliou que a quantidade e a qualidade dos trabalhos submetidos ao comitê superaram as expectativas:

“O alto nível dos trabalhos inseridos nos objetivos do congresso nos obrigou a absorvê-los na programação”, enfatizou Fazenda. A coordenadora do congresso, Telma Florêncio, disse que o número recorde de trabalhos se justifica.

“A participação em uma feira deste porte é também uma forma de obter prestígio para as idéias e desenvolvimentos do pesquisador. Aqui, seu trabalho fica acessível a importantes profissionais do universo das tintas”, analisou Telma. Além das palestras, concorridas sessões plenárias e apresentação de pôsteres completaram a programação técnica.

Panorama global – O IPPIC congrega 38 associações de fabricantes de tintas, como a Abrafati, espalhadas por todos os continentes do globo, com o objetivo de apresentar os principais problemas do setor e como lidar com eles.

Temas familiares ao conselho mundial são a rotulagem de produtos no sistema europeu Reach, manipulação de insumos químicos, normas oficiais e, principalmente, gerenciamento de dados setoriais para a elaboração de estatísticas confiáveis.

“Não há bons dados disponíveis em âmbito mundial sobre o setor de tintas e vernizes”, afirmou Donnelly. “Queremos contribuir para coletar e distribuir informações apuradas para todos, apoiando o desenvolvimento de produtos e investimentos.”

O simpático executivo internacional exibiu números para embasar a previsão de crescimento do mercado mundial de tintas em 5,4% ao ano em valor e 5,5% em volume entre os anos de 2005 e 2010.

Entre 2001 e 2005, o desempenho setorial registrou acréscimo anual médio de 2,7% em valor e 4,2% em volume.

Química e Derivados, Edward J. Donnelly Jr., Presidente do International Paint & Printing Ink Council(IPPIC), Abrafati - Abrafati 2007 reúne público qualificado e enfatiza temas ligados a ambiente e saúde
Donnely Jr.: setor deve manter ética rígida para ser respeitado

“As vendas mundiais da indústria de tintas chegaram a US$ 80 bilhões em 2006, e devem alcançar US$ 86 bilhões com a venda de 27 bilhões de litros em2007”, estimou Donnelly, acendendo os olhos da platéia.

Os motores do crescimento setorial, porém, estão na Ásia e na Europa Oriental.

Segundo informou o dirigente setorial, finalmente em 2006 e 2007 começou a se efetivar o crescimento econômico de países como a Rússia e a Turquia, movimento esperado há vinte anos.

Até 2010, essa região deverá aumentar o consumo de tintas em 68% em relação aos dados de 2005.

A Ásia, no mesmo período, deve ampliar seu mercado em 39,8%, enquanto a América Latina deve crescer apenas 17% em tintas.

Atualmente, a região Ásia/Pacífico representa 31% do valor total das vendas mundiais, seguida pela Europa Ocidental (28%), América do Norte (25%) e América Latina, esta com 4%, dos quais o Brasil responde por 3%.

“Um americano gasta por ano US$ 169 com tintas, enquanto um brasileiro não passa de US$ 40 e um chinês, US$19”, afirmou.

A China é um mercado gigante para tintas, avaliado em US$ 7 bilhões, dos quais a metade está ligada às tintas decorativas para construção civil.

Brasil faz bonito – Os números brasileiros do setor receberam elogios do presidente da IPPIC.

Em 2006, o faturamento setorial chegou a US$ 2 bilhões, correspondendo a mais de um bilhão de litros.

Para este ano, é esperado um crescimento de 6% em valor, melhor que a média mantida entre 2001 e 2005, de 3,7%.

“O mercado brasileiro deve manter o ritmo de evolução, aproveitando a estabilidade econômica e a melhoria da confiança do consumidor, que puxa a venda de imóveis e automóveis”, salientou.

Donnelly recomenda aos fabricantes brasileiros atuar com responsabilidade para sustentar o crescimento setorial a longo prazo.

Ele recomenda aprimorar a qualidade dos produtos vendidos, adotar práticas de saúde ocupacional e responsabilidade ambiental e ampliar investimentos produtivos.

“Nada disso faz sentido sem uma postura ética rígida, que angarie o respeito do governo, clientes e empregados”, ressaltou.

Ainda espantado com o trânsito carregado da capital paulista, piorado pela chuva fina e insistente daquela manhã, Donnelly apontou o segmento de repintura automotiva como um dos mais promissores no Brasil, despertando risos. Sem ironia, ele comentou que esse mercado está estagnado nos EUA e na Europa Ocidental.

“Os carros ficaram mais seguros e a fiscalização de tráfego mais intensa, reduzindo a ocorrência de acidentes nessas regiões”, afirmou.

Além das leis severas contra o consumo de bebidas alcoólicas na Europa, ele citou outros fatores depressores desse segmento.

O alto custo de mão-de-obra para reparação de veículos reduz a demanda por esse serviço, sendo mais fácil comprar um carro novo que consertar o velho. As seguradoras tendem a qualificar as ocorrências como “perda total” com muito mais facilidade do que no Brasil.

Mesmo assim, a repintura automotiva representa um faturamento mundial de US$ 6,2 bilhões, segundo os dados do IPPIC. Isso representa 39% das vendas de tintas para usos especiais que, por sua vez, equivale a 18,8% do mercado mundial de tintas e vernizes, de US$ 80 bilhões, em 2006.

A maior fatia desse bolo fica com as linhas decorativas imobiliárias, com 45,1% das vendas.

As tintas de uso industrial assumem a vice-liderança com 36,1%, tendo o segmento de tintas originais automotivas (OEM) e para plásticos uma participação de 31%, ou US$ 9 bilhões.

Desenvolvimento ecológico – Em todo o mundo, a indústria de tintas investe para adotar sistemas mais amigáveis ao meio ambiente.

Química e Derivados, Abrafati - Abrafati 2007 reúne público qualificado e enfatiza temas ligados a ambiente e saúdeEssa mentalidade tem favorecido o desenvolvimento de linhas de base aquosa, tintas curáveis por radiação ultravioleta e tintas em pó.

Totalmente sólidas e isentas de solventes, as tintas em pó são consideradas negócios novos e em fase de grande crescimento.

A China desponta como líder nesse campo, com um consumo estimado em US$ 1,5 bilhão, seguida pelos EUA, com US$ 840 milhões.

Em terceiro lugar aparece a Alemanha, com um consumo de US$ 221 milhões e uso promissorem automóveis. Omercado mundial de tintas em pó chega a 1,8 bilhão de toneladas, com faturamento de US$ 4,5 bilhões e expectativa de desenvolvimento da ordem de 4,5% a 5% ao ano.

“Esse percentual já foi de dois dígitos”, lamentou Donnelly.

Além das pressões ambientais, a tecnologia de tintas caminha na direção de revestimentos funcionais, oferecendo mais conforto aos consumidores.

É o caso da incorporação de biocidas nas formulações, para produzir revestimentos antibacterianos e fungicidas.

Há casos de produtos capazes de recobrir sozinhos os riscos nas pinturas (self healing), uma característica, derivada da nanotecnologia, desejável principalmente nas linhas automotivas.

O executivo também citou as tintas termossensíveis, voltadas para aplicações de segurança.

Merece destaque, segundo Donnelly, a procura por ingredientes químicos de origem natural e renovável para compor formulações.

“Esse é um campo de grande potencial de crescimento”, afirmou, ressaltando a importância de aprimorar os métodos de aplicação das tintas, cada vez mais amigáveis.

Desafios a enfrentar – A indústria de tintas conseguiu avanços notáveis em qualidade e eficiência, mas não está isenta de novas e rigorosas exigências.

A principal delas é trazer novidades ao mercado, sem aumentar custos.

“Oferecer qualidade e inovação sem elevar preços é uma tarefa que só será cumprida com o auxílio de toda a cadeia produtiva setorial”, disse Donnelly, atestando que os preços dos produtos finais têm caído consistentemente ao longo dos anos.

Ao mesmo tempo, ele comentou que a elevação dos custos de matérias-primas e energia pressiona as margens de lucro de forma assustadora.

Aos fabricantes de tintas só resta apostar na criatividade dos formuladores e engenheiros para adaptar ingredientes e processos às novas condições.

Outro desafio consiste na convivência com índices de crescimento díspares entre segmentos de mercado e entre regiões geográficas. Isso requer maior conhecimento das exigências e características de cada mercado para oferecer os produtos mais adequados a cada situação.

Como se não bastassem esses problemas, as pressões ambientalistas recrudescem, com reflexos nas normas oficiais, exigindo acompanhamento e adaptação.

A indústria responde com a redução de uso de metais pesados e de materiais orgânicos voláteis, com o aumento da eficiência nas linhas de produção, reduzindo perdas, e com o melhor gerenciamento e manipulação de materiais potencialmente perigosos. Inovações, como as tintas em pó curáveis por UV, são bem-vindas.

Fusões e aquisições – Também as constantes fusões e aquisições constituem um desafio para o setor de tintas pela modificação dos padrões de escala e competitividade entre companhias.

Recentemente, a holandesa Akzo comprou os negócios de tintas da inglesa ICI, formando o maior conglomerado mundial do setor, com vendas somadas de US$ 12,8 bilhões em 2006 (pro forma).

Algumas operações da ICI devem ser desmembradas por constituírem redundância com linhas da compradora.

A expectativa do mercado é da absorção dessas linhas pela também gigante Henkel, a segunda maior companhia do ramo, com vendas de US$ 6,3 bilhões no mesmo ano.

“Creio que os movimentos de fusões e aquisições não terminaram e o quadro final tende a ser formado por menos e maiores companhias”, ponderou Donnelly.

É natural que os pequenos fabricantes se dediquem a nichos especializados de mercado ou a regiões geográficas restritas, nas quais tenham alguma vantagem de mercado.

Os médios tendem a sofrer mais com a concorrência com os gigantes.

“Os médios produtores devem procurar oportunidades para se manter competitivos, talvez promovendo fusões e aquisições entre si e ganhar escala”, comentou.

Química e Derivados, Abrafati - Abrafati 2007 reúne público qualificado e enfatiza temas ligados a ambiente e saúde
Fonte: Edward J. Donnelly Jr. – IPPIC

O movimento de concentração de negócios também abre oportunidades de negócios.

Geralmente ocorrem cortes de pessoal pela eliminação de redundâncias e isso permite disseminar conhecimento técnico e comercial pelo mercado.

“Quanto mais uma empresa cresce, mais ela precisa se concentrar em atividades rentáveis de alta escala, deixando de atuar em campos menos atraentes que ficam disponíveis para outros players”, afirmou.

A despeito das dificuldades, Donnelly afirma que a indústria não deve desistir nunca.

“Trata-se de uma indústria legal! Está em todos os lugares, gera sensações para as pessoas e precisa ser promovida em todo o mundo”, enfatizou.

As dificuldades devem ser encaradas com determinação, seguindo doze recomendações essenciais, as Donnelly Dozen, listadas no quadro desta página.

Ele concluiu sua palestra com um desafio: “Imagine como seria o mundo sem tintas”, propôs, antes de resumir sua visão para o futuro do setor – “picture it painted (imagine-o pintado)!”

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.