Abrafati 2015: Sustentabilidade atrai visitantes qualificados para congresso e feira

Química e Derivados, Abrafati 2015: Sustentabilidade atrai visitantes qualificados para congresso e feira

Os ventos frios da economia brasileira foram sentidos durante a exposição de produtos e serviços da Abrafati 2015. Muito embora o congresso internacional da entidade tenha até crescido em número de palestras, os corredores do Transamerica Expo, em São Paulo, davam a impressão de conter menos visitantes do que 2013.

Os números da comissão organizadora não corroboram essa percepção. Passaram pela exposição 12.666 visitantes (oriundos de 41 países, além do Brasil), número praticamente igual ao registrado na exposição anterior. A quantidade de expositores registrou diminuição de 271 para 242.

Houve queda na participação de congressistas: foram 827 neste ano, contra 1.200 do ano anterior, embora o número de palestras técnicas tenha aumentado de 72 para 90. É fácil imaginar uma explicação: com as vendas fracas e rentabilidade encolhida, muitas empresas cortaram pessoal e, além disso, optaram por reduzir a verba para comparecimento em congressos e feiras de negócios. Assim, companhias que no passado mandavam de dez a vinte colaboradores para o encontro, neste ano reduziram pela metade, ou menos, o contingente. Com isso, as despesas de transporte, estacionamento, diárias de hotéis e outros itens foram espremidas.

O menor número de participantes, porém, não significou perda de relevância do encontro, mas o contrário. Quem dele participou tinha real poder de negociação. Os expositores ficaram cara a cara com as pessoas que tomam a decisão de compra e tiveram bastante tempo para reuniões produtivas, como deve acontecer em encontros de negócios desse porte. A presença de visitantes estrangeiros, em especial da América Latina, também foi digna de nota.

O mote da Abrafati 2015 foi “sustentabilidade”, conceito que se apoia em três pilares: higidez da empresa, cuidados com a saúde e segurança dos profissionais envolvidos em toda a cadeia de produção, e a preocupação com a sociedade, refletindo-se na área ambiental e social, incluindo comportamentos éticos. Dessa forma, a programação técnico-científica foi selecionada para lidar com todos os assuntos correlacionados a esses temas, desde a avaliação da economia nacional às propostas de mudanças de processos e ingredientes para melhorar a rentabilidade empresarial, bem como reforçar a atitude em segurança ocupacional e ambiental. O cuidado com aspectos éticos foi “terceirizado” para a sessão plenária com o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, embora as condutas setoriais reafirmem cotidianamente seus compromissos éticos, muitos deles explicitados pela Abrafati em normas aplicáveis aos seus associados.

“A sustentabilidade impõe uma visão de longo prazo para toda a cadeia produtiva das tintas”, ressaltou Dilson Ferreira, presidente executivo da Abrafati. “Cada palestrante apresentou suas inovações, mas também os impactos que elas provocam, tanto no aspecto econômico, quanto na segurança e na melhoria da qualidade de vida para a sociedade”.

Ano difícil – A situação econômica e social da América do Sul está conturbada, causando efeitos variados nos países envolvidos, gerando uma crise de confiança regional. Antonio Carlos Lacerda, presidente do conselho diretor da Abrafati e vice-presidente sênior de Tintas e Soluções Funcionais da Basf para a América do Sul, classifica os países do continente em três grupos: o primeiro apresenta economias em crescimento, com resultados sólidos, abrigando, por exemplo, Chile. Colômbia e Peru. Um segundo grupo contém países em fase de transição – não necessariamente para melhor –, como o Brasil e Argentina. O terceiro time inclui países em franca decadência, entre os quais a Venezuela é um caso típico. “Essa instabilidade afeta o desempenho econômico das companhias, portanto é ruim para a sustentabilidade”, explicou.

A segurança dos trabalhadores, outro pila, apresenta problemas no Brasil. Lacerda comentou que a Abrafati iniciou há alguns meses a coleta de dados com 40 empresas instaladas no país para verificar seus indicadores de acidentes de trabalho, obtendo números entre 2,1 a 3,4 casos por milhão de horas trabalhadas (entre maio e julho deste ano). “Estamos acima da média da indústria, de um acidente por milhão de horas, ou seja, precisamos melhorar”, recomendou.

Além disso, a descrição dos eventos indicou danos para mãos e braços em 45% dos casos, e aos pés e pernas em 40% deles. “Isso indica o uso de força bruta, carregando pesos, como tambores, em pisos ruins e usando calçados inadequados, ficando os trabalhadores sujeitos a escorregões ou impactos”, explicou. A solução é realizar investimentos para automatizar os processos produtivos.
Da mesma forma, a ocorrência de acidentes de grandes proporções, como o incêndio em tanques de combustíveis em Santos-SP e a recente explosão de uma empresa de armazenamento de produtos no terminal portuário de Tianjin, na China, representa uma ameaça para todo o setor químico, em sentido amplo, que inclui a fabricação e tintas e vernizes.

“Além dos mortos e feridos, essa explosão provocou até a desvalorização da moeda chinesa, colocando em xeque todos os procedimentos daquele país em relação às cargas perigosas, a ponto de indicar a edição de normas mais rígidas no futuro”, apontou Lacerda. E os efeitos vão além: o governo chinês deverá sobretaxar os produtos que contenham solventes hidrocarbonetos em sua composição. Todas essas medidas devem aumentar os custos de produção, logística e armazenamento naquele país, a maior fonte de suprimento mundial de vários insumos. “Esse caso evidencia por que a segurança é um pilar da sustentabilidade”, ressaltou.

Olhando para a situação brasileira, Lacerda expôs uma avaliação pessimista. “O primeiro trimestre de 2016 deverá ser o pior período da economia brasileira, com desemprego em alta e redução do poder aquisitivo da população, gerando um clima ruim na sociedade”, prevê. Os resultados de 2015 apontam queda de 8% no faturamento geral do setor, com redução nas vendas da linha imobiliária e de pintura automotiva original. A desvalorização do real tem impacto direto no setor, pois cerca de 60% dos insumos que consome são dolarizados. “Há uma clara pressão para o downgrade dos produtos, precisamos evitar isso para impedir o retrocesso do setor, a exemplo da volta das tintas prontas na repintura automotiva”, salientou.

Olhando para os próximos meses, o quadro setorial ganha tintas ainda mais sombrias. Segundo Lacerda, a reoneração da folha de pagamento terá um impacto anual de US$ 20 milhões no setor. Além disso, termina em 2015 o sistema de cotas para importação de dióxido de titânio com isenção do imposto de importação. “É um insumo fundamental para o setor e essa mudança aumentará os nossos custos em US$ 30 milhões por ano, mesmo valor que incidirá contra o setor pela elevação dos salários e das tarifas de eletricidade em 2016”, alertou. “As indústrias do setor precisam compartilhar ideias, conceitos e soluções para que possamos nos tornar mais competitivos.”

Dilson Ferreira salientou os esforços já empreendidos pelo setor no Brasil, como a consolidação do sistema de qualidade, eliminação da presença de chumbo nas tintas, e iniciativas para redução do consumo de água e eletricidade. “A chave do crescimento é a inovação”, afirmou, lembrando que o mercado nacional para tintas está estagnado desde 2013, registrando uma queda em 2015. “Precisamos nos organizar mais para que, quando o mercado voltar a crescer, estejamos mais fortes e capazes para aproveitar as oportunidades”, concluiu.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.