Indústria química investe em melhorias na gestão de recursos hídricos – Abiquim

Química e Derivados, Abiquim: Indústria química investe em melhorias na gestão de recursos hídricos
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Possíveis efeitos das mudanças climáticas sobre o equilíbrio hídrico afetam o modo como o setor produtivo administra o uso da água

O Dia Mundial da Água é celebrado em 22 de março, mas não é apenas nessa data que a indústria química se preocupa com a gestão de recursos hídricos.

Desde muito antes dos últimos anos de seca e da chegada do El Niño, com seus efeitos sobre o equilíbrio hídrico na região Sudeste do Brasil, o setor já tratava de reduzir o consumo de água em seus processos e produtos, além de promover o seu reuso. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), entre 2006 e 2014, o setor reduziu 36% da captação de água. Além de diminuir o consumo específico do recurso, a indústria química também aumentou a porcentagem de efluentes reciclados em seus processos, de 4,6 m3 por tonelada de produto em 2009 para 9,5 m3 por tonelada de produto em 2014.

No entanto, o que tem preocupado não apenas o segmento químico, mas a indústria como um todo, é que a crise hídrica pode ter efeitos muito mais permanentes do que uma seca passageira.

De acordo com o estudo “Riscos Climáticos: Como o setor empresarial está se adaptando”, elaborado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), projeções realizadas para o Brasil demonstram um aumento de temperatura que pode variar de 0,5 a 1,5 oC e alterações nos regimes de chuva em todos os biomas. Por isso, um dos riscos físicos para o ambiente de negócios, levantados pelo estudo do CEBDS, são as secas. O material, que foi feito para ser apresentado na Conferência do Clima do final do ano passado em Paris (COP-21), traz, ainda, a informação de que o aumento da temperatura tem efeitos diretos sobre o ciclo hidrológico e a distribuição temporal e espacial das chuvas. Esse seria um dos fatores que tendem a afetar a disponibilidade hídrica, fato que já tem se manifestado na região metropolitana de São Paulo nos últimos dois anos, como lembra o texto.

Química e Derivados, Abiquim: Indústria química investe em melhorias na gestão de recursos hídricosSegundo o assessor técnico do CEBDS, André Ramalho, embora se considere que a seca em São Paulo possa ter tido influência das mudanças climáticas, não há dados conclusivos que permitam fazer essa afirmação. No entanto, Ramalho alerta que isso não é motivo para se ignorar os maiores riscos ambientais e hídricos aos quais a população está sendo exposta à medida que o mundo progride para se aquecer cada vez mais. Na opinião do assessor técnico, as empresas devem investir cada vez mais em ações de mitigação e recuperação dos recursos hídricos, seja individualmente, ou coletivamente. “A última crise já mostrou que as operações e, consequentemente, a produtividade e o lucro, podem ser afetados com situações como a redução de vazão em prol do abastecimento humano e da produção de energia. Além disso, pode-se ter também o aumento nos custos com energia elétrica e a perda da qualidade de água, que imputa em maiores gastos com tratamento e pode levar a alterações no modo produtivo, no produto ou até mesmo resultar na necessidade de transferência da planta”, lembra Ramalho.

De fato, a seca dos últimos meses alarmou a indústria química para a tomada de providências ainda mais específicas para a melhoria contínua da gestão da água. No início de 2015, foi criado um grupo de trabalho para tratar do assunto – GT Água – dentro da Comissão de Meio Ambiente da Abiquim. “A indústria química já considerava a água como recurso de grande importância ambiental e econômica para suas operações e, com a crise hídrica, vimos que a devemos tratar dela dentro da estratégia dos negócios”, explica o coordenador do GT Água da Abiquim e engenheiro de Meio Ambiente da Solvay Indupa, Wagner Freitas.

Um dos resultados dos esforços do GT foi a publicação do Guia para Elaboração de Plano de Contingência para a Crise Hídrica. O material foi estruturado em ações sugeridas para quatro níveis de contingência – verde, amarelo, laranja e vermelho – que devem ser definidos por unidade produtiva, ou seja, com base no perfil hidrológico atual da bacia hidrográfica onde a unidade esteja instalada. As medidas de mitigação recomendadas para cada nível possibilitam às empresas avaliar as ações propostas e moldá-las de acordo com sua realidade. No nível verde, a empresa está no uso pleno dos recursos hídricos e, no nível mais crítico (vermelho), o volume de água das fontes hídricas é insuficiente para atender a fábrica. O guia está disponível gratuitamente para download em abiquim.org.br

De acordo com Wagner Freitas, o GT Água trabalha atualmente na elaboração de um manual de uso eficiente de recursos hídricos, além de acompanhar projetos de Lei sobre o tema, a fim de dar contribuições pertinentes à indústria. “Apesar de as chuvas terem retornado, a disponibilidade hídrica para a região metropolitana de São Paulo ainda é preocupante. Ao longo do tempo, com o aumento da população e com as variações climáticas, as bacias com baixa disponibilidade hídrica estarão cada vez mais suscetíveis à falta de água”, alerta Freitas.

O desequilíbrio hídrico chamou a atenção não apenas da indústria, mas também do governo. De acordo com o deputado federal Evair de Melo (PV/ES), coordenador do tema Água na Frente Parlamentar da Química, e coordenador da Frente Parlamentar da Água, “o problema em São Paulo cumpriu o papel de trazer o debate para a agenda nacional e de criar o senso de que a gestão hídrica é uma responsabilidade de todos os cidadãos”.

Entre os projetos do deputado Evair para aumentar a disponibilidade hídrica está o pagamento de serviços ambientais, que visa remunerar aqueles que têm sob seu patrimônio um ativo ambiental – nascentes, florestas, etc – e que sejam geradores de serviços ambientais, ou seja, que façam ações de preservação ambiental de modo a alcançar resultados acima dos dispostos pela lei. “Nossa intenção é remunerar a pessoa que preserva além daquilo que a lei exige. A consequência disso será a maior preservação das matas, das florestas e das nascentes. O retorno será a maior oferta de água”, conta o deputado.

De acordo com o parlamentar, outro ponto importante é intensificar o investimento em Ciência, Pesquisa e Tecnologia, a fim de disponibilizar recursos para a pesquisa e, assim, aperfeiçoar cada dia mais os processos de reutilização da água na produção industrial. “Queremos, além de construir conhecimento específico para isso, produzir viabilidade técnico-econômica e tributária, para que os usuários da água na indústria possam ter segurança, baixo custo e possam mitigar os impactos ao meio ambiente”, finaliza o deputado Evair de Melo.

Na mesma linha, o assessor técnico do Cebds, André Ramalho, concorda que a crise hídrica acendeu um alerta de que é necessário trabalhar na proteção das nascentes, córregos e rios, com a recuperação das matas ciliares, combate à erosão, etc. Paralelamente a isso, Ramalho defende o incremento da eficiência produtiva, por meio de equipamentos que façam melhor uso da água e aproveitem a porção que seria descartada. “A maior oscilação dos padrões de seca e chuva deve servir de alerta para que governo e empresas invistam em tecnologias que nos levem não somente à adaptação climática, mas a uma economia de conservação de água”, defende.

Ramalho lembra também que, apesar de o Sudeste do País vivenciar uma situação de chuvas intensas, que ajudaram a reduzir por um período os riscos de escassez hídrica, isso não deve ser visto como um momento para esquecer os anos anteriores e ignorar a gravidade do risco de desabastecimento. “Este é um momento para investirmos e nos preparamos para a próxima seca, pois não temos como seguir a mercê do clima, não nos negócios pelo menos, área em que o pensamento deve ser no longo prazo. Não devemos ignorar o tempo que nos foi dado para nos adaptarmos a uma economia de baixo consumo de água”, finaliza.

Corroborando essa visão, a Abiquim debaterá boas práticas de gestão hídrica e as soluções da indústria química para a mitigação das mudanças climáticas no 16º Congresso de Atuação Responsável, que será realizado em São Paulo nos dias 18 e 19 de outubro de 2016. O evento promoverá debates em torno do Programa Atuação Responsável® – iniciativa voluntária da indústria química mundial, gerida no Brasil pela Abiquim, destinada a demonstrar seu comprometimento com a constante melhoria de seu desempenho em saúde, segurança, meio ambiente e sustentabilidade. Mais informações sobre o Congresso pelo e-mail: [email protected]

Texto: Adriana Nakamura

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