Concreto – Diversificação de materiais torna sistemas construtivos mais leves e limpos

Química e Derivados, Diversificação de materiais torna sistemas construtivos mais leves e limpos

Edificações industrializadas que adotam técnicas inovadoras de associação do concreto ao PVC, polipropileno e outros polímeros emitem menos co2 e ampliam produtividade

Na edição anterior de Química e Derivados (QD-557), foi publicada a primeira de uma série de reportagens sobre as soluções da indústria química para construções civis mais sustentáveis. Como foi demonstrado, as inovações do setor podem promover a melhoria da eficiência energética, reduzindo até 40% do valor da conta de luz. Agora, o foco recai sobre os materiais que aumentam a produtividade das obras, reduzem os resíduos e tornam os sistemas construtivos das edificações mais leves e eficientes.

Pense no material de construção industrializado mais leve que você conheça. Certamente, o concreto não será o primeiro produto a surgir em sua mente. Entretanto, um levantamento do Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação (Norie) mostrou que a grande maioria dos sistemas construtivos aprovados do Sistema Nacional de Avaliações Técnicas (Sinat) – que avalia sistemas inovadores – é lastreada no concreto.

Química e Derivados, A tecnologia BubbleDeck® foi aplicada no prédio do Rabobank, na Holanda
A tecnologia BubbleDeck® foi aplicada no prédio do Rabobank, na Holanda

A industrialização da construção civil evita perdas no canteiro de obras e a utilização de sistemas construtivos mais leves exige menos matérias-primas para estruturar as edificações. De acordo com o relatório “Aspectos da Construção Sustentável no Brasil e Promoção de Políticas Públicas” do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), Ministério do Meio Ambiente (MMA) e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA, em inglês, United Nations Environment Programme – UNEP), de 2014, a indústria de materiais de construção responde por aproximadamente 50% dos recursos naturais extraídos no planeta. Portanto, urge reduzir seu consumo.

A diminuição do peso tem ainda um grande impacto nas operações logísticas. Produtos mais leves significam caminhões mais leves, na realidade da matriz de transportes brasileira, com redução do número de viagens, desgaste dos veículos, consumo de combustível e, logo, as emissões de poluentes. Por que, então, o concreto – pesado até na sonoridade de suas sílabas – ainda é a base dos sistemas construtivos brasileiros?

Para a gerente comercial de construção civil da Braskem, Mônica Evangelista, a resposta é simples: o mercado da construção civil é um dos mais conservadores do país. “Ainda existe muita insegurança, porque as pessoas não conhecem as inovações que a química promove na construção civil”, lamenta. Um dos exemplos de soluções inovadoras que Mônica destaca é o BubbleDeck®, tecnologia usada para lajes, patenteada na Dinamarca e trazida para o Brasil em 2013. A ideia é substituir o “recheio” de uma laje maciça de concreto por esferas ocas de polipropileno (plástico) – produto da indústria química –, distribuídas uniformemente entre grelhas de aço. Trata-se de substituir o concreto, na zona em que ele não desempenha função estrutural, por bolas de plástico cheias de ar. De acordo com a gerente da Braskem, com essa tecnologia, reduz-se até 35% do peso da laje. Para dar uma ideia do que isso significa, de acordo com a fabricante, “uma laje BubbleDeck® de 280 mm de espessura reduz o consumo de 0,09 m³ de concreto por metro quadrado de laje, que corresponde a aproximadamente 216 kg do material. Dessa forma, ao utilizar a tecnologia, pode-se deixar de emitir até 23,5 kg de CO² equivalente por m² de laje”.

Além do peso – que, vale lembrar, determina também a quantidade de pilares necessários para sustentação, ampliando o espaço útil em estacionamentos, por exemplo – o BubbleDeck®, ou “laje com formação de vazios”, apresenta ainda desempenho acima dos padrões exigidos pela norma brasileira de isolamento acústico e térmico (ABNT NBR 15575:2013).

Apesar das vantagens, a tecnologia ainda é pouco difundida no Brasil. Há, hoje, três obras representativas com lajes construídas assim, todas na capital do país: o Centro Administrativo de Brasília, o Edifício Garagem Galeão e um hospital. Na opinião de Mônica, para viabilizar uma obra com essa inovação é preciso avaliar não apenas o custo do metro quadrado construído, mas considerar também a redução de mão de obra, o aumento da produtividade e a diminuição do tempo de construção.

Embora tudo isso ainda seja muito novo no Brasil, a ideia de combinar materiais diferentes nos sistemas construtivos já é bastante difundida em outros países. De acordo com o professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador da área de gestão e economia da construção do Núcleo Orientado para a Inovação da Edificação (Norie), Carlos Torres Formoso, o Japão é um exemplo de modernização da indústria da construção. “Várias empresas fazem casas pré-fabricadas no país e usam um leque enorme de materiais. Esse deveria ser o futuro da construção: materiais que permitem fazer uma construção industrializada, a seco, com pouco consumo de água e com possibilidade de reduzir o consumo energético, porque muitos desses materiais são produzidos em grande escala”, observa o professor. Formoso considera ser um problema a ênfase em sistemas que são muito baseados em concreto. “São sistemas monolíticos, paredes de concreto, lajes de concreto. A alternativa seria a combinação de vários materiais, explorando as vantagens de cada um”, afirma.

Química e Derivados, Le Coie Hotel (UK) conta com lajes leves
Le Coie Hotel (UK) conta com lajes leves

É o que acontece, por exemplo, com as placas cimentícias, produzidas no Brasil, desenvolvidas com a tecnologia CRFS (cimento reforçado com fios sintéticos), sem amianto. Elas são feitas de uma mistura de cimento, agregados naturais e celulose reforçada com fios de polipropileno. Recebem ainda tratamento adicional de impermeabilização por imersão, que confere maior estabilidade dimensional e resistência superficial à abrasão.

Um sistema construtivo já usado no Brasil e destacado como inovador e sustentável pela gerente da Braskem, Mônica Evangelista, é o concreto PVC, no qual é feita uma forma permanente de policloreto de vinila (PVC) – produto da indústria química – que é preenchida com concreto. Mônica explica que a própria forma já serve como acabamento: “você não precisa de azulejo, é fácil de limpar, a casa já sai pronta”. Além disso, a técnica reduz aproximadamente 30% do desperdício, fator importante a se considerar, visto que são gerados aproximadamente 500 kg de resíduos de construção por habitante, por ano, segundo o relatório sobre produção anual de cimento Portland, do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento, de 2010, citado em 2014 no artigo “Estratégias para minimização da emissão de CO2 de concretos”, de autoria de Vanessa Carina Heinrichs Chirico Oliveira, Bruno Luís Damineli, Vahan Agopyan e Vanderley Moacyr John, publicado na revista online da Associação Nacional de Tecnologia no Ambiente Construído (Antac).

Também de PVC são feitos forros, toldos, esquadrias, pisos e telhas mais leves para residências, estabelecimentos comerciais e industriais. Além da redução do peso, o material apresenta resistência química e mecânica, levando a uma maior durabilidade.

Existem ainda pisos constituídos por placas injetadas de polipropileno, que facilitam o escoamento da água e reduzem o custo e o tempo de instalação, e as tecnologias de macro e microfibras de polipropileno para reforço de pisos. O material substitui o aço usado para aumentar a resistência do concreto, na forma de telas ou fibras metálicas. Além de reduzir o peso, diferente do aço, o polipropileno não está sujeito à corrosão, que pode prejudicar o desempenho dos materiais metálicos, principalmente quando mal armazenados antes da instalação.

Essa variada gama de soluções da química para arquitetura e construção civil atende aos mesmos requisitos de segurança dos materiais tradicionais, porém ainda é pouco difundida. Apesar das barreiras financeiras e ideológicas, a gerente da Braskem, Mônica Evangelista acredita que existe um potencial para os sistemas construtivos inovadores se desenvolverem no Brasil. “Mesmo em um mercado conservador, como é o de construção, tendo obras que já usam essas tecnologias, as pessoas começam a ter mais confiança. Precisamos levar a cultura de inovação que se vê no setor automobilístico, por exemplo, para a construção civil, que é muito menos industrializada. Com os sistemas industrializados, pode-se aumentar a produtividade de forma significativa e reduzir mão de obra, que hoje já é escassa para o setor”, aponta.

Química e Derivados, Bolas de PP cheias de ar são colocadas no recheio das lajes, reduzindo seu peso
Bolas de PP cheias de ar são colocadas no recheio das lajes, reduzindo seu peso

Na opinião do professor e coordenador do Norie, Carlos Torres Formoso, embora haja investimento privado na área de materiais, ainda falta investir no desenvolvimento de componentes de sistemas construtivos. Para o professor, isso acontece porque estes têm custo elevado e levam mais tempo para gerar retorno. Por isso, o especialista avalia que é preciso haver uma rede de fomento à inovação em vários estágios do desenvolvimento. “Para fazer um sistema construtivo inovador, é preciso realizar avaliações muito caras, como a de acústica e a de resistência ao fogo. O ideal seria ter um financiamento à pesquisa e, depois, um financiamento para a empresa inovadora, porque inovar é correr riscos. Não existe um organismo que pense a cadeia do fomento, apoiando todas as etapas de desenvolvimento da inovação”, observa. O professor considera ainda que, com a demanda do Programa Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal, deveriam ter surgido muito mais inovações no campo da indústria da construção do que de fato se verificou nos últimos anos.

Adriana Silva Nakamura é jornalista e assessora de comunicação da Abiquim

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