Abiquim 50 anos: Pré-Sal e biodiversidade

Pré-Sal e biodiversidade garantem suprimento das matérias-primas

A indústria química deverá ser o segmento mais brilhante da área industrial do país na próxima década.

Do novo mandato da presidente Dilma Rousseff, que iniciará em 2015, espera-se uma política industrial que dê prioridade a agregar valor aos recursos naturais do país.

Se o petróleo do pré-sal marca a era do setor nesse século, a biodiversidade assumirá o seu lugar no século XXII. Essas ideias forma expostas pelo presidente executivo da Abiquim, Fernando Figueiredo, que está há três anos na entidade.

Nesta entrevista exclusiva, ele também comenta sobre os avanços da indústria química e petroquímica no Brasil nos últimos 50 anos, desde quando a entidade foi criada.

Um novo período de desafios e oportunidades está-se desenhando agora.

Química e Derivados, Fernando Figueiredo da AbiquimQuímica e Derivados – Como era o setor químico brasileiro antes da Abiquim?
Fernando Figueiredo – O setor químico surgiu por volta da década de 1950, junto com a criação da Petrobras e com o esforço do presidente Juscelino Kubitschek em industrializar o país. A década de 1960 foi marcada por uma fase de estruturação. Era uma indústria nascente, mas as multinacionais já estavam no Brasil porque o mercado químico tinha a sua importância. Essas empresas revendiam produtos importados. A produção local começou para valer na segunda metade dos anos 1950 e com a construção dos polos petroquímicos.

QD – Como o sr. vê o papel da Abiquim no desenvolvimento do setor?
F.F. – A Abiquim teve um papel fundamental na construção dos polos petroquímicos. A entidade se reuniu para conversar com o governo federal sobre a criação dos três polos, oferecendo ideias e propostas. O papel da Abiquim foi muito ativo.

QD – Qual é hoje a participação da indústria química no setor industrial total?
F.F. – Está por volta de 10%. É o quarto PIB industrial do país, posição que ocupa desde 2008. No início da década de 1990 foi o maior PIB industrial. Fomos ultrapassados pelo setor automobilístico apenas recentemente. No ano passado, o faturamento líquido setorial foi de US$ 162,3 bilhões, uma expansão de 1,5% em relação ao exercício anterior. Ou de R$ 344,5 bilhões em 2013 (mais 10,7% em relação a 2012).

QD – E a participação em relação ao mundo, de quanto é?
F.F. – Temos hoje a sexta maior indústria química do mundo. O objetivo era ser a 5ª em 2020. Mas, provavelmente, vamos continuar em 6º lugar. Devemos ultrapassar a Coreia do Sul, mas a Índia vai nos ultrapassar. A China está em primeiro lugar no ranking, com um faturamento, em 2012, de US$ 1,4 trilhão. Logo abaixo estão os Estados Unidos, com US$ 769 bilhões.

QD – A Abiquim teve uma atuação muito próxima do governo na definição de políticas setoriais. O sr. acha que o setor perdeu relevância junto ao Poder Executivo?
F.F. – Não perdeu. Pelo contrário. Dentro do Plano Brasil Maior, criado pela presidente Dilma Rousseff, o conselho de competitividade da indústria química e petroquímica foi um dos mais efetivos. Todas as propostas que a indústria apresentou no Conselho se transformaram em realidade, incluindo o estudo de oportunidades de diversificação da indústria química. Esse estudo foi contratado pelo BNDES e realizado pela Bain & Company e pela GasEnergy. O estudo vai ser entregue no dia 26 de novembro, no Rio de Janeiro, na sede do BNDES. Foi uma tarefa de um ano e meio em que foram estudados muitos segmentos da indústria química para identificar oportunidades. A ideia é transformar em políticas públicas as conclusões do estudo. Mas esse já é um trabalho para 2015.

Abiquim 50 anos: Pré-Sal e biodiversidade garantem suprimento das matérias-primas
ABIQUIM

QD – Qual é a importância atual da Abiquim?
F.F. – Como todas as associações de classe, a Abiquim é o meio pelo qual o setor privado se comunica com o governo. A importância da indústria química é que, quando os polos foram construídos, o Brasil não tinha petróleo e nem gás. Se olharmos para o futuro, o Brasil será o quarto ou quinto maior produtor de petróleo do mundo e vai triplicar a produção de gás até 2030. Essas ainda são as duas matérias-primas principais para a petroquímica. Além disso, temos a maior biodiversidade do mundo e esta será a fonte mais importante da química para o século XXII. Temos uma sólida base de minerais para a utilização de produtos químicos – quartzo e terras raras, por exemplo. A Abiquim advoga um plano para agregar valor aos recursos naturais brasileiros dentro do país. Temos que parar de ser exportador de commodities para nos transformarmos em exportadores de produtos químicos industrializados. O déficit na balança comercial, de US$ 32 bilhões, é o maior do setor industrial. Na próxima década o setor químico vai ser o setor industrial mais brilhante do Brasil.

QD – O déficit na balança comercial cresceu muito. Por que?
F.F. – Houve um salto de US$ 1,5 bilhão, em 1991, para os US$ 32 bilhões, no final do ano passado. E por algumas razões. A maior delas é a taxa cambial; o real valorizado competindo com países que mantém a taxa cambial artificialmente desvalorizada. É o caso da Índia e da China, há bastante tempo, e do Japão, desde o ano passado. A segunda razão são os incentivos fiscais concedidos pelos governos brasileiros para importação de produtos. O caso mais absurdo é da importação de intermediários para fertilizantes, que não pagam imposto algum, é alíquota zero. Consequentemente, não se investe no Brasil. Há projetos equivalentes a US$ 13 bilhões que não são realizados por causa desses incentivos fiscais à importação. O contribuinte brasileiro está pagando para gerar empregos no exterior. Também já aconteceu o absurdo dos absurdos, a guerra dos portos: alguns Estados concediam 9% de incentivo para importações. A terceira razão: o custo das matérias-primas e da energia no país não é competitivo internacionalmente. A quarta, como há capacidades ociosas no mercado internacional, como reflexo da crise de 2008-2009, muitos fabricantes vendem ao Brasil com dumping, isto é, vendem a qualquer preço. A quinta razão para o déficit químico é o custo Brasil. Carregamos alta carga tributária, direitos trabalhistas e direitos sociais, itens que outros países não têm. Nessas condições, não temos novos investimentos em algumas áreas.

QD – O que significa a “onda verde” para o desenvolvimento do setor?
F.F. – A minha visão é que este é um setor que vai crescer muito. Por volta de 2050-60, 25% da indústria química será proveniente de bases renováveis. Hoje é de 2% a 3%. Será preciso investir muito em pesquisa e desenvolvimento de produtos. Essa é uma oportunidade fantástica para atrair os jovens. Está tudo para ser feito ainda. O setor vai se beneficiar da onda verde, porque temos a maior biodiversidade do mundo. Esse assunto só não caminhou no Brasil por causa da legislação do acesso à biodiversidade. A legislação é tão restritiva… Mas, agora está para ser aprovada uma nova lei e isso irá deslanchar. As restrições devem diminuir, fundamentalmente. Hoje não se consegue autorização sequer para fazer pesquisa científica nesse campo.

QD – O maior uso de matérias-primas renováveis e a maior produção de petróleo e de gás natural na área do pré-sal podem indicar o surgimento de uma nova era para o setor?
F.F. – Acho que a nova era para o setor, nesse século, no Brasil, é o pré-sal. No século XXII, será o aproveitamento da biodiversidade.

QD – Quais são as metas e os objetivos da entidade em relação ao segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, que começará no dia 1º de janeiro de 2015?
F.F. – Para a indústria química é necessário, em primeiro lugar, uma política industrial que dê prioridade a agregar valor no Brasil aos nossos recursos naturais. Segundo ponto: energia elétrica com preços internacionalmente competitivos. Terceiro: infraestrutura adequada. É complicado, mas fizemos um estudo esse ano para identificar as necessidades logísticas e isso vai ser entregue ao governo. A indústria química sabe do que precisa em matéria de logística. É preciso executar obras, estaduais e federais. Quarto ponto: incentivos fiscais para a pesquisa de químicos à base de matérias- primas renováveis. É importante destacar que a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), está concluindo uma agenda tecnológica para químicos renováveis. É um trabalho incrível. Eles identificaram, com a ajuda de empresas e acadêmicos, as tecnologias que estão sendo desenvolvidas no mundo e as tecnologias que podem dar certo nos próximos 15 anos. E, agora, estão tentando ver qual é a posição do Brasil. Se há gente qualificada, se há laboratórios… Com certeza, essa vai ser uma ajuda fundamental para o empresariado que quiser trabalhar com a química de renováveis.

QD – Como o sr. imagina a indústria química e a Abiquim na próxima década?
F.F. – Vou ficar frustrado se a indústria química não for o setor mais brilhante da indústria brasileira. Temos todas as condições para isso. Temos mercado interno, matérias-primas, empresas multinacionais e nacionais sólidas. Em 2025 será assim. Para a Abiquim, será a continuidade desse papel de interlocutor do governo com a cadeia química. Talvez intensificando mais o diálogo com o Executivo e com o Parlamento, que ganha cada vez mais importância.

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