ABEQ: Sustentáveis ou mortos

– Sustentáveis ou mortos: Olá, leitoras e leitores. Esta é a primeira coluna da Abeq na Química e Derivados em 2024. E, se a esta altura já não cabe mais desejar feliz ano novo, devo agradecer à revista e ao seu público pelo espaço que nos é concedido para discutir a engenharia química e a indústria química.

Nesta coluna, vamos resenhar, com a ajuda da inteligência artificial, três artigos que olham para sustentabilidade como uma necessidade para a nossa sobrevivência como espécie, mas também como uma ferramenta para a sobrevivência da indústria química, no mundo e na América Latina em especial. Vamos também apresentar os cinco congressos científicos apoiados pela Associação Brasileira de Engenharia Química que ocorreram neste 2024.

Sustentáveis ou mortos: Os desafios da sustentabilidade

O artigo Tackling sustainability challenges in Latin America and Caribbean from the chemical engineering perspective: A literature review in the last 25 years (SEGOVIA-HERNÁNDEZ et al., 2022) aborda a posição da indústria química na América Latina como uma opção interessante para a indústria química global no século XXI, devido à disponibilidade de recursos naturais. No entanto, destaca a ineficiência de vários processos e a produção crescente de resíduos na região. Há um crescente interesse em aumentar a eficiência energética e reduzir os resíduos, refletindo-se em áreas relevantes de pesquisa em energia, meio ambiente, aspectos econômicos e segurança inerente, aplicando a engenharia química.

O artigo também destaca o potencial de desenvolver tecnologias industriais que possam fornecer bens, serviços e produtos de forma sustentável, sem prejudicar o meio ambiente e a saúde humana. Além disso, discute os desafios associados ao crescimento industrial, às mudanças climáticas, ao gerenciamento inadequado de recursos hídricos, à queima de combustíveis fósseis, à contaminação de recursos hídricos e à utilização ineficiente de energia na região, enfatizando a importância da pesquisa em tratamento de água, impacto ambiental, captura de dióxido de carbono, economia de energia e outras questões relacionadas à sustentabilidade e à economia circular na América Latina. O artigo destaca ainda esforços para integrar a sustentabilidade na educação em engenharia química na região, visando à formação de profissionais capacitados para promover o desenvolvimento sustentável.

Alguns pontos específicos do artigo:

  • “Desenvolver separações químicas mais econômicas e com baixo consumo de energia, especialmente alternativas eficazes à destilação”.
  • “Compreender melhor os mecanismos de lubrificação, fricção e desgaste de superfícies interagindo entre si (tribologia) – que consome cerca de um terço da energia mundial em uso atual”.
  • Oferecer oportunidades de desenvolvimento profissional para educadores aprenderem mais sobre sustentabilidade e mudanças climáticas e como ele pode ser vantajosamente incorporado em seu ensino e pesquisa, é um dos grandes desafios a serem resolvido nos sistemas educacionais da América Latina e do Caribe. Isso inclui o fornecimento de incentivos para que o corpo docente mude os currículos ao mesmo tempo em que atenda às necessidades dos estudantes de graduação”.

Sustentáveis ou mortos: O esforço da indústria latino-americana

A indústria petroquímica global enfrenta o que alguns descrevem como a pior crise desde 2009. A indústria, intimamente ligada ao crescimento do PIB, sofreu interrupções durante a crise financeira de 2007-2008, mas um subsequente pacote de estímulo da China impulsionou a demanda por petroquímicos, especialmente o polipropileno (PP). No entanto, a atual desaceleração parece carecer de uma solução rápida, com analistas prevendo um ciclo negativo prolongado até 2025.

Química e Derivados - André Bernardo é Engenheiro Químico
André Bernardo é Engenheiro Químico

As correções nos preços petroquímicos já haviam começado em 2019, mas a pandemia de Covid-19 distorceu ainda mais o ciclo, atrasando a construção de plantas petroquímicas e afetando comportamentos de consumo. Agora, à medida que as capacidades na Ásia e nos EUA entram em operação, os problemas de excesso de oferta são exacerbados, agravados pela demanda global enfraquecida.

A China, um importante player na produção e consumo de petroquímicos, está enfrentando uma desaceleração econômica, impactando sua demanda. Isso tem repercutido no mundo todo, mas especialmente na América Latina, que depende fortemente da importação de petroquímicos. Os produtores latino-americanos, enfrentando forte concorrência de produtos asiáticos e americanos, são prejudicados pela escassez de matéria-prima e custos mais elevados.

O ambiente atual oferece poucas opções para a indústria química latino-americana. Com estoques elevados, margens comprometidas e aumento da concorrência, as empresas estão focando em melhorias de produtividade. Soluções digitais estão ganhando destaque para otimizar a produção e reduzir custos. Algumas empresas continuam com os gastos de capital, como a Unipar e a Basf no Brasil, indicando um compromisso com planos de longo prazo apesar das condições de mercado desafiadoras. Nesse contexto, empresas com diferenciais claros e soluções de valor agregado têm melhores chances. Apesar da desaceleração, existem oportunidades em mercados selecionados.

Por isso, a reunião de Sustentabilidade de 2023 da Associação Latino-Americana de Petroquímica e Química (Apla), em Santiago (Chile), foi um evento significativo, destacando uma série de iniciativas e avanços em direção a uma economia verde e circular na região. O evento reuniu representantes de empresas líderes do setor, especialistas em sustentabilidade e parceiros da indústria para compartilhar as últimas práticas e projetos inovadores.

Um dos principais destaques do evento foi o compromisso das empresas em investir em tecnologias e soluções sustentáveis. Por exemplo, a Solvay apresentou seu projeto de química verde, destacando a produção de matérias-primas a partir de fontes renováveis, enquanto a Eastman anunciou o lançamento do Acetato Renew, uma alternativa isenta de BPA para aplicações de embalagens de alimentos e bebidas. Além disso, a Braskem revelou planos para expandir a produção de polietileno a partir de etanol de cana-de-açúcar.

Outro tema importante discutido durante a reunião foi a economia circular e a reciclagem de plásticos. Várias empresas apresentaram iniciativas para promover a reciclagem de plásticos, incluindo a implementação de programas de logística reversa e o desenvolvimento de novas resinas e tecnologias de reciclagem. A Vopak destacou sua contribuição para a transição energética, com foco em infraestrutura para hidrogênio de baixo ou zero carbono, amônia, reciclagem de plásticos, CO2 e armazenamento de energia de longa duração.

Além disso, a reunião abordou questões regulatórias e políticas relacionadas à sustentabilidade, enfatizando a importância da colaboração entre empresas, governos e organizações não governamentais para impulsionar a transição para uma economia mais sustentável. A ênfase na inovação e no desenvolvimento de parcerias estratégicas foi evidente em todas as apresentações, demonstrando o compromisso contínuo do setor com práticas sustentáveis e responsáveis.

No geral, a reunião de sustentabilidade de 2023 da Apla proporcionou uma visão abrangente das iniciativas e progressos mais recentes em direção a uma economia verde e circular na América Latina. As empresas participantes demonstraram um forte compromisso com a sustentabilidade e apresentaram uma ampla gama de projetos inovadores e soluções tecnológicas para impulsionar a transição para práticas mais sustentáveis na indústria de petroquímica e química da região.

Sustentáveis ou mortos: Engenheiros químicos do futuro

O artigo Rethinking chemical engineering education (GONG et al., 2024) aborda a necessidade de reformular o currículo de engenharia química para abranger as recentes mudanças tecnológicas e industriais. Quase todos os autores mencionam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) como parâmetros de reorientação.

Jinlong Gong destaca a necessidade de adaptar o currículo para incluir temas interdisciplinares, como energia sustentável e tecnologias emergentes, e promover a integração de tecnologias digitais e de dados. Na mesma linha, Yan Jiao destaca a importância de integrar a sustentabilidade ao currículo, incluindo novos cursos que reflitam os avanços industriais e práticas sustentáveis.

ABEQ: Sustentáveis ou mortos ©QD Foto: iStockPhoto

David Shallcross enfatiza a importância da adoção de tecnologias digitais e sustentáveis na indústria, bem como a necessidade de repensar os métodos de ensino para incluir mais sessões práticas de resolução de problemas. De modo similar ou complementar, Richard Davis destaca a necessidade de integrar modelagem, simulações e análise de dados em todo o currículo, enfatizando a importância de preparar os alunos para lidar com a complexidade interdisciplinar e os avanços tecnológicos da indústria.

Venkat Venkatasubramanian propõe a inclusão de inteligência artificial no currículo de engenharia química, destacando a importância de ensinar inteligência artificial (IA) como um curso independente, além de integrar princípios de engenharia e conhecimentos de IA em diferentes níveis de dificuldade.

Por último, Christopher Arges destaca a crescente importância da engenharia eletroquímica e propõe a inclusão de tópicos relacionados à eletroquímica para além de corrosão, lixiviação e baterias nos cursos fundamentais de engenharia química, bem como em projetos práticos.

Em resumo, os autores enfatizam a necessidade de atualizar o currículo de engenharia química para refletir as mudanças tecnológicas, industriais e sustentáveis, integrando tópicos interdisciplinares, tecnologias digitais, análise de dados e eletroquímica.

Ainda sobre inteligência artificial

Boa parte do texto desta coluna foi escrita por com uso intenso de ferramentas de IA. Especificamente, o Chatpdf (https://www.popai.pro) resumiu os artigos, o ChatGPT resumiu trechos específicos e o Google tradutor me ajudou com termos específicos. Em 2024, e cada vez mais, ferramentas de IA estendem o alcance do nosso raciocínio. Não me parece que as escolas, do ensino fundamental à graduação estejam sabendo lidar com isso.

Abeq – nossos congressos em 2024

Em 2024, a Abeq organiza ou apoia cinco congressos científicos de grande importância. Em ordem cronológica:

  • International Conference on Inorganic Membranes ICIM 2024 – Florianópolis 01-05/07 – https://icim2024.org/17icim
  • XV Congresso Brasileiro de Engenharia Química em Iniciação Científica – COBEQ-IC 2024 – Seropédica 22-25/07 – https://eventos.galoa.com.br/cobeq-ic-2024/page/3870-home
  • III Congresso Brasileiro em Engenharia de Sistemas em Processos PSE 2024 – São Paulo 29-31/07 – https://sites.usp.br/psebr24/
  • I Congresso Brasileiro de Biotecnologia Industrial COBBIND 2024 (ex-Sinaferm) – Florianópolis 25-28/08 – https://cobbind.com.br/cobbind2024
  • CIPOA – VI Iberoamerican Conference on Advanced Oxidation Technologies – Florianópolis 07-11/10 – https://cipoa.org/

Nas nossas próximas colunas, apresentaremos mais detalhes de cada um deles.

Referências

GONG, J. et al. Rethinking chemical engineering education. Nature Chemical Engineering, v. 1, n. 2, p. 127–133, fev. 2024.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável | As Nações Unidas no Brasil. Disponível em: <https://brasil.un.org/pt-br/sdgs>. Acesso em: 1 mar. 2024.

Latin America Petrochemicals and Chemicals 2023. Acessado em 01 de março de 2024. Disponível em: https://www.gbreports.com/files/pdf/_2023/APLA-2023-web-medres.pdf

SEGOVIA-HERNÁNDEZ, J. G. et al. Tackling sustainability challenges in Latin America and Caribbean from the chemical engineering perspective: A literature review in the last 25 years. Chemical Engineering Research and Design, v. 188, p. 483–527, 1 dez. 2022.

O AUTOR

André Bernardo é Engenheiro Químico formado na Escola Politécnica da USP, com mestrado em Desenvolvimento de Processos Biotecnológicos pela Faculdade de Engenharia Química da Unicamp e Doutorado em Engenharia Química pela UFSCar. Trabalhou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e em diferentes indústrias químicas. Atualmente é professor do departamento de Engenharia Química da UFSCar. contato: [email protected]

Química e Derivados -

ABEQ

A Associação Brasileira de Engenharia Química (ABEQ) é uma entidade sem fins lucrativos que congrega profissionais e empresas interessadas no desenvolvimento da Engenharia Química no Brasil. É filiada à Confederação Interamericana de Engenharia Química. Seu Conselho Superior, Diretoria e Diretoria das Seções Regionais são eleitos pelos associados a cada dois anos.
Mais informações: https://www.abeq.org.br/

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